24 março 2026

REVISÃO DAS LIÇÕES BÍBLICAS / 1º TRIMESTRE DE 2026


INTRODUÇÃO

Graças a Deus, chegamos ao final de mais um trimestre de estudos em nossa Escola Bíblica Dominical. O assunto estudado neste trimestre foi estritamente teológico e exigiu muito, tanto do professor explicá-lo, quanto para o aluno entendê-lo.

Estudamos um dos maiores mistérios da teologia cristã, que é a Doutrina da Santíssima Trindade. Esse assunto já foi alvo de grandes debates em concílios ao longo da história da Igreja e, ainda hoje, suscita muitos questionamentos, principalmente na internet.

O tema da revista deste trimestre foi: A Santíssima Trindade: O Deus Único Revelado em Três Pessoas Eternas. Para compreendermos bem esse tema, faz-se necessário um conhecimento básico de pelo menos três disciplinas da teologia sistemática: Teontologia, que é o estudo sobre Deus; Cristologia, que é o estudo sobre a Pessoa e a obra de Cristo; e Pneumatologia, que é o estudo da Pessoa e da obra do Espírito Santo.

As lições deste trimestre estão organizadas da seguinte forma: a lição introdutória, apresentando a coexistência perfeita e harmoniosa do Pai, do Filho e do Espírito Santo, com base no relato do batismo de Jesus; três lições sobre a Pessoa de Deus Pai e o seu relacionamento com o Filho; três lições sobre a Pessoa e a Obra de Deus Filho; três lições sobre a Pessoa e a Obra de Deus Espírito Santo; uma lição sobre a relação entre o Pai e o Espírito Santo; uma lição sobre a relação entre o Filho e o Espírito Santo; e a lição conclusiva sobre a Santíssima Trindade e a Igreja de Cristo.

COMENTARISTA: Pr. Douglas Baptista

Douglas Roberto de Almeida Baptista é pastor-presidente da Assembleia de Deus de Missão, no Distrito Federal; presidente da Sociedade Brasileira de Teologia Cristã Evangélica; presidente do Conselho de Educação e Cultura da CGADB; presidente da Ordem dos Capelães Evangélicos do Brasil; segundo vice-presidente da Convenção dos Ministros Evangélicos das ADs de Brasília e Goiás; vice-presidente da Rede Assembleiana de Ensino (RAE) e diretor-geral do Instituto Brasileiro de Teologia e Ciências Humanas.

É doutor em Teologia Sistemática, mestre em Teologia do Novo Testamento, pós-graduado em Docência do Ensino Superior e Bibliologia, além de licenciado em Educação Religiosa e Filosofia.

É comentarista de Lições Bíblicas há vários anos; colunista de periódicos da CPAD e do Portal CPAD News; e autor de diversos livros publicados pela CPAD, entre eles: Filosofia da Educação Cristã, A Igreja de Cristo e o Império do Mal, Valores Cristãos, A Igreja Eleita e A Supremacia das Escrituras.

O Pr. Douglas Baptista tem ampla atuação na área educacional da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil e tem representado essa instituição em debates e audiências públicas no Congresso Nacional e no Supremo Tribunal Federal, em temas relacionados aos valores morais e à cosmovisão cristã. Foi também o relator da Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil.

1. LIÇÃO INTRODUTÓRIA: O MISTÉRIO DA SANTÍSSIMA TRINDADE.

Nesta primeira lição, estudamos o conceito da Doutrina da Santíssima Trindade e o seu sólido fundamento bíblico. Trata-se de uma das doutrinas centrais da fé cristã e que, ao longo da história da Igreja, tem sido alvo de muitos debates e questionamentos.

A palavra Trindade deriva do termo latino trinitas ou trinitatis, que significa “tríade”, “reunião de três” ou “estado de ser triplo”. Alguns teólogos também utilizam o termo Triunidade, que procura expressar ao mesmo tempo a unidade e a pluralidade de Deus: Pai, Filho e Espírito Santo.

É importante observar que o termo “Trindade” não aparece literalmente na Bíblia. Ele é um termo teológico, de origem latina, utilizado pela primeira vez por Tertuliano por volta do ano 213 d.C. O termo grego equivalente é trias, usado originalmente por Teófilo de Antioquia.

Desde os primeiros séculos do cristianismo surgiram algumas heresias que tentaram negar ou distorcer essa doutrina. Entre elas estão o Arianismo ou Unitarismo, e também o Modalismo ou Unicismo.

O Arianismo, defendido pelo presbítero Ário de Alexandria, ensinava que somente o Pai é verdadeiramente Deus e que o Filho teria sido a primeira criatura criada por Ele. Essa ideia negava a plena divindade de Cristo. Essa doutrina ainda é ensinada atualmente por grupos como as Testemunhas de Jeová.

Outra heresia foi o Modalismo, também chamado de Unicismo. Essa doutrina afirmava que Pai, Filho e Espírito Santo não são três Pessoas distintas, mas apenas três manifestações de um único Deus. Essa posição também ficou conhecida como Sabelianismo, por ter sido defendida por Sabélio.

Existe ainda o Triteísmo, que ensina que Pai, Filho e Espírito Santo seriam três deuses. No entanto, isso seria politeísmo, algo totalmente contrário ao ensino bíblico. A Bíblia ensina que há um único Deus, que subsiste eternamente em três Pessoas distintas.

Infelizmente, alguns pregadores, ao tentarem dramatizar o plano da salvação, acabam descrevendo diálogos ou discussões entre as Pessoas da Trindade como se fossem três deuses separados. Esse tipo de explicação pode levar a uma compreensão equivocada da doutrina bíblica.

Ao longo da história da Igreja, essa doutrina foi amplamente discutida. No Concílio de Niceia, realizado no ano 325 d.C., a Igreja afirmou de maneira clara a divindade do Filho. Posteriormente, o Concílio de Constantinopla também reafirmou essa doutrina.

É importante destacar que esses concílios não “criaram” a doutrina da Trindade. Na verdade, eles apenas confirmaram e sistematizaram aquilo que já estava revelado nas Escrituras e que os cristãos já criam desde o início da Igreja.

Outro ponto importante é que não devemos tentar explicar a Trindade por meio de comparações humanas ou ilustrações da natureza. Muitas dessas ilustrações acabam distorcendo a doutrina e, em vez de ajudar, podem reforçar ideias equivocadas, como o modalismo.

Nesta lição introdutória, o comentarista utilizou como base o episódio do batismo de Jesus. Nesse momento, vemos claramente a manifestação das três Pessoas da Trindade ao mesmo tempo: o Pai fala do céu, o Filho está sendo batizado nas águas e o Espírito Santo desce sobre Ele em forma corpórea, como pomba.

A Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil, no capítulo III, afirma:

“Cremos, professamos e ensinamos o monoteísmo bíblico: que Deus é uno em essência ou substância, indivisível em natureza, e que subsiste eternamente em três Pessoas — o Pai, o Filho e o Espírito Santo — iguais em poder, glória e majestade e distintas em função, manifestação e aspecto [...]. Cada Pessoa da Santíssima Trindade possui todos os atributos divinos: onipotência, onisciência, onipresença, soberania e eternidade.”

Assim, concluímos que a Doutrina da Santíssima Trindade é um grande mistério da fé cristã, plenamente revelado nas Escrituras e fundamental para a compreensão correta de Deus.

2. A PESSOA DO DEUS PAI E O SEU RELACIONAMENTO COM O FILHO.

Nas lições 2, 3 e 4 estudamos a primeira Pessoa da Santíssima Trindade: o Pai, de quem procedem o Filho e o Espírito Santo.

Quando dizemos que o Filho e o Espírito Santo procedem do Pai, precisamos ter cuidado para não imaginar que o Pai os criou ou que houve um tempo em que o Filho e o Espírito Santo não existiam, como afirmam os unitaristas. Essa “procedência” não se refere à origem no tempo, mas sim à relação eterna entre as três Pessoas divinas.

A doutrina da Trindade ensina que há um só Deus, que subsiste em três Pessoas distintas, que são coeternas, consubstanciais e distintas.

Isso significa que:

a) As três Pessoas existem juntas por toda a eternidade; nenhuma delas teve princípio (coeternas);

b) As três Pessoas possuem a mesma essência, natureza e poder (consubstanciais);

c) As três Pessoas são distintas entre si: o Pai não é o Filho, o Filho não é o Espírito Santo e o Espírito Santo não é o Pai.

Na lição 2, o comentarista afirmou que o Pai é o Único Deus Verdadeiro, destacando o papel de Deus como Criador e sustentador de todas as coisas. Essa afirmação pode parecer confusa à primeira vista, mas foi o próprio Jesus quem declarou isso em João 17.3:

“E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti só por único Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste.”

Diante dessa afirmação, surge uma pergunta importante:

Se o Pai é o único Deus verdadeiro, então o Filho e o Espírito Santo também não são Deus verdadeiro?

Para compreender corretamente essa declaração, é necessário considerar o contexto em que Jesus a pronunciou.

Jesus fez essa afirmação na condição humana, exaltando o Pai. Quando Ele diz que o Pai é o único Deus verdadeiro, isso ocorre em contraste com os falsos deuses. De fato, existe apenas um único Deus verdadeiro. Entretanto, esse Deus é uma unidade composta, revelada nas três Pessoas da Trindade.

O Novo Testamento também afirma claramente que Jesus é Deus verdadeiro:

“E sabemos que já o Filho de Deus é vindo e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.” (1Jo 5.20)

Além disso, as Escrituras afirmam que o Espírito Santo é Deus. Em Atos 5.3–4, o apóstolo Pedro declara que mentir ao Espírito Santo é mentir ao próprio Deus.

Portanto, devemos ter cuidado para não cair no erro do Unitarismo, que ensina que somente o Pai é Deus verdadeiro e que o Filho seria uma criatura criada por Ele.

A revelação bíblica mostra que Deus é uma unidade composta, de modo que Pai, Filho e Espírito Santo são o mesmo Deus, coexistindo eternamente como três Pessoas distintas, porém da mesma essência.

O Pai se faz conhecer por meio do Filho

O Pai se revela por meio do Filho, conforme declarou o próprio Jesus:

“Ninguém conhece o Pai senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar.” (Mt 11.27)

Deus é um ser transcendente, ou seja, está infinitamente além da plena compreensão humana. Por essa razão, Ele só pode ser verdadeiramente conhecido por meio da revelação em Cristo.

O Filho é o único mediador entre Deus e os homens (1Tm 2.5) e o único plenamente capaz de revelar a natureza, a vontade e o amor do Pai.

Nesse sentido, Jesus afirma que ninguém conhece plenamente o Pai senão o Filho, e ninguém conhece plenamente o Filho senão o Pai.

Evidentemente, o Espírito Santo, que também é Deus, conhece plenamente o Pai e o Filho. Contudo, naquele momento do ministério terreno de Jesus, a revelação sobre o Espírito Santo ainda não havia sido plenamente apresentada. Essa revelação seria dada de forma mais clara aos discípulos pouco antes da ascensão de Cristo, conforme registrado em João capítulos 14 a 16.

O Pai enviou o Filho

O Filho unigênito de Deus foi enviado pelo Pai como a maior demonstração do Seu amor pela humanidade.

Esse amor é incondicional, gracioso e sacrificial. Em Sua misericórdia, Deus enviou Seu Filho a um mundo rebelde e pecador, totalmente indigno de tal amor.

No conhecido texto de João 3.16, Jesus declarou:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.”

O amor de Deus é incondicional, pois Ele amou pecadores que não mereciam ser amados e que não tinham como retribuir esse amor. Deus não encontrou mérito no ser humano para então decidir amá-lo; Ele amou por iniciativa própria, segundo a sua graça.

Sobre isso, o apóstolo Paulo escreveu:

“Mas Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Rm 5.8)

O próprio Jesus afirmou em várias ocasiões que foi enviado pelo Pai:

“Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou.” (Jo 6.38)

Quando lemos que o Filho foi enviado para fazer a vontade do Pai, pode surgir a impressão de que Ele seria inferior ao Pai. As seitas unitaristas usam esse argumento para negar a divindade de Cristo.

Entretanto, essa submissão é funcional, e não essencial. Ou seja, ela está relacionada ao plano da redenção, e não à natureza divina.

O envio do Filho não implica inferioridade ou hierarquia de natureza dentro da Trindade, pois o Pai, o Filho e o Espírito Santo compartilham a mesma essência divina.

A submissão do Filho ao Pai foi voluntária e está relacionada à obra da salvação.

A paternidade divina

Quando a Bíblia diz que Deus é Pai de Jesus, essa paternidade deve ser entendida de maneira diferente da paternidade humana.

Deus é Pai de todos os seres humanos e dos anjos no sentido de Criador. No Antigo Testamento, Ele é apresentado como Pai da criação, como lemos em Deuteronômio 32.6.

Deus também é Pai por adoção. Nesse sentido, Ele é Pai apenas daqueles que creem em Cristo, como diz João 1.12:

“Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome.”

Entretanto, Deus é Pai de Jesus Cristo de maneira única e eterna, por natureza.

Cristo é o Filho unigênito de Deus. A palavra grega monogenēs significa único em sua natureza, o Filho eternamente gerado — e não criado — pelo Pai.

Essa geração não implica criação, pois o Filho sempre existiu com o Pai, compartilhando da mesma essência divina.

3. A PESSOA E A OBRA DO DEUS FILHO.

Nas lições 5, 6 e 7, estudamos três lições sobre a Pessoa e obra do Filho de Deus: O Deus Filho, O Filho como o Verbo de Deus e A Obra do Filho. Jesus Cristo é o Filho Unigênito de Deus, que sempre existiu e possui a mesma essência e natureza do Pai. Por amor à humanidade e obediência voluntária ao Pai, Ele esvaziou-se da Sua glória e se fez humano. Mas nunca deixou de ser Deus.

A divindade de Cristo

Jesus Cristo é o Filho eterno de Deus e possui a mesma essência e substância do Pai (gr. homoousios). As Escrituras afirmam claramente essa verdade:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (Jo 1.1).

“Eu e o Pai somos um.” (Jo 10.30).

“Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.” (Cl 2.9).

“O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da majestade nas alturas.” (Hb 1.3).

A Bíblia também ensina que Deus possui atributos incomunicáveis, isto é, qualidades exclusivas da divindade. Esses atributos também são atribuídos a Cristo, confirmando Sua plena divindade. 

1. Imutabilidade. A imutabilidade é o atributo pelo qual Deus não muda em Sua essência, natureza ou perfeição. Essa característica é atribuída a Jesus Cristo:

“Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente.” (Hb 13.8).

2. Eternidade. Deus é eterno, pois nunca teve princípio e jamais terá fim. Nunca houve um tempo em que Deus não existisse. Ele existe acima do tempo e não está sujeito às suas limitações. A Bíblia afirma que o Filho compartilha dessa eternidade: 

“E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.” (Cl 1.17).

3. Onipotência. Deus é onipotente porque todo poder e autoridade pertencem a Ele. Não existe, nem jamais existirá, poder algum capaz de subjugá-Lo. Para Deus, nada é impossível. Este atributo também é atribuído a Cristo:

“Eu sou o Alfa e o Ômega… o Todo-Poderoso.” (Ap 1.8).

4. Onipresença. Deus é onipresente, pois está presente em todos os lugares ao mesmo tempo. Esse atributo não deve ser confundido com o panteísmo, que ensina que Deus é tudo e tudo é Deus. A onipresença afirma que Deus está em toda parte, sem se confundir com a criação. A Bíblia nos mostra claramente que Jesus é onipresente:

“E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação do mundo.” (Mt 28.20).

5. Onisciência. Deus é onisciente, pois Ele conhece plenamente todas as coisas, visíveis e invisíveis, passadas, presentes e futuras, em todos os lugares do universo. A Bíblia também nos mostra que Jesus é onisciente, pois Ele conhece pensamentos e mistérios que somente Deus conhece:

“Porque ele bem sabia o que havia no homem.” (Jo 2.25).

6. Autoexistência. Deus não foi criado e existe por Si mesmo. Ele é absolutamente autossuficiente, não dependendo de nada nem de ninguém fora de Si para existir ou subsistir. Jesus Cristo, o Filho de Deus também possui este atributo:

“Assim deu também ao Filho ter a vida em si mesmo.” (Jo 5.26).

A humanidade do Filho

No texto de Gálatas 4.4,5, o apóstolo Paulo escreveu: 

“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de Mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.”

Essa declaração aponta de maneira inequívoca para a plena humanidade de Jesus Cristo. Embora possa parecer improvável, já nos dias dos apóstolos havia pessoas que negavam que Jesus tivesse assumido uma verdadeira natureza humana.

Os primeiros a negar que Jesus possuía um corpo humano real foram os docetas. O docetismo teve origem em concepções gnósticas que defendiam um dualismo entre espírito e matéria, considerando o espírito como essencialmente bom e a matéria como essencialmente má. Dessa forma, sustentavam que, sendo Jesus verdadeiramente Deus, Ele não poderia ter um corpo físico, pois, segundo essa visão, o corpo seria inerentemente mau.

Entretanto, os Evangelhos testemunham de forma clara que Jesus possuía um corpo físico real. Em diversas ocasiões, os discípulos tocaram em Jesus, caminharam com Ele, conversaram pessoalmente e conviveram intimamente com sua vida cotidiana. Eles nunca tiveram dúvidas quanto à realidade de sua humanidade. Os relatos evangélicos apresentam, com riqueza de detalhes, aspectos claros da vida humana de Cristo.

Os Evangelhos de Mateus e Lucas registram informações significativas acerca do nascimento de Jesus, desde o anúncio do seu nascimento, mencionando também várias pessoas que testemunharam esses acontecimentos. Ambos apresentam a genealogia de Jesus e fazem referência aos seus familiares. 

Marcos, por sua vez, inicia seu relato apresentando Jesus já na idade adulta, no início de seu ministério público, dando grande ênfase aos milagres que Ele realizou. Ainda assim, Marcos retrata Jesus como um verdadeiro homem que vivia e se movia entre as multidões. Esses três evangelistas expõem de maneira consistente a humanidade de Jesus, não deixando dúvidas quanto à realidade de seu corpo físico.

O Evangelho segundo João se distingue dos Sinóticos por enfatizar de modo especial a divindade de Cristo e o significado teológico do seu ministério. Todavia, João também afirma com clareza a plena humanidade de Jesus. No prólogo do seu Evangelho, ele declara:

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14).

Com essa afirmação, João ensina que o Filho eterno de Deus assumiu a natureza humana e viveu entre os homens. Essa verdade é reafirmada pelo apóstolo também em suas Epístolas (1 Jo 1.1–3; 4.2).

O Filho como o Verbo eterno de Deus

A palavra verbo deriva do latim verbum, que significa “palavra”, “termo” ou “expressão”. Inicialmente, o termo latino designava qualquer palavra, mas, posteriormente, passou a ser usado como classe gramatical que expressa ação, estado ou fenômeno. Na língua portuguesa, o verbo indica, portanto, ação, estado ou acontecimento, funcionando como o núcleo da oração.

No grego antigo, havia duas palavras traduzidas por “palavra” ou “verbo”: lógos e rhêma. O termo lógos possuía uma ampla variedade de significados para os gregos, muito além do sentido de “verbo” em português: podia indicar palavra, discurso, razão, argumento, sentido ou princípio racional. Já o termo rhêma significava aquilo que é dito, enunciado, fala em ato, ou, no contexto gramatical, verbo.

Nas Escrituras hebraicas, o termo dābār abrange os sentidos de palavra, fala, ação e evento. Na Septuaginta — versão grega do Antigo Testamento — dābār foi traduzido tanto por lógos quanto por rhêma, conforme o contexto. Para os judeus, dābār era o agente da criação, conforme explica o teólogo Matthew Henry, em seu comentário sobre o texto de João 1:

“Pela palavra [Dābār] do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca” (Sl 33.6).

Enquanto para os gregos o Logos era um princípio racional que ordenava o mundo, para os judeus o Dābār era o agente criador e a própria Palavra de Deus, João apresenta o Verbo como preexistente, pessoal, divino, distinto do Pai e encarnado.

Assim, ao empregar o termo lógos, João estabelece uma ponte entre o pensamento hebraico e o grego, mas ao mesmo tempo revela uma verdade teológica única: o Verbo não é impessoal nem abstrato. Para os judeus, seria impossível conceber que Jesus pudesse ser o Dābār, e, para os gregos, seria absurda a ideia de humanizar o Logos. João, entretanto, mostra que o Verbo eterno se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14), revelando a encarnação de Deus em Jesus Cristo.

A obra redentora do Filho de Deus

A palavra obra deriva do substantivo latino opera, que significa “trabalho”, “esforço” ou “atividade”. No latim clássico, opera está relacionada à ideia de trabalho ou tarefa realizada, e foi incorporada ao português como obra, mantendo o sentido de aquilo que é produzido ou executado por alguém.

No contexto deste estudo, obra refere‑se ao conjunto de ações pelas quais Cristo se submeteu em favor da humanidade: desde a Sua encarnação, passando pela Sua humanização e pelo sacrifício vicário na cruz do Calvário, até a Sua ressurreição e gloriosa exaltação. Isso significa que toda essa realização foi o ato completo e eficaz de Deus para a redenção dos pecadores.

A ineficiência do sacerdócio levítico

Em todo o Antigo Testamento, Deus utilizou figuras, tipos e personagens que apontavam para a Nova Aliança, para Cristo, para o seu sacrifício e para a Igreja (Cl 2.16,17; Hb 8.5; 10.1). O escritor da Epístola aos Hebreus demonstra que aqueles rituais eram imperfeitos, provisórios e transitórios, pois não podiam aperfeiçoar a consciência do adorador (Hb 7.18,19; 9.9,10).

Por não ser perfeito, o sumo sacerdote precisava oferecer sacrifícios por si mesmo antes de interceder pelo povo (Hb 5.1-3; 7.27). Além disso, os sacrifícios eram repetidos continuamente, evidenciando sua insuficiência (Hb 10.1-4,11). 

Por ser provisório e insuficiente para solucionar plenamente o problema do pecado, o sacerdócio levítico foi substituído pelo sacerdócio de Cristo, segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110.4; Hb 7.11-17), que é perfeito, eterno e infinitamente superior (Hb 7.23-28; 9.11,12), tendo oferecido um único e suficiente sacrifício pelos pecados (Hb 10.12-14).

O Sacrifício de Cristo foi único e suficiente

Cristo, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29; 1 Pe 1.18,19), ofereceu-se em sacrifício uma única vez pelos pecados de toda a humanidade (Rm 6.10; Hb 9.26-28). Seu sacrifício é plenamente suficiente para purificar, de uma vez por todas, aqueles que nele creem (Hb 7.27; 10.10,14; 1 Jo 1.7).

Ao bradar no Calvário: “Está consumado!” (Jo 19.30), consumando a obra redentora, o véu do Templo — que separava o Lugar Santo do Lugar Santíssimo — rasgou-se de alto a baixo (Mt 27.50,51; Mc 15.37,38; Lc 23.45). Esse acontecimento simbolizou o fim da antiga ordem sacrificial e a remoção da barreira que separava o homem de Deus, possibilitando o livre acesso à presença do Pai mediante a fé em Cristo (Hb 10.19-22; Ef 2.13-18).

O sacrifício de Cristo foi vicário e expiatório

A palavra vicário deriva do latim vicarius, que significa “no lugar de outro”. Já o termo expiatório procede do latim expiāre, que significa “purificar” ou “reparar uma falta”. Assim, Jesus padeceu em nosso lugar para purificar-nos dos pecados e reconciliar-nos com Deus.

Jesus é o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Ele levou sobre si os nossos pecados (Is 53.4) e realizou a reconciliação entre Deus e a humanidade (2Co 5.18,21). Conforme afirma a Escritura, há “um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1Tm 2.5). Não há outra forma de salvação para os pecadores senão por meio do sacrifício de Cristo.

Assim, somente por meio de Cristo é possível a reconciliação do pecador com Deus, pois Ele é o único caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6), e em nenhum outro há salvação (At 4.12; 1 Tm 2.5). 

4. A PESSOA E A OBRA DO DEUS ESPÍRITO SANTO.

Nas lições 8, 9 e 10 estudamos a Pessoa e a obra do Espírito Santo, abordando os seguintes temas: O Deus Espírito Santo; O Espírito Santo — o Regenerador; e O Espírito Santo — o Capacitador.

A personalidade do Espírito Santo

O Espírito Santo é uma Pessoa distinta do Pai e do Filho, mas consubstancial com ambos. É importante compreender a diferença entre os termos “distinto” e “diferente”. Embora pareçam semelhantes, não expressam exatamente a mesma ideia. O termo distinto indica que é outro, sem implicar desigualdade de natureza; já diferente pode sugerir desigualdade de essência ou natureza.

Na Trindade, as Pessoas são distintas — o Pai não é o Filho, o Filho não é o Espírito Santo e o Espírito Santo não é o Pai —, porém não são diferentes em essência, pois compartilham plenamente a mesma natureza divina.

Ao afirmarmos que o Espírito Santo é uma Pessoa, estamos declarando uma verdade fundamental da fé cristã. A Bíblia não o apresenta como uma força ativa ou mera influência divina, mas como uma Pessoa divina que participa plenamente da Trindade. Ele possui atributos pessoais como intelecto, sentimentos e vontade.

O apóstolo Paulo ensina que o Espírito Santo revela as profundezas de Deus (1Co 2.10), demonstrando seu intelecto. Também adverte os crentes a não o entristecerem (Ef 4.30), evidenciando que Ele possui sentimentos. Além disso, ao tratar dos dons espirituais, o apóstolo afirma que o Espírito distribui a cada um “como quer” (1Co 12.11), indicando que Ele exerce vontade própria. Tais características não podem ser atribuídas a uma energia impessoal, mas a uma Pessoa divina que age de modo consciente e soberano.

A divindade do Espírito Santo

Além de ser Pessoa, a Bíblia revela que o Espírito Santo é Deus. Ele possui a mesma essência e natureza do Pai e do Filho. Essa verdade é confirmada tanto pelos atributos divinos que lhe são atribuídos nas Escrituras quanto pelas obras que realiza.

Nos primeiros séculos da Igreja, pouco se definiu sobre o Espírito Santo. Os credos apostólico e niceno afirmavam apenas: “Creio no Espírito Santo”, sem declarações mais detalhadas sobre a sua Pessoa.

Com o surgimento da heresia dos pneumatômacos — termo grego que significa “combatentes do Espírito”, que aceitavam a divindade de Cristo, mas negavam a do Espírito Santo — tornou-se necessária uma definição mais clara.

Para tratar dessa questão foi convocado o Concílio de Constantinopla, em 381 d.C., que reafirmou a divindade da terceira Pessoa da Trindade e acrescentou ao credo as seguintes palavras:

“Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, que procede do Pai, e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado.”

Os atributos divinos do Espírito Santo

Nas lições anteriores vimos que o Pai e o Filho possuem atributos exclusivos da divindade. A Bíblia também revela que esses atributos pertencem ao Espírito Santo, o que confirma a sua plena divindade.

Entre esses atributos destacam-se:

a) Onipotência. O Espírito Santo manifesta o poder de Deus (Lc 1.35; Rm 15.19).

b) Onisciência. Nada está além de seu conhecimento (At 5.3,4; 1Co 2.10,11).

c) Onipresença. Não há lugar onde alguém possa escapar de sua presença (Sl 139.7–10).

d) Eternidade. Ele não começou a existir no Pentecostes, pois estava presente desde a criação (Gn 1.2; Hb 9.14).

Esses atributos pertencem exclusivamente à divindade. Portanto, são evidências claras de que o Espírito Santo é Deus, possuindo a mesma essência do Pai e do Filho.

Os símbolos do Espírito Santo

A Bíblia apresenta diversos símbolos que ilustram a atuação do Espírito Santo, entre eles: fogo, água, vento, óleo (azeite) e pomba. Esses símbolos não definem a essência do Espírito Santo, mas ajudam a compreender aspectos de sua obra.

a) Fogo. Na Bíblia, o fogo frequentemente está associado à presença de Deus (Êx 3.2) e simboliza purificação, santificação e poder. No Dia de Pentecostes apareceram “línguas repartidas, como que de fogo” sobre os discípulos (At 2.3,4). O texto não afirma que o Espírito seja fogo, mas que sua manifestação ocorreu de forma semelhante a línguas de fogo.

b) Água. A água simboliza purificação, renovação e vida espiritual. O Senhor Jesus Cristo declarou: “Quem crê em mim, como diz a Escritura, rios de água viva correrão do seu interior” (Jo 7.38). O próprio evangelista explica que Ele se referia ao Espírito Santo (Jo 7.39).

c) Vento. O vento é invisível, poderoso e incontrolável. Jesus afirmou: “O vento sopra onde quer… assim é todo aquele que é nascido do Espírito” (Jo 3.8). O termo grego pneuma pode significar tanto “vento” quanto “espírito”.

c) Óleo ou azeite. Nos tempos bíblicos, o azeite era usado como combustível, medicamento e elemento de unção. Como símbolo do Espírito Santo, representa consagração e capacitação divina (2Co 1.21,22).

d) Pomba. A pomba simboliza pureza, paz e mansidão. No batismo de Jesus, o Espírito Santo desceu sobre Ele “como pomba” (Mt 3.16). O texto descreve a forma da manifestação, não a natureza do Espírito.

O Espírito Santo como regenerador

A palavra grega palingenesia, traduzida como regeneração, aparece apenas duas vezes no Novo Testamento.

Em Mateus 19.28 refere-se à renovação futura de todas as coisas no Reino de Deus. Já em Tito 3.5 refere-se à obra interior do Espírito Santo na vida do pecador.

Outra expressão relacionada à regeneração é gennēthē anōthen, que significa “nascer do alto” ou “nascer de novo”.

Jesus declarou a Nicodemos: “Quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus” (Jo 3.3).

A regeneração é necessária porque todos pecaram (Rm 3.23). Não se trata de um novo nascimento físico, mas de uma transformação espiritual operada pelo Espírito Santo.

A salvação não é resultado de méritos humanos, mas da graça de Deus. Conforme ensina a Declaração de Fé das Assembleias de Deus no Brasil, “a regeneração é a transformação do pecador em nova criatura pelo poder de Deus”.

Embora a velha natureza continue presente até a glorificação, o Espírito Santo gera no crente uma nova natureza e o capacita a vencer o pecado.

O Espírito Santo como capacitador

O Espírito Santo não apenas regenera e santifica o crente, mas também o capacita para servir a Deus. Ele distribui dons espirituais, promove a unidade da Igreja e fortalece o testemunho cristão.

Sua atuação pode ser vista ao longo de toda a história bíblica: na criação, na inspiração das Escrituras e na direção do povo de Deus.

No Antigo Testamento, o Espírito capacitava pessoas específicas para tarefas especiais, como Bezalel na construção do tabernáculo (Êx 31.2,3) e juízes como Gideão e Sansão.

Os profetas anunciaram que Deus derramaria o seu Espírito de maneira mais ampla. O profeta Joel profetizou que o Espírito seria derramado sobre toda carne (Jl 2.28,29).

Essa promessa teve seu cumprimento inicial no Dia de Pentecostes, quando os discípulos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas.

Nesse dia, o apóstolo Pedro declarou que a promessa era para todas as gerações: “Para vós, para vossos filhos e para todos os que estão longe, para tantos quantos Deus chamar” (At 2.39).

Posteriormente, o apóstolo Paulo ensinou sobre os dons espirituais e destacou a unidade da ação divina:

“Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1Co 12.4–6).

Essa afirmação revela a perfeita harmonia da Santíssima Trindade na vida da Igreja. O Pai, o Filho e o Espírito Santo atuam juntos para a edificação do povo de Deus.

Os dons espirituais são dádivas de Deus, concedidas não por merecimento humano, mas para benefício da Igreja. Os dons são concedidos à Igreja com três propósitos principais:

  • Servir ao Reino de Deus (1Pe 4.10);

  • Edificar a Igreja (1Co 14.12);

  • Glorificar a Cristo (1Co 12.3).

Assim, os crentes são apenas administradores desses dons, e não seus proprietários. Eles pertencem ao Senhor, que os concede e os dirige segundo os seus propósitos. São concedidos pela graça divina e não devem ser usados como motivo de orgulho ou superioridade espiritual. Significa apenas que Deus concedeu determinadas capacidades para o serviço de sua Igreja. 

5. A RELAÇÃO ENTRE O PAI E O ESPÍRITO SANTO

A relação entre Deus Pai e o Espírito Santo na obra da salvação revela como a Santíssima Trindade atua de maneira harmoniosa em favor do crente. O Espírito Santo não apenas nos liberta da escravidão do pecado, mas também confirma a nossa identidade como filhos adotivos de Deus e nos conduz à herança eterna preparada pelo Pai.

Nesse sentido, o Pai e o Espírito Santo agem conjuntamente para assegurar a nossa adoção espiritual. O Espírito Santo é a dádiva concedida pelo Pai à Igreja, por meio da qual somos feitos filhos de Deus. É Ele quem confirma essa nova identidade, dirige a nossa vida e nos garante a esperança da herança eterna em Cristo.

O envio do Espírito Santo é uma evidência da adoção do crente como filho legítimo de Deus (Rm 8.9,14–16). O apóstolo Paulo ensina que a verdadeira marca dos filhos de Deus não é apenas uma declaração verbal de fé, mas uma vida conduzida pelo Espírito. Por isso afirma: “Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rm 8.14).

Assim, como filhos adotados por Deus e participantes de uma nova natureza espiritual, somos chamados a viver sob a direção do Espírito Santo. A Igreja de Cristo deve viver neste mundo com plena consciência dessa filiação, lembrando que já não somos escravos, mas herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo.

6. A RELAÇÃO ENTRE O FILHO E O ESPÍRITO SANTO

Desde a concepção milagrosa do Filho até a sua glorificação, o Espírito Santo esteve presente, mostrando que a obra redentora é trinitária. O Espírito foi o agente da encarnação de Cristo (Lc 1.35) e o capacitou em seu ministério terreno. Jesus realizou milagres e ensinou pelo poder do Espírito (Mt 12.28).

A obra da salvação revela a perfeita unidade e cooperação entre as Pessoas da Trindade: o Pai envia, o Filho obedece e o Espírito capacita. Embora seja plenamente Deus, o Filho submeteu-se ao Pai e atuou pelo poder do Espírito, cumprindo fielmente o plano da redenção.


Jesus viveu neste mundo em perfeita obediência ao Pai e em dependência total do Espírito Santo. Da mesma forma, nós também precisamos depender do Espírito em todas as áreas da vida cristã. A vida cristã não se sustenta apenas em esforço humano; é o agir do Espírito que nos capacita a viver de acordo com a vontade de Deus.

7. CONCLUSÃO: A SANTÍSSIMA TRINDADE E A IGREJA DE CRISTO.

O estudo deste trimestre demonstrou que a Trindade é uma doutrina central da fé cristã e constitui a base da existência e da missão da Igreja. Ela revela o agir cooperativo do Pai, do Filho e do Espírito Santo de forma harmoniosa na criação, redenção, santificação e na comunhão da Igreja.

Em Sua presciência, Deus elegeu a Igreja desde a eternidade (Ef 1.4). Esse plano antecede a nossa existência, pois fomos “eleitos segundo a presciência de Deus Pai” (1Pe 1.2a). Presciência significa conhecer de antemão, e aponta para o conhecimento perfeito de Deus, que sabe todas as coisas antes que aconteçam. Assim, Ele elegeu de antemão aqueles que iria chamar à fé e à perseverança em Cristo (Rm 8.29).

O apóstolo Pedro declara: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1Pe 1.2). Este versículo mostra a perfeita cooperação das Pessoas da Trindade na salvação: o Pai elege, o Filho redime pelo Seu sangue, e o Espírito Santo santifica.

Como instituição trinitária, a Igreja é chamada a cumprir seu papel no mundo com poder e fidelidade. A Trindade sustenta, guia e envia o Seu povo para o cumprimento da missão divina. Compreender esta verdade fortalece nossa identidade como filhos de Deus e nos capacita a viver com confiança e propósito no serviço ao Reino.

Que cada crente experimente essa união divina no seu cotidiano, vivendo em comunhão com Deus, refletindo Seu amor, poder e graça em todas as áreas da vida e caminhar diariamente confiantes, sabendo que somos filhos amados, redimidos e guiados pelo Espírito, para a glória de Deus.

Deus continue abençoando a nossa Escola Bíblica Dominical!

Ev. WELIANO PIRES 


19 março 2026

O ESPÍRITO E A CONCEPÇÃO DO FILHO

(Comentário do 1⁰ tópico da Lição 12: O Filho e o Espírito Santo)

Neste primeiro tópico, estudaremos a ação miraculosa do Espírito Santo na concepção de Jesus no ventre de Maria.

Inicialmente, abordaremos o anúncio do nascimento de Jesus, feito pelo anjo Gabriel a Maria, quando ela ainda estava desposada com José, antes de coabitarem.

Em seguida, destacaremos o papel do Espírito Santo como agente dessa concepção miraculosa, conforme a explicação do anjo: “Descerá sobre ti o Espírito Santo” (Lc 1.35a).

Por fim, refletiremos sobre a pureza e a santidade do Filho de Deus, também reveladas na mensagem angelical: “o Santo que de ti há de nascer...” (Lc 1.35c). Embora plenamente humano, Jesus nasceu e viveu de forma absolutamente isenta de pecado.

1. O anúncio do nascimento de Jesus.

Neste subtópico e no próximo, o comentarista retoma um tema já amplamente abordado nas lições 5 e 8. No primeiro tópico da lição 5, ao estudarmos a divindade do Filho, foi apresentada a concepção virginal de Jesus. Já no primeiro tópico da lição 8, destacou-se a obra do Espírito Santo na encarnação do Filho.

Enquanto ainda estava desposada com José, antes de terem qualquer relação conjugal, Maria recebeu a visita do anjo Gabriel, que lhe disse:

“Salve, agraciada; o Senhor é contigo; bendita és tu entre as mulheres. Não temas, Maria, pois achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás em teu ventre e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi, seu pai, e reinará eternamente sobre a casa de Jacó, e o seu reino não terá fim” (Lc 1.28, 30-33).

Diante dessas palavras, Maria não compreendeu plenamente e perguntou ao anjo como isso aconteceria, visto que era virgem. O anjo lhe respondeu:

“Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá; por isso, o ente santo que de ti há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc 1.35).

José, por sua vez, ainda não sabia do ocorrido. Ao perceber que Maria estava grávida, sem que tivessem se relacionado, decidiu deixá-la secretamente, pois era justo e não queria expô-la à desonra.

Entretanto, o anjo do Senhor apareceu-lhe em sonho e disse:

“José, filho de Davi, não temas receber Maria como tua esposa, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1.20-21).

Ao despertar, José fez conforme a orientação do anjo: recebeu Maria como sua esposa, mas não teve relações com ela até o nascimento do menino (Mt 1.24-25).

2. O Espírito como agente da concepção. 

Todo o processo da encarnação do Filho de Deus foi conduzido e realizado pelo Espírito Santo. O nascimento de Jesus ocorreu de forma natural, como o de qualquer ser humano; entretanto, a sua concepção foi absolutamente singular, miraculosa e sobrenatural, visto que Maria, sua mãe, era virgem.

É importante esclarecer que o fato de Jesus ter sido gerado pelo Espírito Santo no ventre de Maria não significa que Ele não tenha tido uma real ligação física com ela, como afirmam algumas heresias. Se assim fosse, Ele não seria verdadeiramente homem. A Escritura afirma que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, tendo assumido plenamente a natureza humana, porém sem pecado (Jo 1.14; 1 Tm 3.16; Hb 2.14-17).

A concepção miraculosa de Jesus é, portanto, obra direta do Espírito Santo. Contudo, convém destacar que a encarnação do Filho de Deus é uma obra da Trindade. As três Pessoas da Trindade atuam de forma perfeita e harmoniosa nesse evento redentor.

O Pai enviou o Filho ao mundo:

 “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gl 4.4).

O Filho assumiu a natureza humana:

 “Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fp 2.7).

O Espírito Santo realizou o milagre da concepção:

“Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, desposada com José, antes de se ajuntarem, achou-se ter concebido do Espírito Santo” (Mt 1.18).

Dessa forma, a encarnação revela a perfeita unidade e a atuação harmônica da Trindade na execução do plano da redenção, evidenciando a soberania do Pai, a obediência do Filho e a operação poderosa do Espírito Santo.

3. A pureza e a santidade do Filho.

No anúncio do nascimento de Jesus, o anjo referiu-se a Ele como “o Santo”: “... o Santo que de ti há de nascer será chamado Filho de Deus” (Lc 1.35). 
Sendo Deus, o Senhor Jesus é absolutamente santo e puro. Deus é absolutamente santo em sua essência e em seu caráter. Quando falamos da santidade de Deus, referimo-nos à sua pureza e à total ausência de quaisquer resquícios de corrupção moral. A santidade divina não está sujeita a qualquer padrão externo de moralidade, pois é intrínseca ao próprio ser de Deus.
Jesus Cristo, o Filho de Deus, encarnou-se e assumiu a natureza humana. Entretanto, sua concepção miraculosa, operada pelo Espírito Santo, impediu que Ele herdasse a natureza pecaminosa do ser humano, corrompida após a Queda no Éden.
Após a regeneração, o crente é santificado pelo Espírito Santo, embora ainda possua a natureza pecaminosa e esteja sujeito ao pecado. Todavia, isso não se aplica a Jesus. Mesmo tendo se feito homem, Ele permaneceu absolutamente santo, isento de qualquer possibilidade de contaminação. A santidade de Cristo é ontológica, ou seja, pertence à sua própria essência.

Ev. WELIANO PIRES

17 março 2026

INTRODUÇÃO À LIÇÃO 12: O FILHO E O ESPÍRITO SANTO

Data: 22 de março de 2026

 

TEXTO ÁUREO

“E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e a virtude do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; pelo que também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus.” (Lc 1.35).

 

VERDADE PRÁTICA

O Filho de Deus cumpriu seu ministério em plena dependência do Espírito, revelando que a Obra redentora é trinitária: o Pai envia, o Filho obedece e o Espírito capacita.


LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Lucas 1.26-38.


Objetivos da Lição: I) Mostrar que a concepção de Jesus foi obra sobrenatural do Espírito Santo; II) Explicar que Jesus viveu e realizou seu ministério em plena dependência do Espírito; III) Destacar que a obra da salvação é trinitária e exige do crente fé e submissão. 


INTRODUÇÃO


Estamos nos aproximando do final deste trimestre de estudos sobre a Santíssima Trindade e, nesta penúltima lição, estudaremos a respeito da relação de cooperação entre o Filho e o Espírito Santo no plano da Salvação. Desde a concepção milagrosa do Filho até a sua glorificação, o Espírito Santo esteve presente, mostrando que a obra redentora é trinitária. 


O Espírito Santo foi o agente da encarnação do Filho de Deus no ventre da jovem Maria, conforme o texto de Lucas 1.35: “E, respondendo o anjo, disse-lhe: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso também o Santo, que de ti há de nascer, será chamado Filho de Deus”. 


Ele também agiu na capacitação de Jesus como homem para a realização de milagres e também ensinar pelo poder do Espírito, conforme nos diz o texto de Mateus 12.28: “Mas, se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, logo é chegado a vós o reino de Deus”. 


No plano da salvação, há perfeita unidade e cooperação entre as Pessoas da Trindade: o Pai envia, o Filho obedece e o Espírito capacita. Embora seja plenamente Deus, o Filho submeteu-se ao Pai e atuou pelo poder do Espírito, cumprindo fielmente o plano da redenção. Ele viveu neste mundo em perfeita obediência ao Pai e em dependência total do Espírito Santo. 


Palavra-Chave: DEPENDÊNCIA


Segundo o Dicionário Houaiss, a palavra dependência devida do latim , que por sua vez deriva do verbo latino dependēre, significa "pender de", "estar suspenso de" ou "estar pendurado". Com o passar dos anos, a palavra foi adquirindo novos significados, alguns com sentido negativo, como dependente químico, que se refere a pessoas viciadas em substâncias entorpecentes.


No contexto desta lição, a palavra dependência se refere à submissão voluntária do Filho de Deus ao Pai, quando Ele esvaziou-se da Sua glória, assumiu forma humana e viveu neste mundo por trinta e três anos, em total dependência do Espírito Santo, desde a sua concepção até a sua glorificação. 


Ev. WELIANO PIRES 

16 março 2026

O FILHO E O ESPÍRITO


(SUBSÍDIOS DA REVISTA ENSINADOR CRISTÃO/CPAD)

Nesta lição, veremos mais uma vez a Trindade desempenhando um papel importante no cumprimento do propósito eterno para salvação da humanidade. Assim como na lição anterior estudamos que o Pai atua em parceria com o Espírito para confirmar a nossa filiação, nesta lição veremos que o Filho exerceu Seu ministério terreno na dependência do Espírito Santo, revelando que a obra redentora é uma ação coordenada pela Trindade. O Pai envia, o Filho obedece e o Espírito capacita.

A atuação do Espírito na condução do Filho para cumprir Sua missão redentora era indispensável (At 10.38). Essa atuação contou com a submissão e humildade do Filho em se permitir ser conduzido pelo Espírito (Hb 5.7-9). Isso mostra que, mesmo sendo Deus, as três pessoas da Trindade atuam de maneira distinta, porém coordenada. Para compreender melhor a atuação do Espírito na condução do Filho, devemos ter em mente o papel ensinador do Espírito. 

Conforme a obra Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal (CPAD), “ainda há outro aspecto da obra do Espírito Santo como Ensinador: a preparação de Jesus, o Filho encarnado de Deus, para sua tarefa de Rei, Sacerdote e Cordeiro sacrificial. O Espírito Santo veio sobre Maria e lançou a sua sombra sobre ela, gerando nela Jesus, o Filho de Deus. O Espírito Santo foi ensinando o Menino Jesus de tal maneira que, aos 12 anos de idade, deixou atônito os mestres no Templo: ‘E o menino crescia e se fortalecia em espírito, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele’ (Lc 2.40). Depois de seu batismo no Jordão, Jesus que, segundo a descrição, estava cheio do Espírito Santo, lutou contra o adversário durante quarenta dias (Lc 4.1-13). Jesus continuou a andar cheio do Espírito Santo. Por isso, sempre que o Diabo buscou oportunidade para tentá-lo ainda mais, os resultados foram os mesmos. Jesus ‘como nós, em tudo foi tentado, mas sem pecado’ (Hb 4.15; 2.10-18). Se estivermos cheios do Espírito Santo na luta contra nossa carne e contra o Aversário, também poderemos vencer nossas tentações com a ajuda do Espírito. Cristo veio para nos salvar dos nossos pecados, e não deles” (2021, p.399).

Observe que a condução do Espírito Santo na vida e ministério do Filho em momento algum anula Seu papel na Trindade ou nega Sua natureza divina. Ao abordarmos esses fatos em nossas classes, é importante enfatizar sempre que cada Pessoa da Trindade exerce Seu papel de maneira individual, mas coordenada com as demais. Essa atuação é vista de maneira muito clara na vida de Jesus, desde Seu nascimento até a realização de Seu ministério terreno, e revela o propósito de Deus em cada detalhe da Sua missão redentora.

13 março 2026

A TRINDADE NOS CONDUZ À HERANÇA ETERNA

(Comentário do 3º tópico da Lição 11: O Paia e o Espírito Santo)

Neste terceiro tópico, veremos que a Trindade nos conduz à herança eterna. Essa herança não está relacionada a esta vida nem às coisas materiais, como muitos têm ensinado ultimamente, pois somos forasteiros e peregrinos neste mundo. Trata-se de uma herança eterna e incorruptível, reservada para os salvos.

Inicialmente, veremos que somos herdeiros de Deus por adoção. O apóstolo Paulo ensina que, se somos filhos de Deus, então também somos seus herdeiros (Rm 8.17a). Essa herança não é resultado de nossos méritos, mas fruto da graça divina, pois Deus nos adotou e nos concedeu todos os direitos de filhos.

Em seguida, veremos que somos também coerdeiros com Cristo. Isso significa que, por termos sido adotados por Deus, participamos da mesma herança destinada ao Filho, Jesus Cristo. Contudo, não participamos apenas de sua glória futura, mas também de seus sofrimentos neste mundo (2Tm 2.12).

Por fim, destacaremos que é o Pai quem estabelece o tempo para a plena manifestação dessa herança. Portanto, devemos esperar com paciência no Senhor, confiando que Ele é fiel para cumprir as suas promessas e que está no controle de todas as coisas. Deus não está sujeito ao tempo, pois é eterno; para Ele, um dia é como mil anos, e mil anos como um dia.

1. Herdeiros de Deus por adoção.

Um filho adotado tem pleno direito à herança do seu pai. No contexto do Império Romano, a adoção era diferente do conceito atual, que visa acolher uma criança órfã ou permitir a paternidade e maternidade de pais que não podem ter filhos. No Império Romano, a adoção ocorria entre as classes mais altas como forma de transferência de patrimônio e de poder, especialmente entre aqueles que não tinham filhos do sexo masculino.

Deus nos adotou como filhos mediante a fé em Cristo e, portanto, nos tornamos seus herdeiros. Após o juízo final, o Senhor Jesus dirá aos que estiverem à sua direita:

“Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo” (Mt 25.34).

O apóstolo Pedro também escreveu:

“Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós” (1 Pd 1.3-4).

A nossa herança não será neste mundo, pois não somos daqui. O Senhor Jesus, quando orou pelos seus discípulos, disse ao Pai:

“[Eles] não são do mundo, como eu do mundo não sou” (Jo 17.16).

Ela, porém, começa aqui. O apóstolo Pedro chama os cristãos de peregrinos e forasteiros neste mundo (1 Pe 2.11), e o apóstolo Paulo, por sua vez, escreveu:

“Mas a nossa cidade está nos céus, de onde também esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo”. (Fp 3.20).

Apesar de não sermos daqui e de nossa herança estar nos céus, já começamos a vivê-la aqui. Quando cremos em Jesus, recebemos o Espírito Santo como garantia da nossa salvação (Ef 1.13-14). Em seguida, somos justificados pela fé em Cristo (Rm 5.1), e a sentença de condenação que pesava contra nós é anulada (Rm 8.1). A partir daí, somos adotados como filhos de Deus (Rm 8.15) e também santificados pelo Espírito Santo (2 Ts 2.13).

No futuro, a nossa herança se completará com a glorificação do nosso corpo. Os nossos corpos serão transformados e se tornarão imortais e perfeitos, livres de todo tipo de doenças, sofrimentos, pecado e limitações (1 Co 15.42-44; Fp 3.21). Mais importante ainda, veremos o nosso Senhor face a face e viveremos com Ele eternamente. Aleluia!

2. Coerdeiros de Cristo por filiação.


Jesus, o Filho unigênito de Deus, é o herdeiro natural do Pai. Tudo o que existe no Céu e na terra pertence a Cristo, pois Ele é o herdeiro de tudo o que pertence ao Pai. O apóstolo Paulo escreveu que somos também coerdeiros de Cristo:

“Se, pois, somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo, se é certo que com Ele padecemos, para que também com Ele sejamos glorificados” (Rm 8.17).


Ser coerdeiro significa partilhar o direito a uma herança com outrem, formando um condomínio sobre os bens até a partilha final. Para isso, é preciso cumprir todos os requisitos legais ou testamentários que garantam o direito à herança.


No caso do cristão, o único requisito para ser coerdeiro de Cristo é ter sido adotado como filho de Deus e unir-se a Cristo nesta vida, participando de seus sofrimentos e renunciando à vida de pecado (2 Tm 2.12). 


Como nos lembra o apóstolo João:

“Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou” (1 Jo 2.6).


É preciso ser imitador de Cristo e carregar as marcas da cruz, como afirma Paulo:

“Desde agora ninguém me inquiete; porque trago no meu corpo as marcas do Senhor Jesus” (Gl 6.17).


3. O Pai administra o tempo da herança.

A Palavra de Deus nos ensina que já temos a nossa herança garantida em Cristo, mas ainda não tomamos posse dela em sua plenitude. Essa realidade é frequentemente descrita pelos teólogos como o “já, mas ainda não”. Essa expressão indica que certas promessas de Deus já tiveram início em nossa vida, porém ainda aguardam a sua plena consumação.

No que diz respeito ao Reino de Deus, por exemplo, ele já está presente neste mundo por meio da Igreja. O próprio Senhor Jesus declarou: “O Reino de Deus está entre vós” (Lc 17.20–21). Contudo, ainda aguardamos a sua plena manifestação, conforme oramos na oração ensinada por Jesus: “Venha o teu Reino; seja feita a tua vontade” (Mt 6.9,10).

Essa mesma verdade se aplica à nossa salvação. Pela obra redentora de Cristo, já fomos salvos no sentido da justificação e da regeneração. No presente, estamos sendo salvos por meio do processo contínuo da santificação. E, no futuro, seremos plenamente salvos, quando ocorrer a glorificação do nosso corpo, momento em que seremos definitivamente libertos da presença do pecado.

Algumas pessoas dizem, equivocadamente, que “Deus tarda, mas não falha”. Entretanto, essa afirmação não é correta, pois Deus nunca tarda; Ele age sempre no tempo certo. Portanto, devemos viver entre a promessa e o seu cumprimento final, aguardando o tempo determinado pelo Pai para a plena manifestação da herança que já nos foi assegurada em Cristo.

Ev. WELIANO PIRES

12 março 2026

O ESPÍRITO NOS GUIA NA VONTADE DO PAI

 (Comentário do 2⁰ tópico da Lição 11: O Pai e o Espírito Santo)

Neste segundo tópico, estudaremos como o Espírito Santo conduz a vida do crente de acordo com a vontade de Deus, que é boa, agradável e perfeita.

O apóstolo Paulo declarou que os filhos de Deus são guiados pelo Espírito Santo (Rm 8.14). Ele habita em nós e nos orienta quanto ao caminho que devemos seguir neste mundo. O Espírito Santo não apenas indica a direção correta, mas também caminha conosco em todos os momentos da nossa jornada cristã.

Além disso, o Espírito Santo opera em nós a mortificação da carne, isto é, da velha natureza corrompida pelo pecado. A sua atuação vai além de simplesmente mostrar o erro; Ele transforma a nossa mente e nos fortalece para resistir ao pecado e viver em santidade.

A obra do Espírito Santo está diretamente relacionada ao plano da redenção, que é um plano trinitário. Nesse plano, as três Pessoas da Santíssima Trindade atuam em perfeita harmonia e cooperação para realizar a salvação da humanidade.

1. Os filhos são guiados pelo Espírito. 

O apóstolo Paulo afirma na Epístola aos Romanos: “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus” (Rm 8.14). Essa declaração mostra que a filiação divina não é apenas um título ou uma identificação religiosa. Ser filho de Deus significa viver sob a direção do Espírito Santo e permitir que Ele conduza nossas atitudes, decisões e maneira de viver. Portanto, não é coerente alguém afirmar que é filho de Deus e, ao mesmo tempo, viver dominado pela velha natureza pecaminosa.

No contexto do Império Romano, a adoção de filhos envolvia não somente direitos e privilégios, mas também responsabilidades. O filho adotado passava a pertencer oficialmente à nova família e deveria obedecer e honrar aqueles que o adotaram. De modo semelhante, quando somos regenerados e recebidos na família de Deus, passamos a viver de acordo com a orientação do Espírito Santo, demonstrando, por meio de nossa conduta, que pertencemos ao Senhor.

Nas últimas instruções dadas aos discípulos, Jesus prometeu o envio do Espírito Santo e declarou: “Mas, quando vier aquele Espírito da verdade, ele vos guiará em toda a verdade” (Jo 16.13a). O Espírito Santo, que inspirou os escritores das Escrituras, também guia os crentes na compreensão e na prática da Palavra de Deus. Por isso, nunca haverá contradição entre a ação do Espírito Santo e aquilo que está revelado nas Escrituras Sagradas.

2. O Espírito opera a mortificação da carne. 

Diferentemente do que muitos crentes imaginam, quando nascemos de novo não sofremos uma espécie de “amnésia espiritual”, como se a velha natureza deixasse imediatamente de existir. Na verdade, o Espírito Santo gera em nós uma nova natureza para que possamos viver segundo os padrões de Deus. Entretanto, a velha natureza pecaminosa ainda está presente e precisa ser continuamente mortificada. Somente estaremos completamente livres dos desejos pecaminosos e da própria presença do pecado quando o nosso corpo for glorificado.

Nesse mesmo capítulo da Epístola aos Romanos, o apóstolo Paulo declara: “Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis” (Rm 8.13). Observemos que a mortificação da velha natureza é uma obra realizada pelo Espírito Santo. Não é por meio de esforços meramente humanos ou de sacrifícios pessoais que conseguimos vencer o pecado. À medida que andamos no Espírito, Ele nos capacita a vencer as inclinações da carne e a viver de acordo com a vontade de Deus.

3. O Espírito age conforme o plano do Pai. 

O comentarista afirma que o Espírito Santo age conforme o plano do Pai, referindo-se ao plano da redenção. Ele ressalta, corretamente, que o Pai é o autor do plano da salvação. No entanto, conforme a própria Escritura, a redenção é uma obra trinitária: o Pai, o Filho e o Espírito Santo atuam juntos em perfeita unidade. O Pai não planejou a salvação sozinho, mas em comunhão com o Filho e o Espírito Santo.

O texto bíblico citado pelo comentarista, 1 João 4.14, diz: “E vimos, e testificamos que o Pai enviou seu Filho como Salvador do mundo”. Esse versículo confirma que o Pai enviou o Filho para a salvação da humanidade, mas não limita a participação das outras Pessoas da Trindade. Posteriormente, o Pai enviou o Espírito Santo, o Consolador, para convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo, e habitar naqueles que creem, conforme João 16.8-15.

Portanto, embora haja funções específicas de cada pessoa da Trindade — como o Filho que encarnou e morreu na cruz, e o Pai que envia — todos participam da obra salvífica de forma integrada. O Espírito Santo não age isoladamente, mas em consonância com o plano divino do Pai e a obra redentora do Filho, operando poderosamente na vida do crente, capacitando-o a viver segundo a vontade de Deus. 

Ev. WELIANO PIRES 

11 março 2026

O ESPÍRITO E AS DÁDIVAS DO PAI

(Comentário do 1⁰ tópico das Lição 11: O Pai e o Espírito Santo)

Neste primeiro tópico, abordaremos três dádivas que o Pai ministra ao crente por meio do Espírito Santo. Por intermédio dessas dádivas, o Espírito Santo transforma a nossa identidade espiritual diante de Deus e muda a nossa condição.

Em primeiro lugar, Ele muda a nossa condição de escravos do pecado para filhos de Deus. O apóstolo Paulo escreveu aos Romanos: “Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor...” (Rm 8.15a). Assim, em Cristo, não somos mais dominados pelo medo ou pela escravidão do pecado, mas desfrutamos da liberdade concedida por Deus.

Em segundo lugar, o Espírito Santo muda a nossa condição de rebeldes para filhos legítimos de Deus. Antes de conhecermos ao Senhor, todos nós vivíamos em rebeldia espiritual. Contudo, ao recebermos a Cristo, recebemos também uma nova identidade e fomos feitos filhos legítimos de Deus.

Por fim, fomos transportados das trevas para a luz e para a plenitude da vida no Espírito. Na Bíblia, as trevas simbolizam o pecado e a separação de Deus. Entretanto, ao recebermos o Espírito Santo, fomos elevados à condição de filhos de Deus, passando a viver em comunhão com Ele.

1. Da escravidão à filiação. 

Antes de conhecermos a Cristo, vivíamos em uma condição deplorável: éramos escravos do pecado. O Senhor Jesus afirmou aos judeus: “Todo aquele que pratica o pecado é escravo do pecado” (Jo 8.34). O homem sem Deus vive em servidão espiritual, incapaz de libertar-se por si mesmo e sob o constante temor da punição.

A condição de escravo, em qualquer sociedade antiga, era extremamente degradante. O escravo era tratado como um instrumento de trabalho ou como um animal de serviço. Não possuía direitos e estava sujeito a diferentes tipos de abuso, como torturas físicas e psicológicas, jornadas excessivas de trabalho, subnutrição, castigos corporais e até mesmo a morte.

No contexto do Império Romano, um escravo poderia alcançar a liberdade de algumas maneiras. Entre elas estavam: a compra da própria liberdade, mediante recursos acumulados por meio de gorjetas ou economias; a concessão da liberdade por testamento do senhor; a libertação por meio de um ato solene diante de um magistrado; ou ainda como recompensa concedida pelo senhor pelos serviços prestados.

Entretanto, mesmo após obter a liberdade, o ex-escravo ainda mantinha certas obrigações e respeito para com o antigo senhor. Além disso, não desfrutava plenamente dos mesmos direitos dos cidadãos romanos livres ou dos filhos de seu antigo proprietário. Havia restrições quanto à participação em cargos públicos, no serviço militar e até mesmo em alguns aspectos da vida social.

O cristão regenerado, porém, não foi elevado apenas à condição de ex-escravo, mas à posição de filho adotivo de Deus, com todos os direitos espirituais. Na cultura romana, a adoção frequentemente envolvia adultos. O adotado passava por uma mudança completa de status: rompia seus vínculos com a família anterior, recebia um novo nome, suas dívidas eram canceladas e ele passava a desfrutar de todos os direitos de um filho legítimo.

Essa realidade ilustra de forma clara o que Deus realizou por nós em Cristo. Ele pagou a nossa dívida espiritual, concedeu-nos o privilégio de chamar Deus de Pai e nos introduziu em sua família. Agora desfrutamos do cuidado e da proteção do Pai, bem como da promessa da herança espiritual. Assim, por meio da filiação divina, podemos nos aproximar de Deus com confiança, sem medo da condenação, pois “nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1).

2. Da rebeldia a filho legítimo. 

Antes de nascermos de novo, éramos, por natureza, inimigos de Deus. O apóstolo Paulo utiliza expressões como “filhos da desobediência” e “filhos da ira” para descrever a condição de rebeldia em que vivíamos antes de sermos alcançados pela salvação em Cristo.

Após a nossa conversão, o Espírito Santo passa a habitar em nós e “testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16). Isso significa que o Espírito Santo não apenas nos conduz à condição de filhos de Deus por adoção, mas também confirma em nosso interior que, de fato, pertencemos à família de Deus. Por isso, podemos clamar com confiança: “Aba, Pai”.

A expressão “Aba, Pai” é formada pelo termo aramaico Abba (pai) e pela palavra grega pater, que também significa pai. De acordo com o comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal, a junção dessas duas palavras — aramaica e grega — enfatiza a profundidade da intimidade, a intensidade da emoção, o calor e a confiança com que o Espírito Santo nos auxilia a nos relacionarmos com Deus e a clamar a Ele.

Nos Evangelhos, Jesus utilizava a palavra “Abba” ao se dirigir ao Pai. Por essa razão, muitos estudiosos entendem que a expressão “Aba, Pai” transmite a ideia de um tratamento afetuoso, semelhante a “papai” ou “paizinho”, revelando proximidade e confiança.

Assim, em Cristo, já não somos inimigos de Deus, mas fomos reconciliados com Ele e recebemos o privilégio de nos dirigir ao Senhor com a intimidade de quem pode chamá-lo, com fé e amor, de “Meu Pai”.

3. Das trevas à plenitude do Espírito. 

O Novo Testamento nos mostra, em vários textos, que, antes de sermos regenerados, andávamos em trevas: “Porque, noutro tempo, éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor; andai como filhos da luz” (Ef 5.8). O Senhor Jesus também afirmou: “Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8.12).

No Novo Testamento, viver nas trevas indica, pelo menos, três situações:

a) Ignorância espiritual. “Entenebrecidos no entendimento, separados da vida de Deus pela ignorância que há neles, pela dureza do seu coração” (Ef 4.18). Quem vive nas trevas está cego espiritualmente e não enxerga a verdade do Evangelho.

b) Depravação moral. Viver em trevas significa praticar as obras da carne, sem nenhuma preocupação com o fato de que isso desagrada a Deus: “E não comuniqueis com as obras infrutuosas das trevas, mas, antes, condenai-as” (Ef 5.11).

c) Separação de Deus. As trevas indicam um império maligno, governado pelo inimigo, o príncipe das trevas: “Ele nos tirou da potestade das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor” (Cl 1.13). Quem está em trevas, portanto, vive sob o domínio do inimigo. 

Deus nos tirou das trevas e nos conduziu à sua maravilhosa luz. Estávamos presos à ignorância espiritual, ao pecado e à separação de Deus. Agora regenerados, podemos desfrutar de uma nova vida em Cristo. Somos chamados não apenas a abandonar as trevas, mas a viver plenamente na luz, permitindo que o Espírito Santo conduza cada área da nossa vida.

Ev. WELIANO PIRES 

10 março 2026

INTRODUÇÃO À LIÇÃO 11: O PAI E O ESPÍRITO SANTO

Data: 15 de março de 2026

TEXTO ÁUREO:

“Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.” (Rm 8.14).

VERDADE PRÁTICA:

O Espírito Santo nos liberta da escravidão do pecado, confirma nossa filiação em Cristo e nos conduz à herança eterna planejada pelo Pai.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Romanos 8.12-17; Gálatas 4.1-6.

OBJETIVOS DA LIÇÃO:

I) Mostrar que o Espírito Santo nos liberta da escravidão do pecado e confirma nossa filiação em Cristo; 

II) Explicar que o Espírito Santo guia o crente na vontade do Pai; 

III) Destacar que a Trindade nos conduz à herança eterna.

Palavra-Chave: FILIAÇÃO

A palavra filho, em hebraico, é ben, e o seu correspondente em aramaico é bar. Esses termos possuem um campo de significado bastante amplo, que vai além da ideia de um filho biológico ou adotivo. Podem referir-se a filho, neto, criança ou até mesmo a um membro de determinado grupo.

Também podem indicar ascendência ou pertencimento, como nas expressões filhos de Amon, filhos de Abraão e filhos de Israel. Em outros contextos, o termo é usado para designar discípulos ou alunos, como acontece com os estudantes das escolas de profetas, chamados de filhos dos profetas.

Além disso, a palavra filho pode expressar características ou qualidades de uma pessoa, sejam boas ou más. Por exemplo: filho da sabedoria, filho de Belial, filho da luz, filho das trevas e filhos do trovão.

Há ainda situações em que o termo indica identidade de natureza. Um exemplo é a expressão Filho do Homem. No livro de Ezequiel, ela é usada para se referir ao próprio profeta, destacando sua condição humana. Já nos Evangelhos, é um dos títulos utilizados por Jesus para falar de si mesmo, enfatizando a sua verdadeira humanidade.

No Novo Testamento, escrito em grego, encontramos duas palavras traduzidas por filho. A palavra huios que significa um filho reconhecido, muitas vezes com posição ou identidade ligada ao pai. Pode carregar ideia de maturidade, dignidade ou representação. Há também a palavra teknon, que se refere ao filho biológico, mas pode significar também uma criança pequena e imatura, ou simplesmente um descendente. 

A doutrina da filiação divina traz profundas implicações para a vida cristã. Saber que somos filhos de Deus produz em nós confiança, gratidão e santidade. Essa verdade nos encoraja a viver sem medo da condenação, em plena dependência do Pai e com o firme compromisso de glorificar o Seu nome em todas as áreas da vida.

INTRODUÇÃO

Nesta lição e na próxima, estudaremos a atuação coordenada do Espírito Santo com as outras duas Pessoas da Santíssima Trindade no plano da salvação. O objetivo desta lição é destacar a ação conjunta do Pai e do Espírito Santo na vida do crente. Na próxima lição, veremos como o Espírito Santo atuou na concepção, na capacitação e na missão de Jesus, bem como a aplicação dessa verdade à vida cristã.

Ao longo desta lição, veremos que o Espírito Santo nos libertou da escravidão do pecado e nos conduz à boa, perfeita e agradável vontade do Pai. Também estudaremos que o divino Consolador confirma em nosso coração a nossa identidade como filhos adotivos de Deus e nos guia rumo à herança eterna preparada pelo Pai para todos aqueles que receberam a Cristo como Senhor e Salvador.

Durante a nossa peregrinação neste mundo, em meio a lutas, perseguições e dificuldades, é possível que surjam dúvidas e incertezas quanto ao nosso futuro e à nossa identidade espiritual. Contudo, a Palavra de Deus nos assegura que, mediante a fé em Cristo, fomos adotados como filhos de Deus. Por isso, podemos descansar na fidelidade divina e viver com confiança e esperança, certos de que um futuro glorioso nos aguarda.

Ev. WELIANO PIRES

06 março 2026

A CONTINUIDADE DO DERRAMAMENTO DO ESPÍRITO

(Comentário do 3º tópico da Lição 10: Espírito Santo - o capacitador)

No terceiro tópico, trataremos da continuidade do derramamento do Espírito Santo. Esse derramamento não ficou restrito ao período apostólico, como ensinam os cessacionistas.

Com base no discurso de Pedro, no Dia de Pentecostes, veremos que a promessa do derramamento do Espírito estendia-se àquela geração, à geração seguinte, aos que estavam fora do território israelita e a todos quantos fossem chamados por Deus (At 2.39).

Na sequência, observaremos que o Espírito Santo opera com diversidade e unidade, conforme a afirmação do apóstolo Paulo aos coríntios: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1Co 12.4).

Por fim, veremos que a distribuição dos dons pelo Espírito Santo possui propósito e revela a sua soberania. Ele distribui os dons como quer, visando ao que é útil para a edificação do Corpo de Cristo (1Co 12.7).

1. A extensão da promessa do Espírito.

Os cessacionistas — assim são chamados aqueles que afirmam que os dons espirituais cessaram — costumam argumentar que o ensino sobre a atualidade dos dons é algo recente. Entretanto, até meados do século IV, não há registros de cristãos ensinando o cessacionismo. Esse entendimento passou a ganhar espaço na Igreja quando foi defendido pelo bispo e teólogo Agostinho de Hipona (354–430).

Devido à grande influência que Agostinho exerceu em sua época, essa concepção acabou predominando na Igreja Ocidental durante grande parte da Idade Média. Mesmo com o advento da Reforma Protestante, essa questão não foi amplamente debatida pelos reformadores. Naquele contexto, eles concentraram seus esforços principalmente na doutrina da salvação, combatendo ensinos como a salvação pelas obras, a idolatria e a mediação dos santos, além de reafirmarem a autoridade suprema das Escrituras.

As Assembleias de Deus são conhecidas como igrejas pentecostais porque creem na atualidade da experiência do Dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo foi derramado sobre os primeiros cristãos reunidos em oração no cenáculo. A base bíblica dessa crença encontra-se no discurso do apóstolo Pedro (apóstolo):

“Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos e a todos os que estão longe: a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” (At 2.39).

Assim, a promessa do revestimento de poder não se restringia apenas aos ouvintes imediatos de Pedro. Ela abrangia também as gerações seguintes, os que estavam “longe” — não apenas no sentido geográfico, mas também no tempo — e todos aqueles que, no decorrer da história, seriam chamados por Deus para a salvação.

Portanto, a promessa do derramamento do Espírito Santo se estende a todas as épocas da Igreja enquanto ela estiver neste mundo. Se, em determinados períodos da história cristã, não houve ênfase na experiência do Batismo no Espírito Santo e na manifestação dos dons espirituais, isso não significa que tais dons tenham cessado, mas que, em muitos momentos, deixaram de ser ensinados e buscados com o devido zelo pela Igreja.

2. O Espírito opera com diversidade e unidade.

Escrevendo aos crentes de Corinto, o apóstolo Paulo de Tarso tratou do tema dos dons espirituais e destacou um princípio importante: a diversidade de manifestações do Espírito acompanhada de perfeita unidade divina. Ele declarou:

“Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos” (1Co 12.4–6).

Nessa afirmação, Paulo mostra que existem diferentes formas de atuação na vida da Igreja. Em primeiro lugar, há diversidade de dons concedidos pelo Espírito Santo (1Co 12.4). Em segundo lugar, há diversidade de ministérios concedidos pelo Senhor Jesus Cristo (1Co 12.5; Ef 4.11). Por fim, também há diversidade de operações ou serviços relacionados à atuação de Deus entre os crentes (Rm 12.3–8; 1Co 12.6).

Apesar dessa diversidade de manifestações, a unidade divina permanece absoluta. O Espírito é o mesmo, o Senhor é o mesmo e o mesmo Deus é quem realiza tudo em todos. Assim, a variedade de dons e ministérios não produz divisão na Igreja, mas cooperação para a edificação do Corpo de Cristo.

Segundo o pastor e teólogo Elinaldo Renovato de Lima, “a multiforme sabedoria de Deus manifesta-se na igreja por meio da intervenção sobrenatural do Espírito Santo e através dos dons de Deus necessários ao crescimento espiritual dos crentes”.

Essa realidade revela a perfeita unidade da Santíssima Trindade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo atuam de forma harmoniosa na vida da Igreja. Não há competição nem qualquer tipo de rivalidade entre as Pessoas divinas. Pelo contrário, cada uma delas coopera na realização do propósito de Deus para o crescimento e a edificação do seu povo. 

3. O Espírito distribui dons com propósito.

A igreja em Corinto possuía abundância de dons espirituais. Por isso, o apóstolo Paulo afirmou: “de maneira que nenhum dom vos falta” (1Co 1.7). Apesar disso, tratava-se de uma igreja marcada pela imaturidade espiritual. O próprio apóstolo declarou que “não podia falar-lhes como a espirituais, mas como a carnais” (1Co 3.1,3).

Essa imaturidade se refletia em diversos problemas presentes na comunidade cristã. Entre eles estavam o partidarismo entre os irmãos, casos de imoralidade, litígios levados aos tribunais, dificuldades relacionadas ao casamento, dúvidas sobre alimentos sacrificados aos ídolos, questões sobre o uso do véu, desordem na celebração da Ceia do Senhor, má administração dos dons espirituais, a atuação de falsos obreiros que difamavam o apóstolo e até mesmo erros doutrinários a respeito da ressurreição dos mortos.

Esse contexto mostra que os dons do Espírito Santo são concedidos pela graça divina e não devem ser usados como motivo de orgulho ou superioridade espiritual. Eles são dádivas de Deus, concedidas não por merecimento humano, mas para benefício da Igreja. Como ensina a Escritura: “Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil” (1Co 12.7).

Conforme destacou o comentarista, os dons espirituais possuem um tríplice propósito. Em primeiro lugar, destinam-se ao serviço do Reino de Deus (1Pe 4.10). Em segundo lugar, visam à edificação da Igreja (1Co 14.12). Por fim, têm como objetivo a glorificação de Cristo (1Co 12.3). Assim, os crentes são apenas portadores dos dons, e não seus proprietários. Eles pertencem ao Senhor, que os concede e os dirige segundo os seus propósitos.

Infelizmente, alguns pensam que possuir dons espirituais é sinônimo de verdadeira espiritualidade. Entretanto, a presença de dons não é, por si só, uma prova do caráter espiritual do crente. Significa apenas que Deus concedeu determinadas capacidades para o serviço de sua Igreja. 

No Sermão do Monte, o Senhor Jesus nos advertiu sobre essa realidade:

“Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demônios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7.22,23).

Essa passagem ensina que o mais importante não é apenas manifestar dons, mas viver em comunhão genuína com Cristo e em obediência à sua Palavra. Dessa forma, os dons cumprem o seu verdadeiro propósito: servir à Igreja e glorificar o nome do Senhor.

Ev. WELIANO PIRES

ESAÚ VENDE SUA PRIMOGENITURA

(Comentário do 2º tópico da Lição 9: Jacó e Esaú - irmãos em conglito) Neste segundo tópico, estudaremos fatos importantes relacionados à ...