(Comentário do 2⁰ tópico da Lição 5: O Deus Filho)
No segundo tópico, estudaremos a centralidade do Deus Filho, tomando como referência o episódio da Transfiguração (Mt 17.1-9; Mc 9.2-8; Lc 9.28-36).
Inicialmente, abordaremos a glória sobrenatural de Jesus no Monte da Transfiguração, na presença de Moisés e Elias, contemplada pelos discípulos Pedro, Tiago e João.
Em seguida, trataremos do testemunho da Lei e dos profetas, representados, respectivamente, por Moisés e Elias.
Por fim, analisaremos a aprovação do Pai, manifestada pela voz que se fez ouvir aos discípulos: “Este é o meu Filho amado, a Ele escutai” (Mt 17.5; Mc 9.7; Lc 9.35).
1. A glória sobrenatural de Jesus. Jesus subiu ao monte da Transfiguração acompanhado de Pedro, Tiago e João, os apóstolos mais íntimos, que estiveram com Ele em momentos marcantes de Seu ministério terreno. Embora as Escrituras não identifiquem com precisão o monte onde ocorreu esse episódio, a tradição cristã, desde o século III, aponta o Monte Tabor, na Galileia, como o local do acontecimento. Essa identificação é mencionada por Orígenes, Cirilo de Jerusalém e Jerônimo.
Durante a Transfiguração, na presença de Moisés e Elias, os apóstolos contemplaram a glória sobrenatural de Jesus. Seu rosto resplandeceu como o sol, e Suas vestes tornaram-se brancas como a luz. Esse evento não foi apenas uma manifestação momentânea de poder, mas uma antecipação da glória futura que se revelaria plenamente após a ressurreição de Cristo, apontando também para a realidade do Reino de Deus em sua consumação final (Mt 17.2; Lc 9.29).
O termo glória, no Antigo Testamento, deriva do hebraico kavod, amplamente utilizado no judaísmo para expressar a presença manifesta de Deus ou o próprio Deus em ação. Já no Novo Testamento, o vocábulo grego correspondente é doxa, cujo significado envolve ideias como resplendor, poder, honra e majestade divina.
É comum, especialmente no meio cristão contemporâneo, a utilização da palavra “Shekinah” como sinônimo da glória de Deus. Todavia, é necessário esclarecer que esse termo não aparece nos textos bíblicos. Shekinah tem origem no Talmud, literatura judaica pós-bíblica que reúne comentários e discussões rabínicas sobre a Lei, a história e a tradição de Israel. Embora o conceito remeta à presença divina, a sua utilização não é bíblica.
No Novo Testamento, a glória divina encontra sua revelação máxima na pessoa de Jesus Cristo. No relato do nascimento do Salvador, o evangelista Lucas descreve que, enquanto os pastores vigiavam seus rebanhos, “eis que o anjo do Senhor veio sobre eles, e a glória do Senhor os cercou de resplendor; e tiveram grande temor” (Lc 2.9).
O escritor da Epístola aos Hebreus declara que Jesus é “o resplendor da glória [de Deus] e a expressa imagem da sua pessoa” (Hb 1.3). Dessa forma, Cristo não apenas reflete a glória divina, mas a manifesta plenamente à humanidade. O apóstolo João confirma essa verdade ao afirmar: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14).
Ao assumir a natureza humana, o Senhor Jesus esvaziou-se de Sua glória, tomando a forma de servo, conforme ensina o apóstolo Paulo (Fp 2.7). Contudo, na Transfiguração, os discípulos tiveram um vislumbre dessa glória, sendo tomados de temor diante da revelação do Cristo glorificado. De modo semelhante, Saulo de Tarso teve um encontro com o Senhor ressurreto, e o resplendor de Sua glória foi tão intenso que o deixou cego por três dias (At 9.3,9).
Essa mesma glória é apresentada de forma ainda mais majestosa no livro do Apocalipse. O apóstolo João relata ter visto um Ser semelhante ao Filho do Homem, vestido com uma veste comprida e cingido com um cinto de ouro. Seus cabelos eram brancos como a neve, Seus pés reluziam como bronze polido, e Sua voz soava como o som de muitas águas. Diante de tamanha manifestação da glória divina, João, o discípulo que desfrutara de maior proximidade com Jesus durante Seu ministério terreno, caiu como morto diante dEle (Ap 1.17,18).
2. O testemunho da Lei e dos profetas. A presença de Moisés e Elias na Transfiguração, dois personagens amplamente respeitados no Antigo Pacto, confirma que Jesus veio cumprir a Lei e os Profetas, estabelecendo a Nova Aliança. Desse modo, a Transfiguração evidencia a continuidade e, ao mesmo tempo, o cumprimento das Escrituras, demonstrando que Cristo é o centro da história da salvação (Lc 9.31; Hb 1.1-2).
Moisés foi o grande libertador e legislador de Israel, aquele que recebeu do próprio Deus as tábuas da Lei. Sua autoridade era incontestável entre os judeus. Ao final de sua vida, Moisés anunciou que Deus levantaria um profeta semelhante a ele, a quem o povo deveria ouvir (Dt 18.15). Na Transfiguração, sua presença confirma que esse profeta prometido era Jesus, o Messias.
Elias, por sua vez, foi um dos profetas mais respeitados da história de Israel. Viveu em um período de profunda apostasia espiritual, durante os reinados de Acabe e de seu filho Acazias. Embora não tenha deixado escritos proféticos, Elias destacou-se como profeta oral, sendo poderosamente usado por Deus na realização de milagres e no confronto direto com reis ímpios e com a idolatria nacional.
A aparição de Moisés e Elias — personagens que os discípulos não conheceram pessoalmente — serviu como um testemunho inequívoco da Lei e dos Profetas de que Jesus veio estabelecer a Nova Aliança, da qual Ele é o único e suficiente Mediador. Após a vinda de Cristo em carne, a Antiga Aliança tornou-se obsoleta, não por ter falhado, mas porque foi plenamente cumprida nEle (Hb 8.13). Como será visto no próximo tópico, Jesus é o cumprimento final de tudo aquilo que a Lei e os Profetas anunciaram.
É importante esclarecer que a Transfiguração não se trata de necromancia ou de qualquer prática semelhante às sessões espíritas ensinadas pelo espiritismo. Em primeiro lugar, a Bíblia condena de forma explícita e categórica toda tentativa de comunicação com os mortos:
“Entre ti não se achará quem faça passar pelo fogo a seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem quem consulte a um espírito adivinhador, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao Senhor” (Dt 18.10-12).
Além disso, não houve qualquer tentativa de comunicação dos discípulos com Moisés e Elias. Quem dialogou com eles foi o próprio Jesus, que é Deus e Senhor tanto dos vivos quanto dos mortos. Não há qualquer indicação de manifestação espiritual independente, incorporação ou retorno à vida terrena.
Ademais, se o episódio fosse interpretado à luz da doutrina espírita da reencarnação, quem deveria ter aparecido seria João Batista, e não Elias, uma vez que o espiritismo sustenta que João teria sido a reencarnação do profeta Elias. Tal interpretação, porém, é estranha ao ensino bíblico e incompatível com o testemunho das Escrituras.
3. A aprovação do Pai. A voz do Pai manifestou-se em aprovação ao ministério de Jesus. Os discípulos ficaram maravilhados com o que viram e desejaram permanecer ali para sempre. Entretanto, uma nuvem veio e encobriu Moisés e Elias. Do meio da nuvem, ouviu-se uma voz que dizia: “Este é o meu Filho amado; a Ele escutai” (Mt 17.5; Mc 9.7; Lc 9.35).
Essa nuvem representa a presença gloriosa de Deus, conforme ocorreu no deserto durante a peregrinação de Israel. Os discípulos conheciam as Escrituras e sabiam que uma coluna de nuvem guiava o povo durante o dia, e uma coluna de fogo, durante a noite. Deus falava com Moisés do meio da nuvem. Agora, eles ouviram a voz do próprio Deus, do meio da nuvem, afirmando que Jesus é o Filho de Deus e que a Ele deveriam obedecer.
O episódio da Transfiguração revela, de maneira clara, o caráter trinitário da revelação divina: o Pai fala do céu, o Filho é glorificado diante dos discípulos, e a nuvem, símbolo da glória divina, manifesta a presença de Deus. Assim como no batismo de Jesus, a Trindade se faz presente de forma inequívoca, confirmando a identidade e a missão do Messias.
A declaração do Pai autentica o ministério de Jesus e confirma a sua autoridade divina, da mesma forma que ocorreu no batismo, quando o Pai reconheceu publicamente o Filho (Mt 3.16-17; Mc 1.11; Lc 3.22). Diante disso, os discípulos — e a Igreja em todos os tempos — são chamados a reconhecer Jesus como o Filho amado de Deus e a obedecer fielmente à sua palavra, acima de qualquer outra voz ou autoridade.
Ev. WELIANO PIRES
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