(Comentário do 2º tópico da Lição 03: O Pai enviou o Filho)
No segundo tópico, abordaremos o envio do Filho “na plenitude dos tempos”, expressão utilizada pelo apóstolo Paulo na Epístola aos Gálatas.
Inicialmente, analisaremos a preparação histórica e religiosa para a vinda do Messias ao mundo, destacando o domínio romano, a difusão da cultura grega e a expectativa messiânica do povo judeu. Esse conjunto de fatores constituiu o cenário providencial para a manifestação do Filho de Deus na história.
Em seguida, examinaremos o significado das expressões paulinas aplicadas a Cristo: “nascido de mulher” e “nascido sob a Lei”, ressaltando suas implicações cristológicas e soteriológicas.
Por fim, trataremos da adoção dos crentes como filhos de Deus mediante a fé em Cristo. Estabeleceremos, ainda, a distinção entre a filiação divina de Cristo — o Filho único de Deus por natureza — e a filiação divina daqueles que nele creem, que se dá por adoção.
1. A preparação histórica e religiosa.
“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de Mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.”
A expressão “plenitude dos tempos” (gr. plḗrōma tou chrónos) indica que o envio do Filho aconteceu no tempo apropriado, previamente determinado pelo Pai, sem atraso nem adiantamento. As obras de Deus sempre se cumprem de maneira perfeita e no tempo exato. Costuma-se dizer que “Deus tarda, mas não falha”. Entretanto, essa afirmação não é correta, pois Deus jamais se atrasa. Ele age no tempo certo, segundo o Seu eterno propósito e soberana vontade.
O comentarista mencionou três fatores históricos fundamentais que contribuíram decisivamente para a difusão do Evangelho, evidenciando que aquele era, de fato, o momento adequado para a manifestação do Filho de Deus.
a) O Domínio Romano. Embora o Império Romano fosse uma potência autoritária e opressora, ele promoveu uma espécie de globalização no mundo antigo, permitindo a circulação de pessoas, ideias e mercadorias entre as províncias. A chamada Pax Romana, instituída em 27 a.C. pelo imperador Augusto César, perdurou aproximadamente até 180 d.C., proporcionando relativa estabilidade política e social.
Foram implantadas diversas medidas administrativas, como:
Aumento da produtividade nas províncias;
Proteção contra invasões externas;
Repressão severa a revoltas internas;
O processo de romanização, isto é, a adaptação dos povos conquistados aos costumes romanos.
O império também investiu fortemente na construção de estradas para facilitar o comércio e o deslocamento militar. Estima-se que a malha viária romana alcançasse cerca de 300 mil quilômetros, sendo aproximadamente 90 mil pavimentados. Além disso, as rotas marítimas eram amplamente utilizadas e bastante eficientes.
Todo esse aparato logístico e administrativo foi soberanamente utilizado pelo Espírito Santo para a proclamação do Evangelho em todo o mundo conhecido. Antes dos gregos e romanos, os impérios costumavam deportar os povos conquistados. Os gregos, porém, adotaram uma nova estratégia, permitindo que os povos permanecessem em suas terras, desde que não ameaçassem o domínio imperial. Os romanos deram continuidade a esse modelo.
b) A Cultura Grega. Alexandre Magno derrotou o Império Persa em 334 a.C. e expandiu seus domínios pela Síria, Egito e outras regiões, fundando, inclusive, a cidade de Alexandria. Seu objetivo não era apenas a conquista militar, mas também a disseminação da cultura e do pensamento grego.
Três aspectos do domínio grego foram decisivos para a expansão do Cristianismo:
1. O idioma universal. Antes da hegemonia grega, não havia uma língua comum entre os povos. Com a expansão helênica, o grego koiné tornou-se o idioma popular e amplamente compreendido. O termo koiné deriva de koinonía, que significa “comum” ou “comunhão”.
O Antigo Testamento foi traduzido do hebraico para o grego koiné por volta de 250 a.C., originando a Septuaginta (LXX). O Novo Testamento foi escrito majoritariamente nesse idioma, o que facilitou enormemente a propagação da mensagem cristã.
2. A diversidade religiosa. O mundo helenizado era marcado por pluralismo religioso, o que contribuiu para a circulação de novas ideias, incluindo a mensagem do Evangelho.
3. A filosofia grega. A filosofia preparou o terreno intelectual para discussões sobre a verdade, a existência e o sentido da vida, conceitos posteriormente confrontados e reinterpretados à luz da revelação cristã.
c) A Expectativa Messiânica. O povo de Israel passou por sucessivos domínios estrangeiros como consequência de sua idolatria e infidelidade a Deus. O Reino do Norte foi conquistado pelos assírios, e o Reino do Sul pelos babilônios. Posteriormente, o domínio passou aos medos e persas. Após setenta anos, parte dos judeus retornou do exílio, enquanto outros permaneceram na Babilônia.
Mais tarde, os gregos dominaram a Palestina, mantendo os judeus em sua terra. Em seguida, os romanos assumiram o controle, preservando grande parte da cultura grega já estabelecida.
As Escrituras anunciavam a vinda do Messias, o Ungido de Deus, que reinaria eternamente. Mas, a maioria dos judeus interpretavam essas profecias de maneira política, aguardando um libertador semelhante ao rei Davi, que os livraria do domínio romano. Por essa razão, quando o Filho de Deus se manifestou cumprindo plenamente as Escrituras, foi rejeitado por muitos.
2. O Filho nascido sob a Lei.
Os primeiros a negar que Jesus possuía um corpo humano real foram os docetas. O docetismo teve origem em concepções gnósticas que defendiam um dualismo entre espírito e matéria, considerando o espírito como essencialmente bom e a matéria como essencialmente má. Dessa forma, sustentavam que, sendo Jesus verdadeiramente Deus, Ele não poderia ter um corpo físico, pois, segundo essa visão, o corpo seria inerentemente mau.
Entretanto, os Evangelhos testemunham de forma clara que Jesus possuía um corpo físico real. Em diversas ocasiões, os discípulos tocaram em Jesus, caminharam com Ele, conversaram pessoalmente e conviveram intimamente com sua vida cotidiana. Eles nunca tiveram dúvidas quanto à realidade de sua humanidade. Os relatos evangélicos apresentam, com riqueza de detalhes, aspectos claros da vida humana de Cristo.
Os Evangelhos de Mateus e Lucas registram informações significativas acerca do nascimento de Jesus, desde o anúncio do seu nascimento, mencionando também várias pessoas que testemunharam esses acontecimentos. Ambos apresentam a genealogia de Jesus e fazem referência aos seus familiares. Marcos, por sua vez, inicia seu relato apresentando Jesus já na idade adulta, no início de seu ministério público, dando grande ênfase aos milagres que Ele realizou. Ainda assim, Marcos retrata Jesus como um verdadeiro homem que vivia e se movia entre as multidões. Esses três evangelistas expõem de maneira consistente a humanidade de Jesus, não deixando dúvidas quanto à realidade de seu corpo físico.
O Evangelho segundo João se distingue dos Sinóticos por enfatizar de modo especial a divindade de Cristo e o significado teológico do seu ministério. Todavia, João também afirma com clareza a plena humanidade de Jesus. No prólogo do seu Evangelho, ele declara:
“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14).
Com essa afirmação, João ensina que o Filho eterno de Deus assumiu a natureza humana e viveu entre os homens. Essa verdade é reafirmada pelo apóstolo também em suas Epístolas (1 Jo 1.1–3; 4.2).
Na sequência do texto de Gálatas 4.4, o apóstolo Paulo acrescenta que o Filho foi “nascido sob a Lei”. Essa expressão possui, pelo menos, dois importantes significados teológicos:
a) Jesus Cristo submeteu-se plenamente às exigências da Lei Mosaica. Ele é o homem perfeito, o único que viveu neste mundo sem jamais cometer pecado. Nenhum outro ser humano conseguiu cumprir integralmente a Lei. Somente Jesus obedeceu perfeitamente a todos os seus preceitos, sem violar qualquer mandamento.
b) Jesus Cristo é o cumprimento da Lei. Todas as ordenanças, sacrifícios, rituais, festas e símbolos prescritos na Lei apontavam para Ele. Assim, Cristo veio cumprir aquilo que a Lei prefigurava, revelando o seu verdadeiro propósito redentor.
3. A adoção de filhos.Na continuidade do texto de Gálatas 4, no versículo 5, o apóstolo Paulo descreve a razão do envio do Filho ao mundo:
“Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos”.
A palavra remir, no contexto bíblico, significa libertar mediante o pagamento de um preço, como ocorria com alguém que havia sido escravizado em razão de uma dívida. Tal pessoa só poderia ser liberta mediante o pagamento dessa dívida. Foi exatamente isso que Jesus fez por nós: pagou o preço do nosso resgate para nos livrar da condenação eterna.
Muitas pessoas, inclusive alguns pregadores, fazem confusão quanto ao destinatário desse pagamento e utilizam o exemplo de um sequestro, afirmando que o diabo teria sequestrado o ser humano e que Jesus teria pago o preço da nossa libertação ao inimigo. Entretanto, essa interpretação não encontra fundamento nas Escrituras. A dívida só pode ser paga ao credor, e, nesse caso, a nossa dívida era para com a justiça de Deus, que exige punição pelo pecado: “A alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.20a). O apóstolo Paulo também escreveu: “Porque o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23a).
Além de nos remir, pagando o preço da nossa dívida para com Deus mediante o seu sacrifício, Jesus também nos concedeu o privilégio de sermos feitos filhos de Deus. Antes de conhecermos a Cristo, éramos estranhos e inimigos de Deus; mas, pela fé em Cristo, recebemos não apenas o perdão dos pecados, como também o direito de sermos chamados filhos de Deus.
Muitas pessoas estão equivocadas ao pensar que todos os seres humanos são filhos de Deus. A Bíblia é clara ao afirmar que filhos de Deus são somente aqueles que creem em Jesus: “Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (Jo 1.12). Jesus é o Filho Unigênito (gr. monogenēs) de Deus (Jo 3.16), isto é, o único Filho que possui a mesma natureza do Pai. Aqueles que nele creem tornam-se filhos de Deus por adoção. Os demais seres humanos são criaturas de Deus, mas não filhos.
Ev. WELIANO PIRES
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