27 agosto 2026

A OPORTUNIDADE PARA TESTEMUNHAR


(Comentário do 2° tópico da Lição 9: Coragem para testemunhar: Paulo diante da multidão).

Neste segundo tópico, discorreremos sobre a defesa de Paulo, que encarou aquela circunstância como uma oportunidade para testemunhar de Cristo diante de seus acusadores (At 22.1-21). Mesmo preso e ameaçado, o apóstolo não perdeu a oportunidade de anunciar o Evangelho.

Após ser levado pelos soldados à Fortaleza Antônia, Paulo foi preso com duas cadeias e questionado pelo comandante sobre sua identidade e seus atos (At 21.33). Com respeito e domínio próprio, dirigiu-se ao comandante em língua grega e pediu permissão para falar ao povo (At 21.37-40). Em seguida, dirigiu-se aos judeus em hebraico, demonstrando respeito e identificação com seus compatriotas (At 22.1-2).


Em sua defesa, Paulo apresentou seu passado religioso, sua formação aos pés de Gamaliel e seu zelo na perseguição aos cristãos. Contudo, destacou sobretudo seu encontro com Jesus no caminho de Damasco e o chamado divino para anunciar o Evangelho aos gentios (At 22.3-21). 


A menção aos gentios provocou grande reação da multidão, mas Paulo permaneceu firme em seu testemunho. Mesmo diante da ameaça de açoites, utilizou legitimamente seus direitos como cidadão romano (At 22.22-29).


1. Paulo pede licença para falar ao povo (At 21.37-40). Depois de ser livrado da violência da multidão pela intervenção do comandante romano, Paulo foi conduzido pelos soldados à fortaleza, enquanto o povo continuava a clamar: “Mata-o!” (At 21.31-36). O comandante havia ordenado que Paulo fosse acorrentado com duas cadeias e procurava descobrir quem ele era e o que havia feito. Entretanto, devido à confusão e às informações contraditórias da multidão, não conseguiu identificar a causa do tumulto (At 21.33,34).


Quando Paulo estava sendo introduzido na fortaleza, pediu licença ao comandante para falar. Ele lhe dirigiu a palavra em grego, o que causou surpresa ao oficial romano, que perguntou: “Sabes o grego?” (At 21.37). O comandante chegou a pensar que Paulo fosse o egípcio que, anteriormente, havia promovido uma revolta e conduzido quatro mil sicários ao deserto (At 21.38). Paulo, porém, esclareceu sua identidade, dizendo ser judeu, natural de Tarso, importante cidade da Cilícia, e pediu autorização para falar ao povo (At 21.39).


Obtida a permissão, Paulo colocou-se em pé nas escadas e fez sinal com a mão para que a multidão se calasse. Então, quando se fez grande silêncio, começou a falar em língua hebraica (At 21.40). O apóstolo não desperdiçou aquela oportunidade. Mesmo estando preso e tendo acabado de sofrer a violência de uma multidão enfurecida, Paulo aproveitou a circunstância para dar testemunho de sua fé em Cristo. No capítulo seguinte, vemos que ele apresentou sua defesa e relatou sua experiência de conversão e seu chamado para anunciar o Evangelho (At 22.1-21).


Paulo nos ensina que as circunstâncias adversas não precisam impedir o cumprimento da missão que Deus nos confiou. Em vez de se entregar ao desânimo, ele enxergou naquela situação uma oportunidade para testemunhar acerca de Cristo. Sua atitude está em harmonia com a orientação de Pedro: “antes, santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração; e estai sempre preparados para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da esperança que há em vós” (1 Pe 3.15). Da mesma forma, Paulo escreveu aos filipenses que as suas prisões contribuíram para o progresso do Evangelho (Fp 1.12-14).


Nem sempre podemos escolher as circunstâncias pelas quais passaremos, mas podemos escolher como reagiremos a elas. Diante das adversidades, em vez de apenas reclamar, devemos buscar a direção do Senhor e perguntar: “O que posso fazer para glorificar o teu nome nesta situação?” Assim, aquilo que parecia ser apenas uma situação de sofrimento pode tornar-se uma oportunidade para testemunhar de Cristo e proclamar o Evangelho (Cl 4.5,6; 2 Tm 4.2).


2. O uso da língua hebraica para ganhar atenção (At 22.1,2). Após receber autorização do comandante romano para falar em sua defesa, Paulo fez sinal com a mão à multidão para que lhe desse atenção. Em seguida, dirigiu-se ao povo de maneira respeitosa, apesar de estar diante de uma multidão que, pouco antes, clamava por sua execução (At 21.36-40). Ele iniciou sua defesa dizendo: “Varões, irmãos e pais, ouvi agora a minha defesa perante vós” (At 22.1). Com essas palavras, Paulo demonstrou respeito e, ao mesmo tempo, estabeleceu uma relação de proximidade com seus ouvintes, identificando-se como membro do povo judeu.


Além de empregar uma linguagem respeitosa e de pertencimento, Paulo utilizou o idioma que melhor estabelecia conexão com aquela audiência. Embora conhecesse o grego e o tivesse utilizado anteriormente para falar com o comandante romano (At 21.37), naquele momento preferiu dirigir-se à multidão em sua língua própria. Atos 22.2 registra que, quando ouviram Paulo falar “em língua hebraica”, guardaram ainda maior silêncio. O texto grego utiliza a expressão tē Hebraïdi dialektō (“no dialeto hebraico”), uma designação que, no contexto do primeiro século, pode referir-se à língua semítica falada pelos judeus, provavelmente o aramaico. Algumas traduções modernas, como Nova Versão Transformadora (NVT), King James Atualizada (KJA) e Nova Versão Internacional (NVI), traduzem o termo por “aramaico”, enquanto versões tradicionais mantêm a expressão “língua hebraica”.


Essa escolha produziu um efeito imediato: a multidão ficou mais silenciosa e disposta a ouvir. Paulo demonstrou, assim, sensibilidade cultural e sabedoria na comunicação. Ele não alterou a mensagem que iria anunciar; apenas escolheu uma forma de comunicação que facilitasse sua compreensão e estabelecesse uma ponte com seus ouvintes. 


Essa atitude está de acordo com o princípio que o apóstolo ensinou em sua Primeira Epístola aos Coríntios: “Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para, por todos os meios, chegar a salvar alguns” (1Co 9.22). Nos versículos anteriores, Paulo afirma que se fazia “como judeu para os judeus” e “como sem lei, para os que estão sem lei”, deixando claro que essa adaptação dizia respeito à forma de aproximação, e não à renúncia à verdade do Evangelho (1Co 9.20-23).


O exemplo de Paulo nos ensina que a proclamação do Evangelho exige sensibilidade cultural. A mensagem de Cristo é imutável (Gl 1.8,9; 1Pe 1.24,25), mas a maneira de comunicá-la pode e deve levar em consideração o contexto dos ouvintes. Jesus também utilizou diferentes formas de comunicação, empregando parábolas, perguntas, ilustrações e exemplos conhecidos de seus ouvintes (Mt 13.34; Mc 4.33,34).


Comunicar o Evangelho de maneira compreensível não significa adaptar a verdade bíblica aos valores da cultura, mas remover, tanto quanto possível, as barreiras desnecessárias à sua compreensão. Paulo tornou-se acessível aos seus ouvintes sem comprometer sua fidelidade a Cristo. Da mesma forma, a Igreja deve anunciar Jesus de modo claro, respeitoso e contextualizado, utilizando uma linguagem que alcance as pessoas sem alterar o conteúdo da Palavra de Deus (Cl 4.5,6; 2Tm 4.2).


Concluímos, portanto, que não devemos mudar o Evangelho para alcançar as pessoas, mas devemos aprender a comunicar o Evangelho de modo que elas possam compreendê-lo. A sensibilidade cultural pode abrir portas para a proclamação da verdade, mas é a verdade do Evangelho, acompanhada pela ação do Espírito Santo, que transforma vidas (Rm 1.16; 1Co 2.4,5).


3. Coragem para testemunhar em meio à hostilidade (At 22.3-5). Depois de mencionar seu passado como judeu zeloso pela Lei e pelas tradições de seus pais — algo que certamente lhe conferia familiaridade e credibilidade diante daquela plateia —, Paulo passou a relatar seu encontro com Cristo no caminho de Damasco e a missão que havia recebido do Senhor: levar o Evangelho aos gentios (At 22.6-21). Falar sobre isso exigia coragem, pois ele sabia que sua mensagem poderia provocar forte rejeição entre aqueles que o ouviam. Mesmo assim, não ocultou sua transformação nem deixou de testemunhar acerca do chamado que havia recebido de Cristo. Sua atitude demonstra que o verdadeiro testemunho cristão está fundamentado não apenas no conhecimento das Escrituras, mas também na experiência de transformação operada pelo Senhor (At 26.16-18; 1Tm 1.12-16).

A reação da multidão foi imediata quando Paulo mencionou que havia recebido do Senhor a ordem de pregar aos gentios. Eles gritaram: “Tira da terra um tal homem, porque não convém que viva!” (At 22.22). Em seguida, clamavam, arrojavam de si as vestes e lançavam pó para o ar (At 22.23). Diante daquela reação, o comandante Cláudio Lísias ordenou que Paulo fosse levado para a fortaleza e açoitado, a fim de descobrir a razão daquela manifestação contra ele (At 22.24).

Enquanto os soldados o preparavam para o açoitamento, Paulo reivindicou seus direitos como cidadão romano, perguntando: “É-vos lícito açoitar um romano, sem ser condenado?” (At 22.25). Diante disso, os que o interrogavam recuaram, e o centurião advertiu o comandante: “Vê o que vais fazer, porque este homem é romano” (At 22.26). Paulo, portanto, não buscou o sofrimento por si mesmo, mas também não permitiu que a ameaça e a hostilidade o impedissem de cumprir sua missão. Ele utilizou legitimamente os recursos que possuía para preservar sua vida e continuar testemunhando de Cristo (At 25.10,11).

A coragem cristã não significa ausência de oposição, mas fidelidade a Cristo apesar dela. O cristão não deve permitir que a vergonha, a rejeição, as críticas ou a pressão social o impeçam de testemunhar do Evangelho (Rm 1.16; 2Tm 1.7,8). Desde o início da Igreja, os discípulos foram orientados a anunciar a Palavra com ousadia, mesmo diante de ameaças e perseguições (At 4.18-20,29-31). Se esperarmos que o mundo concorde com a nossa mensagem ou nos permita anunciá-la sem oposição, correremos o risco de silenciar a verdade. O Evangelho, por sua própria natureza, confronta o pecado e chama o ser humano ao arrependimento e à fé em Cristo (Mc 1.14,15; At 17.30).

Por isso, a Igreja deve proclamar as Boas-Novas com amor, sabedoria e firmeza, sem adulterar a mensagem para torná-la mais aceitável ao mundo (2Co 4.2; Gl 1.10). Nossa responsabilidade é anunciar fielmente aquilo que recebemos do Senhor, confiando a Ele os resultados. Nem todos aceitarão a mensagem, mas isso não deve nos fazer recuar. Como Paulo, somos chamados a testemunhar de Cristo com coragem, sabendo que o poder transformador do Evangelho não depende da aprovação dos seus ouvintes, mas da ação soberana de Deus (1Co 3.6,7; 2Tm 4.2).

Ev. WELIANO PIRES


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