(Comentário do 1º tópico da Lição 2: O Deus Pai).
Neste primeiro tópico, trataremos da identidade de Deus, o Pai. Inicialmente, veremos que o Pai é o Único Deus Verdadeiro, ressaltando o papel de Deus como Pai enquanto Criador e sustentador de todas as coisas. Nesse ponto, o professor deve ter especial cuidado para não incorrer no erro do unitarismo, que ensina que somente o Pai é Deus verdadeiro e que o Filho seria uma criatura do Pai. A revelação bíblica afirma que Deus é uma unidade composta, de modo que Pai, Filho e Espírito Santo são o mesmo Deus, coexistindo eternamente como três Pessoas distintas, porém consubstanciais.
Na sequência, abordaremos o Pai como a fonte da divindade. Aqui também é necessário cautela para evitar o erro do subordinacionismo, que defende a superioridade do Pai em relação ao Filho, e do Filho em relação ao Espírito Santo. Embora a Bíblia apresente o Pai como a origem e fonte eterna da divindade, isso não implica prioridade temporal, hierarquia ontológica ou desigualdade de essência. Trata-se de uma distinção relacional e funcional, conforme já exposto na introdução desta lição, e não de natureza ou valor.
Por fim, veremos que o Pai age por meio do Filho e do Espírito Santo. Essa verdade não sugere inferioridade entre as Pessoas da Santíssima Trindade, mas descreve a forma harmoniosa e ordenada como cada Pessoa divina atua tanto na criação quanto na redenção do ser humano. É fundamental esclarecer que as três Pessoas da Trindade são iguais em essência, eternas e inseparáveis em suas obras. Assim, em todas as ações do Pai, o Filho e o Espírito Santo também participam, e o mesmo ocorre nas obras do Filho e do Espírito, preservando a perfeita unidade do Deus Triúno.
1. O Pai é o único Deus verdadeiro. Ao ler este ponto da lição, confesso que fiquei um tanto confuso, pois aprendemos, na lição passada, que as três Pessoas da Santíssima Trindade são um único Deus, iguais em essência, natureza e poder. Como, então, podemos afirmar que o Pai é o Único Deus Verdadeiro?
Entretanto, quem fez tal afirmação foi o próprio Jesus, conforme lemos em João 17.3:
“E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti só por único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste.”
Como resolver essa questão? Se o Pai é o Único Deus Verdadeiro, então o Filho e o Espírito Santo não são também Deus Verdadeiro? Para compreendermos corretamente essa declaração, é necessário considerar o contexto em que Jesus a proferiu. Ele falou na condição humana, exaltando o Pai. Quando Jesus afirma que o Pai é o Único Deus Verdadeiro, isso se dá em oposição aos falsos deuses. De fato, só há um único Deus Verdadeiro. Contudo, esse Deus é uma unidade composta, conforme estudamos na lição anterior.
No Antigo Testamento, o Deus de Israel é apresentado como o único Deus no Shemá Yisrael, que aparece em três textos da Torá: Deuteronômio 6.4-9; 11.13-21 e Números 15.37-41:
“Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor.”
Essa declaração constitui a confissão de fé do Judaísmo e é recitada pelos judeus piedosos duas vezes ao dia: ao amanhecer e ao anoitecer. A primeira parte do Shemá proclama a unicidade, unidade e singularidade de Yahweh. Com base nesse texto, os judeus rejeitam o politeísmo, o dualismo e a doutrina da Trindade. Contudo, essa declaração não contradiz a doutrina trinitária.
A palavra hebraica echad (pronuncia-se “errád”), traduzida por “único”, não indica unidade absoluta de pessoa, mas unidade composta. Um exemplo disso encontra-se no matrimônio, quando marido e mulher se tornam “uma só carne”, sem deixarem de ser duas pessoas distintas.
O Cristianismo é uma religião monoteísta, pois cremos em um único Deus, que subsiste eternamente em três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Não são três deuses, como ensina o triteísmo, mas um só Deus em três Pessoas. Dessa forma, afirmar que o Pai é o Único Deus Verdadeiro não exclui o Filho nem o Espírito Santo, pois ambos são o mesmo Deus.
O Novo Testamento também afirma claramente que Jesus é Deus Verdadeiro:
“E sabemos que já o Filho de Deus é vindo e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.” (1Jo 5.20).
Além disso, as Escrituras afirmam que o Espírito Santo é Deus:
“Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e retivesses parte do preço da herdade? Guardando-a, não ficava para ti? E, vendida, não estava em teu poder? Por que formaste este desígnio em teu coração? Não mentiste aos homens, mas a Deus.” (At 5.3,4).
Nas lições em que abordaremos as Pessoas do Filho e do Espírito Santo, retornaremos a este tema e trataremos de forma mais específica da divindade do Filho e do Espírito Santo.
2. O Pai é a fonte da divindade. Neste ponto, é necessário cuidado para evitar equívocos doutrinários. O comentarista afirma que “Deus é o Supremo Ser, é eterno, nunca teve começo nem princípio e nunca terá fim (Dt 33.27), pois Ele existe por si mesmo”. Tal afirmação é absolutamente verdadeira; entretanto, não se aplica exclusivamente à Pessoa do Pai.
Sendo Deus, o Filho também é eterno, pois nunca teve princípio nem terá fim, conforme declara a Escritura:
“Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente” (Hb 13.8).
Da mesma forma, a Bíblia chama o Espírito Santo de Espírito eterno, pois Ele igualmente não teve princípio e não terá fim:
“Quanto mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu imaculado a Deus, purificará as vossas consciências das obras mortas, para servirdes ao Deus vivo?” (Hb 9.14).
Todas as afirmações feitas a respeito do Pai — eterno, autoexistente, imutável, Criador, doador e sustentador da vida — aplicam-se igualmente às três Pessoas da Santíssima Trindade, visto que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus. As distinções existentes entre as Pessoas divinas não dizem respeito à essência ou à natureza, mas às funções e às relações pessoais dentro da Trindade.
Assim, somente Deus, o Pai, é chamado de Pai; somente Deus, o Filho, é chamado de Filho; e somente o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. O Pai não foi enviado nem se fez homem; essa missão coube ao Filho. O Espírito Santo, por sua vez, não se encarnou nem enviou o Filho.
Conclui-se, portanto, que a afirmação de que “o Pai é a origem e fonte eterna da divindade, de quem o Filho é gerado e de quem o Espírito procede” refere-se à relação intratrinitária, isto é, à comunhão eterna entre as três Pessoas da Trindade. Tal declaração não implica, de modo algum, superioridade ou subordinação entre as Pessoas divinas, mas apenas distinção pessoal na unidade da essência divina.
3. O Pai age por meio do Filho e do Espírito. Neste ponto, o comentarista aborda as operações do Pai por meio do Filho e do Espírito Santo. Para compreendermos isso, é necessário nos atentarmos para um conceito teológico chamado perícrose. Esse termo descreve a habitação mútua e a interpenetração perfeita entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ou seja, as três Pessoas da Trindade vivem em comunhão eterna, sem se confundir nem se separar. Onde está o Pai, ali também estão o Filho e o Espírito Santo.
Dito isso, analisemos agora o que o comentarista afirma sobre as ações do Pai por meio do Filho e do Espírito Santo. Segundo ele, a paternidade é atributo da primeira Pessoa da Trindade, o Pai. Isso significa que as ações da divindade têm origem no Pai, embora contem com a participação do Filho e do Espírito Santo. O Pai planeja e inicia as obras divinas. Na criação, por exemplo, o Pai pronunciou as palavras criadoras, o Filho as executou, e o Espírito Santo pairava sobre as águas, sustentando as coisas criadas.
Da mesma forma, no plano da redenção humana, o Pai elaborou o plano da salvação e enviou o Filho para realizá-lo. Após a ressurreição e ascensão do Filho, o Espírito Santo foi enviado para agir por meio da Igreja e convencer os pecadores a se renderem a Cristo. Além disso, o Espírito Santo capacita a Igreja com os dons espirituais, para que testemunhe corajosamente do Evangelho.
Esses papéis de cada Pessoa da Santíssima Trindade não implicam, de forma alguma, inferioridade, subordinação ou separação entre elas. Cada Pessoa realiza seu papel em conjunto com as demais, em perfeita harmonia, pois são coeternas e coiguais. Assim, em todas as ações de Deus, estão presentes as três Pessoas divinas.
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