(Comentário do 3º tópico da Lição: Despedida em Éfeso - entre lágrimas e alertas)
No terceiro tópico, trataremos da conclusão do discurso do apóstolo Paulo aos presbíteros da igreja de Éfeso, na qual ele revela, mais uma vez, o seu profundo cuidado pastoral para com aqueles obreiros. Paulo foi um excelente formador de obreiros. Timóteo, Tito, Onésimo, Epafrodito, Tíquico e Lucas, entre outros, foram companheiros de ministério que receberam dele orientação, ensino e cuidado (At 16.1-3; 2Co 8.16,23; Fm 10-12; Fp 2.25; 2Tm 4.10-12).
Na conclusão de suas orientações aos presbíteros de Éfeso, Paulo declarou: “Agora, pois, irmãos, encomendo-vos a Deus e à palavra da sua graça” (At 20.32). Ao entregar aqueles líderes aos cuidados de Deus e à sua Palavra, o apóstolo demonstra que a Igreja deve permanecer firmada no Senhor e na verdade das Escrituras.
Paulo também reafirmou a sua integridade diante daqueles obreiros. Ele declarou que não cobiçou a prata, o ouro ou as vestes de ninguém, mas que suas próprias mãos haviam trabalhado para suprir suas necessidades e também as daqueles que estavam com ele (At 20.33,34).
O encontro terminou de maneira profundamente emocionante: todos se ajoelharam, oraram, choraram e abraçaram Paulo, lamentando especialmente a notícia de que não mais veriam o seu rosto (At 20.36-38). Essa despedida evidencia o profundo respeito, amor e vínculo espiritual que havia entre o apóstolo e aqueles obreiros.
1. A Palavra de Deus como fundamento seguro do ministério (v.32). Paulo era um missionário experiente, chamado pelo próprio Senhor Jesus para o ministério apostólico (At 9.15; 26.16-18). Ele estava em sua terceira viagem missionária e acumulava muitas experiências na pregação e no ensino da Palavra de Deus, bem como na realização de sinais e maravilhas pelo poder do Espírito Santo (At 19.11,12; Rm 15.18,19).
Agora, Paulo estava partindo e deixando um grupo de obreiros que havia recebido dele ensino e formação. Ele poderia ter dito: “Confiem na experiência que adquiriram comigo e continuem fazendo aquilo que lhes ensinei”. Contudo, não foi essa a sua orientação. Paulo os encomendou “a Deus e à palavra da sua graça” (At 20.32). Essa postura do apóstolo nos ensina que a continuidade da Igreja não depende da presença de um grande líder, mas da fidelidade de Deus e da permanência de seu povo na verdade da sua Palavra (Mt 24.35; 1Pe 1.24,25).
Paulo deixou claro que ele não é o fundamento da continuidade da obra, mas apontou os obreiros para Deus e para a sua Palavra. O apóstolo sabia que sua partida não significaria o fim da obra, porque a Igreja pertence ao Senhor e é sustentada por sua graça e sua verdade. O líder cristão passa, mas a Palavra de Deus permanece para sempre (Is 40.8; 1Pe 1.24,25).
A liderança cristã precisa ter em mente que nenhum líder da Igreja está acima ou no mesmo nível das Escrituras. O ministro não é o senhor da Palavra, mas seu servo e fiel ensinador (2Tm 2.15; Tt 1.9). Nesse sentido, Martinho Lutero expressou uma convicção que se tornou célebre durante a Reforma: “A minha consciência está cativa à Palavra de Deus”. Embora o líder possa possuir experiência, conhecimento e autoridade ministerial, sua consciência e seu ministério devem estar submetidos à autoridade das Escrituras.
A Palavra de Deus é a autoridade que deve nortear a fé, a doutrina, a conduta e o exercício do ministério cristão, pois ela é “divinamente inspirada” e proveitosa “para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça” (2Tm 3.16,17). Por isso, um verdadeiro pastor não fundamenta seu ministério em opiniões pessoais, filosofias humanas ou interesses particulares, mas permanece firmado na Palavra de Deus e comprometido com a sã doutrina (At 20.27; 1Tm 4.16; 2Tm 4.1,2; Tt 1.9).
2. O exemplo de desprendimento e serviço cristão (vv.33-35). Em seu discurso de despedida, Paulo reafirmou também a sua integridade diante daqueles obreiros, à semelhança do profeta Samuel, que, ao deixar sua liderança sobre Israel, pôde declarar que não havia defraudado nem oprimido ninguém (1Sm 12.3-5). Paulo demonstrou, por meio de seu próprio exemplo, que havia exercido o ministério com honestidade e desprendimento. Declarou que não cobiçou a prata, o ouro ou as vestes de ninguém e que suas próprias mãos haviam trabalhado para suprir as suas necessidades e as daqueles que estavam com ele (At 20.33,34).
Por fim, o apóstolo fez menção a uma declaração do Senhor Jesus que não está registrada nos Evangelhos: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (At 20.35). Embora não saibamos como Paulo recebeu essa palavra de Jesus, ela está perfeitamente de acordo com os seus ensinamentos sobre generosidade, serviço e amor ao próximo (Lc 6.35,38; 2Co 9.6,7). O princípio apresentado pelo Senhor é que há uma bem-aventurança especial em repartir com os outros e servir às suas necessidades. A generosidade cristã não deve ser motivada pela busca de reconhecimento ou recompensa, mas pelo amor e pela graça de Deus, que também recompensará aqueles que servem com fidelidade (Mt 6.3,4; Hb 6.10).
O exemplo de Paulo estabelece um forte contraste entre o obreiro que serve e aquele que transforma o ministério em instrumento de benefício pessoal. O mercenário olha para o rebanho pensando no que pode obter dele; o verdadeiro servo de Cristo emprega seus dons, tempo e recursos em benefício do rebanho. Jesus advertiu acerca dos mercenários que não cuidam verdadeiramente das ovelhas (Jo 10.12,13), enquanto Pedro exortou os líderes da Igreja a pastorearem o rebanho de Deus “não por torpe ganância, mas de ânimo pronto”, sendo exemplos para o rebanho (1Pe 5.2,3).
Não por acaso, Paulo estabelece, entre os requisitos para aqueles que exercem liderança na Igreja, que não sejam avarentos nem amantes do dinheiro (1Tm 3.3; Tt 1.7). O problema não está nos recursos materiais em si, mas no amor ao dinheiro e na transformação do ministério em meio de enriquecimento pessoal (1Tm 6.5-10).
Diante disso, precisamos examinar nossas próprias motivações: Estamos servindo à Igreja porque amamos a Cristo e às pessoas ou porque apreciamos aquilo que o ministério nos proporciona? Essa pergunta não se aplica somente aos pastores e líderes, mas a todos os que servem na obra de Deus. Paulo nos ensina que o verdadeiro obreiro exerce o ministério com contentamento, honestidade e desprendimento, colocando seus dons e recursos a serviço do Reino de Deus, e não transformando as coisas espirituais em instrumento de ganho pessoal (1Tm 6.6-10).
3. Uma despedida marcada por amor, comunhão e lágrimas (vv.36-38). Esta emocionante despedida revela o profundo vínculo espiritual que havia entre Paulo e os líderes da Igreja de Éfeso (At 20.36-38). Após concluir suas orientações, Paulo ajoelhou-se e orou com aqueles irmãos. Depois da oração, todos choraram, abraçaram o apóstolo e o acompanharam até o navio. As lágrimas daquela despedida eram a expressão de um relacionamento construído ao longo de anos de convivência, ensino, serviço e amor cristão.
Aqui encontramos uma dimensão muito importante do ministério cristão. A verdade sem amor pode se transformar em dureza; para ensinar e defender a verdade não precisamos ser insensíveis ou grosseiros. Por outro lado, o amor sem verdade pode se transformar em permissividade. Amar não significa ser complacente com o erro, mas também não significa corrigir de maneira cruel. A Bíblia nos ensina a falar “a verdade em amor” (Ef 4.15) e a corrigir aqueles que erram com espírito de mansidão (Gl 6.1; 2Tm 2.24,25).
Paulo demonstrou esses dois aspectos em seu ministério. Ele combateu os falsos ensinos e advertiu os presbíteros contra os falsos mestres que poderiam surgir entre eles (At 20.28-31), mas fez isso movido por profundo amor pela Igreja. Durante seu ministério em Éfeso, serviu ao Senhor com humildade, lágrimas e perseverança, não deixando de anunciar e ensinar tudo aquilo que fosse útil para a edificação dos irmãos (At 20.19,20). Paulo não apenas ensinou a verdade, mas procurou vivê-la diante daqueles a quem ministrava.
O próprio Senhor Jesus nos deixou exemplos de como verdade e amor devem caminhar juntos. Depois da ressurreição, Jesus tratou Pedro com graça e o restaurou para o serviço, apesar de sua tríplice negação (Jo 21.15-17). Da mesma forma, Jesus não desprezou Tomé por causa de suas dúvidas, mas foi ao seu encontro, mostrou-lhe as evidências de sua ressurreição e o conduziu à fé (Jo 20.24-29). Em ambos os casos, vemos que a graça de Cristo não ignora as fragilidades humanas, mas atua para restaurar e conduzir à verdade.
O ministério do apóstolo Paulo nos ensina, portanto, que fidelidade à verdade e cuidado pastoral devem caminhar juntos. O líder cristão deve ser firme na defesa da fé, mas também deve amar aqueles que estão sob seus cuidados. Afinal, o rebanho pertence a Cristo, que o comprou com o seu próprio sangue (At 20.28). Que o exemplo de Paulo nos motive a exercer a liderança com verdade, graça, humildade e amor, lembrando sempre que aqueles a quem servimos são preciosos para o Senhor.
Ev. WELIANO PIRES
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