31 dezembro 2025

A DISTINÇÃO E A UNIDADE DAS PESSOAS DIVINAS

(Comentário do 2º tópico da Lição 01: O mistério da Santíssima Trindade)

Neste segundo tópico, trataremos da distinção e da unidade das Pessoas da Santíssima Trindade. Inicialmente, afirmaremos a unidade divina, ressaltando que Deus é uma só essência (ousia), única e indivisível. Ao mesmo tempo, destacaremos a distinção pessoal, visto que essa única essência subsiste eternamente em três Pessoas (hipóstases): o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Em seguida, abordaremos a pluralidade das Pessoas divinas no Antigo Testamento. Embora a doutrina da Trindade não seja ali revelada de forma plena e explícita, diversos textos veterotestamentários apontam para uma pluralidade no ser divino, sem que isso comprometa a unidade de Deus.

Por fim, analisaremos a revelação clara da Trindade no Novo Testamento, especialmente por meio da fórmula batismal trinitária (Mt 28.19), da bênção apostólica (2Co 13.13) e da atuação conjunta das três Pessoas da Santíssima Trindade na obra da salvação.

1. Unidade e distinção pessoal.

Aqui, o comentarista nos apresenta a premissa fundamental da doutrina da Trindade: a afirmação de que Deus é uma só essência (gr. ousía), mas subsiste em três pessoas distintas (gr. hypóstasis): o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Em outras palavras, há um só Deus e três pessoas.

A Bíblia demonstra essa verdade de forma clara em diversos textos. No Antigo Testamento, vemos explicitamente a unidade de Deus. Mesmo após o advento do pecado, os filhos de Adão adoravam a um único Deus (Gn 4.3-5). Somente com a multiplicação do pecado o mundo afastou-se de Deus e tornou-se politeísta. Nos dias de Noé, apenas ele e sua família serviam ao Senhor.

O Deus de Israel é único e não admite outros deuses. No Decálogo, há a expressa proibição da adoração a outros deuses:

“Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra” (Êx 20.3,4).

Em Deuteronômio 6.4, que constitui a confissão de fé do judaísmo, Yahweh também é apresentado a Israel como o único Deus verdadeiro:

“Ouve, Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR.”

Entretanto, na mesma Bíblia, vemos que não apenas o Pai, mas também o Filho e o Espírito Santo são chamados de Deus. Com relação ao Pai, não há dúvidas, pois Ele é chamado de Deus em toda a Escritura. Contudo, em João 1.1, o apóstolo João afirma: “[…] o Verbo era Deus”, referindo-se ao Filho.

No livro de Atos dos Apóstolos 5.3,4, Pedro repreendeu Ananias, dizendo:

“[…] Por que encheu Satanás o teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo […]? Não mentiste aos homens, mas a Deus.”

Ou seja, quem mente ao Espírito Santo mente a Deus, pois Ele é Deus.

A Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil, no capítulo III, que trata da doutrina da Trindade, afirma:

“Cremos, professamos e ensinamos o monoteísmo bíblico, que Deus é uno em essência ou substância, indivisível em natureza e que subsiste eternamente em três pessoas — o Pai, o Filho e o Espírito Santo —, iguais em poder, glória e majestade e distintas em função, manifestação e aspecto […]. As Escrituras Sagradas claramente revelam que a Trindade é real e verdadeira: uma só essência, uma só substância, em três pessoas. Cada pessoa da Santíssima Trindade possui todos os atributos divinos: onipotência, onisciência, onipresença, soberania e eternidade. A Bíblia chama textualmente de Deus cada uma delas; contudo, as Escrituras Sagradas afirmam que há um só Deus e que Deus é um” (1Co 8.6; Gl 3.20; Ef 4.6).”

2. A Pluralidade na Unidade no Antigo Testamento. Embora a doutrina da Trindade não seja revelada diretamente no Antigo Testamento, visto que a revelação tanto do Filho quanto do Espírito Santo ocorre de maneira plena apenas no Novo Testamento, há várias evidências da pluralidade das Pessoas divinas dentro da unidade de Deus no Antigo Testamento.

Logo no primeiro versículo da Bíblia, a Trindade já se faz presente:

“No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1).

No texto em português, essa realidade não é facilmente perceptível; entretanto, no texto hebraico ela se torna evidente. O termo traduzido por “Deus” nesse versículo é Elohim. Em hebraico, a palavra “Deus” é El, e sua variação é Elohah. Elohim é o plural de Elohah.

O verbo “criou”, no texto hebraico, é bará e encontra-se no singular. Ou seja, o sujeito está no plural, enquanto o verbo está no singular. Em português, isso configuraria um erro de concordância verbal, pois, em nossa gramática, o verbo concorda com o sujeito. Dessa forma, a explicação mais coerente é que Elohim, embora plural, expressa uma unidade composta, apontando para a Trindade.

Embora a palavra Elohim também seja entendida por estudiosos judeus como um “plural de majestade”, à luz da revelação progressiva das Escrituras, principalmente no Novo Testamento, essa explicação não exclui a evidência da pluralidade das pessoas divinas na palavra Elohim. 

Há ainda, no Antigo Testamento, diálogos divinos, como no relato da criação do homem e no episódio da construção da Torre de Babel, nos quais Deus utiliza verbos e pronomes no plural para referir-se a Si mesmo. Quando Deus criou o homem, disse:

“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1.26).

Tanto o verbo “façamos” quanto o pronome “nossa” estão no plural.

Da mesma forma, quando homens ímpios intentaram construir a Torre de Babel, Deus declarou:

“Eia, desçamos e confundamos ali a sua língua, para que não entenda um a língua do outro” (Gn 11.7).

Com quem Deus estaria falando ao empregar os verbos “desçamos” e “confundamos” na primeira pessoa do plural? A única explicação coerente é que se trata de um diálogo entre as Pessoas da Santíssima Trindade. Esse plural não pode ser atribuído aos anjos, pois o ser humano foi criado à imagem de Deus, e não de seres criados (Gn 9.6). Além disso, o próprio texto afirma que Deus criou o homem, reforçando a unidade da ação divina (Gn 1.27).

O mesmo ocorre na chamada do profeta Isaías. Após um dos serafins voar até ele e tocar-lhe os lábios com uma brasa retirada do altar, declarando que o seu pecado fora purificado, Isaías ouviu a voz do Senhor, que dizia:

“A quem enviarei? E quem há de ir por nós?” (Is 6.8).

Nesse texto, o verbo “enviarei” está no singular, enquanto o pronome “nós” está no plural, evidenciando que Deus é uma unidade em essência, mas subsiste em três Pessoas.

3. A Trindade Explicitada no Novo Testamento. Se, por um lado, o Antigo Testamento não apresenta uma formulação explícita da doutrina da Trindade, mas apenas indícios e evidências da doutrina da Santíssima Trindade, o Novo Testamento afirma, de maneira inequívoca, a existência de um único Deus que subsiste eternamente em três Pessoas distintas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo (Mt 28.19).

Vários textos do Novo Testamento demonstram claramente a distinção das três Pessoas da Trindade. O primeiro deles é o texto da Grande Comissão, em Mateus 28.19, que diz:

“Ide, ensinai todas as nações, batizando-as em Nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.

Neste versículo, vemos a pluralidade das Pessoas divinas sendo explicitada. O uso do singular "Nome" (e não "nomes") indica a unidade da essência divina, enquanto a pluralidade das Pessoas é claramente apresentada.

Outro texto significativo é 1 Coríntios 12.4-6, que fala da distribuição dos dons espirituais e diz:

“Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos.”

Neste texto, temos uma referência direta às três Pessoas: o Espírito Santo, o Senhor (Jesus Cristo) e Deus (o Pai), demonstrando a ação conjunta de cada uma das Pessoas da Trindade no corpo de Cristo e na edificação da Igreja.

Além disso, em 2 Coríntios 13.13 (ou 14, dependendo da versão), encontramos a bênção apostólica que reafirma a Trindade:

“A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a comunhão do Espírito Santo seja convosco.”

Aqui, novamente, vemos as três Pessoas divinas sendo mencionadas com funções distintas, mas sempre em unidade.

Em todos esses textos, está clara a existência das três Pessoas divinas, mas não há confusão entre elas. O Novo Testamento deixa patente que, embora Pai, Filho e Espírito Santo sejam três Pessoas distintas, elas são um só Deus. Essa distinção entre as três Pessoas da Santíssima Trindade está amplamente documentada em diversos acontecimentos do Novo Testamento, os quais demonstram que, embora sejam pessoas distintas, não são deuses diferentes.

A primeira distinção clara entre as três Pessoas da Trindade pode ser observada no batismo de Jesus (Mt 3.16-17; Mc 1.9-11; Lc 3.21-22). Neste episódio, o Filho é batizado, o Pai fala do Céu, e o Espírito Santo desce em forma de pomba sobre Jesus. Este é um exemplo claro de uma manifestação simultânea das três Pessoas divinas, cada uma com um papel distinto, mas em plena harmonia.

Outro exemplo claro de distinção entre as Pessoas é encontrado na Oração Sacerdotal de Jesus em João 17, onde o Filho se dirige ao Pai, confirmando que são duas Pessoas distintas. Ele diz:

“Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer. E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse.” (Jo 17.4,5).

Aqui, Jesus não está falando consigo mesmo, mas com o Pai. Ele enfatiza que antes da fundação do mundo, o Pai e Ele já existiam como duas Pessoas distintas, e essa relação é uma expressão de união e distinção.

Além disso, nos discursos de Jesus, especialmente na promessa do envio do Consolador (o Espírito Santo), Ele menciona novamente as três Pessoas da Trindade:

“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (Jo 14.16-17).

Neste versículo, Jesus está claramente diferenciando a si mesmo como o Filho, rogando ao Pai (não a Si mesmo) e prometendo o envio do Espírito Santo. Isso revela não apenas a distinção das Pessoas, mas também o relacionamento entre elas no plano de redenção.

Há muitas outras referências bíblicas que afirmam a distinção entre as Pessoas da Trindade, como em João 15.26, onde Jesus fala novamente sobre o Espírito Santo, e em várias epístolas paulinas (cf. Ef 1.3-14; 2Co 1.21-22). A ideia de que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três Pessoas distintas, mas um só Deus, é uma doutrina central no Novo Testamento.

Ev. WELIANO PIRES

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