22 março 2025

A QUESTÃO ATUAL

(Comentário do 3º tópico da Lição 12: A Igreja tem uma natureza organizacional). 

Ev. WELIANO PIRES 

No terceiro tópico, falaremos da necessidade de organização da Igreja nos dias atuais. Inicialmente falaremos da Igreja como organismo e como organização, mostrando que um não exclui o outro. Na sequência falaremos da experiência do Movimento Pentecostal, que surgiu em um contexto de contestação da Igreja como organização, mas, pouco tempo depois, alguns viram a necessidade de se organizar para evitar o crescimento desordenado. Por último, falaremos da necessidade que a Igreja tem de se organizar, para cumprir a sua missão, tomando como exemplo a história da Assembléia de Deus. 

1. Organismo e organização. Este subtópico ficou um pouco desconexo no início. Isso vem acontecendo bastante neste trimestre, provavelmente, no momento de resumir o que está no livro de apoio, para o texto da revista. O texto diz: “A ideia é de que a igreja deve se restringir a um local onde as pessoas se reúnem para adorar a Deus, estudar a Palavra, pregar o evangelho, orar e celebrar as ordenanças eclesiásticas.” De qual idéia ele está falando? Não ficou muito claro, pelo menos para mim, pelo texto da revista, o que o comentarista quis dizer aqui. É possível que ele esteja falando da ideia da Igreja como organização. 

Conforme falamos no tópico anterior, embora a Igreja não existisse como pessoa jurídica no primeiro século, pois isso ainda não existia, ela trazia características de uma organização. Havia lideranças, reuniões de obreiros, concílio de pastores para debater questões doutrinárias, arrecadação de ofertas, diáconos, missionários, cartas de recomendação, disciplina, envio de obreiros, etc. Não é possível realizar tudo isso, se não houver uma organização com funções estabelecidas, mesmo não sendo uma organização registrada oficialmente. 

A institucionalização da Igreja não foi algo que aconteceu de uma vez, como muitos imaginam. Aos poucos, conforme as mudanças ocorriam na sociedade, surgia a necessidade da Igreja também se organizar para atender às demandas dos seus membros e se adequar às transformações da sociedade. Nos primeiros anos após o Pentecostes, os cristãos frequentavam o templo judaico e as sinagogas. Com as perseguições dos judeus, passaram a se reunir apenas nas casas. Tudo o que havia de liderança eram os apóstolos, mas estes se dedicavam apenas à oração e ao ensino da Palavra. 

Com o crescimento vertiginoso do números de cristãos, foram surgindo outros problemas e necessidades de resolvê-los, como no caso das viúvas dos gentios, que foram deixadas de lado e houve murmuração. Deste problema, surgiu a necessidade da Igreja instituir os diáconos (At 6.1-4). Depois, com as viagens missionárias de Barnabé e Paulo, as novas Igrejas implantadas tinham outros formatos de liderança como os bispos e presbíteros (At 14.23). Em Atos 15, vemos a necessidade da Igreja realizar um concílio para discutir questões doutrinárias, que contou com a participação dos apóstolos e anciãos (presbíteros). 

Com a conversão do imperador Constantino, cessaram as perseguições e o Cristianismo se tornou a religião oficial do império. A partir daí, muitas mudanças ocorreram na Igreja, de acordo com as necessidades e as mudanças ocorridas no mundo. A Igreja de Roma reivindicou para si a primazia e acabaram criando a figura do Papa. A Igreja romana acabou se misturando ao estado e se tornou poderosa. Isso trouxe o desvirtuamento do papel da Igreja e houve muitos abusos de autoridade. 

Claro que sempre houve cristãos que se posicionaram contra, mas foram perseguidos e até mortos. Isso perdurou por muitos séculos, até o período da Reforma Protestante. Depois da Reforma, os reformadores adotaram o seu próprio modelo de instituição, de acordo com o seu entendimento da Bíblia. Mas ainda trouxeram muita coisa do Catolicismo neste aspecto. Os reformadores se dividiram entre si, quanto à forma batismal, o significado da Ceia do Senhor e a forma de governo eclesiástico. Por isso, surgiram muitas denominações, conforme o entendimento de cada líder nestas questões. 

A organização da Igreja como vimos até aqui é indispensável, pois nada desorganizado funciona. É preciso haver liderança, unidade doutrinária, planejamento de ações, distribuição de atividades, arrecadação e administração dos recursos, etc. Sem isso, nenhum movimento se sustenta. Atualmente, a organização de uma Igreja não é apenas uma questão opcional. A própria legislação brasileira exige que uma Igreja tenha CNPJ e alvará de funcionamento. Para isso, precisa ter o seu estatuto e os responsáveis pela administração da Igreja. 

2. A experiência pentecostal. A Reforma Protestante se espalhou por vários países e, com isso, surgiram as chamadas Igrejas Protestantes, que romperam com o Catolicismo Romano. Os anos foram passando e as Igrejas Protestantes, como eram lideradas por homens falíveis, enquanto organização, também tinham os seus problemas institucionais. Surgiram, então, vários movimentos dentro delas, como o Puritanismo, o Movimento da Santidade ou Movimento Holiness, entre outros. Neste contexto, havia um clima de descontentamento e contestação às denominações. O Movimento Pentecostal surgiu neste contexto. 

Charles Fox Parham (1873–1929), pastor metodista e pregador americano, considerado um dos principais pioneiros do pentecostalismo moderno, tinha uma posição antidenominacionalista. Em 1895, ele rompeu com a Igreja Metodista e iniciou um movimento de estudos bíblicos, chamado Missão da Fé Apostólica (Apostolic Faith Mission). Um dos seus alunos, William Seymour, iniciou o Movimento Pentecostal da Rua Azuza, em Los Angeles e partir daí, vários missionários saíram pelo mundo pregando a mensagem pentecostal. Os primeiros missionários pentecostais também não viam com bons olhos a Igreja como uma instituição. 

3. É necessário organizar. No final de 1910, dois jovens suecos que viviam nos Estados Unidos, que eram ligados à Igreja Batista dos Estados Unidos, aderiram ao Movimento Pentecostal e vieram ao Brasil como missionários independentes, sem serem enviados pela Igreja. Inicialmente, procuraram a Igreja Batista de Belém/PA e foram congregar lá. Entretanto, a sua fé na atualidade dos dons espirituais incomodou a liderança da Igreja e eles foram expulsos com outros 19 irmãos, que concordaram com a pregação deles. 

A partir desta expulsão, começaram a realizar cultos na casa da irmã Celina de Albuquerque, que foi a primeira brasileira a receber o batismo no Espírito Santo. O novo trabalho iniciado recebeu o nome de Missão da Fé Apostólica, o mesmo nome do Movimento Pentecostal dos Estados Unidos. 

O avanço do Movimento Pentecostal nos Estados Unidos com o sentimento antidenominacionista de Charles Fox Parham e de outros pentecostais, trouxe vários problemas ao Movimento, entre eles o Unicismo. Por conta disso, os pentecostais entenderam que era o momento de rever este modelo e realizaram o Concílio das Assembléias de Deus nos Estados Unidos, que resultou na primeira declaração de fé, em 1917. 

No Brasil, os missionários seguiram a mesma linha e em 1918, adotaram o nome Assembléia de Deus, seguindo o modelo americano. A chama pentecostal se espalhou pelo Brasil a partir do Pará, chegou ao Nordeste e alcançou as outras regiões do Brasil. Neste período, a liderança da Igreja permaneceu com os missionários suecos. Mas havia um movimento de pastores brasileiros que desejavam que houvesse maior participação dos obreiros nacionais. A partir daí, em 1930, foi criada a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil e a liderança da Igreja foi passada aos pastores brasileiros. 


REFERÊNCIAS:
SOARES, Esequias. Em defesa da Fé Cristã: Combatendo as antigas heresias que se apresentam com nova aparência. RIO DE JANEIRO: CPAD, 1ª Ed. 2025. 
Revista Ensinador Cristão. RIO DE JANEIRO: CPAD, Ed. 100, 2025, p. 42.
Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. 1ª Edição. RIO DE JANEIRO: CPAD, 2013, pp.1718,1719, 1720, 1721.
GONÇALVES, José: O Corpo de Cristo: Origem, Natureza e a Vocação da Igreja no Mundo. RIO DE JANEIRO: CPAD, 1ª Ed. 2023.


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