(Comentário do 2⁰ tópico da Lição 1: O chamado de Abrão e sua jornada de fé)
No segundo tópico, estudaremos a obediência de Abrão ao chamado divino. O texto de Hebreus 11.8 declara: “Pela fé, Abraão, sendo chamado, obedeceu, indo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia.”
Veremos como Abrão atendeu ao chamado de Deus, mesmo sem possuir pleno entendimento acerca do que lhe estava reservado. Sem saber como seria a sua vida no destino indicado, ele creu nas promessas divinas e, pela fé, decidiu obedecer, ainda que de forma parcial.
Na sequência, destacaremos uma falha no cumprimento desse chamado: Abrão permitiu que seu sobrinho Ló o acompanhasse. Entretanto, a ordem divina era que ele deixasse sua parentela, seguindo apenas com a sua casa, o que evidencia uma obediência incompleta.
Por fim, analisaremos a permanência de Abrão em Harã, onde seu pai veio a falecer. Embora tenha saído de Ur dos Caldeus, Abrão não seguiu imediatamente para Canaã, conforme a direção divina, mas estabeleceu-se temporariamente em Harã. A Bíblia não especifica quanto tempo ele permaneceu ali, mas esse intervalo também faz parte do processo de sua jornada de fé.
1. Atendendo o chamado.
Conforme estudado no tópico anterior, o chamado de Abrão exigia dele uma fé extraordinária. Deus lhe ordenou que deixasse sua terra, sua parentela e a casa de seu pai, conduzindo-o a uma terra que ainda lhe seria mostrada. Tratava-se, do ponto de vista humano, de uma jornada incerta, que demandava total dependência da direção divina.
É importante destacar que Abrão não possuía o conhecimento das Escrituras como temos hoje. O livro de Gênesis, que registra sua história, foi escrito por Moisés séculos depois. Além disso, seu contexto familiar não favorecia o conhecimento do Deus verdadeiro, pois, conforme Josué 24.2, seu pai servia a outros deuses. Ainda assim, Deus se revelou a ele de forma pessoal.
Outro aspecto que evidencia a dimensão de sua fé são as promessas recebidas. Deus declarou que Abrão seria pai de uma grande nação. No entanto, do ponto de vista natural, isso parecia impossível, pois ele tinha setenta e cinco anos, e sua esposa, além de avançada em idade, era estéril. As promessas divinas, portanto, confrontavam a lógica humana.
Apesar de todas essas circunstâncias, Abrão creu em Deus e obedeceu ao seu chamado. Inicialmente, saiu de Ur dos Caldeus com seu pai e, após a morte deste em Harã, prosseguiu em direção a Canaã. Sem recursos de orientação humana, como mapas ou qualquer tipo de referência, ele seguiu confiando unicamente na direção do Senhor.
Aprendemos com Abrão que a fé não se baseia em garantias humanas ou na compreensão plena das circunstâncias, mas na confiança absoluta de que Deus é soberano e fiel para cumprir tudo o que prometeu, independentemente das situações enfrentadas.
2. Um descuido.
Ao estudarmos as narrativas bíblicas, é comum imaginarmos que os heróis da fé eram pessoas perfeitas. No entanto, a própria Escritura Sagrada revela que eles eram humanos, sujeitos a falhas e limitações, assim como nós. A Bíblia não oculta os erros de seus personagens. Embora Abrão seja reconhecido como o pai da fé e amigo de Deus, ele também cometeu equívocos em sua caminhada.
Deus não procura pessoas perfeitas para cumprir os seus propósitos, até porque não existem seres humanos isentos de imperfeições. Pelo contrário, ao longo da história bíblica, o Senhor chamou pessoas improváveis e trabalhou no aperfeiçoamento de seu caráter. Exemplos disso são Abrão, Jacó, Moisés, Sansão, Salomão, Pedro e Saulo. Assim também acontece conosco: somos alcançados pela graça divina e moldados segundo a vontade de Deus.
Alguns estudiosos afirmam que Jó pode ter sido contemporâneo de Abrão. Segundo o testemunho do próprio Deus, Jó era um homem íntegro, reto, temente a Deus e que se desviava do mal. Humanamente falando, talvez muitos escolheriam Jó para ser o pai da fé. Entretanto, Deus, em sua soberania, escolheu Abrão e, ao longo de sua trajetória, formou nele um caráter aprovado.
No início de sua jornada, Abrão cometeu um descuido ao não obedecer plenamente à ordem divina. Deus lhe ordenara que saísse de sua terra e de sua parentela. Embora tenha deixado sua terra, permitiu que Ló, seu sobrinho, o acompanhasse. Ló era filho de Harã, irmão de Abrão, já falecido, o que possivelmente despertava em Abrão um senso de responsabilidade familiar.
Do ponto de vista humano, é compreensível tal atitude. Não é fácil romper vínculos afetivos, especialmente em circunstâncias delicadas. Contudo, a obediência a Deus requer, muitas vezes, renúncia total e confiança irrestrita em sua direção.
Esse descuido trouxe consequências no futuro, como será observado no decorrer do estudo. Aprendemos, portanto, que as ordens de Deus devem ser obedecidas integralmente. O Senhor sabe o que faz e tem o controle de todas as coisas. Quando Ele nos orienta a deixar algo — mesmo aquilo que nos é querido —, a melhor decisão é obedecer, pois sua vontade é sempre perfeita e visa o nosso bem.
3. A passagem por Harã.
O texto de Gênesis 11.31 nos informa: “E tomou Terá a Abrão, seu filho, e a Ló, filho de Harã, filho de seu filho, e a Sarai, sua nora, mulher de seu filho Abrão; e saiu com eles de Ur dos caldeus, para ir à terra de Canaã; e vieram até Harã e habitaram ali”.
Alguns intérpretes sugerem que o chamado inicial teria sido dirigido a Terá, pai de Abrão, e que, por não ter obedecido plenamente — permanecendo em Harã —, Deus teria posteriormente chamado Abrão. Contudo, essa tese não encontra respaldo nas Escrituras. Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, há clareza de que o chamado foi feito diretamente a Abrão, ainda em Ur dos caldeus (Gn 15.7; Ne 9.7; At 7.2).
Não se pode afirmar com precisão se Abrão, ao receber o chamado divino, comunicou-o a seu pai, e se este, então, assumiu a liderança da saída de Ur. O fato é que, ao chegarem a Harã, Terá e sua comitiva ali se estabeleceram, permanecendo até a sua morte. Somente após esse período é que Deus falou novamente a Abrão, reafirmando o chamado e ordenando-lhe que deixasse sua terra e sua parentela, dirigindo-se ao lugar que Ele lhe mostraria (Gn 12.1-3).
O comentarista destaca que Deus desejava forjar o caráter de Abrão antes de sua chegada ao destino prometido. Contudo, é importante observar que não foi Deus quem ordenou a permanência em Harã; tal decisão partiu de Terá. Nesse sentido, Harã pode simbolizar um lugar de parada indevida na caminhada da fé — uma condição de acomodação temporária que, se não houver vigilância, pode tornar-se permanente.
Ev. WELIANO PIRES
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