(Comentário do 2º tópico da Lição 2: O Deus Pai)
No segundo tópico, veremos que o Pai foi revelado em Cristo. Inicialmente, observaremos que o Pai se revela aos humildes. Analisaremos a declaração de exaltação feita por Jesus em Mateus 11.25, quando disse: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequeninos.” Essa afirmação evidencia que a revelação divina não depende do saber humano ou da sabedoria meramente intelectual, mas de um coração humilde e disposto a receber a verdade de Deus.
Na sequência, veremos que o Pai se faz conhecer por meio do Filho, conforme a declaração de Jesus: “Ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11.27). Deus é um Ser transcendente, isto é, está infinitamente além da plena compreensão humana. Por essa razão, Ele só pode ser verdadeiramente conhecido mediante a revelação que ocorre em Cristo. O Filho é o único mediador entre Deus e os homens (cf. 1Tm 2.5) e o único plenamente capacitado para revelar a natureza, a vontade e o amor do Pai.
Por fim, veremos que quem vê o Filho, vê o Pai, com base no diálogo entre Jesus e Filipe. Diante do pedido do discípulo — “Senhor, mostra-nos o Pai, o que nos basta” — Jesus respondeu: “Quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.8,9). Essa declaração revela a unidade perfeita entre as Pessoas da Santíssima Trindade e afirma que Jesus Cristo é a expressão exata e visível do Pai. Assim, conhecer a Cristo é conhecer o próprio Deus, conforme Ele se revelou de forma plena e definitiva.
1. O Pai se revela aos humildes. No contexto de Mateus 11.25–27, Jesus enfrentava rejeição e resistência por parte dos líderes religiosos de Israel. João Batista havia sido preso e enviou dois de seus discípulos a Jesus para perguntar se Ele era o que havia de vir ou se deveriam esperar outro. Jesus respondeu, orientando-os a anunciar a João que os cegos viam, os coxos andavam, os leprosos eram purificados, os surdos ouviam, os mortos ressuscitavam e o evangelho estava sendo anunciado aos pobres.
Em seguida, Jesus interrogou a multidão acerca da identidade de João Batista e afirmou que ele era mais do que um profeta. Declarou ainda que, entre os nascidos de mulher, não surgira ninguém maior do que João; contudo, o menor no Reino dos Céus é maior do que ele. Jesus explicou que João cumpriu a profecia de Malaquias, que diz:
“Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível Dia do Senhor” (Ml 4.5).
Depois disso, Jesus censurou a incredulidade daquela geração, pois rejeitaram a pregação de João Batista, que vivia de modo austero, abstendo-se de determinados alimentos e bebidas, e diziam que ele tinha demônio. Por outro lado, quando veio Jesus, que não seguia tais restrições, acusaram-no de ser comilão, beberrão e amigo de pecadores.
Jesus também pronunciou juízo contra as cidades de Corazim, Betsaida e Cafarnaum, porque presenciaram muitos milagres e não se arrependeram. Segundo Ele, se em Tiro, Sidom e Sodoma tivessem ocorrido tais milagres, há muito teriam se convertido.
Finalmente, Jesus dirigiu-se ao Pai em oração, dizendo:
“Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11.25).
Nessa declaração, Jesus mencionou dois grupos de pessoas aos quais Deus não se revelou:
a) Os sábios (gr. sophós): Pessoas que se consideram intelectualmente superiores e julgavam-se demasiadamente inteligentes para crer em Deus.
b) Os instruídos (gr. synetós): Indivíduos com elevada formação intelectual que entendiam a fé em Deus como algo próprio dos ignorantes.
Esses dois grupos se enquadram perfeitamente nos fariseus e escribas, que eram soberbos e se julgavam superiores ao povo. Eles afirmavam que apenas os que desconheciam a Lei davam crédito às palavras de Jesus. Não perceberam, porém, que o próprio Deus lhes ocultara a verdade em razão de sua soberba e prepotência, pois “Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes”.
Em contraste, Jesus afirmou que o Pai revelou a Sua doutrina aos “pequeninos” (gr. népios). Literalmente, o termo grego népios refere-se a um bebê que ainda não sabe falar. No texto, porém, é empregado em sentido figurado para indicar pessoas simples, humildes e dependentes de Deus.
Evidentemente, Jesus não ensina que Deus se revela apenas aos pobres ou aos analfabetos. O próprio Senhor teve entre seus seguidores pessoas ricas e instruídas, como Lázaro, José de Arimateia, Zaqueu, Nicodemos, Barnabé e o apóstolo Paulo. A questão não está relacionada à condição social ou ao nível de instrução, mas à postura do coração. Deus se revela àqueles que reconhecem sua própria insignificância e se humilham diante dEle.
Por isso, Jesus conclui essa seção declarando:
“Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração” (Mt 11.29).
2. O Pai se faz conhecer pelo Filho. No texto de Mateus 11.27, Jesus declarou:
“Todas as coisas me foram entregues por meu Pai, e ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.”
Deus é transcendente, imensurável e altíssimo; como tal, está infinitamente acima da capacidade humana de compreensão. Sendo assim, nenhum ser humano é capaz de conhecer a Deus por si mesmo. Entretanto, Deus é um Ser pessoal e relacional que se revela. Ele deseja ser conhecido, ainda que não plenamente, pois nenhuma criatura é capaz de conhecê-lo em sua totalidade.
É nesse sentido que Jesus afirma que ninguém conhece o Pai senão o Filho, e ninguém conhece o Filho senão o Pai. Evidentemente, o Espírito Santo, que é Deus, também conhece plenamente o Pai e o Filho. Contudo, nesse momento do ministério terreno de Jesus, a revelação acerca do Espírito Santo ainda não havia sido plenamente apresentada. Essa revelação seria dada de forma mais clara aos discípulos pouco antes de sua ascensão (Jo 14–16).
Deus revelou-se à humanidade de duas maneiras distintas: a revelação geral e a revelação especial.
a) Revelação geral. A revelação geral é aquela pela qual Deus se manifesta a toda a humanidade por meio das coisas criadas, que proclamam a sua glória e o seu poder (Sl 19.1–4; Rm 1.19,20). Por meio dessa revelação, Deus torna todos os seres humanos indesculpáveis diante dEle.
Deus também se revela por meio da consciência humana, implantada em cada pessoa, capacitando-a a discernir, ainda que de forma limitada, entre o bem e o mal. Todavia, conforme estudado anteriormente, a consciência humana foi corrompida pelo pecado e, por isso, não é plenamente confiável. Uma pessoa não regenerada pode praticar o pecado sem sentir acusação em sua consciência, pois esta encontra-se afetada pela natureza pecaminosa.
b) Revelação especial. A revelação especial é a manifestação específica de Deus que torna possível um relacionamento pessoal e redentor com Ele. Inicialmente, Deus revelou-se de maneira especial aos profetas e aos escritores das Escrituras Sagradas, que, inspirados pelo Espírito Santo, transmitiram às gerações futuras a Palavra de Deus.
Deus revelou-se de forma suprema e definitiva na encarnação do Filho. O Verbo se fez carne, assumiu a natureza humana e tornou-se o único mediador entre Deus e os seres humanos (1Tm 2.5), revelando de maneira perfeita o caráter e a vontade do Pai.
Por fim, Deus se revela por meio do Espírito Santo, que é Deus, e atua iluminando a mente humana para o conhecimento da verdade e conduzindo o pecador ao arrependimento e à conversão. Sem a ação eficaz do Espírito Santo, é impossível que alguém se converta, mesmo tendo acesso à revelação geral, à consciência moral ou até mesmo ao conhecimento histórico sobre Jesus, como ocorreu com muitos judeus nos dias do seu ministério terreno.
3. Quem vê o Filho vê o Pai. Durante o seu ministério terreno, Jesus falou continuamente a respeito do Pai, afirmando que fora por Ele enviado ao mundo e que cumpria fielmente as Suas determinações. Contudo, aqueles que o ouviam não compreendiam de quem Ele falava.
No discurso acerca de sua missão, registrado no Evangelho de João, Jesus declarou:
“Eu sou o que testifico de mim mesmo, e de mim testifica também o Pai, que me enviou” (Jo 8.18).
Diante disso, os judeus o questionaram:
— Onde está teu pai?
Jesus respondeu:
“Não me conheceis a mim, nem a meu Pai; se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai” (Jo 8.19).
Essa incompreensão não se restringia aos líderes judeus. Até mesmo os discípulos demonstravam dificuldade em entender de quem Jesus falava quando mencionava o Pai. No discurso conhecido como As últimas instruções de Jesus aos seus discípulos, Ele afirmou:
“Se vós me conhecêsseis a mim, também conheceríeis a meu Pai; e já desde agora o conheceis e o tendes visto” (Jo 14.7).
Visto que nunca haviam contemplado a pessoa do Pai e não compreendiam plenamente o significado dessas palavras, Filipe lhe disse:
— Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta (Jo 14.8).
Jesus respondeu:
“Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês tu que eu estou no Pai e que o Pai está em mim?” (Jo 14.9,10).
Com essa afirmação, Jesus não ensina que Ele e o Pai sejam a mesma pessoa, conforme propõe o unicismo. O que Ele revela é que o Pai e o Filho compartilham da mesma natureza divina. O caráter, as obras e as palavras de Jesus refletem perfeitamente o Pai, pois ambos são o mesmo Deus em essência, embora sejam pessoas distintas.
É nesse sentido que Jesus afirma que quem vê o Filho, vê o Pai. Conhecer o Filho é conhecer o Pai; rejeitar o Filho é rejeitar a revelação máxima de Deus, pois o Filho é a expressão exata do Pai.
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