(Comentário do 1º tópico da Lição 7: A Obra do Filho)
No primeiro tópico, estudaremos a primeira parte da obra do Filho de Deus: a sua humilhação voluntária. Esse aspecto revela a profundidade do amor de Cristo e apresenta o modelo de vida cristã a ser seguido.
Inicialmente, analisaremos a atitude de submissão de Cristo no cumprimento do plano da salvação. Tal atitude serve de exemplo para o crente, que é chamado a renunciar a toda forma de egoísmo, a buscar o bem do próximo e a viver para a glória de Deus.
Em seguida, refletiremos sobre o esvaziamento da glória de Cristo. Embora sendo Deus, o Filho “aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo” (Fp 2.7). Esse esvaziamento não significa que Ele tenha deixado de ser Deus, mas que, voluntariamente, abriu mão de seus privilégios divinos para cumprir a missão redentora.
Por fim, destacaremos a obediência sacrificial de Cristo ao Pai, desde a sua encarnação até a morte na cruz (Fp 2.8). Foi essa obediência perfeita que tornou possível a nossa salvação, e não quaisquer méritos humanos.
1. A Submissão de Cristo
No contexto de Filipenses 2, antes de tratar da submissão voluntária de Cristo, o apóstolo Paulo exorta os crentes a nada fazerem por contenda ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo e priorizando o próximo (Fp 2.1–4).
Na sequência dessa exortação, o apóstolo recomenda: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2.5).
O texto de Filipenses 2.5–11 é considerado por muitos estudiosos um antigo hino cristológico. Alguns afirmam que esse hino era entoado pelos primeiros cristãos, sendo anterior à Epístola aos Filipenses e posteriormente incorporado ao texto pelo apóstolo Paulo. Não sabemos se essa hipótese procede; contudo, isso em nada altera o valor inspirado e doutrinário da mensagem nele contida.
A palavra grega phroneō, traduzida por “sentimento” nesse texto, vai além de mera emoção. Refere-se a uma disposição interior, a um modo de pensar que se traduz em atitudes concretas. Jesus nos deu o exemplo supremo de humildade e submissão ao Pai. Mesmo sendo Deus, jamais buscou glória para si nem promoveu a si mesmo. A mansidão e a humildade fazem parte de sua própria natureza (Mt 11.29).
2. O Esvaziamento de Sua Glória
Após apresentar o modo de pensar de Cristo como exemplo supremo de humildade e submissão voluntária, o apóstolo Paulo fundamenta sua exortação na própria obra redentora do Senhor:
“Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fp 2.6,7).
Nesses versículos encontramos verdades profundas a respeito da Pessoa de Cristo, essenciais para a compreensão da doutrina cristã.
a) “Sendo em forma de Deus”
A expressão grega hos morphē theou hyparchōn afirma que Cristo subsistia na forma de Deus antes de sua encarnação. O termo morphē não se refere apenas à aparência externa, mas à manifestação visível de uma realidade essencial. Em outras palavras, Paulo declara que Jesus possui a mesma essência e natureza de Deus.
Temos aqui uma clara afirmação da divindade e da preexistência de Cristo. Ele não passou a existir em Belém; antes, existia eternamente com o Pai. Essa verdade harmoniza-se com João 1.1 e reafirma que Jesus é plenamente Deus.
b) “Não teve por usurpação ser igual a Deus”
Essa expressão não significa que Cristo não fosse igual a Deus, mas que não considerou essa igualdade como algo a que deveria apegar-se para benefício próprio. Ele não explorou sua posição divina em vantagem pessoal.
O texto revela a atitude voluntária de Cristo. Mesmo sendo Deus, não se valeu de seus direitos divinos para evitar o sofrimento da encarnação e da cruz. Aqui vemos o contraste entre o primeiro Adão, que desejou ser igual a Deus (Gn 3.5), e o último Adão, que, sendo Deus, humilhou-se (Rm 5.19; 1Co 15.45).
c) “Aniquilou-se a si mesmo”
A palavra grega ekenōsen (de kenóō) pode ser traduzida como “esvaziou-se”. Esse termo não significa que Cristo deixou de ser Deus ou que tenha perdido seus atributos divinos. Ao longo da história, surgiu uma heresia conhecida como kenoticismo, segundo a qual Cristo teria abandonado atributos como onipotência, onisciência e onipresença ao tornar-se homem. Tal interpretação, porém, não encontra respaldo nas Escrituras.
Colossenses 2.9 declara: “Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”. Portanto, mesmo encarnado, Cristo continuou sendo plenamente Deus.
Seu esvaziamento consistiu não na perda de sua natureza divina, mas na renúncia voluntária à glória que tinha com o Pai antes que o mundo existisse (Jo 17.5). Ele assumiu a forma de servo e submeteu-se às limitações próprias da condição humana. Essa autolimitação refere-se ao não uso independente de seus atributos, e não à abdicação deles.
3. Obediência Sacrificial até a Cruz
Após discorrer sobre a submissão e o esvaziamento de Cristo, o apóstolo Paulo destaca a profundidade de sua humildade, evidenciada em sua total obediência ao Pai: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.8).
A obediência de Cristo não foi circunstancial, mas constante e perfeita. Desde a encarnação até o Calvário, Ele submeteu-se voluntariamente à vontade do Pai. O Senhor Jesus afirmou: “Porque eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6.38). Sua obediência foi espontânea, consciente e amorosa.
O escritor aos Hebreus declara que Cristo “aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” (Hb 5.8), não no sentido de que fosse desobediente, mas porque experimentou plenamente, na condição humana, o custo da obediência. Paulo também ensina que “pela obediência de um, muitos serão feitos justos” (Rm 5.19). Assim, a nossa redenção está diretamente ligada à obediência perfeita do Filho.
A cruz era considerada uma forma de execução cruel e degradante. Aplicada pelo Império Romano a escravos rebeldes, criminosos perigosos e povos subjugados, tratava-se de pena tão desonrosa que não era imposta a cidadãos romanos. Além da dor física, havia a exposição pública e a vergonha.
Para os judeus, a morte por crucificação trazia ainda um peso espiritual, pois estava escrito: “Maldito por Deus é todo aquele que for pendurado no madeiro” (Dt 21.23). Ser suspenso em um madeiro era sinal de maldição e rejeição. Todavia, conforme profetizado por Isaías, o Messias seria “desprezado e o mais rejeitado entre os homens” (Is 53.3).
Na cruz, Cristo assumiu não apenas o sofrimento físico, mas também o peso espiritual do pecado da humanidade. Entretanto, não é na intensidade do sofrimento que reside o valor do sacrifício de Cristo. Muitos outros padeceram mortes cruéis ao longo da história. O valor da cruz está na Pessoa que nela se entregou.
Somente Cristo poderia efetuar essa obra, pois é absolutamente santo e não cometeu pecado (1Pe 2.22). Sua morte não foi mero martírio, mas substituição redentora. Ele se fez maldição por nós (Gl 3.13), a fim de nos libertar da condenação. Assim, o valor do sacrifício está diretamente ligado à identidade singular de Cristo — verdadeiro Deus e verdadeiro homem — e à eficácia de sua obra expiatória.
Ev. WELIANO PIRES
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