(Comentário do 3º tópico da Lição 10: Espírito Santo - o capacitador)
No terceiro tópico, trataremos da continuidade do derramamento do Espírito Santo. Esse derramamento não ficou restrito ao período apostólico, como ensinam os cessacionistas.
Com base no discurso de Pedro, no Dia de Pentecostes, veremos que a promessa do derramamento do Espírito estendia-se àquela geração, à geração seguinte, aos que estavam fora do território israelita e a todos quantos fossem chamados por Deus (At 2.39).
Na sequência, observaremos que o Espírito Santo opera com diversidade e unidade, conforme a afirmação do apóstolo Paulo aos coríntios: “Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1Co 12.4).
Por fim, veremos que a distribuição dos dons pelo Espírito Santo possui propósito e revela a sua soberania. Ele distribui os dons como quer, visando ao que é útil para a edificação do Corpo de Cristo (1Co 12.7).
1. A extensão da promessa do Espírito.
Os cessacionistas — assim são chamados aqueles que afirmam que os dons espirituais cessaram — costumam argumentar que o ensino sobre a atualidade dos dons é algo recente. Entretanto, até meados do século IV, não há registros de cristãos ensinando o cessacionismo. Esse entendimento passou a ganhar espaço na Igreja quando foi defendido pelo bispo e teólogo Agostinho de Hipona (354–430).
Devido à grande influência que Agostinho exerceu em sua época, essa concepção acabou predominando na Igreja Ocidental durante grande parte da Idade Média. Mesmo com o advento da Reforma Protestante, essa questão não foi amplamente debatida pelos reformadores. Naquele contexto, eles concentraram seus esforços principalmente na doutrina da salvação, combatendo ensinos como a salvação pelas obras, a idolatria e a mediação dos santos, além de reafirmarem a autoridade suprema das Escrituras.
As Assembleias de Deus são conhecidas como igrejas pentecostais porque creem na atualidade da experiência do Dia de Pentecostes, quando o Espírito Santo foi derramado sobre os primeiros cristãos reunidos em oração no cenáculo. A base bíblica dessa crença encontra-se no discurso do apóstolo Pedro (apóstolo):
“Porque a promessa vos diz respeito a vós, a vossos filhos e a todos os que estão longe: a tantos quantos Deus nosso Senhor chamar” (At 2.39).
Assim, a promessa do revestimento de poder não se restringia apenas aos ouvintes imediatos de Pedro. Ela abrangia também as gerações seguintes, os que estavam “longe” — não apenas no sentido geográfico, mas também no tempo — e todos aqueles que, no decorrer da história, seriam chamados por Deus para a salvação.
Portanto, a promessa do derramamento do Espírito Santo se estende a todas as épocas da Igreja enquanto ela estiver neste mundo. Se, em determinados períodos da história cristã, não houve ênfase na experiência do Batismo no Espírito Santo e na manifestação dos dons espirituais, isso não significa que tais dons tenham cessado, mas que, em muitos momentos, deixaram de ser ensinados e buscados com o devido zelo pela Igreja.
2. O Espírito opera com diversidade e unidade.
Escrevendo aos crentes de Corinto, o apóstolo Paulo de Tarso tratou do tema dos dons espirituais e destacou um princípio importante: a diversidade de manifestações do Espírito acompanhada de perfeita unidade divina. Ele declarou:
“Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos” (1Co 12.4–6).
Nessa afirmação, Paulo mostra que existem diferentes formas de atuação na vida da Igreja. Em primeiro lugar, há diversidade de dons concedidos pelo Espírito Santo (1Co 12.4). Em segundo lugar, há diversidade de ministérios concedidos pelo Senhor Jesus Cristo (1Co 12.5; Ef 4.11). Por fim, também há diversidade de operações ou serviços relacionados à atuação de Deus entre os crentes (Rm 12.3–8; 1Co 12.6).
Apesar dessa diversidade de manifestações, a unidade divina permanece absoluta. O Espírito é o mesmo, o Senhor é o mesmo e o mesmo Deus é quem realiza tudo em todos. Assim, a variedade de dons e ministérios não produz divisão na Igreja, mas cooperação para a edificação do Corpo de Cristo.
Segundo o pastor e teólogo Elinaldo Renovato de Lima, “a multiforme sabedoria de Deus manifesta-se na igreja por meio da intervenção sobrenatural do Espírito Santo e através dos dons de Deus necessários ao crescimento espiritual dos crentes”.
Essa realidade revela a perfeita unidade da Santíssima Trindade. O Pai, o Filho e o Espírito Santo atuam de forma harmoniosa na vida da Igreja. Não há competição nem qualquer tipo de rivalidade entre as Pessoas divinas. Pelo contrário, cada uma delas coopera na realização do propósito de Deus para o crescimento e a edificação do seu povo.
3. O Espírito distribui dons com propósito.
A igreja em Corinto possuía abundância de dons espirituais. Por isso, o apóstolo Paulo afirmou: “de maneira que nenhum dom vos falta” (1Co 1.7). Apesar disso, tratava-se de uma igreja marcada pela imaturidade espiritual. O próprio apóstolo declarou que “não podia falar-lhes como a espirituais, mas como a carnais” (1Co 3.1,3).
Essa imaturidade se refletia em diversos problemas presentes na comunidade cristã. Entre eles estavam o partidarismo entre os irmãos, casos de imoralidade, litígios levados aos tribunais, dificuldades relacionadas ao casamento, dúvidas sobre alimentos sacrificados aos ídolos, questões sobre o uso do véu, desordem na celebração da Ceia do Senhor, má administração dos dons espirituais, a atuação de falsos obreiros que difamavam o apóstolo e até mesmo erros doutrinários a respeito da ressurreição dos mortos.
Esse contexto mostra que os dons do Espírito Santo são concedidos pela graça divina e não devem ser usados como motivo de orgulho ou superioridade espiritual. Eles são dádivas de Deus, concedidas não por merecimento humano, mas para benefício da Igreja. Como ensina a Escritura: “Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um para o que for útil” (1Co 12.7).
Conforme destacou o comentarista, os dons espirituais possuem um tríplice propósito. Em primeiro lugar, destinam-se ao serviço do Reino de Deus (1Pe 4.10). Em segundo lugar, visam à edificação da Igreja (1Co 14.12). Por fim, têm como objetivo a glorificação de Cristo (1Co 12.3). Assim, os crentes são apenas portadores dos dons, e não seus proprietários. Eles pertencem ao Senhor, que os concede e os dirige segundo os seus propósitos.
Infelizmente, alguns pensam que possuir dons espirituais é sinônimo de verdadeira espiritualidade. Entretanto, a presença de dons não é, por si só, uma prova do caráter espiritual do crente. Significa apenas que Deus concedeu determinadas capacidades para o serviço de sua Igreja.
No Sermão do Monte, o Senhor Jesus nos advertiu sobre essa realidade:
“Muitos me dirão naquele Dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? E, em teu nome, não expulsamos demônios? E, em teu nome, não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniquidade” (Mt 7.22,23).
Essa passagem ensina que o mais importante não é apenas manifestar dons, mas viver em comunhão genuína com Cristo e em obediência à sua Palavra. Dessa forma, os dons cumprem o seu verdadeiro propósito: servir à Igreja e glorificar o nome do Senhor.
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