(Comentário do 1º tópico da lição 3: O pai enviou o Filho).
Neste primeiro tópico, trataremos do envio do Filho pelo Pai como a mais profunda demonstração do Seu amor. Inicialmente, abordaremos o amor incondicional, gracioso e sacrificial do Pai, que, em Sua misericórdia, foi capaz de enviar o Seu Filho para um mundo rebelde e pecador, totalmente indigno de tal amor.
Na sequência, destacaremos a iniciativa soberana de Deus, estabelecida na eternidade, de enviar o Seu Filho como o Salvador da humanidade. Essa iniciativa antecede qualquer ação humana e é fruto exclusivo da graça, da bondade e da misericórdia divinas, revelando o propósito redentor de Deus em favor do ser humano.
Por fim, afirmamos que o envio do Filho não implica, de forma alguma, hierarquia ontológica entre as Pessoas da Santíssima Trindade, pois o Pai, o Filho e o Espírito Santo compartilham a mesma natureza e essência divina. A submissão do Filho ao Pai deve ser compreendida como voluntária e funcional, relacionada ao plano da redenção, não significando inferioridade em Sua divindade
1. O amor incondicional do Pai. Na conversa com Nicodemos, registrada no capítulo 3 do Evangelho segundo João, Jesus declarou no versículo 16:
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”
O verbo grego traduzido por “amou” nesse texto é agapáō, cujo substantivo correspondente é a conhecida palavra ágape. Esse termo expressa a ideia de uma benevolência firme e deliberada, uma boa vontade voltada ao bem do outro, independentemente de afinidade pessoal ou de qualquer expectativa de retribuição.
Esse tipo de amor, conforme visto na lição anterior, é um atributo comunicável de Deus, isto é, uma qualidade moral que Ele compartilha com suas criaturas em certa medida. Contudo, ninguém jamais conseguirá amar da mesma forma e na mesma intensidade com que Deus ama.
O amor de Deus pela humanidade é incondicional, pois Ele amou pecadores que não mereciam ser amados e que não tinham como retribuir tal amor. Portanto, esse amor não foi motivado por qualquer mérito humano. Deus não viu “algo de bom” no ser humano para então decidir amá-lo, mas amou por iniciativa própria, segundo a sua graça.
O apóstolo Paulo escreveu aos Romanos:
“Mas Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Rm 5.8)
Diferente do que ensina o calvinismo, a Bíblia afirma que Deus amou todos os seres humanos e deseja salvar a todos. O texto de João 3.16 é claro ao declarar que Deus amou “o mundo”, e não apenas um grupo seleto de eleitos. Essa verdade é confirmada por outras passagens das Escrituras. Paulo afirma:
“Porque isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” (1Tm 2.3–4)
Da mesma forma, o apóstolo Pedro escreve:
“O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a tenham por tardia; mas é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.” (2Pe 3.9)
Esses textos deixam claro que o desejo salvífico de Deus é universal. Por seu amor infinito e incondicional, Deus entregou o seu Filho para possibilitar a salvação de toda a humanidade, e não apenas de um grupo restrito:
“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” (1Jo 2.2)
Entretanto, ao contrário do que ensina o universalismo, nem todos serão salvos. A salvação é oferecida a todos, mas somente se torna eficaz na vida daqueles que creem em Jesus e o recebem como Senhor e Salvador. O próprio Cristo afirmou que a fé é o critério decisivo:
“Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.” (Mc 16.16)
Assim, a Bíblia mantém em perfeito equilíbrio duas verdades fundamentais: Deus ama a todos e deseja salvar a todos, mas nem todos serão salvos, pois a salvação é condicionada à resposta humana de fé em Cristo.
2. A iniciativa soberana de Deus. Deus criou o primeiro casal e sabia que eles iriam pecar, pois Ele é presciente, ou seja, conhece todas as coisas antecipadamente. Antes mesmo de o pecado entrar no mundo, Deus já havia estabelecido um plano de salvação por meio do envio do Filho. Assim, Deus não foi pego de surpresa com a queda do primeiro casal, e o plano de salvação não é um “plano B” nem um remendo ao plano original, mas faz parte do seu propósito eterno.
A iniciativa de salvar a humanidade pecadora partiu de Deus, pois Ele já havia elaborado o plano de salvação na eternidade passada, antes da criação do universo. Falando sobre a manifestação do amor de Deus para conosco, o apóstolo João escreveu:
“Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos. Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados.” (1Jo 4.9–10)
Desde o Antigo Testamento, vemos Deus tomando a iniciativa de buscar os pecadores e impedir que eles pereçam. Em várias ocasiões, Ele enviou profetas para repreender os ímpios, chamando-os ao arrependimento e à obediência. Quanto ao plano de salvação da humanidade, Deus tomou a iniciativa de chamar Abrão e, por meio dele, formou a nação de Israel, preparando o caminho para que o Filho viesse ao mundo.
Jesus veio, morreu pelos nossos pecados e ressuscitou. Subiu ao Céu e enviou o Espírito Santo para convencer os pecadores do pecado, da justiça e do juízo. Portanto, a iniciativa de salvar os pecadores continua sendo de Deus, pois o Espírito Santo continua buscando os pecadores, como veremos no terceiro tópico.
3. O envio do Filho e a Trindade. O Filho foi enviado pelo Pai, conforme o próprio Jesus declarou em várias ocasiões:
“Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.” (Jo 6.38);
“Quem não me ama não guarda as minhas palavras; e a palavra que ouvistes não é minha, mas daquele que me enviou.” (Jo 14.24).
O sentido do verbo “enviar” é incumbir alguém de ir a determinado lugar para cumprir uma missão, representando quem o enviou. Foi exatamente isso que Jesus veio fazer. Ele foi enviado pelo Pai para cumprir a missão de oferecer-se em sacrifício pelos pecadores e preparar os seus discípulos para que proclamassem a sua mensagem ao mundo após a sua partida. Por isso, Jesus separou doze deles e chamou-os de “apóstolos”, que significa enviado.
Embora Jesus tenha sido enviado para uma missão, Ele não foi apenas um emissário: Ele é o maior presente que a humanidade poderia receber. O envio de Jesus ao mundo configura a maior demonstração de amor, pois Ele é o próprio Deus sacrificando-se para salvar quem não merece.
Quando lemos na Bíblia que o Filho foi enviado para fazer a vontade do Pai, pode surgir a impressão de que Ele é menor do que o Pai, já que normalmente quem envia é considerado maior do que o enviado. As seitas unitaristas usam esse argumento para negar a divindade de Cristo. Entretanto, essa subordinação é funcional, e não essencial: as três pessoas da Trindade são iguais e possuem a mesma natureza divina.
Além disso, as três pessoas da Trindade são um único Deus, com a mesma vontade e propósito. Não há divergências de opinião entre Pai, Filho e Espírito Santo. Alguns pregadores dramatizam o plano da salvação, narrando reuniões e discussões no Céu para decidir quem morreria pela humanidade. Porém, isso não encontra respaldo bíblico. A Trindade é unidade perfeita, onisciente e onipotente, e o plano da salvação foi conhecido e decidido por Deus desde a eternidade.
Nenhum comentário:
Postar um comentário