23 janeiro 2026

RECONHECENDO A PATERNIDADE DO PAI

(Comentário do 2⁰ tópico da Lição 4: A Paternidade Divina)

No segundo tópico, trataremos do reconhecimento da paternidade do Pai. Abordaremos a confissão de Jesus Cristo como o Filho de Deus, destacando-a como um ato central da fé cristã. Aquele que nega essa verdade bíblica não tem acesso ao Pai, pois o único meio de chegar a Ele é por meio do Filho, conforme ensinam as Escrituras (Jo 14.6; At 4.12; 1 Tm 2.5).

Em seguida, refletiremos sobre a perfeição do amor do Pai. O amor é parte essencial da natureza de Deus e se manifesta de forma sacrificial, visto que Ele entregou o Seu Filho para a nossa salvação e nos adotou como filhos. Nenhum poder nem circunstância deste mundo pode romper esse amor ou nos separar dele (Rm 8.38,39).

Por fim, trataremos das bênçãos da filiação divina. O amor do Pai lança fora todo o temor do juízo, pois já não somos inimigos de Deus nem estamos sujeitos à condenação eterna. Em Cristo, somos livres, amados por Deus e habitados pelo Espírito Santo, que nos assegura nossa nova condição de filhos (Rm 8.15,16; 1 Jo 4.18).

1. Confessar a Cristo como Filho. Confessar que Jesus é o Filho de Deus é indispensável para que se tenha um relacionamento com Deus. A respeito dessa verdade, o apóstolo João escreveu:

“Qualquer que confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus está nele, e ele em Deus” (1Jo 4.15).

A palavra grega traduzida por “confessar”, nesse texto, é homologeō, formada pelos termos homou (juntamente, em concordância) e lógos (palavra, discurso). Assim, o verbo expressa 

a ideia de reconhecer publicamente, concordar plenamente, declarar ou admitir algo de modo aberto e consciente. Do termo grego homologeō deriva a palavra portuguesa “homologar”, que significa reconhecer oficialmente.

Confessar que Jesus é o Filho de Deus implica reconhecer a sua plena divindade. Tal confissão, contudo, não procede da sabedoria humana, mas é resultado da revelação concedida pelo Espírito Santo, que ilumina o entendimento do crente para reconhecer essa verdade (cf. Mt 16.16,17).

Negar essa doutrina fundamental impede o acesso ao Pai, pois Jesus Cristo é o único Mediador entre Deus e a humanidade. Dessa forma, qualquer pessoa ou sistema religioso que negue a divindade de Cristo encontra-se separado de Deus, conforme afirma o apóstolo João:

“Qualquer que nega o Filho, também não tem o Pai” (1Jo 2.23).

2. A perfeição do amor do Pai. Após destacar a necessidade de confessar Jesus como o Filho de Deus como condição indispensável para um relacionamento verdadeiro com Deus, o apóstolo João apresenta o amor como parte essencial da natureza divina. Deus não apenas manifesta amor; Ele é amor:

“E nós conhecemos e cremos no amor que Deus nos tem. Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus, nele” (1 Jo 4.16).

No primeiro tópico da lição anterior, vimos que o envio do Filho pelo Pai constitui a mais sublime expressão do Seu amor. O amor de Deus pela humanidade é incondicional em sua oferta, pois Ele amou pecadores que não mereciam ser amados e que não tinham como retribuir tal amor. Esse amor não foi motivado por qualquer mérito humano. Deus não viu “algo de bom” no ser humano para então decidir amá-lo; antes, por Sua soberana graça, tomou a iniciativa de amar e prover a salvação.

O comentarista apresenta, ainda, outras características desse amor. Ele é sacrificial, visto que Deus enviou o Seu Filho Unigênito para morrer em favor dos pecadores (Jo 3.16). Foi também por esse amor que Deus nos adotou como filhos, concedendo-nos, mediante a fé em Cristo, a posição e os direitos de filhos legítimos (1 Jo 3.1). Deus ama a todos de forma geral, desejando que todos se salvem, mas ama de modo especial aqueles que recebem a Cristo e permanecem em comunhão com Ele (Jo 14.21; 16.27).

O amor de Deus é igualmente firme e poderoso. Nenhuma força criada, nem quaisquer circunstâncias deste mundo, têm poder para nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8.38,39). Contudo, à luz da doutrina bíblica da responsabilidade humana, é possível ao crente afastar-se voluntariamente desse relacionamento, rejeitando o amor de Deus por meio da desobediência e da incredulidade. A comunhão é mantida enquanto permanecemos em Cristo. Se o deixarmos, Ele nos deixará, conforme adverte a Escritura:

“O Senhor está convosco, enquanto vós estais com ele; e, se o buscardes, o achareis; porém, se o deixardes, vos deixará” (2 Cr 15.2).

3. As bênçãos da filiação divina. Neste ponto, o comentarista apresenta a principal bênção da filiação divina: a plena confiança em Deus e a ausência do medo do Seu juízo, conforme ensina o texto de 1 João 4.17:

“Nisto é perfeito o amor para conosco, para que, no Dia do Juízo, tenhamos confiança”.

Antes de sermos adotados como filhos de Deus, mediante a fé em Cristo, éramos, por natureza, filhos da ira e inimigos de Deus. Pesava contra nós uma sentença de condenação eterna, pois o salário do pecado é a morte (Rm 6.23). Todavia, sendo justificados pela fé em Cristo, temos paz com Deus (Rm 5.1), e nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1).

Nesse sentido, Jesus Cristo exerce, em favor dos crentes, o ministério de Advogado perante o Pai (1Jo 2.1), assegurando-nos perdão, reconciliação e segurança espiritual. Tal verdade não anula o fato de que Ele é também o Juiz estabelecido por Deus, mas destaca que, para os que creem, o juízo já foi tratado na cruz.

Outra bênção da filiação divina é a habitação do Espírito Santo no crente. Essa bênção é concedida exclusivamente aos que são feitos filhos de Deus por meio da fé em Cristo. Jesus prometeu enviar o Consolador para permanecer para sempre com os Seus, deixando claro que o mundo não pode recebê-lo, por não O ver nem O conhecer (Jo 14.17). A presença do Espírito Santo confirma a nossa adoção e nos capacita a viver segundo a vontade de Deus.

Por fim, a filiação divina, por adoção, nos confere o direito às bênçãos celestiais, especialmente à vida eterna com Deus. Somente os filhos de Deus herdarão a vida eterna em Sua presença. Aqueles que rejeitam a Cristo não são adotados como filhos e, consequentemente, permanecerão separados de Deus por toda a eternidade.

A doutrina da filiação divina deve produzir no crente uma vida marcada pela confiança, pela gratidão e pela santidade. Saber que somos filhos de Deus nos leva a viver sem medo da condenação, com plena dependência do Pai e compromisso diário com uma vida que glorifique o Seu nome.

Ev. WELIANO PIRES 

22 janeiro 2026

A REVELAÇÃO DA PATERNIDADE DO PAI

(Comentário do 1⁰ tópico da Lição 4: A Paternidade Divina) 

Neste primeiro tópico, trataremos da revelação da paternidade de Deus, o Pai. Inicialmente, analisaremos o conceito bíblico da paternidade do Pai, reconhecendo-o como a fonte de todas as coisas, que opera por meio do Filho e do Espírito Santo. 

Em seguida, veremos que a paternidade de Deus é eterna, pois não tem origem no tempo. Nunca houve um momento em que Ele tenha se tornado Pai. O Pai sempre existiu em comunhão com o Filho e o Espírito Santo. Devemos rejeitar qualquer ideia de que a paternidade divina tenha um começo ou que esteja condicionada à criação.

Observaremos, ainda, que o Pai gerou o Filho. Essa geração, contudo, não significa criação, visto que, assim como o Pai, o Filho é eterno e autoexistente. O termo “gerado” expressa uma relação eterna dentro da Trindade, e não um início no tempo.

Por fim, abordaremos a concessão do Espírito Santo, que procede do Pai e é enviado pelo Filho. Isso também não implica que o Espírito Santo tenha sido criado ou que seja inferior ao Pai e ao Filho, pois Ele é igualmente eterno e plenamente Deus.

1. Definição da paternidade do Pai. A palavra “pai” na Bíblia, em hebraico, é ’ab, termo que deu origem a diversos nomes próprios, como Abel, Absalão, Abigail, Abisai, Abias, entre outros. Em aramaico, o termo correspondente é ’abba, que expressa uma relação íntima e pessoal entre pai e filho. No Novo Testamento, esse conceito geralmente aparece associado ao termo grego patḗr, equivalente ao hebraico ’ab.

O termo hebraico ’ab refere-se àquele de quem algo ou alguém procede, não apenas no sentido biológico, mas também como fonte, origem ou referência de uma família, de um povo, de uma ideia ou de uma tradição. Assim, pode designar um mestre, protetor, provedor ou até mesmo uma identidade espiritual ou moral. Exemplos disso são expressões como: filhos da sabedoria, filhos das trevas, filhos de Belial, entre outras.

Conforme explicado na definição da palavra-chave desta lição, a paternidade de Deus é distinta da paternidade humana. Deus não é Pai por gerar biologicamente, pois Ele é espírito e não possui corpo. Sua paternidade deve ser compreendida em termos espirituais, relacionais e ontológicos, e não físicos.

No livro de Jó, os anjos são chamados de “filhos de Deus”:

“Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles.” (Jó 1.6)

Nesse contexto, Deus é Pai dos anjos porque Ele os criou. Da mesma forma, Deus pode ser chamado Pai de toda a humanidade, tanto pela criação quanto pela provisão. O próprio Senhor Jesus ensinou que o Pai celestial alimenta as aves do céu e veste os lírios do campo, demonstrando Seu cuidado providencial. Esse cuidado se estende a todos os seres humanos, justos e injustos, pois Deus faz nascer o sol e enviar a chuva sobre todos (Mt 5.45).

Deus é também o Pai de Jesus Cristo de forma eterna e única, por natureza. Nesse sentido, Cristo é o Filho Unigênito (monogenḗs) de Deus, isto é, o Filho eternamente gerado, e não criado, pelo Pai. Portanto, não há outro Filho de Deus nesse mesmo sentido essencial e eterno, conforme será aprofundado nos próximos subtópicos.

Por fim, a Bíblia ensina que Deus é Pai daqueles que recebem a Cristo como Senhor e Salvador, não por natureza, mas por adoção:

“Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome.” (Jo 1.12)

2. A paternidade eterna do Pai. Quando falamos da paternidade eterna de Deus, significa que Ele é Pai eternamente, não por um ato que Ele tenha feito no tempo, mas por natureza. Da mesma forma, o Filho Unigênito de Deus é Filho desde a eternidade, pois Ele também nunca teve princípio. 

Diferente do que ensinava o Arianismo, nunca houve um tempo em que Deus não era Pai e que o Filho não existia. Deus nunca se tornou Pai, Ele sempre foi Pai em toda a eternidade. Da mesma forma, o Espírito Santo sempre foi Espírito. 

A paternidade de Deus também não significa que haja hierarquia entre as pessoas da Trindade ou que um seja superior e mais importante que os outros. Trata-se de um Único Deus, que subsiste eternamente em três pessoas. Deus é pai desde a eternidade, porque o Filho sempre existiu e não se tornou Filho de Deus em um determinado tempo. 

3. O Pai gerou o Filho. Da forma que o comentarista colocou no título: “O Pai gerou o Filho”, fica a impressão de que o pai deu origem ao Filho em algum momento, exatamente como ensinava o Arianismo, embora no comentário ele afirma que “a geração do Filho não implica criação; Ele sempre existiu com o Pai, com a mesma essência. A afirmação correta seria: O Filho é gerado do Pai, pois Ele é eterno e nunca teve princípio. 

O Credo Niceno-Constantinopolitano, formulado nos Concílios de Nicéia (325) e Constantinopla (381), afirma sobre o Filho:

“Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho unigênito de Deus, gerado do Pai antes de todos os séculos, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não criado, consubstancial ao Pai; por meio dele todas as coisas foram feitas.”

O Filho de Deus é gerado do Pai eternamente. Ele é gerado do Pai, e não foi gerado, e esta geração não implica criação. Ele sempre existiu com o Pai, possuindo a mesma essência. Por isso, a afirmação correta é: “O Filho é gerado do Pai, pois Ele é eterno e nunca teve princípio.”

O professor Tiago Rosas explica [veja o vídeo aqui] que há três sentidos possíveis para a geração do Filho:

a) Natureza divina. O Credo de Atanásio afirma:

“O Filho não é feito, nem criado, mas eternamente gerado.”

Isso significa que o Filho é da mesma natureza do Pai. Neste sentido, diz-se corretamente que o Filho é “gerado do Pai” e não “gerado pelo Pai”, enfatizando a eternidade e a igualdade da divindade.

b) Encarnação. Na encarnação, Jesus foi gerado pelo Espírito Santo no ventre de Maria:

“O que nela foi gerado é do Espírito Santo.” (Mateus 1:20).

É importante destacar que, neste caso, foi gerado Jesus como homem, e não o Filho eterno. Por isso, a Igreja Católica incorre em erro ao chamar Maria de “Mãe de Deus”, pois ela é mãe de Jesus como homem, e não do Filho eterno. Como Deus, Jesus é eterno e Criador de Maria.

c) Exaltação. Após a ressurreição, Jesus foi declarado Filho pelo Pai, coroado como Rei dos reis e recebeu um Nome que está acima de todo nome. É a esta geração que se refere o Salmo 2.7:

“Tu és meu Filho; hoje te gerei.” (Sl 2:7).

Neste contexto, “gerar” não significa início da existência do Filho, mas declaração pública, entronização e investidura messiânica. O apóstolo Paulo interpreta o texto desta forma:

“E nós vos anunciamos que a promessa que foi feita aos pais, Deus a cumpriu a nós, seus filhos, ressuscitando a Jesus; como também está escrito no salmo segundo: ‘Meu Filho és tu, hoje te gerei’.” (Atos 13:32-33). 

O Filho é eternamente gerado do Pai em sua divindade, gerado pelo Espírito Santo na encarnação como homem, e declarado Filho em sua exaltação após a ressurreição, cumprindo o Salmo 2.7 como investidura messiânica.

4. O Pai nos concede o Espírito. Também é preciso ter cuidado com o termo “origem” em relação ao Espírito Santo. Dizer que o Espírito Santo tem origem no Pai não significa que Ele foi criado ou que teve um começo no tempo. Refere-se, sim, a uma relação eterna dentro da Trindade, pois, assim como o Pai e o Filho, o Espírito Santo também é eterno, visto que Ele é Deus (At 5.3-4).

O Espírito Santo procede do Pai e do Filho, no sentido de que Ele vem da parte do Pai, enviado pelo Filho:

“Quando, porém, vier o Consolador, que eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, esse dará testemunho de mim.” (Jo 15.26)

O verbo “proceder” (do grego ekporeuetai) indica origem relacional e não significa que o Espírito Santo teve começo no tempo. Assim como “gerar” em relação ao Filho de Deus não significa que Ele teve princípio, a procedência do Espírito Santo descreve a relação eterna dentro da Trindade. 

Ev. WELIANO PIRES 

21 janeiro 2026

INTRODUÇÃO LIÇÃO 4: A PATERNIDADE DIVINA

TEXTO ÁUREO:

“E vimos, e testificamos que o Pai enviou seu Filho para Salvador do mundo.” (1Jo 4.14).

VERDADE PRÁTICA:

A paternidade de Deus é revelada no envio do Filho e na concessão do Espírito, confirmando nossa filiação e aperfeiçoando-nos no amor.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: 1 João 4.13-16.

Objetivos da Lição: 

I) Compreender que a paternidade de Deus é eterna e inseparável de sua natureza; 

II) Reconhecer que confessar a Cristo como Filho é evidência de filiação divina; 

III) Aplicar os princípios do amor do Pai como base para a vida cristã.

Palavra-Chave: Paternidade 

A palavra paternidade deriva do latim paternĭtas e refere-se à condição daquele que gera ou possui filho(s). Tradicionalmente, o termo aplica-se ao homem, enquanto, no caso da mulher, utiliza-se a expressão maternidade. Contudo, a paternidade não se limita ao aspecto biológico, pois aquele que adota um filho também exerce, de forma legítima, a paternidade.

No contexto desta lição, o termo paternidade é aplicado a Deus e deve ser compreendido de maneira distinta da paternidade humana. Deus é Pai de Jesus Cristo eternamente, por natureza. Nesse sentido, Cristo é o Filho único (monogenēs) de Deus, isto é, o Filho eternamente gerado — e não criado — pelo Pai.

Em sentido figurado, o inventor ou idealizador de uma obra é considerado seu “pai”, como se diz: o pai de todos os que tocam harpa e flauta, o pai da aviação, o pai da psicanálise, o pai da escrita, entre outros. À luz desse entendimento, Deus é Pai de todos os seres humanos e dos anjos, por tê-los criado. No Antigo Testamento, Deus é apresentado como Pai da criação, conforme lemos em Deuteronômio 32.6:

“Recompensais assim ao Senhor, povo louco e ignorante? Não é ele teu Pai que te adquiriu, te fez e te estabeleceu?”

Deus é Pai também por adoção. Nesse sentido, Ele é Pai apenas daqueles que creem em Cristo, conforme testificam as Escrituras:

“Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no seu nome” (Jo 1.12).

“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos” (Gl 4.4,5).

INTRODUÇÃO 

Estamos na quarta lição deste trimestre, cujo tema central é A Doutrina da Santíssima Trindade: o Deus Único Revelado em Três Pessoas Eternas. Conforme sugerido no plano de aula da revista do professor, convém fazermos uma breve recapitulação das lições já estudadas, a fim de consolidarmos o aprendizado.

Na primeira lição, tivemos uma introdução geral ao tema do trimestre, intitulada O Mistério da Santíssima Trindade. Estudamos o conceito da Doutrina da Trindade e o seu sólido fundamento bíblico, tomando como exemplo o batismo de Jesus. Destacamos, ainda, a distinção e a unidade das Pessoas da Santíssima Trindade e, por fim, ressaltamos a importância dessa doutrina para a fé cristã.

Na segunda lição, iniciamos o estudo da Pessoa de Deus Pai. Abordamos a sua identidade, revelação e pessoa, conforme testemunham as Escrituras. Vimos que o Pai foi revelado em Cristo, pois ninguém pode conhecê-lo senão por meio do Filho. Consideramos também os atributos de Deus Pai, conforme revelados na Bíblia, destacando que eles se dividem em dois grupos: os atributos incomunicáveis, exclusivos da divindade, e os atributos comunicáveis, que dizem respeito às perfeições morais de Deus, compartilhadas, em certa medida, com as suas criaturas.

Na terceira lição, estudamos o envio do Filho Unigênito de Deus ao mundo, segundo o propósito eterno do Pai. Compreendemos que esse envio constitui a mais profunda demonstração do amor divino. Refletimos, ainda, sobre a expressão paulina “na plenitude dos tempos”, que indica que a encarnação do Filho ocorreu no tempo determinado por Deus, sem atraso nem antecipação. Por fim, analisamos a atuação das Pessoas da Santíssima Trindade no plano da salvação: a vontade do Pai foi plenamente cumprida pelo Filho, o único Mediador entre Deus e os homens, e o Espírito Santo, enviado pelo Pai e pelo Filho, convence o ser humano do pecado, da justiça e do juízo.

Nesta quarta lição, trataremos da paternidade divina. Deus revela a sua paternidade por meio do envio do seu Filho Unigênito ao mundo, para salvar a humanidade perdida, e pela concessão do Espírito Santo. Essa paternidade, entretanto, não teve início no tempo, mas é eterna, pois Deus é eterno e imutável. As três Pessoas divinas coexistem eternamente e compartilham da mesma natureza. Portanto, não devemos incorrer no erro de pensar que o Pai deu origem ao Filho e ao Espírito Santo, nem de supor que estes sejam inferiores ao Pai.

TÓPICOS DA LIÇÃO 

I. A REVELAÇÃO DA PATERNIDADE DO PAI

Neste primeiro tópico, trataremos da revelação da paternidade de Deus, o Pai. Inicialmente, analisaremos o conceito bíblico da paternidade do Pai, reconhecendo-o como a fonte de todas as coisas, que opera por meio do Filho e do Espírito Santo. 

Em seguida, veremos que a paternidade de Deus é eterna, pois não tem origem no tempo. Nunca houve um momento em que Ele tenha se tornado Pai. O Pai sempre existiu em comunhão com o Filho e o Espírito Santo. Devemos rejeitar qualquer ideia de que a paternidade divina tenha um começo ou que esteja condicionada à criação.

Observaremos, ainda, que o Pai gerou o Filho. Essa geração, contudo, não significa criação, visto que, assim como o Pai, o Filho é eterno e autoexistente. O termo “gerado” expressa uma relação eterna dentro da Trindade, e não um início no tempo.

Por fim, abordaremos a concessão do Espírito Santo, que procede do Pai e é enviado pelo Filho. Isso também não implica que o Espírito Santo tenha sido criado ou que seja inferior ao Pai e ao Filho, pois Ele é igualmente eterno e plenamente Deus.

II. RECONHECENDO A PATERNIDADE DO PAI

No segundo tópico, trataremos do reconhecimento da paternidade do Pai. Abordaremos a confissão de Jesus Cristo como o Filho de Deus, destacando-a como um ato central da fé cristã. Aquele que nega essa verdade bíblica não tem acesso ao Pai, pois o único meio de chegar a Ele é por meio do Filho, conforme ensinam as Escrituras (Jo 14.6; At 4.12; 1 Tm 2.5).

Em seguida, refletiremos sobre a perfeição do amor do Pai. O amor é parte essencial da natureza de Deus e se manifesta de forma sacrificial, visto que Ele entregou o Seu Filho para a nossa salvação e nos adotou como filhos. Nenhum poder nem circunstância deste mundo pode romper esse amor ou nos separar dele (Rm 8.38,39).

Por fim, trataremos das bênçãos da filiação divina. O amor do Pai lança fora todo o temor do juízo, pois já não somos inimigos de Deus nem estamos sujeitos à condenação eterna. Em Cristo, somos livres, amados por Deus e habitados pelo Espírito Santo, que nos assegura nossa nova condição de filhos (Rm 8.15,16; 1 Jo 4.18).

III. A EXPERIÊNCIA DO AMOR DO PAI

No terceiro tópico, trataremos da experiência do amor do Pai. Inicialmente, compreendemos que o amor do Pai é aperfeiçoado no crente. Essa obra é realizada pelo Espírito Santo, mediante a nossa comunhão com Deus e a obediência à Sua Palavra.

Veremos também que o amor é a marca distintiva dos filhos de Deus. É por meio do amor que somos reconhecidos como discípulos de Jesus. Quando nos amamos uns aos outros, o mundo vê em nós a manifestação do amor de Deus.

Por último, aprenderemos que fomos amados primeiro pelo Pai. Isso significa que Deus nos amou quando ainda estávamos em nosso pior estado, sendo nós pecadores, sem quaisquer méritos ou movimento em Sua direção da nossa parte. Foi Ele quem tomou a iniciativa de nos amar e nos buscar para a salvação.

Ev. WELIANO PIRES 

20 janeiro 2026

A PATERNIDADE DIVINA

(A PATERNIDADE DIVINA)

Na presente lição, veremos com maiores detalhes a paternidade divina, bem como o amor divino que nos capacita a viver a nossa filiação com Deus diante do mundo. Inicialmente, a lição destaca que a paternidade de Deus não tem início no tempo. Deus é Pai desde a eternidade. Isso nos remete à compreensão de que as Pessoas do Filho e do Espírito Santo coexistem com o Pai desde a eternidade, tendo em vista que os três compartilham da mesma natureza divina (Jo 10.30). Nesse sentido, a relação entre as três Pessoas da Trindade é a referência ideal para o relacionamento do crente com Deus. Uma das marcas da filiação divina é a fé que expressamos em Jesus, o Filho Unigênito. Ele, por natureza, é o Filho gerado — e não criado — pelo Pai (Hb 1.1-5); em contrapartida, a nossa filiação ocorre a partir da confissão de fé em Jesus, que nos adentra à comunhão com Deus por meio da graça. Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus (Rm 5.1). Agora que somos filhos temos também a testificação dessa filiação por meio do Espírito Santo. Ele testifica com nosso espírito que somos filhos de Deus (Rm 8.16).

De acordo com o Dicionário Bíblico Baker, editado pela CPAD, adoção diz respeito ao “processo voluntário de concessão de direitos, privilégios, responsabilidades e posição de filho ou herdeiro a um indivíduo ou grupo que não nasceu originalmente do adotante. Enquanto o nascimento ocorre naturalmente, a adoção ocorre apenas pelo exercício da vontade. [...] Os filhos adotivos de Deus desfrutam de todos os direitos de um filho natural, incluindo a oportunidade de chamar Deus de ‘Pai’, como Jesus fez (Mt 5.16; Lc 12.32). Paulo particularmente usa a adoção para descrever o novo relacionamento do cristão com Deus por meio do sacrifício expiatório de Jesus Cristo (Rm 8.15,16,21-23; 9.25,26)” (2023, p.23).

Agora que recebemos a nova natureza, podemos, como filhos de Deus, desfrutar de todas as abundantes bênçãos de Sua graça. Um dos grandes desafios da nossa geração é preservar sua identidade enquanto filhos de Deus. Inclusive, a marca que distingue e torna pública essa filiação é o amor de Deus derramado em nossos corações (Rm 5.5). Esse amor nos capacita a adorar a Deus em espírito e em verdade (Jo 4.24), bem como a amar o próximo e perdoar aqueles que se colocam como nossos inimigos e perseguidores (Mt 5.11,12,44-48). Se quisermos tornar notória ao mundo a nossa experiência como filhos de Deus, precisamos remover da nossa forma de pensar e agir tudo aquilo que não corresponde à natureza divina. Que a cada ato de renúncia ao pecado e submissão aos mandamentos divinos o amor de Deus possa se aperfeiçoar em nós.

17 janeiro 2026

A TRINDADE NO PLANO DA SALVAÇÃO

(Comentário do 3º tópico da Lição 3: O Pai enviou o Filho)

No terceiro tópico, estudaremos a participação das Pessoas da Santíssima Trindade no plano da salvação. A obra salvífica é resultado da perfeita harmonia entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Primeiramente, veremos que o Pai enviou o Filho ao mundo com o propósito de salvar a humanidade. A vontade do Pai foi cumprida plenamente pelo Filho, em perfeita e voluntária obediência. Jesus Cristo humilhou-se a Si mesmo, assumindo a natureza humana, e entregou-se em sacrifício vicário para a redenção dos pecadores.

Em seguida, destacaremos a mediação exclusiva do Filho. Jesus Cristo é o único caminho pelo qual o ser humano pode chegar ao Pai. Ele foi enviado por Deus para reconciliar o pecador consigo mesmo, uma vez que o pecado causa separação entre o homem e Deus, que é absolutamente santo.

Por fim, trataremos da atuação do Espírito Santo na aplicação da salvação. Enviado pelo Pai e pelo Filho, o Espírito Santo convence os seres humanos do pecado, da justiça e do juízo, revelando-lhes sua condição espiritual e conduzindo-os a Jesus Cristo, o único que pode livrá-los da condenação eterna.

1. A vontade do Pai realizada pelo Filho. No texto de João 6.38–40, Jesus declara:

“Porque eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. E a vontade do Pai que me enviou é esta: que nenhum de todos aqueles que me deu eu perca, mas que o ressuscite no último dia. Porquanto a vontade daquele que me enviou é esta: que todo aquele que vê o Filho e crê nele tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.”

Esse texto revela verdades teológicas profundas acerca da Pessoa e da missão de Cristo, as quais foram amplamente discutidas ao longo da história da Igreja.

a) A preexistência do Filho. Quando Jesus afirma que “desceu do céu”, Ele aponta para a sua preexistência eterna com o Pai. O Filho não começa a existir em Belém, mas existe desde toda a eternidade. Para compreender essa afirmação, é fundamental recorrer a João 1.1, que declara:

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.”

Assim, Jesus é o Verbo eterno, que estava com Deus e é Deus, e que, em determinado momento da história, entrou no mundo por meio da encarnação.

b) A dupla natureza de Jesus. Jesus possui dupla natureza: é verdadeiramente divino, da mesma natureza do Pai, e verdadeiramente humano, tendo assumido a natureza humana sem a corrupção do pecado. Como Deus, Ele compartilha plenamente a mesma vontade divina do Pai. Contudo, ao se encarnar, assumiu também uma vontade humana real.

Dessa forma, quando Jesus fala da vontade do Pai e da sua própria vontade, Ele o faz enquanto homem, no contexto de sua missão redentora. Isso não implica divisão interna ou oposição, pois não há duas pessoas em Jesus, como ensinava erroneamente o nestorianismo, mas uma única pessoa, o Filho eterno de Deus.

Também não existe conflito entre a vontade do Pai e a vontade humana de Jesus. Pelo contrário, a vontade humana de Cristo foi perfeitamente e livremente submissa à vontade divina do Pai. Como o Novo Adão, Jesus obedeceu plenamente, realizando de modo perfeito aquilo que a humanidade falhou em cumprir.

c) A vontade do Pai é salvar e preservar. Jesus recebeu do Pai a missão de salvar os perdidos e preservá-los na fé. A vontade do Pai, conforme revelada nas Escrituras, é salvífica e se expressa no chamado universal à fé em Cristo.

Algumas correntes teológicas, como o calvinismo clássico, afirmam que Deus não amou a todos, não deseja salvar a todos e que não há possibilidade de alguém perder a salvação. Contudo, há textos bíblicos que apontam para uma compreensão mais ampla da vontade salvífica de Deus:

1. Deus amou a todos. “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3.16)

2. Deus deseja salvar a todos. “Pois isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade.” (1Tm 2.3–4)

3. A perseverança na fé é necessária. “Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos anunciei, o qual também recebestes e no qual ainda perseverais; pelo qual também sois salvos, se o retiverdes tal como vo-lo anunciei, a menos que tenhais crido em vão.” (1Co 15.1–2)

Concluímos, portanto, que Jesus Cristo, o Filho de Deus, ao tomar a forma humana, cumpriu perfeitamente a vontade salvífica do Pai, chamando todos os seres humanos à fé, concedendo vida eterna aos que creem e prometendo a ressurreição final àqueles que perseveram até o fim.

2. A mediação exclusiva do Filho.

Em seus ensinos, Jesus deixou absolutamente claro que Ele é o único meio de acesso ao Pai. Essa verdade fundamental do evangelho é expressa de forma inequívoca quando declarou:

“Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Jo 14.6).

Essa afirmação revela a exclusividade de Cristo na obra da salvação. Jesus não se apresenta como um caminho entre muitos, mas como o único caminho que conduz o ser humano a Deus.

Essa mesma verdade foi proclamada pelos apóstolos. Quando Pedro foi interrogado pelas autoridades judaicas, após a cura do coxo à porta do templo, afirmou com ousadia que somente Cristo pode salvar:

“E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos.” (At 4.12)

O apóstolo Paulo, escrevendo a Timóteo, reforça essa doutrina ao declarar:

“Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem.” (1Tm 2.5)

Esse texto destaca a humanidade real de Cristo como elemento essencial de sua mediação. Somente alguém que fosse verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem poderia fazer a ponte entre Deus e a humanidade caída. Como homem perfeito, Jesus representou a humanidade diante de Deus; como Deus verdadeiro, seu sacrifício possui valor eterno e suficiente.

A Epístola aos Hebreus aprofunda essa compreensão ao apresentar Cristo como o cumprimento pleno de todas as figuras, sacrifícios e rituais do Antigo Testamento. Em Hebreus 9.15, lemos:

“E por isso é Mediador de um Novo Testamento, para que, intervindo a morte para remissão das transgressões que havia debaixo do primeiro testamento, os chamados recebam a promessa da herança eterna.”

Assim, Jesus é o Mediador da Nova Aliança, estabelecida não com sangue de animais, mas com o seu próprio sangue, oferecendo redenção completa e definitiva.

À luz desses textos, a Escritura ensina de maneira clara e suficiente que Jesus Cristo, o Filho de Deus que se fez homem, é o único Salvador e Mediador entre Deus e a humanidade. Não há possibilidade de perdão dos pecados, reconciliação com Deus ou vida eterna fora de Cristo.

Portanto, ascendência religiosa, boas obras, observâncias rituais, sofrimentos pessoais ou qualquer outro mérito humano são incapazes de produzir salvação. A salvação é oferecida exclusivamente em Cristo, pela graça de Deus, e recebida mediante a fé (Ef 2.8–9).

3. A aplicação da salvação pelo Espírito.

Antes de subir ao Céu, o Senhor Jesus prometeu que rogaria ao Pai, e Ele enviaria “outro Consolador” para que estivesse para sempre com os seus discípulos:

“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre.” (Jo 14.16)


A palavra grega traduzida por “outro”, neste texto, é állos, que significa “outro da mesma natureza”. Ela difere de héteros, que se refere a “outro de natureza diferente”, como ocorre em termos como heterogêneo, heterodoxo e heterossexual. O “outro” prometido por Jesus, portanto, é alguém igual a Ele em essência, natureza divina, caráter e poder, embora distinto em Pessoa, refutando, assim, as interpretações unicistas que negam a distinção pessoal na Trindade.


A palavra grega parákletos, traduzida por Consolador, é formada por dois termos: pará (ao lado de) e kaléō (chamar, convocar). O termo designa alguém chamado para estar ao lado de outro com o propósito de ajudar, defender, interceder ou advogar, especialmente em um contexto jurídico. Assim, o Espírito Santo é apresentado como Aquele que foi enviado pelo Pai, a pedido do Filho, para dar continuidade à obra de Cristo na vida dos crentes e na missão da Igreja.


Na continuidade do capítulo 14 do Evangelho de João, Jesus descreve algumas ações específicas do Espírito Santo na vida dos seus discípulos:


a) O Espírito da Verdade (Jo 14.17a). Essa expressão indica que a atuação do Espírito Santo é sempre plenamente coerente com a verdade revelada por Deus. Ele é o inspirador das Escrituras e jamais se contradiz. Portanto, todo ensino, profecia ou manifestação espiritual que contrarie a Palavra de Deus não procede do Espírito Santo.


b) O mundo não o pode receber (Jo 14.17b). O Espírito da Verdade habita apenas naqueles que receberam a Cristo pela fé. Não há base bíblica para a ideia de que uma pessoa que permanece em estado de impiedade, rejeição consciente da verdade ou heresia deliberada seja habitação do Espírito Santo. Sua presença é consequência da regeneração operada por Deus.


c) Ele ensina e faz lembrar (Jo 14.26). O Espírito Santo, possuindo os mesmos atributos divinos do Filho, exerce também a função de Mestre. Ele ensina os crentes e os capacita a compreender as Escrituras, especialmente para o cumprimento da missão evangelizadora. Além disso, Ele faz lembrar os ensinamentos de Jesus. Tal ministério não elimina a necessidade do estudo diligente da Palavra, pois ninguém pode ser lembrado daquilo que nunca aprendeu.


O Espírito Santo atua também no mundo, convencendo os pecadores de sua condição espiritual e da necessidade de um Salvador, que é Jesus Cristo. No capítulo 16 do Evangelho de João, o Senhor detalha essa atuação do Consolador:

“E, quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo.” (Jo 16.8)


1) Convencerá o mundo do pecado. O Espírito Santo age de forma eficaz no coração humano, levando o pecador a compreender sua condição de separação de Deus. Por essa razão, nenhuma técnica ou estratégia humana pode substituir a ação do Espírito Santo na obra da salvação. Sem Sua atuação, ninguém pode ser verdadeiramente convertido.


2) Convencerá o mundo da justiça. O Espírito Santo convence o mundo da perfeita justiça de Cristo, demonstrando que somente por meio da fé nEle o ser humano pode ser justificado diante de Deus. Ninguém será salvo por mérito próprio, por obras, sacrifícios pessoais ou sofrimentos humanos.


3) Convencerá o mundo do juízo. O Espírito Santo também convence o mundo acerca do juízo. Jesus explica:

“Porque o príncipe deste mundo já está julgado.” (Jo 16.11)


Essa afirmação refere-se ao julgamento de Satanás, cuja sentença foi decretada na obra redentora de Cristo e será plenamente executada no fim dos tempos. Refere-se também ao juízo sobre o pecado, cuja penalidade foi assumida por Jesus na cruz. Ali, Ele derrotou a morte e garantiu aos que creem a vitória sobre o pecado e a condenação eterna.


Há ainda muitas outras ações realizadas pelo Espírito Santo, que serão estudadas com maior profundidade nas lições referentes à Sua Pessoa e Obra. Neste estudo, restringimo-nos especificamente à atuação do Espírito Santo no processo da salvação, conforme revelado nas Escrituras.


Ev. WELIANO PIRES

16 janeiro 2026

O FILHO E A PLENITUDE DOS TEMPOS

(Comentário do 2º tópico da Lição 03: O Pai enviou o Filho)

No segundo tópico, abordaremos o envio do Filho “na plenitude dos tempos”, expressão utilizada pelo apóstolo Paulo na Epístola aos Gálatas.

Inicialmente, analisaremos a preparação histórica e religiosa para a vinda do Messias ao mundo, destacando o domínio romano, a difusão da cultura grega e a expectativa messiânica do povo judeu. Esse conjunto de fatores constituiu o cenário providencial para a manifestação do Filho de Deus na história.

Em seguida, examinaremos o significado das expressões paulinas aplicadas a Cristo: “nascido de mulher” e “nascido sob a Lei”, ressaltando suas implicações cristológicas e soteriológicas.

Por fim, trataremos da adoção dos crentes como filhos de Deus mediante a fé em Cristo. Estabeleceremos, ainda, a distinção entre a filiação divina de Cristo — o Filho único de Deus por natureza — e a filiação divina daqueles que nele creem, que se dá por adoção.

1. A preparação histórica e religiosa.

No texto de Gálatas 4.4,5, o apóstolo Paulo escreveu: 

“Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de Mulher, nascido sob a lei, para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.”

A expressão “plenitude dos tempos” (gr. plḗrōma tou chrónos) indica que o envio do Filho aconteceu no tempo apropriado, previamente determinado pelo Pai, sem atraso nem adiantamento. As obras de Deus sempre se cumprem de maneira perfeita e no tempo exato. Costuma-se dizer que “Deus tarda, mas não falha”. Entretanto, essa afirmação não é correta, pois Deus jamais se atrasa. Ele age no tempo certo, segundo o Seu eterno propósito e soberana vontade.

O comentarista mencionou três fatores históricos fundamentais que contribuíram decisivamente para a difusão do Evangelho, evidenciando que aquele era, de fato, o momento adequado para a manifestação do Filho de Deus.

a) O Domínio Romano. Embora o Império Romano fosse uma potência autoritária e opressora, ele promoveu uma espécie de globalização no mundo antigo, permitindo a circulação de pessoas, ideias e mercadorias entre as províncias. A chamada Pax Romana, instituída em 27 a.C. pelo imperador Augusto César, perdurou aproximadamente até 180 d.C., proporcionando relativa estabilidade política e social.

Foram implantadas diversas medidas administrativas, como:

  • Aumento da produtividade nas províncias;

  • Proteção contra invasões externas;

  • Repressão severa a revoltas internas;

  • O processo de romanização, isto é, a adaptação dos povos conquistados aos costumes romanos.

O império também investiu fortemente na construção de estradas para facilitar o comércio e o deslocamento militar. Estima-se que a malha viária romana alcançasse cerca de 300 mil quilômetros, sendo aproximadamente 90 mil pavimentados. Além disso, as rotas marítimas eram amplamente utilizadas e bastante eficientes.

Todo esse aparato logístico e administrativo foi soberanamente utilizado pelo Espírito Santo para a proclamação do Evangelho em todo o mundo conhecido. Antes dos gregos e romanos, os impérios costumavam deportar os povos conquistados. Os gregos, porém, adotaram uma nova estratégia, permitindo que os povos permanecessem em suas terras, desde que não ameaçassem o domínio imperial. Os romanos deram continuidade a esse modelo.

b) A Cultura Grega. Alexandre Magno derrotou o Império Persa em 334 a.C. e expandiu seus domínios pela Síria, Egito e outras regiões, fundando, inclusive, a cidade de Alexandria. Seu objetivo não era apenas a conquista militar, mas também a disseminação da cultura e do pensamento grego.

Três aspectos do domínio grego foram decisivos para a expansão do Cristianismo:

1. O idioma universal. Antes da hegemonia grega, não havia uma língua comum entre os povos. Com a expansão helênica, o grego koiné tornou-se o idioma popular e amplamente compreendido. O termo koiné deriva de koinonía, que significa “comum” ou “comunhão”.

O Antigo Testamento foi traduzido do hebraico para o grego koiné por volta de 250 a.C., originando a Septuaginta (LXX). O Novo Testamento foi escrito majoritariamente nesse idioma, o que facilitou enormemente a propagação da mensagem cristã.

2. A diversidade religiosa. O mundo helenizado era marcado por pluralismo religioso, o que contribuiu para a circulação de novas ideias, incluindo a mensagem do Evangelho.

3. A filosofia grega. A filosofia preparou o terreno intelectual para discussões sobre a verdade, a existência e o sentido da vida, conceitos posteriormente confrontados e reinterpretados à luz da revelação cristã.

c) A Expectativa Messiânica. O povo de Israel passou por sucessivos domínios estrangeiros como consequência de sua idolatria e infidelidade a Deus. O Reino do Norte foi conquistado pelos assírios, e o Reino do Sul pelos babilônios. Posteriormente, o domínio passou aos medos e persas. Após setenta anos, parte dos judeus retornou do exílio, enquanto outros permaneceram na Babilônia.

Mais tarde, os gregos dominaram a Palestina, mantendo os judeus em sua terra. Em seguida, os romanos assumiram o controle, preservando grande parte da cultura grega já estabelecida.

As Escrituras anunciavam a vinda do Messias, o Ungido de Deus, que reinaria eternamente. Mas, a maioria dos judeus interpretavam essas profecias de maneira política, aguardando um libertador semelhante ao rei Davi, que os livraria do domínio romano. Por essa razão, quando o Filho de Deus se manifestou cumprindo plenamente as Escrituras, foi rejeitado por muitos.

2. O Filho nascido sob a Lei.

Na segunda parte do texto de Gálatas 4.4, o apóstolo Paulo afirma que “Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher”. Essa declaração aponta de maneira inequívoca para a plena humanidade de Jesus Cristo. Embora possa parecer improvável, já nos dias dos apóstolos havia pessoas que negavam que Jesus tivesse assumido uma verdadeira natureza humana.

Os primeiros a negar que Jesus possuía um corpo humano real foram os docetas. O docetismo teve origem em concepções gnósticas que defendiam um dualismo entre espírito e matéria, considerando o espírito como essencialmente bom e a matéria como essencialmente má. Dessa forma, sustentavam que, sendo Jesus verdadeiramente Deus, Ele não poderia ter um corpo físico, pois, segundo essa visão, o corpo seria inerentemente mau.

Entretanto, os Evangelhos testemunham de forma clara que Jesus possuía um corpo físico real. Em diversas ocasiões, os discípulos tocaram em Jesus, caminharam com Ele, conversaram pessoalmente e conviveram intimamente com sua vida cotidiana. Eles nunca tiveram dúvidas quanto à realidade de sua humanidade. Os relatos evangélicos apresentam, com riqueza de detalhes, aspectos claros da vida humana de Cristo.

Os Evangelhos de Mateus e Lucas registram informações significativas acerca do nascimento de Jesus, desde o anúncio do seu nascimento, mencionando também várias pessoas que testemunharam esses acontecimentos. Ambos apresentam a genealogia de Jesus e fazem referência aos seus familiares. Marcos, por sua vez, inicia seu relato apresentando Jesus já na idade adulta, no início de seu ministério público, dando grande ênfase aos milagres que Ele realizou. Ainda assim, Marcos retrata Jesus como um verdadeiro homem que vivia e se movia entre as multidões. Esses três evangelistas expõem de maneira consistente a humanidade de Jesus, não deixando dúvidas quanto à realidade de seu corpo físico.

O Evangelho segundo João se distingue dos Sinóticos por enfatizar de modo especial a divindade de Cristo e o significado teológico do seu ministério. Todavia, João também afirma com clareza a plena humanidade de Jesus. No prólogo do seu Evangelho, ele declara:

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14).

Com essa afirmação, João ensina que o Filho eterno de Deus assumiu a natureza humana e viveu entre os homens. Essa verdade é reafirmada pelo apóstolo também em suas Epístolas (1 Jo 1.1–3; 4.2).

Na sequência do texto de Gálatas 4.4, o apóstolo Paulo acrescenta que o Filho foi “nascido sob a Lei”. Essa expressão possui, pelo menos, dois importantes significados teológicos:

a) Jesus Cristo submeteu-se plenamente às exigências da Lei Mosaica. Ele é o homem perfeito, o único que viveu neste mundo sem jamais cometer pecado. Nenhum outro ser humano conseguiu cumprir integralmente a Lei. Somente Jesus obedeceu perfeitamente a todos os seus preceitos, sem violar qualquer mandamento.

b) Jesus Cristo é o cumprimento da Lei. Todas as ordenanças, sacrifícios, rituais, festas e símbolos prescritos na Lei apontavam para Ele. Assim, Cristo veio cumprir aquilo que a Lei prefigurava, revelando o seu verdadeiro propósito redentor.

3. A adoção de filhos.

Na continuidade do texto de Gálatas 4, no versículo 5, o apóstolo Paulo descreve a razão do envio do Filho ao mundo:

“Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos”.


A palavra remir, no contexto bíblico, significa libertar mediante o pagamento de um preço, como ocorria com alguém que havia sido escravizado em razão de uma dívida. Tal pessoa só poderia ser liberta mediante o pagamento dessa dívida. Foi exatamente isso que Jesus fez por nós: pagou o preço do nosso resgate para nos livrar da condenação eterna.


Muitas pessoas, inclusive alguns pregadores, fazem confusão quanto ao destinatário desse pagamento e utilizam o exemplo de um sequestro, afirmando que o diabo teria sequestrado o ser humano e que Jesus teria pago o preço da nossa libertação ao inimigo. Entretanto, essa interpretação não encontra fundamento nas Escrituras. A dívida só pode ser paga ao credor, e, nesse caso, a nossa dívida era para com a justiça de Deus, que exige punição pelo pecado: “A alma que pecar, essa morrerá” (Ez 18.20a). O apóstolo Paulo também escreveu: “Porque o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23a).


Além de nos remir, pagando o preço da nossa dívida para com Deus mediante o seu sacrifício, Jesus também nos concedeu o privilégio de sermos feitos filhos de Deus. Antes de conhecermos a Cristo, éramos estranhos e inimigos de Deus; mas, pela fé em Cristo, recebemos não apenas o perdão dos pecados, como também o direito de sermos chamados filhos de Deus.


Muitas pessoas estão equivocadas ao pensar que todos os seres humanos são filhos de Deus. A Bíblia é clara ao afirmar que filhos de Deus são somente aqueles que creem em Jesus: “Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (Jo 1.12). Jesus é o Filho Unigênito (gr. monogenēs) de Deus (Jo 3.16), isto é, o único Filho que possui a mesma natureza do Pai. Aqueles que nele creem tornam-se filhos de Deus por adoção. Os demais seres humanos são criaturas de Deus, mas não filhos.


Ev. WELIANO PIRES


O VERBO COMO CRIADOR

(Comentário do 2⁰ tópico da Lição 6: O Filho como o Verbo de Deus). No segundo tópico, abordaremos o Verbo como Criador. Com base em João 1....