(Comentário do 1⁰ tópico da Lição 7: Quando o Espírito sopra em Éfeso).
Neste tópico, estudaremos a atuação do Espírito Santo no ministério do apóstolo Paulo em Éfeso, especialmente por meio do ensino e da formação doutrinária da Igreja. Ao chegar à cidade, Paulo encontrou alguns discípulos que conheciam apenas o batismo de João (At 19.1-3).
Diante dessa compreensão limitada, o apóstolo ensinou-lhes acerca de Jesus Cristo e da obra do Espírito Santo. Ao explicar-lhes que João apontava para Cristo, conduziu-os à compreensão do Evangelho (At 19.4). Depois de serem batizados em nome do Senhor Jesus, receberam o Espírito Santo mediante a imposição das mãos de Paulo, falando em línguas e profetizando (At 19.5,6).
Durante três meses, Paulo ensinou com ousadia na sinagoga, discutindo e persuadindo seus ouvintes acerca do Reino de Deus (At 19.8). Diante da resistência de alguns, que passaram a falar mal do Caminho, o apóstolo não interrompeu seu ministério, mas retirou-se da sinagoga e passou a ensinar os discípulos na escola de Tirano (At 19.9).
Paulo permaneceu ali por dois anos ensinando a Palavra, de modo que todos os habitantes da Ásia ouviram a Palavra do Senhor, tanto judeus como gregos (At 19.10). Esse ministério fundamentado no ensino perseverante das Escrituras demonstra que uma Igreja devidamente instruída na Palavra torna-se instrumento de Deus para a expansão do Evangelho.
1. A restauração [o estabelecimento] da verdadeira doutrina (vv.1-7). Paulo já havia passado por Éfeso, de maneira breve, no final de sua segunda viagem missionária. Naquela ocasião, deixou na cidade o casal Priscila e Áquila, que havia conhecido em Corinto (At 18.1-3). Paulo entrou na sinagoga e discutiu com os judeus acerca das Escrituras e da mensagem de Cristo. Estes lhe pediram que permanecesse ali por mais algum tempo, mas o apóstolo não consentiu, pois tinha o propósito de chegar a Jerusalém para a festa. Contudo, prometeu retornar, se Deus quisesse (At 18.18-21). De Éfeso, partiu para Cesaréia e, depois de subir a Jerusalém e saudar a igreja, desceu para Antioquia da Síria (At 18.22).
Posteriormente, Paulo iniciou sua terceira viagem missionária. Depois de algum tempo em Antioquia, percorreu as regiões da Galácia e da Frígia, fortalecendo os discípulos e visitando as igrejas estabelecidas durante suas viagens anteriores (At 18.23). Enquanto isso, Priscila e Áquila permaneceram em Éfeso, onde continuaram anunciando o Evangelho. Nesse período, chegou à cidade Apolo, judeu natural de Alexandria, “homem eloquente e poderoso nas Escrituras” (At 18.24). Ele conhecia apenas o batismo de João, mas ensinava com fervor acerca do Senhor. Priscila e Áquila, ao perceberem que seu conhecimento era incompleto, “lhe declararam mais pontualmente o caminho de Deus” (At 18.25,26). Posteriormente, Apolo foi para a Acaia e tornou-se um importante cooperador na propagação do Evangelho (At 18.27,28).
Quando Paulo chegou novamente a Éfeso, durante sua terceira viagem missionária, encontrou ali alguns discípulos (At 19.1). Lucas emprega o termo grego mathētḗs, “discípulo”, para designá-los. A palavra pode indicar alguém que aprende, segue ou é instruído. Entretanto, o contexto demonstra que aqueles homens possuíam conhecimento limitado acerca de Cristo e do Espírito Santo. Por isso, não devemos concluir de maneira precipitada que já possuíam plena compreensão da fé cristã. O episódio mostra justamente a necessidade de receberem instrução mais completa sobre o Evangelho.
Paulo lhes perguntou: “Recebestes vós já o Espírito Santo quando crestes?” (At 19.2). Eles responderam: “Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo”. Essa resposta revela uma lacuna significativa em seu conhecimento espiritual. Eles conheciam a mensagem de João Batista, que pregava o arrependimento e apontava para aquele que haveria de vir depois dele (At 19.3,4; cf. Mt 3.11; Mc 1.7,8), mas ainda não haviam sido devidamente instruídos acerca do cumprimento dessa promessa em Jesus Cristo.
Paulo, então, perguntou: “Em que sois batizados, então?”. Eles responderam: “No batismo de João” (At 19.3). Diante disso, o apóstolo explicou que João realizava um batismo de arrependimento, preparando o povo para crer naquele que viria depois dele, isto é, em Jesus Cristo (At 19.4). Ao ouvirem essa explicação, aqueles homens foram batizados em nome do Senhor Jesus (At 19.5). A instrução de Paulo conduziu-os do conhecimento parcial à compreensão da obra de Cristo.
Em seguida, Paulo impôs-lhes as mãos, “e veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam línguas e profetizavam” (At 19.6). Havia cerca de doze homens ao todo (At 19.7). Esse episódio constitui um importante testemunho bíblico, na perspectiva pentecostal, acerca do batismo no Espírito Santo como experiência distinta da conversão e relacionada ao revestimento de poder para o testemunho cristão. Antes de sua ascensão, Jesus ordenou aos discípulos que aguardassem “a promessa do Pai” e declarou: “recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas” (At 1.4,8). O derramamento do Espírito em Pentecostes cumpriu essa promessa e capacitou os discípulos para a missão (At 2.1-4).
É importante observar que a frase “Nós nem ainda ouvimos que haja Espírito Santo” (At 19.2) tem recebido diferentes interpretações. Alguns estudiosos entendem que aqueles discípulos desconheciam a Pessoa e a obra do Espírito Santo. Outros consideram que eles estavam afirmando não ter ouvido falar da concessão do Espírito Santo conforme a promessa anunciada por João e cumprida em Cristo. As traduções bíblicas apresentam diferenças nessa passagem. Seja qual for a interpretação adotada para a expressão, o contexto deixa claro que aqueles homens necessitavam de instrução acerca de Cristo e da obra do Espírito Santo e que, depois de receberem a verdade, experimentaram poderosamente a ação do Espírito (At 19.2-6).
Esse episódio nos ensina uma importante verdade: a experiência cristã não pode ser separada da verdade revelada nas Escrituras. Aqueles homens possuíam algum conhecimento, mas precisaram ser ensinados mais claramente acerca do caminho de Deus. O mesmo aconteceu com Apolo, que, embora fosse eloquente e poderoso nas Escrituras, necessitou receber instrução mais precisa da parte de Priscila e Áquila (At 18.24-26). Isso demonstra que sinceridade, fervor e conhecimento parcial não substituem a necessidade de crescimento na verdade.
A Igreja, portanto, deve permanecer firmada na Palavra de Deus. Os bereanos foram elogiados porque examinavam diariamente as Escrituras para verificar aquilo que lhes era ensinado (At 17.11). Paulo também orientou Timóteo a permanecer naquilo que havia aprendido e a reconhecer a autoridade das Escrituras para ensinar, redarguir, corrigir e instruir em justiça (2Tm 3.14-17). Da mesma forma, Pedro exortou os crentes a crescerem “na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 3.18).
O episódio de Éfeso também mostra que doutrina e experiência espiritual não devem ser colocadas em oposição. A Palavra orienta a experiência, enquanto a ação do Espírito capacita o crente a viver e testemunhar a verdade. O próprio Paulo, ao ensinar sobre os dons espirituais, não os separou da edificação da Igreja e da ordem no culto (1Co 12.1-7; 14.26-40). Assim, o verdadeiro avivamento não conduz ao abandono da sã doutrina; antes, produz maior conhecimento de Cristo, comunhão com Deus e disposição para o cumprimento da missão.
Vivemos em um tempo de muito apego às experiências espirituais, muitas vezes sem respaldo bíblico. Precisamos nos atentar à Palavra de Deus, examinando todas as coisas à luz das Escrituras (1Ts 5.21). A experiência genuína com o Espírito Santo não substitui a verdade bíblica; pelo contrário, deve conduzir o crente a uma vida cada vez mais comprometida com Cristo, com a Palavra e com o testemunho do Evangelho.
2. O ensino perseverante diante da resistência (vv.8,9). Em Éfeso, Paulo iniciou seu ministério ensinando na sinagoga, onde, durante três meses, falou ousadamente acerca do Reino de Deus, procurando persuadir seus ouvintes a respeito de Jesus Cristo (At 19.8). Entretanto, alguns se endureceram e passaram a falar mal do Caminho, expressão usada em Atos para designar a fé cristã e o modo de vida daqueles que seguiam a Cristo (At 9.2; 19.9,23).
Diante dessa resistência, Paulo não desistiu do ensino da Palavra. Ele se afastou da sinagoga, tomou consigo os discípulos e passou a ensiná-los diariamente na escola de um homem chamado Tirano (At 19.9). Não temos informações suficientes para afirmar quem era Tirano, nem se ele era cristão. O texto apenas registra que Paulo utilizou aquele espaço para continuar ensinando. Assim, o apóstolo mudou o ambiente, mas não mudou a mensagem. Sua prioridade continuava sendo anunciar e ensinar fielmente a Palavra de Deus (At 20.20,27).
A experiência de Paulo nos ensina que a perseverança na obra de Deus não significa permanecer preso a um único método ou ambiente. Quando surgem obstáculos, é possível buscar novas estratégias sem comprometer a fidelidade às Escrituras. O próprio Paulo demonstrou flexibilidade missionária, adaptando sua abordagem às diferentes circunstâncias, sem alterar o conteúdo do Evangelho (1Co 9.22,23). Cabe à Igreja buscar a direção do Espírito Santo e exercer discernimento para identificar quando é necessário mudar o método, o ambiente ou a abordagem, mantendo-se sempre fiel à verdade bíblica.
Um método que produz bons resultados em determinado contexto pode não ser igualmente eficaz em outro. Por isso, além de perseverança, o ensino cristão requer sabedoria, discernimento e disposição para adequar os métodos às necessidades das pessoas, sem jamais negociar os princípios da Palavra de Deus (2Tm 4.2).
3. Formação sólida que transforma uma região inteira (vv.9,10). Na escola de Tirano, o apóstolo Paulo passou a ensinar diariamente a Palavra de Deus aos discípulos, depois de se afastar da sinagoga em razão da oposição ao Evangelho (At 19.9). Esse trabalho perseverante se estendeu por dois anos, de modo que todos os habitantes da província da Ásia ouviram a Palavra do Senhor, tanto judeus como gregos (At 19.10). Paulo demonstrava, assim, que sua missão não se limitava à evangelização; ele também se dedicava à formação e ao amadurecimento espiritual dos que haviam recebido a Cristo (At 20.20,27,31).
Esse exemplo evidencia a importância do ensino contínuo na edificação da Igreja. Em nossos dias, a Escola Bíblica Dominical e os cultos de ensino constituem importantes instrumentos para a formação bíblica dos crentes. Entretanto, é necessário que a Igreja valorize cada vez mais esses momentos de instrução, pois o crescimento espiritual não ocorre apenas por meio de grandes eventos, mas também mediante o ensino sistemático e perseverante da Palavra de Deus (Mt 28.19,20; Cl 3.16).
O apóstolo Paulo não negligenciou o ensino. Seu ministério em Éfeso produziu frutos que alcançaram toda a região. Além de anunciar o Evangelho, ele formou discípulos que, posteriormente, contribuíram para a expansão da mensagem de Cristo. O resultado demonstra a força multiplicadora de um ensino bíblico consistente: pessoas alcançadas pela Palavra tornam-se discípulos preparados para ensinar e anunciar a outros aquilo que aprenderam (2Tm 2.2).
Quando a Palavra de Deus é ensinada de maneira fiel e perseverante, a Igreja cresce não apenas em número, mas também em maturidade espiritual e conhecimento da verdade (Ef 4.11-15). Uma Igreja cheia do Espírito Santo deve ser igualmente comprometida com as Escrituras, pois o Espírito Santo não conduz o crente para longe da Palavra, mas ilumina seu entendimento e o conduz à verdade (Jo 16.13; 1Co 2.12-13).
Portanto, o discipulado e o ensino bíblico são indispensáveis ao crescimento saudável da Igreja. O exemplo de Paulo em Éfeso mostra que uma Igreja bem instruída está mais preparada para cumprir sua missão e testemunhar o poder de Deus. Como veremos no próximo tópico, foi nesse contexto de ensino e expansão do Evangelho que ocorreram manifestações extraordinárias do poder de Deus (At 19.11,12).
Ev. WELIANO PIRES
Nenhum comentário:
Postar um comentário