(Comentário do 3⁰ tópico da lição 3: A Graça que alcança todas as nações)
O terceiro e último tópico possui um caráter devocional e enfatiza que a graça de Deus não apenas nos concede a salvação, mas também nos sustenta e fortalece durante toda a caminhada cristã (Ef 2.8,9).
Em Hebreus 4.16, somos convidados a nos aproximar, com confiança, do trono da graça, certos de que, por meio de Cristo, encontramos misericórdia e socorro em todas as necessidades da vida. Ao longo deste estudo veremos como devemos nos achegar ao trono da graça, quando fazê-lo e quais são os benefícios dessa aproximação.1. Como nos aproximar do trono da graça (Hb 4.16). O escritor da Epístola aos Hebreus exorta os crentes: “Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hb 4.16). Para compreender corretamente essa exortação, é necessário considerar não apenas o contexto imediato do capítulo 4, mas também o propósito geral da Epístola aos Hebreus.
Embora a autoria humana da epístola permaneça desconhecida, seu conteúdo revela um escritor profundamente familiarizado com o Antigo Testamento, especialmente com a Lei de Moisés, o sacerdócio levítico e o sistema sacrificial. A maioria dos estudiosos entende que seus primeiros destinatários eram cristãos de origem judaica, provavelmente judeus helenistas, que enfrentavam perseguições e a tentação de abandonar a fé em Cristo para retornar às antigas práticas do judaísmo (Hb 2.1; 3.12-14; 10.23-25,35-39).
Ao longo da epístola, o autor demonstra a absoluta superioridade de Cristo sobre tudo aquilo que pertencia à Antiga Aliança. Cristo é superior aos profetas (Hb 1.1,2), aos anjos (Hb 1.4-14), a Moisés (Hb 3.1-6), a Josué (Hb 4.8,9), ao sacerdócio levítico, por exercer um sacerdócio segundo a ordem de Melquisedeque (Hb 5.5-10; 7.11-28), e aos sacrifícios da antiga dispensação, pois ofereceu um único e perfeito sacrifício pelos pecados, válido para sempre (Hb 9.11-14; 10.11-14).
Nesse contexto, a partir de Hebreus 4.14, Jesus é apresentado como o grande Sumo Sacerdote que penetrou os céus. Diferentemente dos sacerdotes terrenos, Ele vive sem pecado (Hb 4.15), conhece plenamente as limitações humanas e pode compadecer-se das nossas fraquezas. Por isso, intercede continuamente pelos que se achegam a Deus por seu intermédio (Hb 7.25).
Na Antiga Aliança, o acesso ao Santo dos Santos era restrito exclusivamente ao sumo sacerdote, que nele entrava apenas uma vez por ano, levando sangue pelo pecado (Lv 16.2,29-34; Hb 9.6-8). Na Nova Aliança, porém, mediante o sacrifício expiatório de Cristo, o véu foi rasgado (Mt 27.51), simbolizando que o acesso à presença de Deus foi plenamente aberto a todos os que creem. Assim, podemos nos aproximar do trono da graça com confiança, não por causa de nossos méritos, mas em virtude da obra redentora de Cristo, que removeu a barreira do pecado e nos reconciliou com Deus (Hb 10.19-22; Ef 2.13-18; 3.12).
Portanto, aproximar-se do trono da graça significa entrar, pela fé, na presença de Deus com plena confiança, certos de que, em Cristo, encontraremos misericórdia para o perdão dos pecados e graça para receber socorro em todas as circunstâncias da vida (Hb 4.16; Rm 5.1,2).
2. Quando devemos nos achegar ao trono da graça? O texto de Hebreus 4.16 afirma que devemos buscar a graça divina "em tempo oportuno". Isso significa que Deus está sempre pronto para socorrer aqueles que, pela fé, se aproximam dele por meio de Cristo. Ele é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia (Sl 46.1), e nunca abandona os seus filhos (Hb 13.5,6).
Embora Deus esteja sempre acessível, o seu agir ocorre conforme a sua perfeita vontade e no tempo determinado por Ele. O Senhor é eterno, soberano e nunca chega atrasado; todas as suas obras acontecem no momento certo (Ec 3.1; Is 40.31).
Vivemos em uma sociedade marcada pelo imediatismo, e esse comportamento tem contribuído para o aumento da ansiedade. Infelizmente, essa mentalidade também influencia alguns segmentos do meio evangélico, levando pessoas a imaginar que Deus deva atender imediatamente aos seus desejos. Entretanto, a Bíblia nos ensina a esperar com paciência no Senhor, confiando em sua sabedoria e fidelidade (Sl 40.1; Lm 3.25,26).
O trono da graça está aberto a todos os que, pela fé, se aproximam de Deus por meio de Jesus Cristo (Hb 7.25). Contudo, devemos nos achegar com reverência e humildade, reconhecendo que somos servos e que Ele é o Senhor soberano, cuja vontade é perfeita e cujos propósitos sempre são os melhores.
3. O que recebemos ao nos achegarmos ao trono da graça? Toda a vida cristã depende da graça de Deus, desde a salvação até o crescimento espiritual (Tt 2.11,12; 2Pe 3.18). Somos salvos não por nossos méritos ou obras, mas pelo favor imerecido de Deus, que providenciou, em Cristo, o perfeito sacrifício pelos nossos pecados (Ef 2.8,9; Rm 3.24).
Entretanto, a graça de Deus não atua apenas no início da vida cristã. Após sermos regenerados pelo Espírito Santo, ela continua operando em nós, promovendo o crescimento espiritual e o amadurecimento da fé. Por isso, o apóstolo Pedro exorta: "Antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" (2Pe 3.18). O propósito de Deus é que seus filhos alcancem a maturidade espiritual, deixando a infância na fé (Ef 4.13-15).
Além do crescimento espiritual, recebemos misericórdia quando nos achegamos ao trono da graça. Diferentemente dos falsos deuses, que exigem méritos e sacrifícios humanos, o Deus revelado nas Escrituras é misericordioso, compassivo e longânimo (Sl 103.8-14). Ele conhece a nossa fraqueza e nos acolhe com amor, oferecendo perdão e restauração.
A graça de Deus também nos fortalece para viver em santidade e perseverar até o fim. Ela transforma o nosso caráter, capacita-nos a obedecer à Palavra e prepara-nos para a vida eterna (Fp 2.13; 2Co 12.9; Tt 2.11-14). Assim, quem experimenta a graça de Deus demonstra, por meio de uma vida santa e piedosa, a obra do Espírito Santo em seu interior, crescendo continuamente à semelhança de Cristo (Rm 8.29; 2Co 3.18; Fp 1.6).
Ev. WELIANO PIRES
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