(Comentário do 3⁰ tópico da Lição 2: Deus, o Pai)
No terceiro tópico, trataremos da Pessoa de Deus, o Pai, considerando especialmente os atributos pelos quais Ele se revela nas Escrituras. Esses atributos nos ajudam a compreender quem Deus é em Sua essência e como Ele se relaciona com a Sua criação.
Inicialmente, abordaremos os atributos incomunicáveis do Pai, isto é, aquelas qualidades exclusivas da divindade, que não podem ser compartilhadas com nenhuma criatura. Entre esses atributos estão a eternidade, a imutabilidade, a onipotência, a onisciência, a onipresença e a autoexistência.
Na sequência, estudaremos os atributos comunicáveis do Pai, que são qualidades divinas relacionadas ao aspecto moral e relacional do Criador, como o amor, a bondade, a justiça, a misericórdia, a santidade e a fidelidade.
Por fim, trataremos dos nomes que revelam o Pai. Nomes hebraicos como El Shadday, Adonai, YHWH, El Shaddai, e o grego Kyrios, revelam verdades profundas acerca de quem Deus é e de como Ele se relaciona com o Seu povo. Importante destacar que estes nomes e títulos revelam o Deus Trino e não apenas o Pai.
1. Atributos incomunicáveis do Pai. Atributos são qualidades, particularidades, traços e características que descrevem uma pessoa, organização ou localidade. No caso de Deus, a teologia bíblica reconhece dois tipos de atributos: os incomunicáveis e os comunicáveis.
Os atributos incomunicáveis são aqueles que pertencem exclusivamente a Deus e não podem ser compartilhados com nenhuma criatura. Já os atributos comunicáveis são qualidades divinas que, embora pertençam plenamente a Deus, são comunicadas aos seres humanos de forma limitada e imperfeita.
Os atributos incomunicáveis revelam a absoluta singularidade de Deus e demonstram que Ele é infinito, soberano e plenamente suficiente em Si mesmo. Nenhuma criatura possui tais atributos, nem mesmo os seres espirituais. É importante destacar que esses atributos pertencem ao Deus Triúno — Pai, Filho e Espírito Santo — e não exclusivamente à Pessoa do Pai.
a) Autoexistência (Asseidade). Deus não foi criado e existe por Si mesmo. Ele é absolutamente autossuficiente, não dependendo de nada nem de ninguém fora de Si para existir ou subsistir.
b) Eternidade. Deus nunca teve princípio e jamais terá fim. Nunca houve um tempo em que Deus não existisse. Ele é eterno, existindo acima do tempo e não sujeito às suas limitações.
c) Onipotência. A palavra onipotência deriva dos termos latinos omni (todo) e potens (poderoso). Deus é onipotente porque todo poder e autoridade pertencem a Ele. Não existe, nem jamais existirá, poder algum capaz de subjugá-Lo. Para Deus, nada é impossível.
d) Onisciência. O termo onisciência resulta da junção de omni (todo) e scientia (conhecimento). Deus conhece plenamente todas as coisas, visíveis e invisíveis, passadas, presentes e futuras, em todos os lugares do universo.
e) Onipresença. A palavra onipresença deriva dos termos latinos omni (todo) e praesentia (presença). Significa que Deus está presente em todos os lugares ao mesmo tempo. Esse atributo não deve ser confundido com o panteísmo, que ensina que Deus é tudo e tudo é Deus. A onipresença afirma que Deus está em toda parte, sem se confundir com a criação.
f) Unicidade. Deus é único, exclusivo e incomparável em Sua essência, natureza e atributos. Não há outro Deus além d’Ele, nem alguém semelhante a Ele.
g) Imutabilidade. Deus não muda em Sua natureza, essência ou caráter. Ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente. Por isso, o verbo ser, quando aplicado a Deus, é expresso no presente eterno: EU SOU.
h) Soberania. Deus governa soberanamente sobre toda a criação, estabelece Suas próprias leis e executa Seus desígnios sem impedimento. Contudo, em Sua soberania, Ele concedeu ao ser humano o livre-arbítrio, permitindo-lhe fazer escolhas reais, pelas quais é responsável e que produzem consequências.
2. Atributos comunicáveis do Pai. Os atributos comunicáveis de Deus são aqueles que Ele compartilha com o ser humano de forma limitada, uma vez que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26). Contudo, essas qualidades jamais se manifestam de maneira plena no ser humano, em razão de sua condição de imperfeição e da realidade do pecado, sendo reveladas em sua plenitude somente em Deus.
Dentre os atributos comunicáveis de Deus, destacam-se os seguintes:
a) Amor. O amor faz parte da própria natureza de Deus (1 Jo 4.8). Ele concedeu ao ser humano a capacidade de amar a Deus e ao próximo. Entretanto, nenhum ser humano jamais conseguirá amar com a mesma intensidade, pureza e perfeição com que Deus ama, conforme demonstrado na entrega de Seu Filho unigênito (Jo 3.16).
b) Santidade. Deus é absolutamente santo e puro (Is 6.3). Ele jamais comete erro ou pratica qualquer ato imoral. Contudo, Deus comunica Sua santidade, de forma limitada, ao Seu povo e exige que sejamos santos em toda a nossa maneira de viver. Ainda assim, nenhum ser humano consegue ser santo por si mesmo, pois é o próprio Deus quem nos santifica (1 Pe 1.15,16).
c) Justiça. Deus é absolutamente justo em tudo o que faz (Dt 32.4). Ele sempre age com retidão e jamais comete qualquer injustiça. Esse atributo também é comunicado aos Seus servos, que são chamados a viver e praticar a justiça em suas relações e atitudes.
d) Misericórdia. Deus é misericordioso em Sua essência e manifesta Sua compaixão e bondade para com os seres humanos. A misericórdia do Senhor é a razão de não sermos consumidos (Lm 3.22). Deus também compartilha conosco Seu caráter misericordioso e exige que sejamos misericordiosos para com o nosso próximo.
e) Bondade. Deus é bom em Sua essência (Sl 100.5) e jamais pratica o mal. A bondade é uma das virtudes produzidas pelo Espírito Santo na vida do crente (Gl 5.22). Entretanto, nenhum ser humano jamais alcançará o nível de bondade que há em Deus.
f) Verdade. Deus é o Deus da verdade (Sl 31.5). Ele é absolutamente verdadeiro em tudo o que faz e fala. Em Deus não há mentira, engano ou fingimento. Ele exige que os Seus servos vivam na verdade e rejeitem a mentira (Ef 4.25).
g) Fidelidade. Deus é fiel a Si mesmo e à Sua Palavra. Ele jamais falha em Suas promessas e alianças (Nm 23.19). Ainda que o ser humano seja infiel, Deus permanece fiel, pois não pode negar-Se a Si mesmo (2 Tm 2.13). Do mesmo modo, Ele exige fidelidade do Seu povo (Ap 2.10).
3. Os nomes que revelam o Pai. Diferentemente da compreensão comum da cultura ocidental, na qual os nomes frequentemente servem apenas como identificação pessoal, na Bíblia os nomes de Deus expressam aspectos do seu caráter, da sua natureza e da sua atuação.
O comentarista mencionou aqui alguns nomes de Deus, em hebraico, que revelam a sua natureza, as suas obras e as suas virtudes:
a) Elohim (Gn 1.1). O título Elohim é o plural de Elohah. Esse nome revela Deus como o Criador de todas as coisas. O uso do plural, conforme visto na lição anterior, aponta para a unidade composta de Deus.
b) El Shaddai (Gn 17.1). Esse nome revela a onipotência de Deus. Foi com esse título que Deus se revelou aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó, destacando o seu poder absoluto e a sua suficiência.
c) Adonai (Sl 8.1). Significa “Senhor” e revela a autoridade e o domínio de Deus. O seu correspondente grego é Kyrios (At 2.36), termo que, no Novo Testamento, é aplicado a Jesus, afirmando a sua divindade e senhorio.
d) YHWH. Conhecido como o Tetragrama, é formado pelas consoantes hebraicas Yod, Hê, Vav e Hê. É o nome pelo qual Deus se revelou a Moisés e indica a sua eternidade, imutabilidade e fidelidade: “EU SOU O QUE SOU” (Êx 3.14; 6.3). Esse nome é considerado sagrado pelos judeus e, para evitar o risco de usá-lo em vão, deixou de ser pronunciado, perdendo-se, assim, a sua pronúncia exata.
Posteriormente, os massoretas acrescentaram vogais ao Tetragrama, resultando na forma Yahweh, transliterada para o português como Javé. Por volta de 1270 d.C., teólogos medievais combinaram as consoantes do Tetragrama com as vogais do nome Adonai, originando a forma Yehowah, que deu origem ao termo Jeová em português.
O Tetragrama hebraico também é utilizado em nomes compostos para revelar atributos e ações de Deus, tais como:
- Yahweh Yirê (O SENHOR proverá); Yahweh Rafá (O SENHOR que sara);
- Yahweh Shalom (O SENHOR é Paz);
- Yahweh Tsidkenu (O SENHOR é a nossa Justiça);
- Yahweh Raah (O SENHOR é o meu Pastor), entre outros.
Ev. WELIANO PIRES
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