(Comentário do 1⁰ tópico da Lição 4: A confirmação de uma promessa)
Neste primeiro tópico, estudaremos a mudança dos nomes de Abrão e Sarai realizada por Deus. No contexto cultural em que viviam, os nomes não eram meros substantivos próprios para identificação pessoal, como ocorre atualmente.
Naquele tempo, o nome era atribuído conforme as circunstâncias do nascimento, alguma característica marcante da criança ou, ainda, em razão de um propósito divino. Assim, Abrão passou a chamar-se Abraão, e Sarai, Sara. Examinaremos, portanto, os significados desses nomes à luz da revelação bíblica.
Por fim, veremos que o pai da fé riu diante da promessa divina de que teria um filho, mesmo contando noventa e nove anos de idade, enquanto sua esposa tinha oitenta e nove. Do mesmo modo, Sara também riu ao ouvir tal anúncio. Todavia, esse riso não expressa zombaria ou incredulidade deliberada, mas, antes, espanto diante da grandiosidade da promessa de Deus.
1. O novo nome de Abrão. Desde a chamada de Abrão, Deus lhe prometera fazer dele uma grande nação e dar aos seus descendentes toda a terra que se estende desde o Iraque até o Egito. Entretanto, Abrão já contava setenta e cinco anos de idade, e sua esposa, sessenta e cinco, e não tinham filhos.
Conforme vimos na lição anterior, passaram-se dez anos, e eles ainda não compreendiam como Abrão poderia tornar-se pai de uma grande nação sem possuir descendência. Deus ainda não lhes havia revelado plenamente o cumprimento dessa promessa. Diante disso, Sarai tomou a iniciativa de gerar um filho por meio de sua serva, prática permitida naquela cultura.
Treze anos após o nascimento de Ismael, é provável que ambos acreditassem ser ele o cumprimento da promessa, como se observa na declaração de Abraão: “Quem dera que viva Ismael diante de teu rosto!” (Gn 17.18). Contudo, Deus afirmou de maneira clara que o filho da promessa nasceria de sua esposa.
Antes de mudar o nome de Abrão, Deus se revelou como o Deus Todo-Poderoso (heb. El Shaddai), estabeleceu com ele uma aliança (Gn 17.1–4) e reafirmou a promessa de que ele seria pai de muitas nações. O nome Abrão significa “pai exaltado”. A Bíblia não informa a razão pela qual recebeu esse nome. Entretanto, Deus o mudou para Abraão, que significa “pai de multidões”.
Essa mudança de nome não representa apenas uma alteração formal, como ocorre em nossos dias por motivos pessoais ou sociais. Na cultura bíblica, o nome estava diretamente ligado ao caráter e ao propósito da pessoa. Assim, Deus o modificou para adequá-lo ao seu plano.
O título “pai exaltado” não correspondia ao propósito divino, pois a exaltação pertence exclusivamente a Deus. O plano do Senhor era que Abrão se tornasse não apenas pai de uma nação, mas pai de muitas nações. Essa promessa aponta não somente para a nação de Israel, mas também para todos os que creem em Cristo, descendente de Abraão segundo a carne.
2. O novo nome de Sarai. Deus muda o nome de Sarai. Assim como fez com Abrão, Deus também mudou o nome de sua esposa, de Sarai para Sarah, que, aportuguesado, tornou-se Sara. Quanto ao significado do nome Sarai (“minha princesa”), não há dúvidas, pois há consenso entre os estudiosos. Entretanto, o comentarista afirma que o nome Sara significa “mãe de nações”. Não se sabe qual fonte foi utilizada para tal afirmação, pois, nas pesquisas realizadas, não se encontrou base que a confirme. As fontes consultadas indicam que o nome Sarah significa “princesa”.
Segundo o Talmude, tradição oral judaica, a esposa de Abrão era originalmente chamada de “Sarai”, que significa “minha princesa”, porque era a princesa de sua casa e de sua tribo; mais tarde, passou a ser chamada de “Sarah”, que significa “princesa”, por ser assim reconhecida de forma mais abrangente. Na mesma linha, o comentário do teólogo inglês Matthew Poole declara: “Sarai significa minha senhora ou minha princesa, o que limita seu domínio a uma família; mas Sarah significa tanto uma senhora quanto uma princesa, de forma simples e absoluta, sem restrições, ou a princesa de uma multidão”.
Entretanto, não é incorreto afirmar que Sara é mãe de nações, pois o próprio Deus prometeu que ela seria “mãe de nações; e reis de povos procederão dela” (Gn 17.15,16). Ela fazia parte da mesma aliança estabelecida por Deus com Abraão e, assim como ele seria pai de muitas nações, ela também seria mãe, visto que Isaque era seu descendente.
Para cumprir o seu chamado, Deus promove mudanças na vida e no caráter das pessoas que escolhe. É inimaginável que alguém tenha um encontro com Deus, seja chamado para cumprir seus desígnios e permaneça da mesma forma. Deus transformou Abrão em Abraão, Sarai em Sara, Jacó em Israel; transformou Moisés, Pedro, Saulo e muitos outros. A base da vida cristã é a transformação. Deus não nos chama para continuarmos da mesma forma, mas realiza o novo nascimento.
3. O pai da fé riu diante da promessa. Após ouvir a confirmação da promessa divina de que ele e sua esposa seriam pais de um filho, o texto de Gênesis 17.17 afirma que Abraão riu: “Então caiu Abraão sobre o seu rosto, e riu-se, e disse no seu coração: A um homem de cem anos há de nascer um filho? E dará à luz Sara da idade de noventa anos?”.
No capítulo seguinte, enquanto Deus falava com Abraão, já com o nome mudado, reafirmou a promessa de que Sara teria um filho e estabeleceu o tempo do cumprimento. Sara, que estava à porta da tenda, ouvindo a conversa, também riu consigo mesma: “Assim, pois, riu-se Sara consigo, dizendo: Terei ainda deleite depois de haver envelhecido, sendo também o meu senhor já velho?” (Gn 18.12). O Senhor, então, questionou por que Sara havia rido, e ela, tomada de medo, negou.
O comentarista associa o riso de Abraão à fragilidade humana diante do longo tempo de espera, como se ele estivesse, por um momento, considerando a impossibilidade da promessa. Entretanto, esse riso não expressa deboche ou incredulidade deliberada, mas antes espanto diante do agir sobrenatural de Deus. Humanamente falando, qualquer pessoa em seu lugar se surpreenderia com a promessa de que uma mulher de idade avançada, já fora do período fértil, conceberia. O próprio Abraão também já trazia em seu corpo os sinais da limitação natural para gerar filhos.
No Novo Testamento, o apóstolo Paulo esclarece que Abraão não enfraqueceu na fé, mas creu contra a esperança: “O qual, em esperança, creu contra a esperança, para que se tornasse pai de muitas nações, conforme o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E, sem enfraquecer na fé, não atentou para o seu próprio corpo já amortecido, pois era já de quase cem anos, nem tampouco para o amortecimento do ventre de Sara” (Rm 4.18,19).
Assim, o riso de Abraão deve ser compreendido não como expressão de incredulidade, mas como reação humana diante de uma promessa extraordinária, acompanhada de fé no poder de Deus para cumpri-la.
Ev. WELIANO PIRES
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