(Comentário do 3º tópico da lição 6: a suficiência da graça na cidade de Corinto)
Neste terceiro tópico, veremos como a graça de Deus sustentou o apóstolo Paulo diante da oposição que enfrentou em Corinto. Quando Gálio era procônsul da Acaia, os judeus levaram Paulo ao tribunal, acusando-o de persuadir as pessoas a servir a Deus de maneira contrária à Lei (At 18.12,13).
Gálio,
porém, recusou-se a julgar a questão, entendendo que se tratava de uma
controvérsia relacionada às palavras, aos nomes e à lei dos próprios judeus.
Por isso, expulsou os acusadores do tribunal (At 18.14-16). Em seguida, alguns
presentes agrediram Sóstenes, principal da sinagoga, diante do tribunal (At
18.17).
O
episódio demonstra que a graça de Deus não significa ausência de oposição ou
adversidades, mas sustenta seus servos em meio às lutas. Paulo havia recebido
do Senhor a garantia de sua presença e proteção: “Não temas, mas fala e não te
cales; porque eu sou contigo” (At 18.9,10). Assim, mesmo diante das pressões, o
apóstolo permaneceu firme no cumprimento de sua missão.
1. A
acusação dos judeus e a proteção divina. Os judeus se levantaram contra Paulo e o levaram
ao tribunal de Gálio, procônsul da Acaia. Eles o acusaram de persuadir os
homens a adorar a Deus de maneira contrária à lei (At 18.12,13). A acusação,
porém, não apresentava um crime civil que justificasse a intervenção da
autoridade romana.
Gálio
percebeu que se tratava de uma questão relacionada às palavras, aos nomes e à
lei judaica, e não de uma transgressão que estivesse sob sua jurisdição (At
18.14,15). Por essa razão, Gálio recusou-se a julgar Paulo e ordenou que os
acusadores saíssem do tribunal.
Dessa
forma, a tentativa de levar Paulo à condenação não prosperou (At 18.14-16).
Embora Gálio não tivesse qualquer compromisso com a fé cristã, sua decisão
acabou contribuindo para o livramento do apóstolo. Assim, mais uma vez, vemos a
mão soberana de Deus conduzindo as circunstâncias para que a obra do Evangelho
avançasse.
Esse
episódio também nos ensina que Deus pode utilizar pessoas e circunstâncias
inesperadas para cumprir os seus propósitos. As autoridades humanas, ainda que
não reconheçam a soberania divina, continuam debaixo do governo de Deus. A
Escritura afirma: “Como ribeiros de águas, assim é o coração do rei na mão do
Senhor; a tudo quanto quer o inclina” (Pv 21.1).
No
Antigo Testamento, encontramos outros exemplos dessa verdade. Deus usou
Nabucodonosor, rei da Babilônia, para determinar que Jeremias fosse tratado com
cuidado (Jr 39.11,12). Também levantou Ciro, rei da Pérsia, para permitir o
retorno dos judeus do exílio e a reconstrução do templo em Jerusalém (2Cr
36.22,23; Ed 1.1-4). Nos dias de Ester, o Senhor conduziu os acontecimentos
para preservar o seu povo da destruição planejada por Hamã (Et 3.8-15; 8.3-8).
Portanto,
o livramento de Paulo diante de Gálio evidencia que a oposição humana não pode
frustrar os propósitos de Deus. Quando o Senhor determina que uma obra seja
realizada, Ele pode abrir caminhos e utilizar os meios mais inesperados para
que a sua vontade seja cumprida (Is 46.10; Sl 33.10,11).
2. O
espancamento de Sóstenes e o alcance da graça. Após a recusa do procônsul
Gálio em julgar a acusação apresentada contra Paulo, os acontecimentos tomaram
outro rumo. Atos 18.17 registra que os gregos, segundo algumas traduções, ou
“todos” se apoderaram de Sóstenes, chefe da sinagoga, e o espancaram diante do
tribunal. Gálio, porém, não demonstrou interesse pelo ocorrido. É possível que
Sóstenes tenha assumido a liderança da sinagoga após a conversão de Crispo, que
havia crido no Senhor juntamente com toda a sua casa (At 18.8).
O texto
bíblico não esclarece com precisão quem agrediu Sóstenes nem apresenta a
motivação do espancamento. Algumas versões traduzem o texto indicando que
“todos” se apoderaram dele, enquanto outras especificam “os gregos” (At 18.17).
Por isso, é prudente evitar conclusões definitivas. Alguns intérpretes entendem
que Sóstenes teria sido agredido pelos próprios judeus, possivelmente por não
ter conseguido convencer Gálio a condenar Paulo. Outros consideram que os
gregos poderiam ter aproveitado a ocasião para manifestar sua hostilidade
contra os judeus.
O
importante neste caso é perceber que, mesmo em meio à oposição e aos conflitos,
a obra de Deus continuou avançando. Lucas não informou se Sóstenes se converteu
naquele episódio nem explicou detalhadamente os motivos que o levaram à
conversão. Por isso, não devemos construir uma doutrina sobre uma informação
que o texto não fornece.
Anos
depois, Paulo menciona, na saudação de sua Primeira Epístola aos Coríntios, um
homem chamado Sóstenes, identificando-o como “irmão” (1Co 1.1). Alguns
comentaristas entendem que se trata do mesmo Sóstenes de Atos 18.17, embora o
texto bíblico não permita afirmar isso com absoluta certeza. Se realmente se
trata da mesma pessoa, temos um belo testemunho do alcance da graça de Deus:
aquele que, em determinado momento, esteve ligado à oposição ao ministério de
Paulo teria posteriormente se tornado um irmão na fé e cooperador do apóstolo.
A identificação, portanto, deve ser apresentada como uma possibilidade, e não
como uma certeza histórica.
A
possível transformação de Sóstenes nos lembra que ninguém está fora do alcance
da graça de Deus. O mesmo Evangelho que alcançou Crispo e sua família também
transformou o próprio Paulo, que anteriormente perseguia ferozmente a Igreja
(At 8.3; 9.1,2; 1Tm 1.13-16). A graça de Deus pode alcançar até mesmo aqueles
que se levantam contra a sua obra. Por isso, a Igreja deve permanecer firme na
proclamação do Evangelho, confiando no poder de Deus para salvar e transformar
vidas (Rm 1.16; 1Co 1.18).
3. A
suficiência da graça na experiência de Paulo. Este ponto é, em grande medida, uma recapitulação
do que estudamos até aqui. O comentarista destaca que a graça de Deus foi
suficiente para sustentar o ministério do apóstolo Paulo em Corinto, mesmo
diante de suas limitações, das pressões e da forte oposição que enfrentou
naquela cidade. A experiência de Paulo nos ensina que a eficácia do ministério
cristão não depende da ausência de dificuldades, mas da suficiência da graça e
do poder de Deus.
Conforme
vimos no primeiro tópico, Corinto era uma cidade próspera, estratégica e
culturalmente influente, mas também marcada pela idolatria e por uma profunda
degradação moral. Foi nesse contexto desafiador que o apóstolo Paulo anunciou o
Evangelho e estabeleceu uma igreja. Segundo o relato de Atos 18.1-11, Paulo
permaneceu em Corinto por um ano e seis meses, ensinando a Palavra de Deus.
Mesmo diante da oposição, o Senhor lhe disse: “Não temas, mas fala e não te
cales” (At 18.9). Assim, Paulo continuou exercendo seu ministério, confiando na
presença e no cuidado do Senhor.
Essa
mesma realidade pode ser percebida de maneira ainda mais profunda quando Paulo
fala sobre sua própria fraqueza. Em 2 Coríntios 12.9, o Senhor lhe declarou: “A
minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. A resposta
de Paulo revela que ele aprendeu a depender inteiramente da graça divina: “De
boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o
poder de Cristo” (2 Co 12.9).
Portanto,
a graça de Deus é suficiente para nos sustentar em todas as circunstâncias da
nossa caminhada com Cristo. Isso não significa que estaremos livres de lutas,
oposições ou momentos de fragilidade, mas que jamais estaremos desamparados.
Nossa confiança não deve estar na ausência das adversidades, e sim na certeza
de que Deus permanece conosco em meio a elas (Sl 46.1; Is 41.10; Mt 28.20).
Quando reconhecemos nossas limitações e dependemos do Senhor, experimentamos
que o seu poder se manifesta justamente em nossa fraqueza.
Ev. WELIANO PIRES
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