05 fevereiro 2026

O VERBO COMO DEUS ETERNO

(Comentário do 1º tópico da Lição 6: O Filho como o Verbo de Deus)

No primeiro tópico, abordaremos o Verbo como Deus eterno. Inicialmente, trataremos da preexistência do Verbo, com base na expressão joanina: “No princípio, era o Verbo” (Jo 1.1a).

Em seguida, analisaremos a distinção entre o Verbo e o Pai, a partir da afirmação de João: “o Verbo estava com Deus” (Jo 1.1b), demonstrando que o Verbo não é o próprio Deus Pai, mas uma pessoa distinta.

Por fim, examinaremos a declaração final do versículo: “o Verbo era Deus” (Jo 1.1c), evidenciando que o Verbo possui a mesma essência divina do Pai.

1. O Verbo preexistente. Neste subtópico, o comentarista observa que o prólogo do Evangelho segundo João é frequentemente denominado “Hino ao Logos”. Tal designação decorre de uma discussão teológica relacionada à estrutura literária do texto, marcada pelo paralelismo semítico característico da literatura bíblica.

Alguns estudiosos defendem que essa perícope de João 1.1–18 consistia originalmente em um hino cristão primitivo, posteriormente incorporado por João ao seu Evangelho. Outros, porém, entendem que o próprio apóstolo João tenha composto esse hino como prólogo, a fim de introduzir e antecipar os principais temas do livro.

O prólogo de um livro é a parte introdutória que antecede o corpo principal da obra e tem por finalidade preparar o leitor para o seu conteúdo. No âmbito bíblico e teológico, o prólogo frequentemente assume a função de síntese teológica da obra. 

Nesse sentido, Luciane da Silva Neves Paes Leme afirma que “o prólogo é uma introdução ao evangelho de João, porém uma introdução que já aparece como síntese de tudo aquilo que será discutido durante todo o escrito joanino”.

O comentarista dedica-se, neste subtópico, à análise da primeira parte de João 1.1, que declara: “No princípio era o Verbo”. A expressão “no princípio”, utilizada por João, remete deliberadamente ao início do livro de Gênesis: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1).

Em Gênesis 1.1, a expressão hebraica bereshit refere-se ao início da criação, quando Deus trouxe à existência os céus e a terra. João, entretanto, ao empregar a expressão grega en archē, não se limita a um ponto inicial no tempo, mas aponta para a eternidade passada, indicando uma existência infinita, sem começo e sem fim.

De acordo com a Concordância de Strong, a preposição en pode significar “em”, “por” ou “com”. O substantivo archē, por sua vez, possui diversos significados, tais como: começo, origem; aquele que dá início a algo; a primeira pessoa ou coisa em uma série; líder; princípio governante; causa ativa; bem como principado, domínio ou autoridade.

Assim, quando João afirma: “No princípio era o Verbo”, ele não se refere a um evento localizado no tempo, mas apresenta o Filho de Deus como o Princípio de todas as coisas. Trata-se de uma afirmação cristológica que ressalta a eternidade do Logos, pois tudo tem nele a sua origem e existência.

2. O Verbo como pessoa distinta. Na segunda parte de João 1.1, lemos que “o Verbo estava com Deus”. Nesse texto, o termo “Deus” refere-se ao Pai, enquanto o Verbo é identificado como o Filho. João deixa claro que o Verbo estava em comunhão com o Pai, evidenciando uma distinção pessoal entre ambos. Assim, o evangelista afirma que o Verbo não é o próprio Pai, mas uma Pessoa distinta, embora da mesma essência divina, conforme veremos no próximo subtópico. 

A distinção pessoal dentro da unidade divina é amplamente confirmada por diversos acontecimentos e declarações ao longo do Novo Testamento, os quais demonstram que, embora sejam Pessoas distintas, não se trata de deuses diferentes. Um exemplo claro encontra-se na chamada Oração Sacerdotal de Jesus, registrada em João 17, na qual o Filho dirige-se ao Pai, confirmando a distinção entre ambos. Jesus declara: 

“Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer. E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” (Jo 17.4,5).

Nesse contexto, é evidente que Jesus não fala consigo mesmo, mas dirige-se ao Pai. Ele enfatiza que, antes da fundação do mundo, ambos já existiam em uma relação de comunhão, revelando simultaneamente unidade e distinção pessoal. 

Nos discursos de Jesus, especialmente na promessa do envio do Consolador, a distinção entre as três Pessoas da Trindade é novamente evidenciada. O Senhor afirma: 

“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (Jo 14.16).

Nesse texto, Jesus distingue claramente a si mesmo como o Filho que roga ao Pai, ao mesmo tempo em que anuncia o envio do Espírito Santo. Tal declaração revela não apenas a distinção das Pessoas divinas, mas também o relacionamento harmonioso entre elas no plano da redenção.

Há ainda muitas outras passagens bíblicas que confirmam a distinção entre as Pessoas da Santíssima Trindade, como João 15.26, onde Jesus volta a mencionar o Espírito Santo, bem como diversas referências nas epístolas paulinas (cf. Ef 1.3–14; 2Co 1.21–22). Dessa forma, a doutrina de que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três Pessoas distintas, mas um só Deus, constitui um ensinamento central e claramente afirmado no Novo Testamento.

3. O Verbo é da mesma essência do Pai. O evangelista João conclui o primeiro versículo do seu Evangelho afirmando que “[…] o Verbo era Deus” (Jo 1.1c). Essa declaração revela uma verdade central da fé cristã: embora o Filho seja uma Pessoa distinta do Pai, Ele possui a mesma essência, natureza e glória divinas. Não se trata de semelhança moral ou funcional, mas de identidade de essência e natureza.

O Novo Testamento apresenta inúmeros textos que confirmam, de forma inequívoca, a divindade de Jesus Cristo. Um dos mais claros encontra-se em João 20.28. Após constatar pessoalmente a realidade da ressurreição, o apóstolo Tomé confessou: “Senhor meu, e Deus meu”. 

Essa declaração não foi corrigida nem rejeitada por Jesus. Caso fosse incorreta, o Senhor teria prontamente repreendido Tomé. Ao contrário, Ele recebeu essa confissão, confirmando sua legitimidade. Alguns que negam a divindade de Cristo argumentam que Tomé teria apenas expressado uma reação emocional de admiração, semelhante a expressões populares usadas hoje. No entanto, tal interpretação ignora o contexto histórico e religioso. 

Tomé era judeu, e, na tradição judaica, o nome de Deus não é usado de maneira leviana ou como mera exclamação. Ao chamar Jesus de “Senhor” (Kyrios) e “Deus” (Theós), Tomé empregou títulos reservados exclusivamente ao Deus verdadeiro, reconhecendo, assim, a plena divindade de Cristo.

Diante de textos como esse, torna-se evidente que as Escrituras afirmam claramente que Jesus é Deus. Negar essa verdade exige não apenas interpretações forçadas, mas também o enfraquecimento da autoridade bíblica. Ao longo da história, diferentes grupos tentaram reinterpretar ou modificar passagens bíblicas para adequá-las a sistemas doutrinários previamente estabelecidos.

Nesse contexto, destaca-se a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, produzida pela Sociedade Torre de Vigia. Nessa versão, algumas passagens bíblicas receberam traduções interpretativas que se afastam do texto original. Em João 1.1, por exemplo, onde o texto grego afirma claramente que “o Verbo era Deus”, foi introduzido um artigo indefinido inexistente no original, além do uso de inicial minúscula, com o objetivo de negar a plena divindade do Filho.

O mesmo ocorre em textos como Tito 2.13 (“o grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo”) e 2 Pedro 1.1 (“nosso Deus e Salvador Jesus Cristo”), nos quais a estrutura gramatical do grego aponta para uma única Pessoa, Jesus Cristo, identificado como Deus e Salvador. Alterações nessas passagens resultam em interpretações que não refletem com fidelidade o sentido original.

Em 1 João 5.20, lemos: “E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.”

Diante da clareza dessa afirmação do apóstolo João e, não havendo como negar que esse texto afirma, de maneira explícita, a divindade de Jesus, a Sociedade Torre de Vigia simplesmente o suprimiu da Tradução do Novo Mundo. Ora, a Bíblia, em harmonia do início ao fim, afirma que Jesus é o verdadeiro Deus. Essa verdade é fundamental para a fé cristã, pois somente sendo Deus o Filho poderia revelar plenamente o Pai, vencer o pecado e conceder vida eterna aos que nele creem.

Referência:

LEME, Luciane da Silva Neves Paes. A Doutrina do Logos e o Prólogo de João: uma perspectiva no método histórico-gramatical da exegese bíblica. Curitiba: Revista Teológica Pneuma, 2022, p. 127.

Ev. WELIANO PIRES 

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