(Comentário do 1⁰ tópico da Lição 5: O Juízo de Deus contra Sodoma e Gomorra)
Neste primeiro tópico, trataremos da visita de três seres celestiais que Abraão recebeu em sua tenda. Embora o título mencione “os anjos visitam Abraão”, o texto bíblico revela que o próprio Deus lhe apareceu, acompanhado de dois anjos.
Abordaremos também a hospitalidade de Abraão, evidenciada ao preparar uma refeição especial e oferecer o melhor de sua tenda àqueles visitantes ilustres, sem saber, inicialmente, que se tratava de seres angelicais, visto que se manifestaram em forma humana.
Por fim, destacaremos o riso de Sara ao ouvir, de dentro da tenda, o anúncio de que seria mãe, tendo ela oitenta e nove anos e seu esposo, noventa e nove. Sara não riu por deboche, mas também por espanto, diante da condição física de ambos, que, humanamente falando, os impossibilitava de gerar filhos.
1. Abraão recebe a visita dos anjos do Senhor. O texto de Gênesis 18.1,2 descreve assim essa visita: “Depois apareceu-lhe o SENHOR nos carvalhais de Manre, estando ele assentado à porta da tenda, no calor do dia. E levantou os seus olhos, e olhou, e eis três homens em pé junto a ele. E, vendo-os, correu da porta da tenda ao seu encontro e inclinou-se à terra.”
Abraão estava assentado à porta de sua tenda, no momento mais quente do dia, por volta do meio-dia, possivelmente aguardando a refeição. Não era comum receber visitas nesse horário, pois, devido ao calor intenso e ao fato de os trabalhos serem, em sua maioria, braçais, as pessoas aproveitavam esse período para alimentar-se e descansar. Isso demonstra, conforme destaca o comentarista, que se tratava de um momento improvável para visitas; entretanto, Deus não está sujeito ao tempo humano nem às circunstâncias.
Ao avistar três homens vindo em sua direção, Abraão, ao que tudo indica, não sabia de quem se tratava. Todavia, era costume naquele contexto acolher viajantes desconhecidos com hospitalidade, pois poderiam ser emissários de autoridades ou portadores de alguma mensagem importante. Correr ao encontro do visitante, prostrar-se em terra e oferecer-lhe abrigo eram práticas comuns no Antigo Oriente.
Assim como em outras ocasiões no Antigo Testamento, essa manifestação de Deus a seres humanos é denominada Teofania. Trata-se de um termo teológico derivado de duas palavras gregas: Theós (Deus) e phaneia (manifestação, aparecimento). Refere-se à manifestação visível de Deus aos homens, seja em forma humana, por meio de anjos ou através de fenômenos naturais, como fogo, relâmpagos ou redemoinhos. Em alguns casos, utiliza-se a expressão “o Anjo do SENHOR”, com iniciais maiúsculas, quando o contexto indica tratar-se do próprio Deus.
2. A hospitalidade de Abraão. Sem saber quem eram os visitantes, Abraão colocou em prática a hospitalidade, oferecendo-lhes uma recepção de excelência. Imediatamente, pediu que se abrigassem do sol à sombra de uma árvore; ordenou que trouxessem água para lavar-lhes os pés; providenciou pão para que se alimentassem e solicitou que Sara preparasse bolos.
Enquanto Sara os preparava, Abraão correu ao rebanho, escolheu um novilho tenro e bom e ordenou que fosse preparado para os visitantes. Trouxe também manteiga — em algumas versões, coalhada ou queijo fresco — e leite, servindo-lhes enquanto a refeição era preparada. Durante todo o tempo, Abraão permaneceu à disposição dos visitantes, servindo-os com diligência.
A hospitalidade é uma prática recomendada aos cristãos no Novo Testamento, especialmente aos obreiros (Rm 12.13; 1Tm 3.2). O escritor aos Hebreus exorta: “Não vos esqueçais da hospitalidade, porque, por ela, alguns, não o sabendo, hospedaram anjos” (Hb 13.2). Muito provavelmente, essa recomendação remete ao episódio envolvendo Abraão, que, sem o saber, recebeu mensageiros celestiais em sua tenda.
Entretanto, faz-se necessário apresentar algumas ponderações quanto ao exercício da hospitalidade. A exortação bíblica surge em um contexto histórico no qual não havia a estrutura de hospedagem como nos dias atuais. Além disso, a Palavra de Deus não orienta a acolher indiscriminadamente qualquer pessoa. O apóstolo João adverte que não se deve receber em casa aqueles que não permanecem na doutrina de Cristo (2Jo 10,11). Da mesma forma, o apóstolo Paulo instrui a evitar os que promovem divisões e escândalos contra a sã doutrina (Rm 16.17), bem como os que vivem de forma desordenada, recusando-se a trabalhar (2Ts 3.6).
Em síntese, a hospitalidade cristã deve ser exercida com discernimento. Não se deve acolher, seja no lar ou na igreja, pessoas que ameacem a unidade do Corpo de Cristo, comprometam a ortodoxia doutrinária ou coloquem em risco a segurança da família. Vivemos em um tempo em que muitos se apresentam de forma enganosa; por isso, é indispensável aliar amor cristão e prudência.
3. O riso de Sara. Conforme o costume da sociedade patriarcal, enquanto os homens permaneciam em conversação, as mulheres ficavam no interior da tenda. Desse modo, quando os três seres celestiais chegaram para falar com Abraão, Sara permaneceu recolhida.
Todavia, era possível ouvir o diálogo, e Sara escutou quando o Senhor anunciou a Abraão que, dentro de um ano, ela daria à luz um filho. Ao ouvir tal promessa, considerando sua avançada idade — cerca de oitenta e nove anos, e seu esposo com noventa e nove — Sara riu consigo mesma, dizendo: “Terei ainda deleite depois de haver envelhecido, sendo também o meu senhor já velho?” (Gn 18.12).
O Senhor, que conhece todas as coisas, perguntou a Abraão por que Sara havia rido, enfatizando que não há nada impossível para Ele. Temendo, Sara tentou negar o ocorrido; contudo, o Senhor confirmou que ela realmente havia rido. É importante observar que o riso de Sara, assim como o de Abraão anteriormente, não foi necessariamente de deboche ou incredulidade, mas de espanto diante de algo extraordinário.
Essa passagem nos ensina que não devemos tentar aparentar uma fé inabalável diante das circunstâncias. Em situações semelhantes, qualquer pessoa poderia reagir de modo parecido, especialmente considerando que Sara não possuía a revelação plena das Escrituras como temos hoje. Ainda assim, mesmo em meio às nossas limitações e incertezas, Deus permanece fiel às suas promessas e opera em nosso interior, fortalecendo a nossa fé.
Ev. WELIANO PIRES
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