(Comentário do 2⁰ tópico da lição 1: Deuteronômio, o Livro da Aliança)
Neste segundo tópico, veremos o cenário espiritual do povo que ouviu as últimas palavras de Moisés, depois de sua longa peregrinação pelo deserto (Dt 1.3-5; 8.2-5).
Em seguida, apresentaremos um panorama geográfico da jornada de Israel, destacando alguns dos principais lugares relacionados à sua peregrinação, desde a saída do Egito até as planícies de Moabe. Por fim, examinaremos o caráter exortativo dos discursos de Moisés, nos quais ele relembrou a história do povo, reafirmou os mandamentos do Senhor e o conclamou à obediência e à fidelidade à Aliança (Dt 4.1-2; 6.4-9).
Diante da entrada iminente em Canaã, Moisés desafiou aquela nova geração a tomar uma decisão firme: confiar no Senhor, obedecer à sua Palavra e avançar com fé para possuir a terra que Deus havia prometido aos patriarcas (Dt 1.8; 30.19,20).
1. Panorama espiritual.
Os israelitas que estavam diante de Moisés e ouviram os seus discursos registrados em Deuteronômio não eram, em sua maioria, os mesmos que haviam saído do Egito. A geração do Êxodo havia presenciado as dez pragas, a abertura do Mar Vermelho, a transformação das águas amargas em águas doces e muitos outros sinais e maravilhas realizados pelo Senhor durante a caminhada pelo deserto (Êx 7–12; 14.21,22; 15.22-25; Dt 8.2-5). Aquela geração também havia testemunhado a manifestação da glória de Deus no monte Sinai, onde o Senhor estabeleceu a sua Aliança com Israel e entregou a Moisés as tábuas do Testemunho (Êx 19.16-20; 24.12; 31.18).
Entretanto, apesar de terem presenciado tantas manifestações do poder de Deus, os israelitas se rebelaram repetidamente contra o Senhor e murmuraram durante a caminhada. O episódio de Cades-Barneia foi decisivo nesse processo. Depois de ouvirem o relatório dos espias, o povo recusou-se a confiar na promessa de Deus e desejou retornar ao Egito (Nm 13.25-33; 14.1-4). Como consequência, o Senhor determinou que aquela geração não entraria na Terra Prometida, com exceção de Josué e Calebe, que permaneceram fiéis (Nm 14.29,30).
Moisés ainda estava vivo naquela ocasião, mas também havia recebido do Senhor a informação de que não entraria na Terra Prometida, por causa de sua desobediência em Meribá (Nm 20.10-12; Dt 3.23-27). Diante disso, uma nova geração estava prestes a atravessar o Jordão e tomar posse da terra que Deus havia prometido a Abraão, Isaque e Jacó (Dt 1.8; 31.1-8).
Havia, portanto, uma necessidade urgente de Moisés recordar ao povo a história da saída do Egito, a caminhada pelo deserto e os mandamentos, as promessas e as advertências que o Senhor havia transmitido a Israel. Essa recordação possuía um propósito espiritual: levar aquela nova geração a confiar no Senhor, obedecer à sua Palavra e permanecer fiel à Aliança (Dt 4.9,10; 6.1-9). Essa verdade também nos ensina a responsabilidade de transmitir a Palavra de Deus às próximas gerações, para que conheçam o Senhor e permaneçam fiéis aos seus ensinamentos (Sl 78.5-7). A história de Israel demonstra o perigo de uma geração se levantar sem conhecer devidamente o Senhor e as suas obras (Jz 2.10).
2. Um panorama geográfico.
Em Deuteronômio 1.2-4, Moisés fez referência à jornada percorrida pelos israelitas desde o Horebe até as planícies de Moabe, mencionando lugares e acontecimentos importantes dessa caminhada. Essa trajetória pode ser acompanhada a partir dos relatos de Êxodo e Números, especialmente Êxodo 12–19 e Números 33, que apresenta uma relação dos principais lugares onde Israel acampou durante sua peregrinação pelo deserto.
Israel iniciou sua jornada partindo de Ramessés em direção a Sucote, com cerca de seiscentos mil homens a pé, além das mulheres e crianças (Êx 12.37). Deus não os conduziu pelo caminho da terra dos filisteus, embora fosse o mais curto, pois sabia que o povo poderia enfrentar uma guerra e, diante disso, desejar retornar ao Egito (Êx 13.17,18). Depois de Sucote, Israel acampou em Etã, à entrada do deserto (Êx 13.20).
Em seguida, Deus ordenou que o povo mudasse sua rota e acampasse diante de Pi-Hairote, entre Migdol e o mar, junto de Baal-Zefom (Êx 14.1-4). Ali, Israel foi perseguido pelo exército de Faraó. Contudo, Deus abriu o mar, permitindo que os israelitas passassem em segurança, enquanto os egípcios foram destruídos pelas águas (Êx 14.21-31). Esse acontecimento marcou decisivamente a libertação de Israel da escravidão egípcia.
Após atravessarem o mar, os israelitas seguiram pelo deserto de Sur e, depois de três dias de caminhada, chegaram a Mara, onde encontraram águas amargas. O povo murmurou, mas Deus tornou as águas próprias para o consumo (Êx 15.22-25). De Mara, partiram para Elim, onde havia doze fontes de água e setenta palmeiras (Êx 15.27).
De Elim, Israel seguiu para o deserto de Sim, onde novamente murmurou por causa da falta de alimento. Deus, então, proveu codornizes e maná para o povo (Êx 16.1-15). Depois, os israelitas acamparam em Refidim, onde não havia água para beber. Diante da murmuração do povo, Deus ordenou a Moisés que ferisse a rocha, e dela saiu água (Êx 17.1-7). Ainda em Refidim, os amalequitas pelejaram contra Israel, mas Deus concedeu vitória ao seu povo (Êx 17.8-16).
De Refidim, Israel chegou ao monte Sinai, também chamado Horebe. Ali, Deus estabeleceu a sua Aliança com o povo e entregou a Moisés os mandamentos e as demais instruções da Lei (Êx 19.1-6; 20.1-17). Entretanto, durante a permanência de Moisés no monte, o povo fez um bezerro de ouro e o adorou. Ao descer e contemplar a idolatria, Moisés quebrou as primeiras tábuas do Testemunho (Êx 32.15-19). Como consequência daquele pecado, cerca de três mil homens morreram (Êx 32.26-28). Posteriormente, Deus ordenou que Moisés lavrasse novas tábuas de pedra, nas quais o Senhor novamente escreveu as palavras da Aliança (Êx 34.1,28).
Depois de deixar o Sinai, Israel prosseguiu pelo deserto, passando por diversos lugares até chegar a Cades-Barneia. Dali, foram enviados os espias para reconhecer a Terra Prometida (Nm 13.1-3). O relatório negativo da maioria deles provocou a incredulidade do povo, que desejou retornar ao Egito. Por causa dessa rebeldia, Deus determinou que aquela geração não entraria na Terra Prometida, com as exceções de Josué e Calebe (Nm 14.26-35; Dt 1.34-40).
É importante observar que o longo período de peregrinação não foi causado pela distância geográfica entre o Sinai e Cades-Barneia. Moisés declarou que esse percurso poderia ser feito em aproximadamente onze dias pelo caminho do monte Seir (Dt 1.2). Israel permaneceu cerca de onze meses no Sinai, conforme se depreende de Êxodo 19.1 e Números 10.11, e os anos restantes decorreram da sentença divina após a rebeldia em Cades-Barneia. Finalmente, a nova geração chegou às planícies de Moabe, diante de Jericó, onde Moisés proferiu os discursos registrados em Deuteronômio (Dt 1.5; 34.1-4).
Esse panorama geográfico ajuda-nos a compreender que a peregrinação de Israel pelo deserto não foi simplesmente uma longa viagem, mas também um período de formação, provação, disciplina e preparação para a entrada na Terra Prometida. A jornada revelou tanto a fidelidade de Deus em sustentar o seu povo quanto as consequências da incredulidade e da desobediência (Dt 8.2-5).
3. O discurso exortativo de Moisés.
O livro de Deuteronômio contém três grandes discursos de Moisés, cujos pormenores estudaremos ao longo deste trimestre. O primeiro vai de Deuteronômio 1.1 a 4.43 e apresenta uma retrospectiva histórica da jornada de Israel, desde o Sinai até aquele momento, destacando acontecimentos que demonstravam tanto a fidelidade de Deus quanto a infidelidade do povo. O segundo, o mais extenso, vai de Deuteronômio 4.44 a 26.19. Nele, Moisés reafirma e explica os mandamentos e as ordenanças da Lei para a nova geração que estava prestes a entrar na Terra Prometida. O terceiro discurso compreende, de modo geral, os capítulos 27 a 30 e trata das bênçãos decorrentes da obediência, das advertências contra a desobediência e da renovação da Aliança.
Além desses discursos, os capítulos finais de Deuteronômio registram as últimas palavras de Moisés, suas instruções acerca da sucessão de Josué, seu cântico e sua bênção sobre as tribos de Israel. Deus já havia comunicado a Moisés que ele não entraria na Terra Prometida. Diante dessa determinação, Moisés orou ao Senhor, pedindo-lhe que lhe permitisse atravessar o Jordão e contemplar a terra. Contudo, Deus não permitiu que seu pedido fosse atendido e determinou que ele não voltasse a tratar desse assunto. Em seguida, ordenou-lhe que preparasse Josué para assumir a liderança do povo (Dt 3.23-28).
Moisés, então, iniciou os preparativos para a transição da liderança, exortando o povo e preparando sua despedida. Aquele servo do Senhor que havia liderado Israel desde a saída do Egito, enfrentado Faraó, conduzido o povo durante quarenta anos no deserto e suportado, muitas vezes, a oposição e as murmurações dos israelitas chegava ao final de sua jornada como líder de Israel.
Embora não lhe tenha sido permitido entrar na Terra Prometida, Moisés permaneceu fiel ao seu chamado. Ele preparou Josué para sucedê-lo, transmitiu ao povo as instruções recebidas do Senhor e encorajou tanto o seu sucessor quanto a nova geração a permanecerem firmes na fé e na obediência. Não encontramos em suas palavras finais ressentimento ou espírito de vingança, mas preocupação com a continuidade da obra de Deus. Que legado maravilhoso de liderança espiritual Moisés deixou para as futuras gerações! Essa atitude nos ensina que uma liderança verdadeiramente espiritual também se revela na maneira como o líder prepara seus sucessores e contribui para que a missão de Deus continue sendo cumprida pelas próximas gerações.
4. Desafiando a nova geração a ser decisiva.
Em seus discursos, Moisés não falava mais à geração que havia saído do Egito, mas à nova geração que estava prestes a entrar em Canaã. Muitos daqueles que estavam diante dele haviam nascido durante a peregrinação pelo deserto e não tinham participado pessoalmente de todos os acontecimentos do Êxodo. Ainda assim, carregavam a responsabilidade de aprender com a história de seus pais e permanecer fiéis ao Senhor.
A Bíblia de Estudo Pentecostal apresenta três verbos que ajudam a resumir o conteúdo dos discursos de Moisés e facilitam a sua compreensão: recordar, obedecer e vigiar. Moisés fez questão de recordar tudo o que Deus havia feito durante as jornadas de Israel, bem como os erros cometidos pelo povo. Em seguida, exortou a nova geração a obedecer ao Senhor e a não repetir os pecados de seus antepassados. Por fim, fez um chamado à vigilância, advertindo sobre as consequências da obediência e da desobediência, apresentadas no contexto da Aliança como bênção e maldição.
Assim como Israel, nós também estamos a caminho da nossa Pátria Celestial. Precisamos olhar para a história do povo de Deus e aprender com os erros cometidos no passado, evitando repeti-los. Devemos, igualmente, atentar para as orientações da Palavra de Deus e obedecê-las fielmente. Por fim, precisamos lembrar que tanto a obediência quanto a desobediência produzem consequências. Na Nova Aliança, porém, não devemos associar automaticamente a obediência à prosperidade material, nem a desobediência à pobreza, às doenças ou à infelicidade, como ensina a teologia da prosperidade. A fidelidade a Deus não nos isenta das aflições desta vida, assim como as dificuldades materiais não são, por si mesmas, evidência de desobediência. As Escrituras, entretanto, apresentam consequências espirituais e eternas relacionadas à nossa resposta à vontade de Deus. Por isso, a Igreja é chamada a permanecer fiel à Palavra, confiando no Senhor e perseverando até o fim.
Ev. WELIANO PIRES

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