22 janeiro 2026

A REVELAÇÃO DA PATERNIDADE DO PAI

(Comentário do 1⁰ tópico da Lição 4: A Paternidade Divina) 

Neste primeiro tópico, trataremos da revelação da paternidade de Deus, o Pai. Inicialmente, analisaremos o conceito bíblico da paternidade do Pai, reconhecendo-o como a fonte de todas as coisas, que opera por meio do Filho e do Espírito Santo. 

Em seguida, veremos que a paternidade de Deus é eterna, pois não tem origem no tempo. Nunca houve um momento em que Ele tenha se tornado Pai. O Pai sempre existiu em comunhão com o Filho e o Espírito Santo. Devemos rejeitar qualquer ideia de que a paternidade divina tenha um começo ou que esteja condicionada à criação.

Observaremos, ainda, que o Pai gerou o Filho. Essa geração, contudo, não significa criação, visto que, assim como o Pai, o Filho é eterno e autoexistente. O termo “gerado” expressa uma relação eterna dentro da Trindade, e não um início no tempo.

Por fim, abordaremos a concessão do Espírito Santo, que procede do Pai e é enviado pelo Filho. Isso também não implica que o Espírito Santo tenha sido criado ou que seja inferior ao Pai e ao Filho, pois Ele é igualmente eterno e plenamente Deus.

1. Definição da paternidade do Pai. A palavra “pai” na Bíblia, em hebraico, é ’ab, termo que deu origem a diversos nomes próprios, como Abel, Absalão, Abigail, Abisai, Abias, entre outros. Em aramaico, o termo correspondente é ’abba, que expressa uma relação íntima e pessoal entre pai e filho. No Novo Testamento, esse conceito geralmente aparece associado ao termo grego patḗr, equivalente ao hebraico ’ab.

O termo hebraico ’ab refere-se àquele de quem algo ou alguém procede, não apenas no sentido biológico, mas também como fonte, origem ou referência de uma família, de um povo, de uma ideia ou de uma tradição. Assim, pode designar um mestre, protetor, provedor ou até mesmo uma identidade espiritual ou moral. Exemplos disso são expressões como: filhos da sabedoria, filhos das trevas, filhos de Belial, entre outras.

Conforme explicado na definição da palavra-chave desta lição, a paternidade de Deus é distinta da paternidade humana. Deus não é Pai por gerar biologicamente, pois Ele é espírito e não possui corpo. Sua paternidade deve ser compreendida em termos espirituais, relacionais e ontológicos, e não físicos.

No livro de Jó, os anjos são chamados de “filhos de Deus”:

“Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles.” (Jó 1.6)

Nesse contexto, Deus é Pai dos anjos porque Ele os criou. Da mesma forma, Deus pode ser chamado Pai de toda a humanidade, tanto pela criação quanto pela provisão. O próprio Senhor Jesus ensinou que o Pai celestial alimenta as aves do céu e veste os lírios do campo, demonstrando Seu cuidado providencial. Esse cuidado se estende a todos os seres humanos, justos e injustos, pois Deus faz nascer o sol e enviar a chuva sobre todos (Mt 5.45).

Deus é também o Pai de Jesus Cristo de forma eterna e única, por natureza. Nesse sentido, Cristo é o Filho Unigênito (monogenḗs) de Deus, isto é, o Filho eternamente gerado, e não criado, pelo Pai. Portanto, não há outro Filho de Deus nesse mesmo sentido essencial e eterno, conforme será aprofundado nos próximos subtópicos.

Por fim, a Bíblia ensina que Deus é Pai daqueles que recebem a Cristo como Senhor e Salvador, não por natureza, mas por adoção:

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome.” (Jo 1.12)

2. A paternidade eterna do Pai. Quando falamos da paternidade eterna de Deus, significa que Ele é Pai eternamente, não por um ato que Ele tenha feito no tempo, mas por natureza. Da mesma forma, o Filho Unigênito de Deus é Filho desde a eternidade, pois Ele também nunca teve princípio. 

Diferente do que ensinava o Arianismo, nunca houve um tempo em que Deus não era Pai e que o Filho não existia. Deus nunca se tornou Pai, Ele sempre foi Pai em toda a eternidade. Da mesma forma, o Espírito Santo sempre foi Espírito. 

A paternidade de Deus também não significa que haja hierarquia entre as pessoas da Trindade ou que um seja superior e mais importante que os outros. Trata-se de um Único Deus, que subsiste eternamente em três pessoas. Deus é pai desde a eternidade, porque o Filho sempre existiu e não se tornou Filho de Deus em um determinado tempo. 

3. O Pai gerou o Filho. Da forma que o comentarista colocou no título: “O Pai gerou o Filho”, fica a impressão de que o pai deu origem ao Filho em algum momento, exatamente como ensinava o Arianismo, embora no comentário ele afirma que “a geração do Filho não implica criação; Ele sempre existiu com o Pai, com a mesma essência. A afirmação correta seria: O Filho é gerado do Pai, pois Ele é eterno e nunca teve princípio. 

O Credo Niceno-Constantinopolitano, formulado nos Concílios de Nicéia (325) e Constantinopla (381), afirma sobre o Filho:

“Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não criado, consubstancial ao Pai; por meio dele todas as coisas foram feitas.”

O Filho de Deus é gerado do Pai eternamente. Ele é gerado do Pai, e não foi gerado, e esta geração não implica criação. Ele sempre existiu com o Pai, possuindo a mesma essência. Por isso, a afirmação correta é: “O Filho é gerado do Pai, pois Ele é eterno e nunca teve princípio.”

O professor Tiago Rosas explica [veja o vídeo aqui] que há três sentidos possíveis para a geração do Filho:

a) Natureza divina. O Credo de Atanásio afirma:

“O Filho não é feito, nem criado, mas eternamente gerado.”

Isso significa que o Filho é da mesma natureza do Pai. Neste sentido, diz-se corretamente que o Filho é “gerado do Pai” e não “gerado pelo Pai”, enfatizando a eternidade e a igualdade da divindade.

b) Encarnação. Na encarnação, Jesus foi gerado pelo Espírito Santo no ventre de Maria:

“O que nela foi gerado é do Espírito Santo.” (Mateus 1:20).

É importante destacar que, neste caso, foi gerado Jesus como homem, e não o Filho eterno. Por isso, a Igreja Católica incorre em erro ao chamar Maria de “Mãe de Deus”, pois ela é mãe de Jesus como homem, e não do Filho eterno. Como Deus, Jesus é eterno e Criador de Maria.

c) Exaltação. Após a ressurreição, Jesus foi declarado Filho pelo Pai, coroado como Rei dos reis e recebeu um Nome que está acima de todo nome. É a esta geração que se refere o Salmo 2.7:

“Tu és meu Filho; hoje te gerei.” (Sl 2:7).

Neste contexto, “gerar” não significa início da existência do Filho, mas declaração pública, entronização e investidura messiânica. O apóstolo Paulo interpreta o texto desta forma:

“E nós vos anunciamos que a promessa que foi feita aos pais, Deus a cumpriu a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus; como também está escrito no salmo segundo: ‘Meu Filho és tu, hoje te gerei’.” (Atos 13:32-33). 

O Filho é eternamente gerado do Pai em sua divindade, gerado pelo Espírito Santo na encarnação como homem, e declarado Filho em sua exaltação após a ressurreição, cumprindo o Salmo 2.7 como investidura messiânica.

4. O Pai nos concede o Espírito. Também é preciso ter cuidado com o termo “origem” em relação ao Espírito Santo. Dizer que o Espírito Santo tem origem no Pai não significa que Ele foi criado ou que teve um começo no tempo. Refere-se, sim, a uma relação eterna dentro da Trindade, pois, assim como o Pai e o Filho, o Espírito Santo também é eterno, visto que Ele é Deus (At 5.3-4).

O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, no sentido de que Ele vem da parte do Pai, enviado pelo Filho:

“Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, esse dará testemunho de mim.” (Jo 15.26)

O verbo “proceder” (do grego ekporeuetai) indica origem relacional e não significa que o Espírito Santo teve começo no tempo. Assim como “gerar” em relação ao Filho de Deus não significa que Ele teve princípio, a procedência do Espírito Santo descreve a relação eterna dentro da Trindade. 

Ev. WELIANO PIRES 

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