18 abril 2026

AS CONSEQUÊNCIAS DE AGIR POR CONTA PRÓPRIA

(Comentário do 2º tópico da Lição 3: A impaciência na espera do cumprimento da promessa).

Neste tópico, estudaremos as consequências da atitude de Sarai e Abrão, que agiram por conta própria, sem consultar a Deus, ao tentarem “ajudá-lo” no cumprimento da promessa de lhes conceder um filho. Veremos como essa decisão precipitada trouxe sérios desdobramentos. Para isso, abordaremos três aspectos principais:

1. O conflito familiar. Devemos ter cautela ao analisar as atitudes de Abrão e Sarai, evitando julgamentos precipitados quanto à sua conduta. A leitura do texto bíblico requer consideração do seu contexto histórico e cultural, e não apenas das perspectivas contemporâneas. Não se sabe ao certo a idade de Abrão e Sarai quando Deus lhe apareceu em Ur dos Caldeus; contudo, a Escritura registra que Abrão tinha 75 anos e Sarai, 65, quando saíram de Harã. Entre a saída de Harã e a gravidez de Agar, transcorreram aproximadamente dez anos.

Abrão recebeu de Deus a promessa de que seria pai de uma grande multidão, mesmo não tendo filhos aos 75 anos. Entretanto, não lhe foi revelado, naquele momento, de que maneira essa promessa se cumpriria. À luz do contexto atual, poder-se-ia concluir que o filho viria por meio de Sarai; todavia, na cultura da época, também era comum que filhos fossem gerados por meio de concubinas ou servas. Um exemplo disso é Jacó, que teve filhos não apenas com suas esposas, Lia e Raquel, mas também com as servas destas, Zilpa e Bila.

Convém destacar que tal prática nunca correspondeu ao ideal divino para a família, visto que Deus instituiu o casamento entre um homem e uma mulher, em uma união monogâmica e duradoura. Contudo, nos dias de Abrão e Sarai, a poligamia era socialmente aceita, e a Lei Mosaica ainda não havia sido estabelecida. Nesse contexto, compreende-se que tais práticas faziam parte da cultura vigente.

Apesar disso, os relacionamentos poligâmicos sempre trouxeram conflitos e tensões no ambiente familiar. Ao engravidar de Abrão, Agar mudou sua atitude em relação à sua senhora, passando a agir com desprezo e altivez. Tal comportamento contribuiu para o agravamento dos conflitos domésticos e, posteriormente, foi refletido também na postura de Ismael após o nascimento de Isaque. Isto nos mostra que relacionamentos que não seguem os padrões divinos, sempre acabam em conflitos. 

2. A fuga de Agar. Agar foi, inicialmente, vítima do plano elaborado por Sarai e Abrão, pois não se tratou de uma proposta, mas de uma imposição do casal, considerando a sua condição de serva. No contexto da sociedade patriarcal da época, ter um filho do seu senhor poderia ser visto como uma honra para a escrava, pois sua posição social passaria a ser diferenciada. Dessa forma, Agar foi elevada à condição de concubina de Abrão, deixando de ser uma serva comum.

É provável que, em virtude da gravidez, Abrão tenha dispensado a Agar cuidados especiais, o que pode ter despertado ciúmes em Sarai. Agar, por sua vez, ao engravidar de seu senhor, revelou uma mudança de atitude, passando a desprezar a sua senhora, conforme visto no tópico anterior. Esse comportamento hostil levou Sarai a queixar-se de seu esposo em tom acusatório: “Meu agravo seja sobre ti. Minha serva pus eu em teu regaço; vendo ela, agora, que concebeu, sou menosprezada aos seus olhos. O SENHOR julgue entre mim e ti” (Gn 16.5).

Na Nova Versão Transformadora (NVT), a acusação torna-se ainda mais clara: “Você é o culpado da vergonha que estou passando! Entreguei minha serva a você, mas, agora que engravidou, ela me trata com desprezo. O Senhor mostrará quem está errado: você ou eu!” (Gn 16.5). Sarai, contudo, esqueceu-se de que o plano partira dela mesma, tendo Abrão apenas atendido à sua solicitação.

Diante da acusação de Sarai, Abrão esquivou-se da responsabilidade e respondeu: “Eis que tua serva está na tua mão; faze-lhe o que bom é aos teus olhos” (Gn 16.6). Ao agir assim, Abrão demonstrou omissão na liderança familiar, pois lhe cabia intervir e resolver a situação. Com essa autorização, Sarai passou a afligir Agar, levando-a a fugir para o deserto.

A palavra hebraica traduzida por “afligiu”, na versão Almeida Revista e Corrigida, é ‘ānâh’, que significa afligir, oprimir ou humilhar. Embora não saibamos exatamente que tipo de tratamento Sarai impôs a Agar, o fato de ela fugir grávida para o deserto indica que a opressão foi severa. Conforme destaca o comentarista, ambas erraram: Agar, ao desprezar sua senhora; e Sarai, ao agir com vingança e dureza.

3. Deus entra em ação. Em sua fuga, Agar seguiu pelo caminho de Sur, que ficava próximo à fronteira com o Egito, e parou junto a uma fonte. Essa rota indica que pretendia voltar às suas origens egípcias. Sendo uma escrava fugitiva, Agar corria grande perigo, pois, se fosse capturada, poderia ser severamente punida e até morta.

O texto bíblico declara que o Anjo do SENHOR a encontrou e, chamando-a pelo nome, disse: “Agar, serva de Sarai, de onde vens e para onde vais?”. A expressão “Anjo do SENHOR” é entendida como uma referência ao próprio Deus em uma manifestação visível, conhecida como teofania, por meio da qual Ele falava com algumas pessoas.

Deus sabia perfeitamente quem era Agar, de onde vinha e para onde ia. Ele apareceu ali para socorrê-la, pois conhecia sua aflição. Embora ela tenha errado ao fugir, também havia sido injustiçada e corria perigo no deserto. O Senhor a orientou a retornar à sua senhora e a humilhar-se perante ela. Agar obedeceu, reconciliou-se com Sarai e permaneceu com ela por mais de quinze anos, até o nascimento de Isaque.

Posteriormente, Ismael repetiu o comportamento inadequado e zombou de Isaque. Sara, então, decidiu expulsar Agar e seu filho. Abraão ficou contrariado e não quis atender ao pedido de Sara, mas Deus ordenou que ele o fizesse. Após a saída dos dois, ocorreu o episódio em que Ismael, já adolescente, sofreu com a sede no deserto, e o Anjo do SENHOR novamente socorreu Agar. É importante não confundir essas duas ocasiões.

Em ambos os casos, vemos que Deus interveio em favor de Agar, mesmo ela tendo errado ao fugir e não sendo participante direta da promessa feita a Abraão. Ainda assim, o Senhor também lhe fez promessas acerca de Ismael. Isso nos mostra que Deus socorre os necessitados e injustiçados, apesar das falhas humanas, pois Ele é bom e misericordioso.

Ev. WELIANO PIRES 

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