07 fevereiro 2026

O VERBO COMO REVELAÇÃO DO PAI

(Comentário do 3⁰ tópico da Lição 6: O Filho como o Verbo de Deus)

No terceiro tópico, abordaremos o Verbo como a revelação do Pai. Inicialmente, trataremos da encarnação do Verbo, com base na afirmação de João: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória” (Jo 1.14a).

Em seguida, falaremos do Verbo como a plenitude da graça e da verdade, conforme a declaração: “Vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14b).

Por fim, apresentaremos o Verbo como o revelador do Deus invisível, com base em João 1.18, que afirma: “Deus nunca foi visto por alguém; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”.

1. A encarnação do Verbo. Nos primeiros cinco versículos do prólogo do Evangelho segundo João, o apóstolo apresenta afirmações decisivas acerca da Pessoa de Jesus Cristo, que não deixam margem a dúvidas quanto à sua divindade. Ele declara que o Verbo é preexistente, distinto do Pai, plenamente divino, Criador de todas as coisas e a fonte de vida e de luz para a humanidade.

Após afirmar a divindade do Verbo, João declara de modo igualmente enfático a sua plena humanidade. No encerramento do prólogo, ele escreve:

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14).

Nessa afirmação, o evangelista ensina que o Filho eterno de Deus assumiu a natureza humana real, passando a viver entre os homens. Trata-se da doutrina da Encarnação, na qual a natureza divina e a natureza humana unem-se na única Pessoa de Cristo, sem confusão, sem divisão e sem alteração — o que a teologia cristã denomina união hipostática.

O próprio apóstolo reafirma essa verdade em sua Primeira Epístola:

“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram, da Palavra da vida” (1Jo 1.1).

Aqui, João enfatiza a experiência concreta e histórica com Cristo, destacando que Ele foi visto, ouvido e tocado.

A Encarnação do Filho de Deus constitui uma das doutrinas centrais do Cristianismo bíblico. Sobre esse ponto essencial, afirma a Declaração de Fé das Assembleias de Deus:

“Cremos na concepção e no nascimento virginal de nosso Senhor Jesus Cristo, conforme as Escrituras Sagradas e anunciado de antemão pelo profeta Isaías, e que Ele foi concebido pelo Espírito Santo no ventre da virgem Maria.”

Essa declaração reafirma que a humanidade de Cristo teve origem sobrenatural, sem, contudo, deixar de ser verdadeira e completa.

Nos primeiros séculos da história da Igreja, surgiram diversas heresias relacionadas à Pessoa e à natureza de Cristo. Os ebionitas e os arianistas negavam a sua divindade, reduzindo-o à condição de mero homem ou de ser criado.

Na direção oposta, surgiram os docetistas e alguns grupos gnósticos, que negavam a verdadeira humanidade de Cristo. O docetismo baseava-se na ideia gnóstica de um dualismo radical entre espírito e matéria, considerando o espírito como bom e a matéria como má.

Segundo essa concepção, se Jesus fosse realmente Deus, não poderia possuir um corpo físico verdadeiro, mas apenas uma aparência humana. Tal ensino, porém, contradiz frontalmente o testemunho das Escrituras.

A Bíblia afirma claramente que Jesus tornou-se verdadeiramente humano, com exceção do pecado. Os evangelistas Mateus, Marcos e Lucas registram detalhes significativos da humanidade de Cristo desde o seu nascimento. Estes relatos evidenciam, de maneira inequívoca, que Jesus possuía um corpo físico real. As testemunhas oculares, genealogias, familiares e circunstâncias históricas confirmam a realidade da sua encarnação.

Marcos, embora não trate do nascimento de Jesus, apresenta-o como um homem que viveu entre as multidões, sentiu cansaço, compaixão e participou ativamente da vida cotidiana, ao mesmo tempo em que realizava milagres.

O apóstolo João, diferentemente dos sinóticos, não descreve o nascimento nem a infância de Jesus, mas inicia o seu Evangelho apresentando-o como o Verbo eterno e divino. Ainda assim, ele afirma explicitamente que esse Verbo se fez carne.

Além de ensinar essa verdade, João foi testemunha ocular da humanidade de Cristo. Juntamente com Pedro e Tiago, integrou o círculo mais próximo dos discípulos. Em diversas ocasiões, eles tocaram em Jesus, viram-no dormir, comer, sentir cansaço e mantiveram contato direto com Ele, não restando qualquer dúvida quanto à realidade do seu corpo humano.

Os demais apóstolos também afirmaram a humanidade de Cristo em suas Epístolas. O apóstolo Paulo escreveu aos Romanos que Jesus “nasceu da descendência de Davi, segundo a carne” (Rm 1.3).

João, em suas Epístolas, foi igualmente enfático ao declarar que todo aquele que nega que Jesus Cristo veio em carne não procede de Deus, mas é movido pelo espírito do Anticristo (1Jo 4.2,3).

Negar a Encarnação de Cristo compromete todo o plano da redenção. Se Jesus não assumiu um corpo humano verdadeiro, então não poderia ter sido crucificado nem ressuscitado corporalmente. Nesse caso, conforme ensina o apóstolo Paulo, seria vã a nossa fé, e os que dormiram em Cristo estariam perdidos (1Co 15.1–3,17,18).

2. A plenitude da graça e da verdade. João, testemunha ocular da encarnação do Verbo, declara ser a “glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14b). A palavra “glória” (gr. dóxa) remete ao conceito da shekinah — a presença gloriosa de Deus entre o seu povo (Êx 40.34,35). Porém, enquanto a glória na Antiga Aliança se manifestava parcialmente, em Cristo ela se mostra plenamente (Jo 2.11; 17.1-5). A frase “cheio de graça e de verdade” revela o conteúdo dessa glória. Diferente da Lei dada por Moisés (Jo 1.17a), Cristo encarnou a própria graça salvadora e a verdade eterna. Ele não apenas ensina a verdade — Ele é a verdade (Jo 14.6). E não apenas oferece graça — Ele é a plenitude da graça de Deus, uma provisão contínua que se manifestou salvadora a todos os homens (Tt 2.11).

No prólogo do seu Evangelho, João afirma que ele e os demais discípulos contemplaram a glória de Cristo, “como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14). Essa declaração revela que a glória do Senhor foi perceptível àqueles que com Ele conviveram.

Na lição passada, destacamos que essa glória foi vista de modo especial na Transfiguração. Naquela ocasião, os discípulos tiveram uma revelação extraordinária da natureza divina de Jesus, ainda que de forma limitada.

O termo grego doxa, traduzido por “glória”, expressa ideias como esplendor, majestade, excelência e dignidade. Em relação a Cristo, essa glória está ligada à sua divindade, pois pertence exclusivamente a Deus, conforme o próprio Senhor declara: “A minha glória não darei a outrem” (Is 42.8).

No Antigo Testamento, a palavra hebraica kavod indica a presença manifesta de Deus em ação. No Novo Testamento, essa glória encontra sua revelação máxima em Jesus Cristo. Contudo, durante a sua encarnação, o Senhor não manifestou a plenitude da sua glória, pois o ser humano, em sua condição mortal, não poderia suportá-la.

O apóstolo Paulo explica que Cristo “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo” (Fp 2.7). Esse esvaziamento não significa que Ele deixou de ser Deus, mas que voluntariamente limitou a manifestação da sua glória para cumprir o plano da redenção.

João resume o conteúdo dessa glória revelada ao afirmar que Jesus é “cheio de graça e de verdade”. A graça refere-se ao favor imerecido de Deus, manifestado na oferta da salvação por meio do sacrifício vicário de Cristo (Tt 2.11). Jesus não recebeu graça; Ele é pleno de graça e é quem a concede.

Além disso, Jesus é a Verdade, pois é a revelação perfeita do Deus verdadeiro (Jo 1.18; Cl 1.15). Nas Escrituras, a verdade está associada às três Pessoas da Trindade: o Pai é o Deus da verdade (Sl 31.5), o Filho é a própria Verdade (Jo 14.6) e o Espírito Santo é o Espírito da verdade (Jo 14.17).

Assim, ao afirmar que Cristo é cheio de graça e de verdade, João ensina que, em Jesus, Deus se revela de forma perfeita, tanto na concessão graciosa da salvação quanto na plena revelação da verdade divina.

3. O revelador do Deus invisível. Ao concluir o prólogo do seu Evangelho, o apóstolo João demonstra de forma inequívoca que o Filho é o revelador do Deus invisível. Assim ele declara:

“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, este o fez conhecer” (Jo 1.18).

Alguns que negam a divindade do Filho utilizam este texto como argumento para afirmar que Jesus não é Deus, alegando que, se Deus nunca foi visto por ninguém e Jesus foi visto, então Jesus não poderia ser Deus. Contudo, tal interpretação desconsidera o contexto e a distinção entre as Pessoas da Trindade.

No texto em questão, quando João afirma que “Deus nunca foi visto por alguém”, ele se refere à Pessoa do Pai, que, de fato, nunca foi visto por nenhum ser humano. A própria continuidade do versículo esclarece que o Filho veio para revelar o Pai. Essa verdade é confirmada pelo próprio Senhor Jesus quando disse a Filipe: “Quem vê a mim, vê o Pai” (Jo 14.9).

Deus, em sua essência, é invisível e inacessível ao ser humano. Somente Ele pode revelar a Si mesmo. Jesus Cristo, sendo plenamente Deus, revelou Deus à humanidade de maneira perfeita, porém acomodada à limitação humana. A revelação plena e definitiva ocorrerá somente após a glorificação do nosso corpo, quando o veremos como Ele é (cf. 1 Jo 3.2).

Outro ponto relevante em João 1.18 é a expressão “Filho unigênito”. No texto grego, essa expressão aparece em diferentes manuscritos. Alguns trazem a leitura monogenēs theos, que significa literalmente “Deus unigênito”, enquanto outros registram monogenēs huios, traduzido como “Filho unigênito”. A Nova Almeida Atualizada opta corretamente pela tradução “Deus unigênito”.

Ambas as leituras afirmam claramente a plena divindade de Cristo. Ser o “Filho unigênito” não indica criação ou inferioridade, mas aponta para a relação única e eterna do Filho com o Pai, compartilhando da mesma essência divina. Dessa forma, João reafirma que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e o único e perfeito revelador do Pai.  

Ev. WELIANO PIRES 

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