(Comentário do 3º tópico da Lição 3: O Pai enviou o Filho)
No terceiro tópico, estudaremos a participação das Pessoas da Santíssima Trindade no plano da salvação. A obra salvífica é resultado da perfeita harmonia entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
Primeiramente, veremos que o Pai enviou o Filho ao mundo com o propósito de salvar a humanidade. A vontade do Pai foi cumprida plenamente pelo Filho, em perfeita e voluntária obediência. Jesus Cristo humilhou-se a Si mesmo, assumindo a natureza humana, e entregou-se em sacrifício vicário para a redenção dos pecadores.
Em seguida, destacaremos a mediação exclusiva do Filho. Jesus Cristo é o único caminho pelo qual o ser humano pode chegar ao Pai. Ele foi enviado por Deus para reconciliar o pecador consigo mesmo, uma vez que o pecado causa separação entre o homem e Deus, que é absolutamente santo.
Por fim, trataremos da atuação do Espírito Santo na aplicação da salvação. Enviado pelo Pai e pelo Filho, o Espírito Santo convence os seres humanos do pecado, da justiça e do juízo, revelando-lhes sua condição espiritual e conduzindo-os a Jesus Cristo, o único que pode livrá-los da condenação eterna.
1. A vontade do Pai realizada pelo Filho. No texto de João 6.38–40, Jesus declara:
“Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: que nenhum de todos aqueles que me deu eu perca, mas que o ressuscite no último dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: que todo aquele que vê o Filho e crê nele tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.”
Esse texto revela verdades teológicas profundas acerca da Pessoa e da missão de Cristo, as quais foram amplamente discutidas ao longo da história da Igreja.
a) A preexistência do Filho. Quando Jesus afirma que “desceu do céu”, Ele aponta para a sua preexistência eterna com o Pai. O Filho não começa a existir em Belém, mas existe desde toda a eternidade. Para compreender essa afirmação, é fundamental recorrer a João 1.1, que declara:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”
Assim, Jesus é o Verbo eterno, que estava com Deus e é Deus, e que, em determinado momento da história, entrou no mundo por meio da encarnação.
b) A dupla natureza de Jesus. Jesus possui dupla natureza: é verdadeiramente divino, da mesma natureza do Pai, e verdadeiramente humano, tendo assumido a natureza humana sem a corrupção do pecado. Como Deus, Ele compartilha plenamente a mesma vontade divina do Pai. Contudo, ao se encarnar, assumiu também uma vontade humana real.
Dessa forma, quando Jesus fala da vontade do Pai e da sua própria vontade, Ele o faz enquanto homem, no contexto de sua missão redentora. Isso não implica divisão interna ou oposição, pois não há duas pessoas em Jesus, como ensinava erroneamente o nestorianismo, mas uma única pessoa, o Filho eterno de Deus.
Também não existe conflito entre a vontade do Pai e a vontade humana de Jesus. Pelo contrário, a vontade humana de Cristo foi perfeitamente e livremente submissa à vontade divina do Pai. Como o Novo Adão, Jesus obedeceu plenamente, realizando de modo perfeito aquilo que a humanidade falhou em cumprir.
c) A vontade do Pai é salvar e preservar. Jesus recebeu do Pai a missão de salvar os perdidos e preservá-los na fé. A vontade do Pai, conforme revelada nas Escrituras, é salvífica e se expressa no chamado universal à fé em Cristo.
Algumas correntes teológicas, como o calvinismo clássico, afirmam que Deus não amou a todos, não deseja salvar a todos e que não há possibilidade de alguém perder a salvação. Contudo, há textos bíblicos que apontam para uma compreensão mais ampla da vontade salvífica de Deus:
1. Deus amou a todos. “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3.16)
2. Deus deseja salvar a todos. “Pois isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” (1Tm 2.3–4)
3. A perseverança na fé é necessária. “Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos anunciei, o qual também recebestes e no qual ainda perseverais; pelo qual também sois salvos, se o retiverdes tal como vo-lo anunciei, a menos que tenhais crido em vão.” (1Co 15.1–2)
Concluímos, portanto, que Jesus Cristo, o Filho de Deus, ao tomar a forma humana, cumpriu perfeitamente a vontade salvífica do Pai, chamando todos os seres humanos à fé, concedendo vida eterna aos que creem e prometendo a ressurreição final àqueles que perseveram até o fim.
2. A mediação exclusiva do Filho.
“Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Jo 14.6).
Essa afirmação revela a exclusividade de Cristo na obra da salvação. Jesus não se apresenta como um caminho entre muitos, mas como o único caminho que conduz o ser humano a Deus.
Essa mesma verdade foi proclamada pelos apóstolos. Quando Pedro foi interrogado pelas autoridades judaicas, após a cura do coxo à porta do templo, afirmou com ousadia que somente Cristo pode salvar:
“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.” (At 4.12)
O apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, reforça essa doutrina ao declarar:
“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.” (1Tm 2.5)
Esse texto destaca a humanidade real de Cristo como elemento essencial de sua mediação. Somente alguém que fosse verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem poderia fazer a ponte entre Deus e a humanidade caída. Como homem perfeito, Jesus representou a humanidade diante de Deus; como Deus verdadeiro, seu sacrifício possui valor eterno e suficiente.
A Epístola aos Hebreus aprofunda essa compreensão ao apresentar Cristo como o cumprimento pleno de todas as figuras, sacrifícios e rituais do Antigo Testamento. Em Hebreus 9.15, lemos:
“E por isso é Mediador de um Novo Testamento, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia debaixo do primeiro testamento, os chamados recebam a promessa da herança eterna.”
Assim, Jesus é o Mediador da Nova Aliança, estabelecida não com sangue de animais, mas com o seu próprio sangue, oferecendo redenção completa e definitiva.
À luz desses textos, a Escritura ensina de maneira clara e suficiente que Jesus Cristo, o Filho de Deus que se fez homem, é o único Salvador e Mediador entre Deus e a humanidade. Não há possibilidade de perdão dos pecados, reconciliação com Deus ou vida eterna fora de Cristo.
Portanto, ascendência religiosa, boas obras, observâncias rituais, sofrimentos pessoais ou qualquer outro mérito humano são incapazes de produzir salvação. A salvação é oferecida exclusivamente em Cristo, pela graça de Deus, e recebida mediante a fé (Ef 2.8–9).
3. A aplicação da salvação pelo Espírito.
“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre.” (Jo 14.16)
A palavra grega traduzida por “outro”, neste texto, é állos, que significa “outro da mesma natureza”. Ela difere de héteros, que se refere a “outro de natureza diferente”, como ocorre em termos como heterogêneo, heterodoxo e heterossexual. O “outro” prometido por Jesus, portanto, é alguém igual a Ele em essência, natureza divina, caráter e poder, embora distinto em Pessoa, refutando, assim, as interpretações unicistas que negam a distinção pessoal na Trindade.
A palavra grega parákletos, traduzida por Consolador, é formada por dois termos: pará (ao lado de) e kaléō (chamar, convocar). O termo designa alguém chamado para estar ao lado de outro com o propósito de ajudar, defender, interceder ou advogar, especialmente em um contexto jurídico. Assim, o Espírito Santo é apresentado como Aquele que foi enviado pelo Pai, a pedido do Filho, para dar continuidade à obra de Cristo na vida dos crentes e na missão da Igreja.
Na continuidade do capítulo 14 do Evangelho de João, Jesus descreve algumas ações específicas do Espírito Santo na vida dos seus discípulos:
a) O Espírito da Verdade (Jo 14.17a). Essa expressão indica que a atuação do Espírito Santo é sempre plenamente coerente com a verdade revelada por Deus. Ele é o inspirador das Escrituras e jamais se contradiz. Portanto, todo ensino, profecia ou manifestação espiritual que contrarie a Palavra de Deus não procede do Espírito Santo.
b) O mundo não o pode receber (Jo 14.17b). O Espírito da Verdade habita apenas naqueles que receberam a Cristo pela fé. Não há base bíblica para a ideia de que uma pessoa que permanece em estado de impiedade, rejeição consciente da verdade ou heresia deliberada seja habitação do Espírito Santo. Sua presença é consequência da regeneração operada por Deus.
c) Ele ensina e faz lembrar (Jo 14.26). O Espírito Santo, possuindo os mesmos atributos divinos do Filho, exerce também a função de Mestre. Ele ensina os crentes e os capacita a compreender as Escrituras, especialmente para o cumprimento da missão evangelizadora. Além disso, Ele faz lembrar os ensinamentos de Jesus. Tal ministério não elimina a necessidade do estudo diligente da Palavra, pois ninguém pode ser lembrado daquilo que nunca aprendeu.
O Espírito Santo atua também no mundo, convencendo os pecadores de sua condição espiritual e da necessidade de um Salvador, que é Jesus Cristo. No capítulo 16 do Evangelho de João, o Senhor detalha essa atuação do Consolador:
“E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo.” (Jo 16.8)
1) Convencerá o mundo do pecado. O Espírito Santo age de forma eficaz no coração humano, levando o pecador a compreender sua condição de separação de Deus. Por essa razão, nenhuma técnica ou estratégia humana pode substituir a ação do Espírito Santo na obra da salvação. Sem Sua atuação, ninguém pode ser verdadeiramente convertido.
2) Convencerá o mundo da justiça. O Espírito Santo convence o mundo da perfeita justiça de Cristo, demonstrando que somente por meio da fé nEle o ser humano pode ser justificado diante de Deus. Ninguém será salvo por mérito próprio, por obras, sacrifícios pessoais ou sofrimentos humanos.
3) Convencerá o mundo do juízo. O Espírito Santo também convence o mundo acerca do juízo. Jesus explica:
“Porque o príncipe deste mundo já está julgado.” (Jo 16.11)
Essa afirmação refere-se ao julgamento de Satanás, cuja sentença foi decretada na obra redentora de Cristo e será plenamente executada no fim dos tempos. Refere-se também ao juízo sobre o pecado, cuja penalidade foi assumida por Jesus na cruz. Ali, Ele derrotou a morte e garantiu aos que creem a vitória sobre o pecado e a condenação eterna.
Há ainda muitas outras ações realizadas pelo Espírito Santo, que serão estudadas com maior profundidade nas lições referentes à Sua Pessoa e Obra. Neste estudo, restringimo-nos especificamente à atuação do Espírito Santo no processo da salvação, conforme revelado nas Escrituras.
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