(Comentário do 2⁰ tópico da Lição 9: Espírito Santo – o Regenerador)
No segundo tópico, trataremos da natureza espiritual da regeneração. Com base no diálogo de Nicodemos com Jesus, conforme registrado no Evangelho de João, compreenderemos que a regeneração é uma transformação interior, e não um mero aperfeiçoamento do comportamento humano.
Na sequência, reafirmaremos, como já exposto no primeiro tópico, que a regeneração é obra soberana do Espírito Santo e não pode ser produzida pela natureza humana.
Por fim, veremos que o ser humano regenerado passa a desfrutar de uma nova vida e a evidenciar uma nova conduta, ambas produzidas pelo Espírito Santo em seu interior.
1. Uma transformação interior.
Nicodemos iniciou sua conversa com Jesus chamando-o de “Rabi”, transliteração do termo hebraico Rabbi, que significa “Meu Mestre”. Esta palavra tem origem na raiz hebraica rav, que, no hebraico bíblico, expressa a ideia de “grande”, “distinto” ou “notável” no conhecimento.
Ao dirigir-se a Jesus dessa maneira, Nicodemos reconheceu que Ele era um Mestre vindo da parte de Deus, em razão dos sinais que realizava. Em suas palavras iniciais, percebemos que ele havia presenciado alguns dos milagres operados por Jesus e compreendeu que eram, de fato, manifestações do poder divino.
Diferentemente de outros integrantes do partido dos fariseus, esse mestre da Lei não procurou Jesus com a intenção de criticá-lo ou apanhá-lo em alguma palavra. Ao contrário, demonstrou sincero interesse em compreender a sua mensagem.
Diante dessa abordagem, Jesus respondeu-lhe de modo surpreendente: “Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3.3).
A interpretação imediata de Nicodemos foi entender tais palavras em sentido literal, como se Jesus estivesse falando de um novo nascimento físico. Essa compreensão equivocada também é adotada pelo Espiritismo, que afirma estar Jesus ensinando a reencarnação nesse texto.
Entretanto, o Senhor deixou claro que não se tratava de um nascimento biológico, mas de uma transformação interior. Não é uma simples reforma que preserva a mesma estrutura, e sim uma mudança profunda que se inicia na mente e prossegue por meio da renovação do entendimento, conforme ensina o apóstolo Paulo em Romanos 12.2.
2. Uma obra soberana do Espírito.
Jesus explicou a Nicodemos que não se tratava de um segundo nascimento físico, mas de um nascimento espiritual, expresso na declaração: “nascer da água e do Espírito”. Ao empregar os termos “água” e “Espírito”, o Senhor utilizou linguagem figurada para apontar a ação sobrenatural do Espírito Santo, que transforma o velho homem — cuja natureza foi corrompida pelo pecado — em uma nova criatura, segundo os padrões de Deus.
O nascimento do Espírito refere-se à regeneração operada pelo Espírito Santo no interior do ser humano, produzindo uma transformação profunda, inclusive na mente, para que esteja em conformidade com a mente de Cristo. O Espírito Santo esteve presente na criação do homem e, de igual modo, atua na “recriação” do novo homem, que renasce segundo Deus. O apóstolo Paulo escreveu aos Romanos: “Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8.9).
Ao declarar a Nicodemos: “O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai” (Jo 3.8), Jesus evidenciou a soberania da ação do Espírito Santo na regeneração. Trata-se de uma obra que não está sujeita ao controle humano nem depende de méritos ou esforços pessoais.
O Espírito Santo opera no interior do pecador, convencendo-o e capacitando-o a crer em Jesus. Ao atender à voz do Espírito, o homem é justificado, regenerado e santificado. Contudo, o Espírito não constrange ninguém a crer, pois Deus concedeu ao ser humano o livre-arbítrio. As Escrituras registram reiterados convites divinos, como: “Se alguém quer vir após mim...” e “Vinde a mim...”, palavras do próprio Senhor (Mt 16.24; 11.28), conclamando todos a uma decisão voluntária de fé e obediência.
3. Uma nova vida e nova conduta.
Na continuidade de sua explicação a Nicodemos, Jesus declarou: “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (Jo 3.6). Para compreendermos plenamente essa afirmação, é necessário considerar o significado dos termos “carne” e “espírito” no contexto do Novo Testamento.
A palavra “carne”, na Bíblia, é um termo polissêmico, isto é, possui diferentes significados, conforme o contexto:
a) O tecido muscular do ser humano e dos animais — a parte macia, fibrosa e irrigada de sangue que se encontra entre a pele e os ossos.
b) O corpo humano como um todo — em diversos textos bíblicos, “carne” não se refere apenas ao tecido muscular, mas à totalidade do corpo.
c) A fragilidade humana — em certas passagens, o termo aponta para a condição limitada e mortal do ser humano.
d) A natureza humana corrompida pelo pecado — especialmente no Novo Testamento, “carne” pode designar a inclinação pecaminosa da natureza humana.
A palavra “espírito”, conforme estudado em lições anteriores, também apresenta diferentes significados. O termo grego pneuma significa literalmente “sopro” ou “vento”, mas, nas Escrituras, pode referir-se ao Espírito de Deus, ao espírito humano ou a seres espirituais. Quando grafado com inicial maiúscula, refere-se ao Espírito Santo.
Ao afirmar que há dois tipos de nascimento — o da carne e o do Espírito — Jesus não estava tratando meramente do nascimento biológico. O nascimento “da carne” aponta para a condição humana marcada pelo pecado. Já o nascimento “do Espírito” refere-se ao novo nascimento, que produz em nós uma nova vida e se evidencia pelo fruto do Espírito, conforme ensina o apóstolo Paulo em Gálatas 5.22.
É importante destacar que a velha natureza não é erradicada imediatamente após o novo nascimento; ela permanece até a glorificação do corpo. Todavia, na conversão a Cristo, o Espírito Santo gera em nós uma nova natureza, segundo os padrões divinos, e nos capacita a mortificar as obras da velha natureza, à medida que caminhamos em comunhão com Ele.
Ev. WELIANO PIRES