(Comentário do 1⁰ tópico da Lição 10: Espírito Santo – o capacitador)
No primeiro tópico, falaremos a respeito da promessa do derramamento do Espírito Santo, feita pelo profeta Joel. Inicialmente, veremos que a abrangência dessa promessa é de caráter universal: “sobre toda a carne”. Entretanto, isso não se refere a todos os seres humanos, mas apenas aos que invocam o Nome do Senhor.
Na sequência, veremos que essa promessa consiste em ações sobrenaturais, como profecias, visões e sonhos. Essas manifestações servem para a edificação espiritual do povo de Deus.
Por fim, veremos que essa promessa foi dada para um tempo específico, denominado na Bíblia de “últimos dias”. Esse período inicia-se após a ressurreição de Jesus e estende-se até o arrebatamento da Igreja.
1. Uma promessa de abrangência universal.
O Espírito Santo é Deus e é eterno, conforme já vimos em lições anteriores. Ele sempre atuou ao longo da história: na criação e na sustentação de todas as coisas; na inspiração dos escritores da Bíblia; na instrução do povo de Israel; na inspiração de profetas e salmistas etc.
Entretanto, a ação do Espírito Santo, antes da ressurreição de Jesus, era diferente da que ocorre na Nova Aliança. No Antigo Pacto, o Espírito Santo escolhia e capacitava algumas pessoas para realizarem obras específicas, em determinado período.
O Espírito Santo capacitou Bezalel e Aoliabe para a construção do Tabernáculo (Êx 31.2,3). Capacitou também Gideão (Jz 6.34), Jefté (Jz 11.29), Sansão (Jz 13.25) e outros juízes, para libertarem o povo de Israel do domínio dos inimigos. Além disso, escolheu líderes do povo, como reis, sacerdotes e profetas.
Os profetas Isaías (Is 11.1-4; 42.1; 61.1-3), Ezequiel (Ez 36.26,27) e Joel (Jl 2.28,29) profetizaram que Deus derramaria o seu Espírito sobre todos, e não apenas sobre algumas pessoas específicas. Há, no entanto, diferenças entre essas profecias; elas não se referem ao mesmo evento.
A profecia de Isaías é uma referência à ação do Espírito Santo no ministério de Jesus. O profeta anunciou a vinda do Messias e declarou que o Espírito do Senhor estaria sobre Ele. Jesus leu o texto de Isaías 61 e aplicou-o a si mesmo, dizendo: “Hoje se cumpriu esta Escritura em vossos ouvidos” (Lc 4.21).
O profeta Ezequiel, por sua vez, profetizou que Deus colocaria o seu Espírito dentro do seu povo (Ez 36.26,27). Ezequiel fala de transformação interior, mudança de vida e atuação do Espírito Santo no coração do homem. Trata-se de uma referência ao novo nascimento, operado pelo Espírito Santo no interior do crente.
Já o profeta Joel falou sobre o derramamento do Espírito Santo, referindo-se à capacitação sobrenatural concedida para a realização da Obra de Deus (Jl 2.28,29). Essa profecia foi interpretada pelo apóstolo Pedro como o cumprimento da descida do Espírito Santo no Dia de Pentecostes.
2. Uma promessa com ação sobrenatural.
A profecia de Joel anuncia manifestações visíveis e sobrenaturais, como profecias, visões e sonhos, no derramamento do Espírito Santo. Essas manifestações revelam o poder de Deus operando no meio do seu povo.
As profecias mencionadas nesse texto distinguem-se do ofício profético do Antigo Testamento, no qual o profeta era instrumento da revelação divina, transmitindo a própria Palavra de Deus de forma inspirada e autorizada. Deus lhes revelava sua mensagem por meio de sonhos, visões e outras formas de comunicação sobrenatural.
O profeta do Antigo Testamento era porta-voz de Deus, incumbido de entregar fielmente a mensagem divina, onde, quando e a quem o Senhor determinasse. Esse ministério profético, como canal da revelação canônica, teve seu cumprimento em Cristo e encerrou-se nesse aspecto com João Batista, o último profeta daquela dispensação.
No Novo Testamento, a profecia, como dom espiritual, não possui caráter canônico nem estabelece nova doutrina para a Igreja. A doutrina da Igreja está fundamentada nas Sagradas Escrituras, que são a completa e suficiente revelação de Deus para a fé e a prática cristã. A manifestação do dom de profecia tem como finalidade a edificação, exortação e consolação, conforme o ensino apostólico.
Da mesma forma, visões e sonhos continuam sendo meios pelos quais Deus pode revelar sua vontade e direcionamento aos seus servos, trazendo orientação, conforto e edificação à Igreja, sempre em harmonia com a Palavra de Deus. O livro de Atos registra que os apóstolos Pedro e Paulo receberam revelações dessa natureza (At 10.9-16; 16.9).
Essas não são as únicas manifestações sobrenaturais decorrentes do derramamento do Espírito Santo. No Novo Testamento, especialmente no contexto da Igreja Primitiva, observam-se diversas manifestações espirituais concedidas pelo Espírito para o fortalecimento do Corpo de Cristo.
No Dia de Pentecostes, quando essa promessa teve seu cumprimento inaugural, manifestaram-se sinais sobrenaturais: um som como de um vento veemente e impetuoso, línguas repartidas como de fogo que pousaram sobre os discípulos, e todos passaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem.
Posteriormente, o apóstolo Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, ensinou acerca das diversas manifestações espirituais concedidas à Igreja para a edificação, exortação e consolação dos crentes. Esses dons também não devem ser confundidos com o ministério profético do Antigo Testamento, nem possuem a finalidade de estabelecer doutrina, pois esta já se encontra plenamente revelada nas Escrituras Sagradas.
3. Uma promessa para os últimos dias.
A profecia de Joel aponta para o derramamento do Espírito em um tempo específico: “Naqueles dias, derramarei o meu Espírito” (Jl 2.29b). A palavra hebraica traduzida por “naqueles dias” é yom, que pode se referir a um dia literal, a um ano ou a um período de tempo.
Ao mencionar essa mesma profecia, Pedro usou a expressão grega eschatais hēmerais, traduzida por “últimos dias”. Refere-se ao período compreendido entre a ressurreição de Jesus e o arrebatamento da Igreja.
Não é uma referência exclusiva ao acontecimento do Dia de Pentecostes nem aos dias que antecedem a vinda de Jesus, como alguns imaginam. “Últimos dias” é uma referência à chamada Dispensação do Espírito, ou Dispensação da Graça, que corresponde ao último período da história da humanidade antes do arrebatamento da Igreja.
Essa promessa não se limitou aos dias apostólicos, como erroneamente interpretam os cessacionistas. Sobre isso, o apóstolo Pedro declarou: “A promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos e a todos os que estão longe, a tantos quantos Deus, nosso Senhor, chamar” (At 2.39).
Ev. WELIANO PIRES