(Comentário do 1⁰ tópico da lição 8: Despedida em Éfeso – Entre lágrimas e alertas)
No primeiro tópico, estudaremos o balanço que o apóstolo Paulo fez do próprio ministério em seu discurso aos presbíteros da igreja de Éfeso (At 20.17-38). Seu testemunho, confirmado pelos registros do Novo Testamento, revela um servo fiel, cuja vida e ministério foram inteiramente dedicados ao Senhor e à proclamação do Evangelho (1Co 4.2).
Paulo destacou a coerência entre sua mensagem e sua conduta, lembrando aos presbíteros: “Vós bem sabeis como em todo esse tempo me portei no meio de vós” (At 20.18). Além disso, reafirmou sua fidelidade como proclamador da verdade, declarando que nada deixou de anunciar do que era útil, ensinando publicamente e de casa em casa o arrependimento para com Deus e a fé em Jesus Cristo (At 20.20,21).
Por fim, o apóstolo demonstrou fidelidade diante do futuro, mantendo a consciência limpa por haver anunciado plenamente a vontade de Deus (At 20.26,27). Mesmo sabendo, pelo testemunho do Espírito Santo, que prisões e tribulações o aguardavam, ele considerava mais importante cumprir a carreira e o ministério que recebeu do Senhor Jesus (At 20.22-24; cf. 2Tm 4.7).
1. Um ministério vivido com coerência e entrega (vv.17-21). Paulo iniciou seu discurso fazendo um balanço do seu ministério em Éfeso, destacando não apenas o que ensinou, mas também a maneira como viveu entre eles. Ele serviu ao Senhor com humildade, lágrimas e provações, anunciando e ensinando a Palavra de Deus publicamente e de casa em casa, tanto a judeus como a gregos (At 20.17-21).
O apóstolo não fez uma autopromoção para exaltar o próprio ministério. Antes, apelou ao testemunho daqueles que haviam acompanhado de perto sua conduta: “Vós bem sabeis como em todo esse tempo me portei no meio de vós” (At 20.18). Paulo demonstrava, assim, coerência entre sua pregação e sua prática. Por isso, podia exortar os cristãos a imitá-lo, na medida em que ele próprio imitava a Cristo (1Co 11.1; Fp 3.17).
A autoridade espiritual de um obreiro não está fundamentada apenas naquilo que ele ensina, mas também na coerência entre sua mensagem e sua conduta (1Tm 4.12,16). O testemunho cristão começa na vida diária e alcança aqueles que estão mais próximos de nós. Por isso, é necessário refletir: O que ensinamos publicamente é confirmado pelo nosso comportamento no cotidiano? Nossa família vê em nós a mesma fé que demonstramos diante da igreja?
2. A fidelidade apostólica como guarda da verdade. apostólica como guardião da verdade. O apóstolo declarou aos presbíteros de Éfeso que jamais deixou de anunciar-lhes “coisa alguma que útil seja”, ensinando-os publicamente e de casa em casa (At 20.20). Sua mensagem não estava fundamentada em interesses pessoais, mas no compromisso de transmitir integralmente a vontade de Deus. Paulo pregava “o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus Cristo” (At 20.21), apresentando a salvação pela graça, mediante a fé em Cristo (Ef 2.8,9), e anunciando “todo o conselho de Deus” (At 20.27).
A Igreja de Cristo é chamada de “coluna e firmeza da verdade” (1 Tm 3.15) e, como tal, possui a responsabilidade de proclamar fielmente a Palavra de Deus. Por isso, não podemos omitir aquilo que a Escritura ensina nem acrescentar-lhe ensinamentos estranhos à revelação divina (Dt 4.2; Ap 22.18,19). A missão da Igreja é anunciar o Evangelho e ensinar os discípulos a guardar “todas as coisas” que Cristo ordenou (Mt 28.19,20). A mensagem cristã não deve ser adaptada aos valores de uma sociedade que rejeita os princípios da Palavra de Deus (Rm 12.2), mas permanecer fundamentada na verdade revelada nas Escrituras (Jo 17.17).
A fidelidade do obreiro na pregação não consiste em selecionar apenas as partes agradáveis da Bíblia e silenciar aquelas que confrontam o pecado e chamam o ser humano ao arrependimento. Paulo afirmou que não se esquivou de anunciar “todo o conselho de Deus” (At 20.27). Portanto, o ministro fiel deve ensinar a verdade bíblica de maneira integral, sem omissões deliberadas, apresentando tanto as promessas quanto as advertências da Palavra.
Entretanto, proclamar a verdade não significa agir com agressividade, arrogância ou grosseria. A verdade deve ser ensinada “em amor” (Ef 4.15), com mansidão e respeito (1 Pe 3.15). O próprio Paulo orientou Timóteo a corrigir e ensinar com longanimidade ou paciência (2 Tm 4.2). Assim, o obreiro deve permanecer firme na verdade, mas também demonstrar o caráter de Cristo ao comunicá-la. A fidelidade bíblica exige que não negociemos a verdade, mas que a proclamemos com graça, amor e sabedoria.
3. Fidelidade diante do futuro e consciência irrepreensível (vv.22-27). Paulo sabia que prisões e tribulações o aguardavam, pois o Espírito Santo lhe havia revelado o que haveria de acontecer (At 20.22,23). Mesmo diante dessa perspectiva, ele não permitiu que o medo do sofrimento o afastasse da missão recebida. O apóstolo declarou: “Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (At 20.24). Para Paulo, preservar a própria vida não era o bem supremo; acima de sua segurança pessoal estava a fidelidade ao Senhor e o cumprimento de sua vocação.
O verdadeiro chamado do obreiro não é medido pela ausência de dificuldades, mas pela disposição de permanecer fiel a Deus em meio a elas. Paulo não estava preocupado em descobrir uma maneira de evitar o sofrimento, mas em cumprir a missão que o Senhor lhe havia confiado. Sua consciência estava tranquila porque havia procurado realizar fielmente o ministério recebido. Por isso, afirmou aos presbíteros: “Portanto, no dia de hoje, vos protesto que estou limpo do sangue de todos” (At 20.26). Ele havia anunciado todo o conselho de Deus, sem se esquivar de ensinar aquilo que era necessário (At 20.27).
Essa postura nos leva a uma importante reflexão: o que estamos buscando em nossa caminhada cristã: apenas evitar o sofrimento ou permanecer fiéis ao Senhor em todas as circunstâncias? A vida cristã não é uma promessa de ausência de lutas. Jesus advertiu seus discípulos: “No mundo tereis aflições” (Jo 16.33). Entretanto, Ele também declarou: “tende bom ânimo; eu venci o mundo”. As tribulações, portanto, não significam necessariamente que estamos fora da vontade de Deus. Em muitos momentos, permanecer na vontade do Senhor exige perseverança em meio às adversidades (At 14.22; 2 Tm 3.12).
Lamentavelmente, muitos têm reduzido a vida cristã à busca de bem-estar, conforto e prosperidade material. Embora Deus possa conceder bênçãos materiais aos seus filhos, a finalidade da fé cristã não é garantir uma existência livre de dificuldades. Jesus ensinou seus discípulos a buscar primeiramente “o Reino de Deus, e a sua justiça” (Mt 6.33), e não a colocar os bens deste mundo no centro de sua esperança (Mt 6.19-21). O verdadeiro discípulo de Cristo está disposto a negar-se a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir o Senhor (Lc 9.23).
Paulo nos deixa um poderoso exemplo de fidelidade. Ele não permitiu que a perspectiva do sofrimento o impedisse de cumprir sua missão. Seu objetivo era concluir a carreira e permanecer fiel até o fim. Da mesma maneira, o obreiro deve manter uma consciência irrepreensível diante de Deus, cumprindo com responsabilidade o ministério que recebeu e confiando que a recompensa final vem do Senhor (2 Tm 4.7,8).
Ev WELIANO PIRES

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