(Comentário do 1⁰ tópico da Lição 9: Espírito Santo - o Regenerador)
Neste primeiro tópico, estudaremos que a regeneração é uma obra trinitária. Inicialmente, abordaremos a doutrina bíblica da regeneração, ou novo nascimento, apresentando o seu conceito à luz das Escrituras.
Em seguida, com base na declaração de Jesus a Nicodemos, conforme João 3.3, compreenderemos que a regeneração é uma exigência do Senhor Jesus e condição indispensável para a salvação.
Veremos também que a regeneração tem sua origem no plano eterno e soberano de Deus Pai, pois é Ele quem, movido por Seu imensurável amor, dá início ao processo da salvação do pecador.
Por fim, trataremos do Espírito Santo como o agente direto da regeneração. Embora seja uma obra das três Pessoas da Santíssima Trindade, é o Espírito Santo quem a opera eficazmente no coração do pecador, convencendo-o do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16.8).
1. A doutrina bíblica da Regeneração.
Na teologia cristã, Novo Nascimento e Regeneração são termos equivalentes. A expressão “nascer de novo”, mencionada por Jesus em João 3.3, traduz duas palavras gregas: gennēthē (ser gerado, nascer) e anōthen (do alto, de cima, novamente). Essa expressão também pode ser compreendida como “nascer do alto” ou “nascer de cima”, indicando a origem celestial — e não humana — dessa transformação espiritual.
Nicodemos era mestre da Lei, pertencente ao partido dos fariseus e membro do Sinédrio. Homem influente em Jerusalém, conhecia profundamente a religião judaica e a praticava com zelo. Ao iniciar o diálogo com Jesus, reconheceu que Ele era um rabino vindo de Deus, por causa dos sinais que realizava.
Em resposta, Jesus afirmou que aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus. Nicodemos interpretou a declaração de maneira literal e questionou como poderia um homem nascer sendo já adulto. Entretanto, o novo nascimento ao qual Jesus se referiu é uma obra sobrenatural do Espírito Santo. Nenhum ser humano pode alcançá-lo por seus próprios esforços ou méritos.
Outros termos correlatos aparecem no Novo Testamento, como anagennaō (1 Pe 1.3,23), que descreve a ação regeneradora de Deus ao conceder nova vida ao crente, segundo a sua vontade.
Há também o termo palingenesia, traduzido por “regeneração”, intimamente relacionado à conversão. Essa palavra ocorre apenas duas vezes no Novo Testamento: em Mateus 19.28, referindo-se à renovação escatológica; e em Tito 3.5, indicando a regeneração do indivíduo.
Conforme a Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil, a regeneração “é a transformação do pecador em uma nova criatura pelo poder de Deus, como resultado do sacrifício de Jesus na cruz do Calvário”.
A doutrina da regeneração nos ensina que a salvação não é resultado de esforço humano, religiosidade ou mérito pessoal, mas da ação soberana e graciosa de Deus. Assim como Nicodemos, muitas pessoas possuem conhecimento religioso, mas ainda necessitam do novo nascimento.
2. A Regeneração como exigência de Jesus.
Jesus foi enfático ao declarar a Nicodemos: “Aquele que não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3.3). Isso significa que a regeneração é indispensável a todos os seres humanos, porque todos pecaram (Rm 3.23).
Quando Adão pecou, a natureza humana foi totalmente corrompida pelo pecado. Se todos pecaram, inevitavelmente precisam ser regenerados. Não há ser humano que tenha nascido justo e sem pecado. Da mesma forma, não há ninguém que não necessite da regeneração.
A Igreja tem a obrigação, diante de Deus, de anunciar ao mundo que todos são pecadores e necessitam da regeneração; do contrário, estarão fora do Reino de Deus. Antes de falarmos da salvação, faz-se necessário falar do pecado, para que as pessoas compreendam que precisam de um Salvador.
3. O Pai como o autor da salvação.
Neste subtópico, o comentarista enfatiza que a regeneração tem sua origem no plano eterno e soberano de Deus Pai. A base bíblica para essa verdade encontra-se na Epístola aos Efésios 1.3-5: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo; como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo...”.
O Pai, em sua soberania, planejou a redenção da humanidade caída, demonstrando seu amor e sua misericórdia. Entretanto, é fundamental compreender que o plano salvífico é essencialmente trinitário. Embora, na chamada “economia da salvação”, cada Pessoa da Trindade exerça funções específicas, não há separação ou independência entre elas. O Pai planeja, o Filho executa e o Espírito Santo aplica a obra redentora.
O Filho, Jesus Cristo, realizou a redenção por meio de sua morte expiatória e ressurreição gloriosa. O Espírito Santo, por sua vez, opera a regeneração no coração do pecador, convencendo-o do pecado, da justiça e do juízo, e conduzindo-o à fé salvadora.
À luz da doutrina da pericorese — a perfeita comunhão e inter-relação entre as Pessoas da Trindade — afirmamos que nenhuma ação divina ocorre de forma isolada. As três Pessoas participam plenamente de toda a obra da salvação, em perfeita unidade e harmonia.
Assim, ao declararmos que o Pai é o Autor da salvação, reconhecemos que o plano redentor procede de sua vontade eterna; contudo, sua execução e aplicação são realizadas em cooperação plena pelo Filho e pelo Espírito Santo. Desse modo, toda a glória da salvação pertence ao Deus Trino.
4. O Espírito como agente da Regeneração.
A regeneração é um ato da misericórdia divina: “Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração e da renovação do Espírito Santo” (Tt 3.5).
É o Pai quem a decreta: “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor” (Ef 1.4). Esse decreto, no entanto, não significa escolha arbitrária individual de quem será salvo ou condenado, mas refere-se à eleição em Cristo; ou seja, Deus preestabeleceu que todos os que crerem em Cristo sejam regenerados.
O Filho a torna possível por meio de sua morte e ressurreição: “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da sua graça” (Ef 1.7). A regeneração só é possível mediante o sacrifício de Cristo, pois Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1.29). Em nenhum outro há salvação (At 4.12).
O Espírito Santo, por sua vez, realiza-a no coração do pecador: “E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, e da justiça e do juízo” (Jo 16.8). O ser humano não regenerado está morto espiritualmente em seus pecados e delitos e é incapaz, por si mesmo, de compreender o Evangelho e crer em Jesus. Somente por meio da ação do Espírito Santo é possível haver fé e arrependimento.
Considerando o plano divino da salvação mencionado acima, é o Espírito Santo quem realiza o milagre da regeneração no interior do homem e produz o fruto do Espírito naquele que recebe a Cristo. A regeneração, portanto, não é fruto do esforço humano e só pode ser operada pelo Espírito Santo, mediante a fé em Cristo.
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