(Comentário do 2º tópico da Lição 8: Emoções e sentimentos — A batalha do equilíbrio interior)
Ev. WELIANO PIRES
No segundo tópico, trataremos da experiência e do controle das emoções. Inicialmente, veremos como o cristão deve reagir e tomar decisões diante das emoções instintivas. Em seguida, estudaremos a relação entre emoções e o pecado. O fato de algumas emoções surgirem de forma espontânea não elimina a possibilidade de se tornarem pecaminosas quando não são submetidas à vontade de Deus.
Ao final, destacaremos também o aspecto positivo das emoções. Mesmo as emoções incômodas — como medo, tristeza ou indignação — podem gerar benefícios para a vida espiritual, emocional e relacional quando disciplinadas pelo Espírito Santo.
1. Reação e decisão.
No tópico anterior, vimos que Deus nos criou com a capacidade de ter emoções instintivas como reações ao que nos acontece, preparando o corpo para se defender ou fugir de perigos. Essas emoções são involuntárias e não são pecados em si mesmas. Porém, embora as emoções sejam instintivas e esteja fora do nosso controle senti-las ou não, temos a responsabilidade de decidir como nos comportar diante delas.
O comentarista usou como exemplo a ira, que é uma emoção natural de todo ser humano. Mas ela pode se transformar em pecado se for duradoura e se transformar em ódio. O apóstolo Paulo, escrevendo aos Efésios, disse:
“Irai-vos e não pequeis” (Ef 4.26).
Essa recomendação do apóstolo Paulo deixa claro que o fato de alguém ficar irado não significa que pecou. A palavra grega traduzida por irai-vos neste texto é orgízō, derivada de orgḗ, que significa agitação da alma, impulso, desejo, raiva, ira, indignação ou qualquer emoção intensa.
Há também a palavra grega thymós, traduzida em Colossenses 3.8 por indignação ou cólera. Refere-se a uma paixão, raiva, fúria ou ira que surge de forma imediata e logo se acalma. O fato de alguém ficar irado diante de alguma injustiça ou maldade cometida não é pecado; é, na verdade, um senso de justiça.
Quem não fica indignado ao ver uma pessoa inocente ser agredida ou assassinada? Quem não fica irado ao ver sua casa recém-pintada ser pichada por um vândalo durante a madrugada? Ou alguém que tem o seu carro destruído por um motorista inconsequente, bêbado, em alta velocidade? Esse tipo de atitude naturalmente nos causa indignação.
O próprio Deus se ira contra o pecado, e sua ira é justa. A Bíblia afirma que a ira de Deus se manifesta contra aqueles que suprimem a verdade e praticam o mal:
“Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça” (Rm 1.18).
Se não podemos evitar que a ira nos alcance diante das injustiças e maldades que nos fazem, podemos e devemos evitar que essa ira se transforme em ódio e produza uma raiz de amargura em nosso interior. Isso seria dar lugar ao diabo, como escreveu o apóstolo Paulo em Efésios 4.27: “Não deis lugar ao diabo”.
2. Emoção e pecado.
Quando o pecado entrou no mundo, toda a estrutura interior do ser humano foi profundamente afetada. Nada ficou intocado — nem mesmo as nossas emoções. Aquilo que Deus criou para ser expressão pura da alma passou a ser, muitas vezes, influenciado pela natureza caída. Por isso, algumas emoções que experimentamos podem revelar áreas do coração ainda não totalmente rendidas ao Senhor.
A Palavra de Deus nos alerta sobre isso. Em Gálatas 5.19-21, o apóstolo Paulo descreve as obras da carne, e muitas delas tocam diretamente nossos relacionamentos: inimizades, ciúmes, iras, discórdias, divisões e invejas. São sentimentos que brotam quando as emoções não estão debaixo do governo do Espírito Santo.
O comentarista nos lembra que o orgulho, por exemplo, abre espaço para reações emocionais como ira, rejeição e hostilidade. Da mesma forma, o egoísmo alimenta ciúmes, inveja e desprezo pelos outros. Caim é um triste exemplo disso: movido pela inveja, não suportou ver seu irmão Abel sendo aprovado por Deus. A inveja não quer necessariamente possuir o que o outro tem; ela simplesmente se irrita porque o outro recebeu algo que não recebeu.
Outro exemplo é Nabal, marido de Abigail. Um homem duro, arrogante e ingrato, cujas atitudes provocaram a indignação de Davi (1Sm 25.10-11). Sua postura quase trouxe morte sobre toda a sua casa, não fosse a intervenção humilde e sábia de Abigail.
Esses exemplos nos ensinam que as emoções não tratadas podem nos conduzir a decisões ímpias e destrutivas. Por isso, cada dia é uma oportunidade para entregarmos o nosso coração ao Senhor e permitir que Ele nos purifique, produzindo sentimentos nobres em nosso interior. Quando entregamos o nosso coração a Ele, o Espírito Santo produz em nós as virtudes do Fruto do Espírito.
3. O aspecto positivo das emoções.
O nosso corpo produz muitas sensações físicas que funcionam como sinais constantes, mostrando como estamos por dentro e ajudando-nos a tomar decisões importantes para o nosso bem-estar. No lado emocional, acontece algo parecido: as emoções também têm um papel positivo e servem para nos proteger e orientar. Mesmo aquelas que parecem desagradáveis ou sem importância têm funções essenciais para a nossa vida.
As emoções preparam o corpo para agir em diferentes situações, sejam elas boas ou ruins, assim como as sensações físicas nos avisam quando algo não está bem. Dessa forma, corpo e emoções trabalham juntos para cuidar de nós.
Por exemplo, quando sentimos medo, o cérebro libera rapidamente um hormônio chamado adrenalina, que prepara o corpo para agir em situações de perigo, estresse ou emoção intensa. Nesses momentos, a pessoa pode encontrar força para saltar um muro alto ou velocidade para correr, algo que não teria em uma situação de calmaria. O medo também nos ajuda a perceber riscos e a tomar os cuidados necessários. Por isso, uma pessoa alcoolizada ou sob efeito de drogas, que tem essa emoção prejudicada, pode não perceber os riscos e se expor ao perigo.
No entanto, é preciso ter cuidado com o medo imaginário e com as fobias. Nesses casos, o medo deixa de cumprir sua função natural de proteção e se torna um sofrimento constante. Em vez de ajudar a pessoa a se manter segura, ele começa a atrapalhar o dia a dia, criando limitações que nem sempre correspondem a um perigo real.
Quando isso acontece, atividades simples e importantes — como falar em público, sair de casa, entrar em um elevador, andar de avião ou estar em ambientes com muitas pessoas — podem se tornar grandes desafios. O corpo reage como se estivesse diante de uma ameaça verdadeira, mesmo que, racionalmente, a pessoa saiba que não há motivo para tanto.
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