17 janeiro 2026

A TRINDADE NO PLANO DA SALVAÇÃO

(Comentário do 3º tópico da Lição 3: O Pai enviou o Filho)

No terceiro tópico, estudaremos a participação das Pessoas da Santíssima Trindade no plano da salvação. A obra salvífica é resultado da perfeita harmonia entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Primeiramente, veremos que o Pai enviou o Filho ao mundo com o propósito de salvar a humanidade. A vontade do Pai foi cumprida plenamente pelo Filho, em perfeita e voluntária obediência. Jesus Cristo humilhou-se a Si mesmo, assumindo a natureza humana, e entregou-se em sacrifício vicário para a redenção dos pecadores.

Em seguida, destacaremos a mediação exclusiva do Filho. Jesus Cristo é o único caminho pelo qual o ser humano pode chegar ao Pai. Ele foi enviado por Deus para reconciliar o pecador consigo mesmo, uma vez que o pecado causa separação entre o homem e Deus, que é absolutamente santo.

Por fim, trataremos da atuação do Espírito Santo na aplicação da salvação. Enviado pelo Pai e pelo Filho, o Espírito Santo convence os seres humanos do pecado, da justiça e do juízo, revelando-lhes sua condição espiritual e conduzindo-os a Jesus Cristo, o único que pode livrá-los da condenação eterna.

1. A vontade do Pai realizada pelo Filho. No texto de João 6.38–40, Jesus declara:

“Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: que nenhum de todos aqueles que me deu eu perca, mas que o ressuscite no último dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: que todo aquele que vê o Filho e crê nele tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.”

Esse texto revela verdades teológicas profundas acerca da Pessoa e da missão de Cristo, as quais foram amplamente discutidas ao longo da história da Igreja.

a) A preexistência do Filho. Quando Jesus afirma que “desceu do céu”, Ele aponta para a sua preexistência eterna com o Pai. O Filho não começa a existir em Belém, mas existe desde toda a eternidade. Para compreender essa afirmação, é fundamental recorrer a João 1.1, que declara:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”

Assim, Jesus é o Verbo eterno, que estava com Deus e é Deus, e que, em determinado momento da história, entrou no mundo por meio da encarnação.

b) A dupla natureza de Jesus. Jesus possui dupla natureza: é verdadeiramente divino, da mesma natureza do Pai, e verdadeiramente humano, tendo assumido a natureza humana sem a corrupção do pecado. Como Deus, Ele compartilha plenamente a mesma vontade divina do Pai. Contudo, ao se encarnar, assumiu também uma vontade humana real.

Dessa forma, quando Jesus fala da vontade do Pai e da sua própria vontade, Ele o faz enquanto homem, no contexto de sua missão redentora. Isso não implica divisão interna ou oposição, pois não há duas pessoas em Jesus, como ensinava erroneamente o nestorianismo, mas uma única pessoa, o Filho eterno de Deus.

Também não existe conflito entre a vontade do Pai e a vontade humana de Jesus. Pelo contrário, a vontade humana de Cristo foi perfeitamente e livremente submissa à vontade divina do Pai. Como o Novo Adão, Jesus obedeceu plenamente, realizando de modo perfeito aquilo que a humanidade falhou em cumprir.

c) A vontade do Pai é salvar e preservar. Jesus recebeu do Pai a missão de salvar os perdidos e preservá-los na fé. A vontade do Pai, conforme revelada nas Escrituras, é salvífica e se expressa no chamado universal à fé em Cristo.

Algumas correntes teológicas, como o calvinismo clássico, afirmam que Deus não amou a todos, não deseja salvar a todos e que não há possibilidade de alguém perder a salvação. Contudo, há textos bíblicos que apontam para uma compreensão mais ampla da vontade salvífica de Deus:

1. Deus amou a todos. “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3.16)

2. Deus deseja salvar a todos. “Pois isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” (1Tm 2.3–4)

3. A perseverança na fé é necessária. “Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos anunciei, o qual também recebestes e no qual ainda perseverais; pelo qual também sois salvos, se o retiverdes tal como vo-lo anunciei, a menos que tenhais crido em vão.” (1Co 15.1–2)

Concluímos, portanto, que Jesus Cristo, o Filho de Deus, ao tomar a forma humana, cumpriu perfeitamente a vontade salvífica do Pai, chamando todos os seres humanos à fé, concedendo vida eterna aos que creem e prometendo a ressurreição final àqueles que perseveram até o fim.

2. A mediação exclusiva do Filho.

Em seus ensinos, Jesus deixou absolutamente claro que Ele é o único meio de acesso ao Pai. Essa verdade fundamental do evangelho é expressa de forma inequívoca quando declarou:

“Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Jo 14.6).

Essa afirmação revela a exclusividade de Cristo na obra da salvação. Jesus não se apresenta como um caminho entre muitos, mas como o único caminho que conduz o ser humano a Deus.

Essa mesma verdade foi proclamada pelos apóstolos. Quando Pedro foi interrogado pelas autoridades judaicas, após a cura do coxo à porta do templo, afirmou com ousadia que somente Cristo pode salvar:

“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.” (At 4.12)

O apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, reforça essa doutrina ao declarar:

“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.” (1Tm 2.5)

Esse texto destaca a humanidade real de Cristo como elemento essencial de sua mediação. Somente alguém que fosse verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem poderia fazer a ponte entre Deus e a humanidade caída. Como homem perfeito, Jesus representou a humanidade diante de Deus; como Deus verdadeiro, seu sacrifício possui valor eterno e suficiente.

A Epístola aos Hebreus aprofunda essa compreensão ao apresentar Cristo como o cumprimento pleno de todas as figuras, sacrifícios e rituais do Antigo Testamento. Em Hebreus 9.15, lemos:

“E por isso é Mediador de um Novo Testamento, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia debaixo do primeiro testamento, os chamados recebam a promessa da herança eterna.”

Assim, Jesus é o Mediador da Nova Aliança, estabelecida não com sangue de animais, mas com o seu próprio sangue, oferecendo redenção completa e definitiva.

À luz desses textos, a Escritura ensina de maneira clara e suficiente que Jesus Cristo, o Filho de Deus que se fez homem, é o único Salvador e Mediador entre Deus e a humanidade. Não há possibilidade de perdão dos pecados, reconciliação com Deus ou vida eterna fora de Cristo.

Portanto, ascendência religiosa, boas obras, observâncias rituais, sofrimentos pessoais ou qualquer outro mérito humano são incapazes de produzir salvação. A salvação é oferecida exclusivamente em Cristo, pela graça de Deus, e recebida mediante a fé (Ef 2.8–9).

3. A aplicação da salvação pelo Espírito.

Antes de subir ao Céu, o Senhor Jesus prometeu que rogaria ao Pai, e Ele enviaria “outro Consolador” para que estivesse para sempre com os seus discípulos:

“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre.” (Jo 14.16)


A palavra grega traduzida por “outro”, neste texto, é állos, que significa “outro da mesma natureza”. Ela difere de héteros, que se refere a “outro de natureza diferente”, como ocorre em termos como heterogêneo, heterodoxo e heterossexual. O “outro” prometido por Jesus, portanto, é alguém igual a Ele em essência, natureza divina, caráter e poder, embora distinto em Pessoa, refutando, assim, as interpretações unicistas que negam a distinção pessoal na Trindade.


A palavra grega parákletos, traduzida por Consolador, é formada por dois termos: pará (ao lado de) e kaléō (chamar, convocar). O termo designa alguém chamado para estar ao lado de outro com o propósito de ajudar, defender, interceder ou advogar, especialmente em um contexto jurídico. Assim, o Espírito Santo é apresentado como Aquele que foi enviado pelo Pai, a pedido do Filho, para dar continuidade à obra de Cristo na vida dos crentes e na missão da Igreja.


Na continuidade do capítulo 14 do Evangelho de João, Jesus descreve algumas ações específicas do Espírito Santo na vida dos seus discípulos:


a) O Espírito da Verdade (Jo 14.17a). Essa expressão indica que a atuação do Espírito Santo é sempre plenamente coerente com a verdade revelada por Deus. Ele é o inspirador das Escrituras e jamais se contradiz. Portanto, todo ensino, profecia ou manifestação espiritual que contrarie a Palavra de Deus não procede do Espírito Santo.


b) O mundo não o pode receber (Jo 14.17b). O Espírito da Verdade habita apenas naqueles que receberam a Cristo pela fé. Não há base bíblica para a ideia de que uma pessoa que permanece em estado de impiedade, rejeição consciente da verdade ou heresia deliberada seja habitação do Espírito Santo. Sua presença é consequência da regeneração operada por Deus.


c) Ele ensina e faz lembrar (Jo 14.26). O Espírito Santo, possuindo os mesmos atributos divinos do Filho, exerce também a função de Mestre. Ele ensina os crentes e os capacita a compreender as Escrituras, especialmente para o cumprimento da missão evangelizadora. Além disso, Ele faz lembrar os ensinamentos de Jesus. Tal ministério não elimina a necessidade do estudo diligente da Palavra, pois ninguém pode ser lembrado daquilo que nunca aprendeu.


O Espírito Santo atua também no mundo, convencendo os pecadores de sua condição espiritual e da necessidade de um Salvador, que é Jesus Cristo. No capítulo 16 do Evangelho de João, o Senhor detalha essa atuação do Consolador:

“E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo.” (Jo 16.8)


1) Convencerá o mundo do pecado. O Espírito Santo age de forma eficaz no coração humano, levando o pecador a compreender sua condição de separação de Deus. Por essa razão, nenhuma técnica ou estratégia humana pode substituir a ação do Espírito Santo na obra da salvação. Sem Sua atuação, ninguém pode ser verdadeiramente convertido.


2) Convencerá o mundo da justiça. O Espírito Santo convence o mundo da perfeita justiça de Cristo, demonstrando que somente por meio da fé nEle o ser humano pode ser justificado diante de Deus. Ninguém será salvo por mérito próprio, por obras, sacrifícios pessoais ou sofrimentos humanos.


3) Convencerá o mundo do juízo. O Espírito Santo também convence o mundo acerca do juízo. Jesus explica:

“Porque o príncipe deste mundo já está julgado.” (Jo 16.11)


Essa afirmação refere-se ao julgamento de Satanás, cuja sentença foi decretada na obra redentora de Cristo e será plenamente executada no fim dos tempos. Refere-se também ao juízo sobre o pecado, cuja penalidade foi assumida por Jesus na cruz. Ali, Ele derrotou a morte e garantiu aos que creem a vitória sobre o pecado e a condenação eterna.


Há ainda muitas outras ações realizadas pelo Espírito Santo, que serão estudadas com maior profundidade nas lições referentes à Sua Pessoa e Obra. Neste estudo, restringimo-nos especificamente à atuação do Espírito Santo no processo da salvação, conforme revelado nas Escrituras.


Ev. WELIANO PIRES

16 janeiro 2026

O FILHO E A PLENITUDE DOS TEMPOS

(Comentário do 2º tópico da Lição 03: O Pai enviou o Filho)

No segundo tópico, abordaremos o envio do Filho “na plenitude dos tempos”, expressão utilizada pelo apóstolo Paulo na Epístola aos Gálatas.

Inicialmente, analisaremos a preparação histórica e religiosa para a vinda do Messias ao mundo, destacando o domínio romano, a difusão da cultura grega e a expectativa messiânica do povo judeu. Esse conjunto de fatores constituiu o cenário providencial para a manifestação do Filho de Deus na história.

Em seguida, examinaremos o significado das expressões paulinas aplicadas a Cristo: “nascido de mulher” e “nascido sob a Lei”, ressaltando suas implicações cristológicas e soteriológicas.

Por fim, trataremos da adoção dos crentes como filhos de Deus mediante a fé em Cristo. Estabeleceremos, ainda, a distinção entre a filiação divina de Cristo — o Filho único de Deus por natureza — e a filiação divina daqueles que nele creem, que se dá por adoção.

1. A preparação histórica e religiosa.

No texto de Gálatas 4.4,5, o apóstolo Paulo escreveu: 

“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de Mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.”

A expressão “plenitude dos tempos” (gr. plḗrōma tou chrónos) indica que o envio do Filho aconteceu no tempo apropriado, previamente determinado pelo Pai, sem atraso nem adiantamento. As obras de Deus sempre se cumprem de maneira perfeita e no tempo exato. Costuma-se dizer que “Deus tarda, mas não falha”. Entretanto, essa afirmação não é correta, pois Deus jamais se atrasa. Ele age no tempo certo, segundo o Seu eterno propósito e soberana vontade.

O comentarista mencionou três fatores históricos fundamentais que contribuíram decisivamente para a difusão do Evangelho, evidenciando que aquele era, de fato, o momento adequado para a manifestação do Filho de Deus.

a) O Domínio Romano. Embora o Império Romano fosse uma potência autoritária e opressora, ele promoveu uma espécie de globalização no mundo antigo, permitindo a circulação de pessoas, ideias e mercadorias entre as províncias. A chamada Pax Romana, instituída em 27 a.C. pelo imperador Augusto César, perdurou aproximadamente até 180 d.C., proporcionando relativa estabilidade política e social.

Foram implantadas diversas medidas administrativas, como:

  • Aumento da produtividade nas províncias;

  • Proteção contra invasões externas;

  • Repressão severa a revoltas internas;

  • O processo de romanização, isto é, a adaptação dos povos conquistados aos costumes romanos.

O império também investiu fortemente na construção de estradas para facilitar o comércio e o deslocamento militar. Estima-se que a malha viária romana alcançasse cerca de 300 mil quilômetros, sendo aproximadamente 90 mil pavimentados. Além disso, as rotas marítimas eram amplamente utilizadas e bastante eficientes.

Todo esse aparato logístico e administrativo foi soberanamente utilizado pelo Espírito Santo para a proclamação do Evangelho em todo o mundo conhecido. Antes dos gregos e romanos, os impérios costumavam deportar os povos conquistados. Os gregos, porém, adotaram uma nova estratégia, permitindo que os povos permanecessem em suas terras, desde que não ameaçassem o domínio imperial. Os romanos deram continuidade a esse modelo.

b) A Cultura Grega. Alexandre Magno derrotou o Império Persa em 334 a.C. e expandiu seus domínios pela Síria, Egito e outras regiões, fundando, inclusive, a cidade de Alexandria. Seu objetivo não era apenas a conquista militar, mas também a disseminação da cultura e do pensamento grego.

Três aspectos do domínio grego foram decisivos para a expansão do Cristianismo:

1. O idioma universal. Antes da hegemonia grega, não havia uma língua comum entre os povos. Com a expansão helênica, o grego koiné tornou-se o idioma popular e amplamente compreendido. O termo koiné deriva de koinonía, que significa “comum” ou “comunhão”.

O Antigo Testamento foi traduzido do hebraico para o grego koiné por volta de 250 a.C., originando a Septuaginta (LXX). O Novo Testamento foi escrito majoritariamente nesse idioma, o que facilitou enormemente a propagação da mensagem cristã.

2. A diversidade religiosa. O mundo helenizado era marcado por pluralismo religioso, o que contribuiu para a circulação de novas ideias, incluindo a mensagem do Evangelho.

3. A filosofia grega. A filosofia preparou o terreno intelectual para discussões sobre a verdade, a existência e o sentido da vida, conceitos posteriormente confrontados e reinterpretados à luz da revelação cristã.

c) A Expectativa Messiânica. O povo de Israel passou por sucessivos domínios estrangeiros como consequência de sua idolatria e infidelidade a Deus. O Reino do Norte foi conquistado pelos assírios, e o Reino do Sul pelos babilônios. Posteriormente, o domínio passou aos medos e persas. Após setenta anos, parte dos judeus retornou do exílio, enquanto outros permaneceram na Babilônia.

Mais tarde, os gregos dominaram a Palestina, mantendo os judeus em sua terra. Em seguida, os romanos assumiram o controle, preservando grande parte da cultura grega já estabelecida.

As Escrituras anunciavam a vinda do Messias, o Ungido de Deus, que reinaria eternamente. Mas, a maioria dos judeus interpretavam essas profecias de maneira política, aguardando um libertador semelhante ao rei Davi, que os livraria do domínio romano. Por essa razão, quando o Filho de Deus se manifestou cumprindo plenamente as Escrituras, foi rejeitado por muitos.

2. O Filho nascido sob a Lei.

Na segunda parte do texto de Gálatas 4.4, o apóstolo Paulo afirma que “Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher”. Essa declaração aponta de maneira inequívoca para a plena humanidade de Jesus Cristo. Embora possa parecer improvável, já nos dias dos apóstolos havia pessoas que negavam que Jesus tivesse assumido uma verdadeira natureza humana.

Os primeiros a negar que Jesus possuía um corpo humano real foram os docetas. O docetismo teve origem em concepções gnósticas que defendiam um dualismo entre espírito e matéria, considerando o espírito como essencialmente bom e a matéria como essencialmente má. Dessa forma, sustentavam que, sendo Jesus verdadeiramente Deus, Ele não poderia ter um corpo físico, pois, segundo essa visão, o corpo seria inerentemente mau.

Entretanto, os Evangelhos testemunham de forma clara que Jesus possuía um corpo físico real. Em diversas ocasiões, os discípulos tocaram em Jesus, caminharam com Ele, conversaram pessoalmente e conviveram intimamente com sua vida cotidiana. Eles nunca tiveram dúvidas quanto à realidade de sua humanidade. Os relatos evangélicos apresentam, com riqueza de detalhes, aspectos claros da vida humana de Cristo.

Os Evangelhos de Mateus e Lucas registram informações significativas acerca do nascimento de Jesus, desde o anúncio do seu nascimento, mencionando também várias pessoas que testemunharam esses acontecimentos. Ambos apresentam a genealogia de Jesus e fazem referência aos seus familiares. Marcos, por sua vez, inicia seu relato apresentando Jesus já na idade adulta, no início de seu ministério público, dando grande ênfase aos milagres que Ele realizou. Ainda assim, Marcos retrata Jesus como um verdadeiro homem que vivia e se movia entre as multidões. Esses três evangelistas expõem de maneira consistente a humanidade de Jesus, não deixando dúvidas quanto à realidade de seu corpo físico.

O Evangelho segundo João se distingue dos Sinóticos por enfatizar de modo especial a divindade de Cristo e o significado teológico do seu ministério. Todavia, João também afirma com clareza a plena humanidade de Jesus. No prólogo do seu Evangelho, ele declara:

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14).

Com essa afirmação, João ensina que o Filho eterno de Deus assumiu a natureza humana e viveu entre os homens. Essa verdade é reafirmada pelo apóstolo também em suas Epístolas (1 Jo 1.1–3; 4.2).

Na sequência do texto de Gálatas 4.4, o apóstolo Paulo acrescenta que o Filho foi “nascido sob a Lei”. Essa expressão possui, pelo menos, dois importantes significados teológicos:

a) Jesus Cristo submeteu-se plenamente às exigências da Lei Mosaica. Ele é o homem perfeito, o único que viveu neste mundo sem jamais cometer pecado. Nenhum outro ser humano conseguiu cumprir integralmente a Lei. Somente Jesus obedeceu perfeitamente a todos os seus preceitos, sem violar qualquer mandamento.

b) Jesus Cristo é o cumprimento da Lei. Todas as ordenanças, sacrifícios, rituais, festas e símbolos prescritos na Lei apontavam para Ele. Assim, Cristo veio cumprir aquilo que a Lei prefigurava, revelando o seu verdadeiro propósito redentor.

3. A adoção de filhos.

Na continuidade do texto de Gálatas 4, no versículo 5, o apóstolo Paulo descreve a razão do envio do Filho ao mundo:

“Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos”.


A palavra remir, no contexto bíblico, significa libertar mediante o pagamento de um preço, como ocorria com alguém que havia sido escravizado em razão de uma dívida. Tal pessoa só poderia ser liberta mediante o pagamento dessa dívida. Foi exatamente isso que Jesus fez por nós: pagou o preço do nosso resgate para nos livrar da condenação eterna.


Muitas pessoas, inclusive alguns pregadores, fazem confusão quanto ao destinatário desse pagamento e utilizam o exemplo de um sequestro, afirmando que o diabo teria sequestrado o ser humano e que Jesus teria pago o preço da nossa libertação ao inimigo. Entretanto, essa interpretação não encontra fundamento nas Escrituras. A dívida só pode ser paga ao credor, e, nesse caso, a nossa dívida era para com a justiça de Deus, que exige punição pelo pecado: “A alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.20a). O apóstolo Paulo também escreveu: “Porque o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23a).


Além de nos remir, pagando o preço da nossa dívida para com Deus mediante o seu sacrifício, Jesus também nos concedeu o privilégio de sermos feitos filhos de Deus. Antes de conhecermos a Cristo, éramos estranhos e inimigos de Deus; mas, pela fé em Cristo, recebemos não apenas o perdão dos pecados, como também o direito de sermos chamados filhos de Deus.


Muitas pessoas estão equivocadas ao pensar que todos os seres humanos são filhos de Deus. A Bíblia é clara ao afirmar que filhos de Deus são somente aqueles que creem em Jesus: “Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (Jo 1.12). Jesus é o Filho Unigênito (gr. monogenēs) de Deus (Jo 3.16), isto é, o único Filho que possui a mesma natureza do Pai. Aqueles que nele creem tornam-se filhos de Deus por adoção. Os demais seres humanos são criaturas de Deus, mas não filhos.


Ev. WELIANO PIRES


15 janeiro 2026

O ENVIO DO FILHO E O AMOR DO PAI

(Comentário do 1º tópico da lição 3: O pai enviou o Filho).

Neste primeiro tópico, trataremos do envio do Filho pelo Pai como a mais profunda demonstração do Seu amor. Inicialmente, abordaremos o amor incondicional, gracioso e sacrificial do Pai, que, em Sua misericórdia, foi capaz de enviar o Seu Filho para um mundo rebelde e pecador, totalmente indigno de tal amor.

Na sequência, destacaremos a iniciativa soberana de Deus, estabelecida na eternidade, de enviar o Seu Filho como o Salvador da humanidade. Essa iniciativa antecede qualquer ação humana e é fruto exclusivo da graça, da bondade e da misericórdia divinas, revelando o propósito redentor de Deus em favor do ser humano.

Por fim, afirmamos que o envio do Filho não implica, de forma alguma, hierarquia ontológica entre as Pessoas da Santíssima Trindade, pois o Pai, o Filho e o Espírito Santo compartilham a mesma natureza e essência divina. A submissão do Filho ao Pai deve ser compreendida como voluntária e funcional, relacionada ao plano da redenção, não significando inferioridade em Sua divindade

1. O amor incondicional do Pai.  Na conversa com Nicodemos, registrada no capítulo 3 do Evangelho segundo João, Jesus declarou no versículo 16:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

O verbo grego traduzido por “amou” nesse texto é agapáō, cujo substantivo correspondente é a conhecida palavra ágape. Esse termo expressa a ideia de uma benevolência firme e deliberada, uma boa vontade voltada ao bem do outro, independentemente de afinidade pessoal ou de qualquer expectativa de retribuição.

Esse tipo de amor, conforme visto na lição anterior, é um atributo comunicável de Deus, isto é, uma qualidade moral que Ele compartilha com suas criaturas em certa medida. Contudo, ninguém jamais conseguirá amar da mesma forma e na mesma intensidade com que Deus ama.

O amor de Deus pela humanidade é incondicional, pois Ele amou pecadores que não mereciam ser amados e que não tinham como retribuir tal amor. Portanto, esse amor não foi motivado por qualquer mérito humano. Deus não viu “algo de bom” no ser humano para então decidir amá-lo, mas amou por iniciativa própria, segundo a sua graça.

O apóstolo Paulo escreveu aos Romanos:

“Mas Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Rm 5.8)

Diferente do que ensina o calvinismo, a Bíblia afirma que Deus amou todos os seres humanos e deseja salvar a todos. O texto de João 3.16 é claro ao declarar que Deus amou “o mundo”, e não apenas um grupo seleto de eleitos. Essa verdade é confirmada por outras passagens das Escrituras. Paulo afirma:

“Porque isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” (1Tm 2.3–4)

Da mesma forma, o apóstolo Pedro escreve: 

“O Senhor não retarda a sua promessa, ainda que alguns a tenham por tardia; mas é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.” (2Pe 3.9)

Esses textos deixam claro que o desejo salvífico de Deus é universal. Por seu amor infinito e incondicional, Deus entregou o seu Filho para possibilitar a salvação de toda a humanidade, e não apenas de um grupo restrito:

“E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo.” (1Jo 2.2)

Entretanto, ao contrário do que ensina o universalismo, nem todos serão salvos. A salvação é oferecida a todos, mas somente se torna eficaz na vida daqueles que creem em Jesus e o recebem como Senhor e Salvador. O próprio Cristo afirmou que a fé é o critério decisivo:

“Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado.” (Mc 16.16)

Assim, a Bíblia mantém em perfeito equilíbrio duas verdades fundamentais: Deus ama a todos e deseja salvar a todos, mas nem todos serão salvos, pois a salvação é condicionada à resposta humana de fé em Cristo.

2. A iniciativa soberana de Deus. Deus criou o primeiro casal e sabia que eles iriam pecar, pois Ele é presciente, ou seja, conhece todas as coisas antecipadamente. Antes mesmo de o pecado entrar no mundo, Deus já havia estabelecido um plano de salvação por meio do envio do Filho. Assim, Deus não foi pego de surpresa com a queda do primeiro casal, e o plano de salvação não é um “plano B” nem um remendo ao plano original, mas faz parte do seu propósito eterno.

A iniciativa de salvar a humanidade pecadora partiu de Deus, pois Ele já havia elaborado o plano de salvação na eternidade passada, antes da criação do universo. Falando sobre a manifestação do amor de Deus para conosco, o apóstolo João escreveu:

“Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos. Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós, e enviou seu Filho para propiciação pelos nossos pecados.” (1Jo 4.9–10)

Desde o Antigo Testamento, vemos Deus tomando a iniciativa de buscar os pecadores e impedir que eles pereçam. Em várias ocasiões, Ele enviou profetas para repreender os ímpios, chamando-os ao arrependimento e à obediência. Quanto ao plano de salvação da humanidade, Deus tomou a iniciativa de chamar Abrão e, por meio dele, formou a nação de Israel, preparando o caminho para que o Filho viesse ao mundo.

Jesus veio, morreu pelos nossos pecados e ressuscitou. Subiu ao Céu e enviou o Espírito Santo para convencer os pecadores do pecado, da justiça e do juízo. Portanto, a iniciativa de salvar os pecadores continua sendo de Deus, pois o Espírito Santo continua buscando os pecadores, como veremos no terceiro tópico.

3. O envio do Filho e a Trindade. O Filho foi enviado pelo Pai, conforme o próprio Jesus declarou em várias ocasiões: 

“Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.” (Jo 6.38);
“Quem não me ama não guarda as minhas palavras; e a palavra que ouvistes não é minha, mas daquele que me enviou.” (Jo 14.24).

O sentido do verbo “enviar” é incumbir alguém de ir a determinado lugar para cumprir uma missão, representando quem o enviou. Foi exatamente isso que Jesus veio fazer. Ele foi enviado pelo Pai para cumprir a missão de oferecer-se em sacrifício pelos pecadores e preparar os seus discípulos para que proclamassem a sua mensagem ao mundo após a sua partida. Por isso, Jesus separou doze deles e chamou-os de “apóstolos”, que significa enviado.

Embora Jesus tenha sido enviado para uma missão, Ele não foi apenas um emissário: Ele é o maior presente que a humanidade poderia receber. O envio de Jesus ao mundo configura a maior demonstração de amor, pois Ele é o próprio Deus sacrificando-se para salvar quem não merece.

Quando lemos na Bíblia que o Filho foi enviado para fazer a vontade do Pai, pode surgir a impressão de que Ele é menor do que o Pai, já que normalmente quem envia é considerado maior do que o enviado. As seitas unitaristas usam esse argumento para negar a divindade de Cristo. Entretanto, essa subordinação é funcional, e não essencial: as três pessoas da Trindade são iguais e possuem a mesma natureza divina.

Além disso, as três pessoas da Trindade são um único Deus, com a mesma vontade e propósito. Não há divergências de opinião entre Pai, Filho e Espírito Santo. Alguns pregadores dramatizam o plano da salvação, narrando reuniões e discussões no Céu para decidir quem morreria pela humanidade. Porém, isso não encontra respaldo bíblico. A Trindade é unidade perfeita, onisciente e onipotente, e o plano da salvação foi conhecido e decidido por Deus desde a eternidade. 

Ev. WELIANO PIRES

A TRINDADE NO PLANO DA SALVAÇÃO

(Comentário do 3º tópico da Lição 3: O Pai enviou o Filho) No terceiro tópico, estudaremos a participação das Pessoas da Santíssima Trindade...