16 fevereiro 2026

O DEUS ESPÍRITO SANTO


SUBSÍDIOS DA REVISTA ENSINADOR CRISTÃO / CPAD

Nesta oportunidade, estudaremos sobre a Pessoa do Espírito Santo, que, juntamente com o Pai e o Filho, é plenamente divino e atua para consolar, ensinar e santificar a igreja. A Palavra de Deus nos revela o Espírito Santo como a Terceira Pessoa da Trindade que foi enviada a este mundo para avançar a obra de Cristo. Uma vez que o Filho Unigênito de Deus, que consolava e ensinava Seus discípulos, foi assunto ao Céu, o Pai enviou “outro” Consolador para que estivesse com eles até o fim (Jo 14.16). Este mesmo Espírito da verdade que o mundo não pode receber seria responsável por conduzir os discípulos a cumprir a missão de tornar mundialmente conhecida a mensagem do Evangelho (Mc 16.15). Os três aspectos de Sua atuação (consolo, ensino e santificação) não estariam restritos aos primeiros anos da igreja, mas se estendem às próximas gerações e continuam presentes.


A obra Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal (CPAD) discorre que “a obra do Espírito Santo como Consolador inclui o seu papel como Espírito da Verdade que habita em nós (Jo 14.16; 15.26), como Ensinador de todas as coisas, como aquEle que nos faz lembrar tudo o que Cristo tem dito (14.26), como aquEle que dará testemunho de Cristo (15.26) e como aquEle que convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo (16.8). Não se pode subestimar a importância dessas tarefas. O Espírito Santo, dentro em nós, começa a esclarecer as crenças incompletas e errôneas sobre Deus, sua obra, seus propósitos, sua Palavra, o mundo, crenças estas que trazemos conosco ao iniciarmos nosso relacionamento com Deus. Conforme as palavras de Paulo, é uma obra vitalícia, jamais completada neste lado da eternidade (1Co 13.12)” (2021, p.397).


Não podemos negligenciar a necessidade que temos da Pessoa do Espírito Santo. Sem Sua presença, não podemos exercer o chamado que fomos desafiados a cumprir. É Ele quem nos escolhe para realização da Sua obra a partir da oração (At 13.2). O exercício dos dons espirituais e ministeriais (1Co 12.8-10; Ef 4.11,12), as decisões na condução de Sua obra, a tarefa de convencer os pecadores a Cristo (Jo 16.8) ou mesmo a libertação do pecado ou perdão entre irmãos são obras que dependem inquestionavelmente da atuação do Espírito Santo na Igreja. Nossa dependência dEle é uma forma de glorificá-lO. Quando reconhecemos que sem Ele nada podemos, Sua presença se manifesta para nos mostrar a verdade, direcionar as decisões e nos aconselhar para que tenhamos uma vida sábia.


Fonte:

Revista Ensinador Cristão. RIO DE JANEIRO: CPAD, 2026, Ed. 104, p.40.



14 fevereiro 2026

A EXALTAÇÃO GLORIOSA DO FILHO

(Comentário do 3º tópico da Lição 7: A Obra do Filho).

No terceiro e último tópico, trataremos da última etapa da obra de Cristo, que foi a Sua gloriosa exaltação pelo Pai.

Veremos que, após passar por todo o processo de humilhação voluntária — tornando-se humano e suportando o sacrifício vicário na cruz — Cristo foi recebido à destra do Pai e entronizado com glória eterna.

Veremos, ainda, que Cristo recebeu do Pai “um nome que é sobre todo o nome” (Fp 2.9b). Isso significa que nenhuma autoridade visível ou invisível pode se igualar à Sua autoridade suprema.

Por fim, abordaremos a soberania universal e o retorno triunfal de Cristo. O apóstolo Paulo afirma que, após a exaltação de Cristo, todas as criaturas se curvarão diante do nome de Jesus (Fp 2.10), e que Cristo retornará de forma triunfal como Rei e Senhor absoluto de todo o universo.

1. Recebido à destra do Pai. 

A exaltação de Cristo é uma das mais gloriosas verdades da fé cristã. Após cumprir plenamente a obra da redenção, o Filho foi exaltado pelo Pai e entronizado em glória. Essa verdade não é apenas doutrinária, mas também consoladora, pois fundamenta a nossa esperança e assegura o nosso acesso à presença de Deus.

Na Epístola aos Filipenses, o apóstolo Paulo de Tarso declara:

“Por isso Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome” (Fp 2.9).

A expressão grega hypsýpsōsen significa superexaltar ou elevar à mais alta posição. Essa exaltação é a resposta divina à humilhação voluntária de Cristo, que foi obediente até a morte, e morte de cruz (Fp 2.8).

É importante destacar que o Filho nunca deixou de possuir a mesma essência e glória do Pai. Contudo, na encarnação, esvaziou-se voluntariamente, assumindo a forma de servo, sem abrir mão de sua divindade. A exaltação, portanto, não lhe concedeu uma nova natureza, mas manifestou publicamente a sua glória eterna.

Após a ressurreição e ascensão, Cristo foi entronizado à destra do Pai. Estar à “destra” simboliza posição de honra, autoridade e soberania. No contexto monárquico antigo, esse lugar era reservado ao herdeiro do trono, que participava do governo do reino.

Assim, Cristo não apenas retornou ao Céu, mas assentou-se no trono, indicando que sua obra redentora foi consumada. Diferentemente dos sacerdotes do Antigo Testamento, que permaneciam continuamente em pé ministrando, Jesus assentou-se, pois o seu sacrifício foi perfeito e definitivo.

Conforme o próprio Senhor Jesus declarou no Evangelho de João 17.4,5, Ele completou a obra que o Pai lhe confiara e pediu para ser glorificado com a glória que tinha antes que o mundo existisse. Sua entronização, portanto, é o reconhecimento público da missão cumprida.

A exaltação de Cristo tem implicações diretas para a Igreja. À destra do Pai, Ele atua como nosso Advogado e Intercessor. Como ensina Romanos 8.34, Cristo intercede por nós; e, conforme 1 João 2.1, Ele é o nosso Advogado junto ao Pai.

A palavra traduzida por advogado em 1 João 2.1 é “Paracleto” que significa “aquele que é chamado para estar ao lado de outro em um tribunal”, indicando um defensor e auxiliador. Cristo intercede no Céu com base em sua obra consumada. O Espírito Santo, por sua vez, habita em nós e intercede com gemidos inexprimíveis (Rm 8.26). Não há confusão de funções na Trindade, mas perfeita harmonia na obra da salvação.

Graças à exaltação de Cristo, temos livre acesso à presença de Deus e a certeza de que nossa redenção é eficaz e eterna. O fato de Cristo estar assentado à destra do Pai fortalece nossa fé e renova nossa esperança. A sua obra está consumada, a  sua vitória é definitiva e a sua intercessão é contínua.

2. Um nome acima de todo nome. 

Na segunda parte de Epístola aos Filipenses 2.9, o apóstolo Paulo declara que, após a humilhação voluntária de Cristo (Fp 2.5–8), o Pai “lhe deu um nome que é sobre todo o nome”. Esta exaltação, conforme já falamos, é a resposta divina à obediência perfeita do Filho. Aquele que se humilhou até a morte de cruz foi soberanamente exaltado.

Para compreendermos o significado dessa afirmação, é necessário recordar que o conceito de nome, na Bíblia, difere da concepção moderna. Nas Escrituras, o nome não representa apenas a identificação pessoal, mas está relacionado ao caráter, à autoridade e à posição de quem o possui. Em muitos casos, o nome expressava circunstâncias do nascimento ou características marcantes da vida da pessoa.

No texto de Filipenses 2.9, Paulo afirma que Cristo recebeu um “nome” (gr. onoma) que está acima de todo nome. O termo grego onoma pode referir-se ao nome próprio, à reputação (Mc 6.14), ao caráter (Mt 6.9), à autoridade ou a um título de dignidade concedido a alguém, como César, Herodes ou Faraó. Também pode designar um grupo identificado por determinado nome (Ap 3.4).

Nesse contexto de Filipenses 2.9, o “nome sobre todo nome” aponta para o reconhecimento público do senhorio universal de Cristo. O nome que Jesus recebeu do Pai não se refere a um novo vocábulo, mas à investidura suprema de autoridade, glória e domínio sobre todas as coisas, visíveis e invisíveis. Trata-se da proclamação universal de seu senhorio.

Além disso, Cristo delegou à sua Igreja autoridade para agir em seu Nome contra as forças espirituais da maldade e para realizar sinais que confirmam a proclamação do Evangelho, conforme registrado em Evangelho segundo Marcos 16.17,18:

“Em meu nome, expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e imporão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.”

Assim, o Nome de Jesus expressa sua autoridade soberana e fundamenta a atuação espiritual da Igreja no cumprimento de sua missão. Se Cristo foi exaltado acima de todo poder e autoridade, a Igreja deve viver debaixo do seu senhorio, confiando plenamente em sua supremacia. Agir em nome de Jesus não é repetir uma fórmula, mas submeter-se à sua vontade e representar seu caráter no mundo.

3. Soberania universal e retorno triunfal. 

Nos versículos seguintes de Filipenses 2.10–11, o apóstolo Paulo declara:

“Ao nome de Jesus se dobrará todo joelho, e toda língua confessará que Ele é o Senhor.”

Muitos estudiosos entendem que essa referência está associada ao título “Senhor” (Kyrios), que expressa a sua plena divindade e soberania. O Antigo Testamento já apontava para isso em Isaías 45.23: “A mim se dobrará todo joelho, e a mim jurará toda língua”. Paulo aplica esse princípio ao nome de Cristo, mostrando a sua divindade e autoridade universal e eterna.

Em sua pregação no dia de Pentecostes, em Atos 2.36 o apóstolo Pedro declarou:

“Saiba, pois, com certeza, toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.”

Quer a humanidade creia ou não, Cristo é Senhor absoluto do universo. Sua autoridade é plena e incontestável sobre todos os seres e poderes, visíveis e invisíveis. Atualmente, o reconhecimento dessa autoridade é voluntário, como ensina Epístola aos Romanos 10.9–10:

“A saber: se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação.”

Cristo chama a todos para que se submetam ao seu senhorio: “Vinde a mim todos os que estais cansados e oprimidos...” (Mt 11.28); “Se alguém quer vir após mim...” (Mt 16.24); “Quem quiser, tome de graça da água da vida” (Ap 22.17).

Todavia, chegará o dia em que esse reconhecimento será universal e inevitável: todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai (Fp 2.10–11). Essa confissão será voluntária para aqueles que creem e servem a Cristo, conduzindo-os à salvação, e compulsória para os que o rejeitaram, como sinal do juízo vindouro (Rm 14.11; Fp 2.11).

O retorno de Cristo será triunfal, em glória, poder e justiça, e terá um duplo efeito: Para a Igreja haverá Salvação, pois Ele buscará os que o esperam, cumprindo a promessa da esperança cristã (Hb 9.28; Jo 14.2–3). Para os ímpios, no entanto, terá um efeito de juízo. A Sua glória será reconhecida por todos, resultando em condenação para aqueles que o rejeitaram (Mt 24.30).

A soberania de Cristo exige resposta pessoal e congregacional. A Igreja deve viver sob seu senhorio, proclamando o seu Nome com coragem, obedecendo à sua vontade e aguardando vigilante o seu retorno triunfal. Não se trata apenas de confessar verbalmente, mas de agir em obediência e fé.

Ev. WELIANO PIRES

13 fevereiro 2026

A OBRA REDENTORA DO FILHO

(Comentário do 2⁰ tópico da Lição 7: A Obra do Filho)

No segundo tópico, trataremos da segunda parte da obra do Filho de Deus, que é o processo da redenção por meio do Seu sacrifício na cruz do Calvário.

Inicialmente, abordaremos a ineficácia do sacerdócio levítico para a salvação. Esse era um sacerdócio imperfeito, cujos rituais precisavam ser repetidos, e apontava para o sacrifício perfeito de Cristo.

Veremos, ainda, que o sacrifício de Cristo foi único e suficiente para a purificação dos pecados do mundo inteiro, com a condição de que se creia n’Ele.

Por fim, trataremos da substituição vicária do pecador por Cristo. A palavra vicário significa “em lugar de outro”. A justiça divina exige a punição pelos pecados cometidos, e Cristo assumiu a nossa culpa e pagou o preço da nossa redenção. 

1. A ineficácia do sacerdócio levítico. Em todo o Antigo Testamento, Deus utilizou figuras, tipos e personagens que apontavam para a Nova Aliança, para Cristo, para o seu sacrifício e para a Igreja (Cl 2.16,17; Hb 8.5; 10.1). O escritor da Epístola aos Hebreus demonstra que aqueles rituais eram imperfeitos, provisórios e transitórios, pois não podiam aperfeiçoar a consciência do adorador (Hb 7.18,19; 9.9,10).

Dentre as tribos de Israel, Deus escolheu a tribo de Levi para o serviço sagrado (Nm 3.5-12; Dt 10.8). Os membros dessa tribo não receberam herança territorial na Terra Prometida, porque o Senhor era a sua herança (Nm 18.20; Dt 18.1,2), e dedicavam-se exclusivamente ao serviço do Tabernáculo (Nm 1.50-53). 

Os levitas cuidavam da manutenção do Tabernáculo, realizavam a montagem e a desmontagem da estrutura (Nm 4.1-33), preparavam o necessário para os sacrifícios e transportavam os utensílios sagrados. Com a construção do Templo, nos dias de Salomão (1 Rs 6.1; 8.1-11), os levitas passaram a os levitas passaram a exercer outras funções, como porteiros, guardas, músicos, administradores e mestres da Lei (1 Cr 23.1-5; 2 Cr 35.3).

Da tribo de Levi, Deus escolheu a família de Arão, irmão de Moisés, para exercer o sacerdócio (Êx 28.1; 29.9). Arão foi constituído sumo sacerdote, e seus filhos, sacerdotes (Êx 28.41; Nm 18.7). O ministério dos sacerdotes incluía o oferecimento dos sacrifícios no átrio do Tabernáculo (Lv 1–7) e o serviço no Lugar Santo, onde acendiam continuamente as lâmpadas do candelabro (Êx 27.20,21), trocavam os pães da proposição (Lv 24.5-9) e queimavam o incenso sobre o altar de ouro (Êx 30.7,8).

O sumo sacerdote exercia uma função singular, pois atuava como mediador entre Deus e o povo (Lv 16.32-34). Uma vez por ano, no Dia da Expiação (Yom Kippur), ele entrava no Lugar Santíssimo, também chamado Santo dos Santos, levando o sangue do sacrifício para fazer expiação por si mesmo e pelo povo (Lv 16.11-17; Hb 9.7). Ali estava a Arca da Aliança, onde se encontravam as tábuas da Lei (Êx 25.16; 40.20), um vaso com o maná e a vara de Arão que floresceu (Hb 9.4; Nm 17.8-10).

Por não ser perfeito, o sumo sacerdote precisava oferecer sacrifícios por si mesmo antes de interceder pelo povo (Hb 5.1-3; 7.27). Além disso, os sacrifícios eram repetidos continuamente, evidenciando sua insuficiência (Hb 10.1-4,11). O sistema levítico, embora instituído por Deus, era incapaz de remover definitivamente o pecado, pois consistia em sombras e figuras das realidades celestiais (Hb 8.5; 9.23,24).

2. O Sacrifício único e suficiente. Por ser provisório e insuficiente para solucionar plenamente o problema do pecado, o sacerdócio levítico foi substituído pelo sacerdócio de Cristo, segundo a ordem de Melquisedeque (Sl 110.4; Hb 7.11-17), que é perfeito, eterno e infinitamente superior (Hb 7.23-28; 9.11,12), tendo oferecido um único e suficiente sacrifício pelos pecados (Hb 10.12-14).

Os sacrifícios e rituais da Antiga Aliança eram repetidos continuamente, ano após ano, porque eram incapazes de remover definitivamente o pecado (Hb 9.6-9; 10.1-4). A repetição constante evidenciava sua limitação. Entretanto, Cristo, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo (Jo 1.29; 1 Pe 1.18,19), ofereceu-se em sacrifício uma única vez pelos pecados de toda a humanidade (Rm 6.10; Hb 9.26-28). Seu sacrifício é plenamente suficiente para purificar, de uma vez por todas, aqueles que nele creem (Hb 7.27; 10.10,14; 1 Jo 1.7).

Ao bradar no Calvário: “Está consumado!” (Jo 19.30), consumando a obra redentora, o véu do Templo — que separava o Lugar Santo do Lugar Santíssimo — rasgou-se de alto a baixo (Mt 27.50,51; Mc 15.37,38; Lc 23.45). Esse acontecimento simbolizou o fim da antiga ordem sacrificial e a remoção da barreira que separava o homem de Deus, possibilitando o livre acesso à presença do Pai mediante a fé em Cristo (Hb 10.19-22; Ef 2.13-18).

Assim, somente por meio de Cristo é possível a reconciliação do pecador com Deus, pois Ele é o único caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6), e em nenhum outro há salvação (At 4.12; 1 Tm 2.5).

3. A substituição vicária. Com o pecado de Adão e Eva, todos os seres humanos se tornaram pecadores por natureza e incapazes de se reconciliarem com Deus por si mesmos (Rm 3.23). Deus é absolutamente justo e não pode ignorar o pecado. Por isso, a sua justiça exige a punição pelos pecados cometidos.

Por outro lado, Deus é misericordioso e deseja salvar o ser humano da condenação eterna decorrente do pecado. Assim, entregou o seu Filho Unigênito para padecer em nosso lugar, a fim de que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16). O hino 18 da Harpa Cristã descreve bem essa verdade ao declarar: “Na cruz estão unidos a justiça e o amor”.

O sacrifício de Cristo foi vicário e expiatório. A palavra vicário deriva do latim vicarius, que significa “no lugar de outro”. Já o termo expiatório procede do latim expiāre, que significa “purificar” ou “reparar uma falta”. Assim, Jesus padeceu em nosso lugar para purificar-nos dos pecados e reconciliar-nos com Deus.

Jesus é o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Ele levou sobre si os nossos pecados (Is 53.4) e realizou a reconciliação entre Deus e a humanidade (2Co 5.18,21). Conforme afirma a Escritura, há “um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1Tm 2.5). Não há outra forma de salvação para os pecadores senão por meio do sacrifício de Cristo.

Ev. WELIANO PIRES

12 fevereiro 2026

A HUMILHAÇÃO VOLUNTÁRIA DO FILHO

(Comentário do 1º tópico da Lição 7: A Obra do Filho)

No primeiro tópico, estudaremos a primeira parte da obra do Filho de Deus: a sua humilhação voluntária. Esse aspecto revela a profundidade do amor de Cristo e apresenta o modelo de vida cristã a ser seguido.

Inicialmente, analisaremos a atitude de submissão de Cristo no cumprimento do plano da salvação. Tal atitude serve de exemplo para o crente, que é chamado a renunciar a toda forma de egoísmo, a buscar o bem do próximo e a viver para a glória de Deus.

Em seguida, refletiremos sobre o esvaziamento da glória de Cristo. Embora sendo Deus, o Filho “aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo” (Fp 2.7). Esse esvaziamento não significa que Ele tenha deixado de ser Deus, mas que, voluntariamente, abriu mão de seus privilégios divinos para cumprir a missão redentora.

Por fim, destacaremos a obediência sacrificial de Cristo ao Pai, desde a sua encarnação até a morte na cruz (Fp 2.8). Foi essa obediência perfeita que tornou possível a nossa salvação, e não quaisquer méritos humanos.

1. A Submissão de Cristo

No contexto de Filipenses 2, antes de tratar da submissão voluntária de Cristo, o apóstolo Paulo exorta os crentes a nada fazerem por contenda ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo e priorizando o próximo (Fp 2.1–4).

Na sequência dessa exortação, o apóstolo recomenda: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2.5).

O texto de Filipenses 2.5–11 é considerado por muitos estudiosos um antigo hino cristológico. Alguns afirmam que esse hino era entoado pelos primeiros cristãos, sendo anterior à Epístola aos Filipenses e posteriormente incorporado ao texto pelo apóstolo Paulo. Não sabemos se essa hipótese procede; contudo, isso em nada altera o valor inspirado e doutrinário da mensagem nele contida.

A palavra grega phroneō, traduzida por “sentimento” nesse texto, vai além de mera emoção. Refere-se a uma disposição interior, a um modo de pensar que se traduz em atitudes concretas. Jesus nos deu o exemplo supremo de humildade e submissão ao Pai. Mesmo sendo Deus, jamais buscou glória para si nem promoveu a si mesmo. A mansidão e a humildade fazem parte de sua própria natureza (Mt 11.29).

2. O Esvaziamento de Sua Glória

Após apresentar o modo de pensar de Cristo como exemplo supremo de humildade e submissão voluntária, o apóstolo Paulo fundamenta sua exortação na própria obra redentora do Senhor:

“Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fp 2.6,7).

Nesses versículos encontramos verdades profundas a respeito da Pessoa de Cristo, essenciais para a compreensão da doutrina cristã.

a) “Sendo em forma de Deus”

A expressão grega hos morphē theou hyparchōn afirma que Cristo subsistia na forma de Deus antes de sua encarnação. O termo morphē não se refere apenas à aparência externa, mas à manifestação visível de uma realidade essencial. Em outras palavras, Paulo declara que Jesus possui a mesma essência e natureza de Deus.

Temos aqui uma clara afirmação da divindade e da preexistência de Cristo. Ele não passou a existir em Belém; antes, existia eternamente com o Pai. Essa verdade harmoniza-se com João 1.1 e reafirma que Jesus é plenamente Deus.

b) “Não teve por usurpação ser igual a Deus”

Essa expressão não significa que Cristo não fosse igual a Deus, mas que não considerou essa igualdade como algo a que deveria apegar-se para benefício próprio. Ele não explorou sua posição divina em vantagem pessoal.

O texto revela a atitude voluntária de Cristo. Mesmo sendo Deus, não se valeu de seus direitos divinos para evitar o sofrimento da encarnação e da cruz. Aqui vemos o contraste entre o primeiro Adão, que desejou ser igual a Deus (Gn 3.5), e o último Adão, que, sendo Deus, humilhou-se (Rm 5.19; 1Co 15.45).

c) “Aniquilou-se a si mesmo”

A palavra grega ekenōsen (de kenóō) pode ser traduzida como “esvaziou-se”. Esse termo não significa que Cristo deixou de ser Deus ou que tenha perdido seus atributos divinos. Ao longo da história, surgiu uma heresia conhecida como kenoticismo, segundo a qual Cristo teria abandonado atributos como onipotência, onisciência e onipresença ao tornar-se homem. Tal interpretação, porém, não encontra respaldo nas Escrituras.

Colossenses 2.9 declara: “Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade”. Portanto, mesmo encarnado, Cristo continuou sendo plenamente Deus.

Seu esvaziamento consistiu não na perda de sua natureza divina, mas na renúncia voluntária à glória que tinha com o Pai antes que o mundo existisse (Jo 17.5). Ele assumiu a forma de servo e submeteu-se às limitações próprias da condição humana. Essa autolimitação refere-se ao não uso independente de seus atributos, e não à abdicação deles.

3. Obediência Sacrificial até a Cruz

Após discorrer sobre a submissão e o esvaziamento de Cristo, o apóstolo Paulo destaca a profundidade de sua humildade, evidenciada em sua total obediência ao Pai: “E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.8).

A obediência de Cristo não foi circunstancial, mas constante e perfeita. Desde a encarnação até o Calvário, Ele submeteu-se voluntariamente à vontade do Pai. O Senhor Jesus afirmou: “Porque eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6.38). Sua obediência foi espontânea, consciente e amorosa.

O escritor aos Hebreus declara que Cristo “aprendeu a obediência, por aquilo que padeceu” (Hb 5.8), não no sentido de que fosse desobediente, mas porque experimentou plenamente, na condição humana, o custo da obediência. Paulo também ensina que “pela obediência de um, muitos serão feitos justos” (Rm 5.19). Assim, a nossa redenção está diretamente ligada à obediência perfeita do Filho.

A cruz era considerada uma forma de execução cruel e degradante. Aplicada pelo Império Romano a escravos rebeldes, criminosos perigosos e povos subjugados, tratava-se de pena tão desonrosa que não era imposta a cidadãos romanos. Além da dor física, havia a exposição pública e a vergonha.

Para os judeus, a morte por crucificação trazia ainda um peso espiritual, pois estava escrito: “Maldito por Deus é todo aquele que for pendurado no madeiro” (Dt 21.23). Ser suspenso em um madeiro era sinal de maldição e rejeição. Todavia, conforme profetizado por Isaías, o Messias seria “desprezado e o mais rejeitado entre os homens” (Is 53.3).

Na cruz, Cristo assumiu não apenas o sofrimento físico, mas também o peso espiritual do pecado da humanidade. Entretanto, não é na intensidade do sofrimento que reside o valor do sacrifício de Cristo. Muitos outros padeceram mortes cruéis ao longo da história. O valor da cruz está na Pessoa que nela se entregou.

Somente Cristo poderia efetuar essa obra, pois é absolutamente santo e não cometeu pecado (1Pe 2.22). Sua morte não foi mero martírio, mas substituição redentora. Ele se fez maldição por nós (Gl 3.13), a fim de nos libertar da condenação. Assim, o valor do sacrifício está diretamente ligado à identidade singular de Cristo — verdadeiro Deus e verdadeiro homem — e à eficácia de sua obra expiatória.

Ev. WELIANO PIRES

10 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À LIÇÃO 7: A OBRA DO FILHO

TEXTO ÁUREO:

“Pelo que também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome.” (Fp 2.9).

VERDADE PRÁTICA:

A humilhação voluntária de Cristo, sua obra redentora e sua exaltação gloriosa revelam que somente Ele é digno de toda adoração e obediência.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: Filipenses 2.5-11; Hebreus 9.24-28.

Objetivos da Lição: 

I) Explicar a humilhação voluntária de Cristo e sua obediência até a cruz; 

II) Mostrar que a obra redentora do Filho é única, suficiente e vicária; 

III) Ressaltar a exaltação gloriosa de Cristo e sua soberania universal.

INTRODUÇÃO 

Chegamos à última de uma série de três lições que tratam da Pessoa e da obra do Filho de Deus.

Na Lição 5, estudamos a Pessoa do Deus Filho, destacando a sua divindade, a centralidade de Cristo no cumprimento da Lei e dos Profetas, bem como a sua exclusividade como o único Salvador e Mediador entre Deus e os homens.

Na lição anterior, refletimos acerca do Filho como o Verbo de Deus. Vimos a sua preexistência e divindade, sendo Ele distinto do Pai, mas da mesma essência. Também aprendemos que o Verbo é o Criador, a fonte da vida e a luz dos homens. Por fim, compreendemos que o Verbo que se fez carne é a perfeita revelação do Deus invisível, cheio de graça e de verdade.

Nesta lição, à luz dos textos de Filipenses 2.5-11 e Hebreus 9.24-28, estudaremos a obra redentora do Filho de Deus sob três aspectos fundamentais: a sua humilhação, ao assumir a natureza humana; a sua obra redentora, por meio do sacrifício vicário na cruz; e a sua exaltação gloriosa pelo Pai.

Palavra - Chave: OBRA

A palavra obra deriva do substantivo latino opera, que significa “trabalho”, “esforço” ou “atividade”. No latim clássico, opera está relacionada à ideia de trabalho ou tarefa realizada, e foi incorporada ao português como obra, mantendo o sentido de aquilo que é produzido ou executado por alguém.

No contexto desta lição, obra refere‑se ao conjunto de ações pelas quais Cristo se submeteu em favor da humanidade: desde a Sua encarnação, passando pela Sua humanização e pelo sacrifício vicário na cruz do Calvário, até a Sua ressurreição e gloriosa exaltação. Isso significa que toda essa realização foi o ato completo e eficaz de Deus para a redenção dos pecadores.

TÓPICOS DA LIÇÃO 

I. A HUMILHAÇÃO VOLUNTÁRIA DO FILHO

No primeiro tópico, estudaremos a primeira parte da obra do Filho de Deus: a sua humilhação voluntária. Isso revela a profundidade do amor de Cristo e o modelo de vida cristã a ser seguido.

Inicialmente, analisaremos a atitude de submissão de Cristo no cumprimento do plano da salvação. Tal atitude serve como exemplo para o crente, que é chamado a renunciar a toda forma de egoísmo, a buscar o bem do próximo e a viver para a glória de Deus.

Em seguida, refletiremos sobre o esvaziamento da glória de Cristo. Embora sendo Deus, o Filho “aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo” (Fp 2.7a). Esse esvaziamento não significa que Ele tenha deixado de ser Deus, mas que, voluntariamente, abriu mão de seus privilégios divinos para cumprir a missão redentora.

Por fim, destacaremos a obediência sacrificial de Cristo ao Pai, desde a sua encarnação até a morte na cruz (Fp 2.8). Foi essa obediência perfeita que tornou possível a nossa salvação, e não quaisquer méritos humanos.

II. A OBRA REDENTORA DO FILHO

No segundo tópico, trataremos da segunda parte da obra do Filho de Deus, que é o processo da redenção por meio do Seu sacrifício na cruz do Calvário.

Inicialmente, abordaremos a ineficácia do sacerdócio levítico para a salvação. Esse era um sacerdócio imperfeito, cujos rituais precisavam ser repetidos, e apontava para o sacrifício perfeito de Cristo.

Veremos, ainda, que o sacrifício de Cristo foi único e suficiente para a purificação dos pecados do mundo inteiro, com a condição de que se creia n’Ele.

Por fim, trataremos da substituição vicária do pecador por Cristo. A palavra vicário significa “em lugar de outro”. A justiça divina exige a punição pelos pecados cometidos, e Cristo assumiu a nossa culpa e pagou o preço da nossa redenção. 

III. A EXALTAÇÃO GLORIOSA DO FILHO

No terceiro e último tópico, trataremos da última etapa da obra de Cristo, que foi a Sua gloriosa exaltação pelo Pai.

Veremos que, após passar por todo o processo de humilhação voluntária — tornando-se humano e suportando o sacrifício vicário na cruz — Cristo foi recebido à destra do Pai e entronizado com glória eterna.

Veremos, ainda, que Cristo recebeu do Pai “um nome que é sobre todo o nome” (Fp 2.9b). Isso significa que nenhuma autoridade visível ou invisível pode se igualar à Sua autoridade suprema.

Por fim, abordaremos a soberania universal e o retorno triunfal de Cristo. O apóstolo Paulo afirma que, após a exaltação de Cristo, todas as criaturas se curvarão diante do nome de Jesus (Fp 2.10), e que Cristo retornará de forma triunfal como Rei e Senhor absoluto de todo o universo.

Ev. WELIANO PIRES 

09 fevereiro 2026

A OBRA DO FILHO


SUBSÍDIO DA REVISTA ENSINADOR CRISTÃO

Nesta lição, veremos que a morte vicária do Senhor Jesus revela o propósito do Pai em conceder perdão aos pecadores e restaurar toda a criação. A humilhação, a redenção e a exaltação do Filho Unigênito de Deus manifestam a profundidade da obra que Ele realizou. Graças à Sua vida de obediência completa e justiça, bem como ao Seu sacrifício vivo e santo sobre a cruz, temos acesso à salvação eterna.

Enquanto esteve neste mundo, a vida de Jesus foi marcada pela total submissão à vontade do Pai. Não encontramos, em momento algum de Sua vida e ministério, qualquer comportamento que destoasse desse propósito. Pelo contrário, Ele obedeceu até a morte, e morte de cruz (Fl 2.8). Para assumir esse compromisso fiel de submissão, Cristo esvaziou-se da glória que compartilhava com Deus Pai desde a eternidade, antes mesmo que todas as coisas fossem criadas (Jo 17.5).

Conforme explica a Bíblia de Estudo Pentecostal — Edição Global (CPAD), a expressão “Aniquilou-se a si mesmo” corresponde ao termo grego ekenōsen (do verbo kenoō, derivado de kenos, “vazio”, “vão”), que literalmente significa “ele esvaziou-se”. Isso não indica que Jesus renunciou à Sua divindade, ou seja, à Sua natureza plena como Deus, mas que voluntariamente deixou de lado Suas prerrogativas divinas.

Esse esvaziamento envolveu a renúncia temporária de Sua glória celestial (Jo 17.4), posição (Jo 5.30; Hb 5.8), riqueza (2Co 8.9), direitos (Lc 22.27; Mt 20.28) e do uso independente de Seus atributos divinos (Jo 5.19; 8.28; 14.10). Não se tratou apenas de uma suspensão voluntária de privilégios, mas também da aceitação do sofrimento humano, dos maus-tratos, do ódio e, por fim, da maldição da morte na cruz.

Embora tenha permanecido totalmente divino, Cristo assumiu plenamente a natureza humana, com todas as tentações, humilhações e fraquezas inerentes à condição humana. Ainda assim, suportou tudo isso sem pecar (vv. 7,8; Hb 4.15). Ele jamais ofendeu ou desafiou a Deus Pai, nem praticou qualquer coisa contrária ao padrão perfeito de Deus.

Por essa razão, Cristo foi capaz de oferecer o sacrifício perfeito, pagando de forma definitiva e completa a pena pelos nossos pecados, de uma vez por todas (1Pe 3.18). Em resposta à Sua obediência e fidelidade, o Pai o exaltou sobremaneira e lhe deu um nome que está acima de todo nome (Fp 2.8-11).

A glória restaurada ao Filho é o sinal da aprovação divina de que Ele cumpriu fielmente todas as coisas. Essa mesma glória, Cristo prometeu compartilhar com aqueles que creram em Seu testemunho e permanecem fiéis a Ele, independentemente das circunstâncias. A esses, o Senhor Jesus prometeu conceder a coroa da vida e o galardão da herança (Ap 2.10; 3.21).

FONTE:

Revista Ensinador Cristão. RIO DE JANEIRO: CPAD, Ed. 104, p.39,

07 fevereiro 2026

O VERBO COMO REVELAÇÃO DO PAI

(Comentário do 3⁰ tópico da Lição 6: O Filho como o Verbo de Deus)

No terceiro tópico, abordaremos o Verbo como a revelação do Pai. Inicialmente, trataremos da encarnação do Verbo, com base na afirmação de João: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória” (Jo 1.14a).

Em seguida, falaremos do Verbo como a plenitude da graça e da verdade, conforme a declaração: “Vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14b).

Por fim, apresentaremos o Verbo como o revelador do Deus invisível, com base em João 1.18, que afirma: “Deus nunca foi visto por alguém; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”.

1. A encarnação do Verbo. Nos primeiros cinco versículos do prólogo do Evangelho segundo João, o apóstolo apresenta afirmações decisivas acerca da Pessoa de Jesus Cristo, que não deixam margem a dúvidas quanto à sua divindade. Ele declara que o Verbo é preexistente, distinto do Pai, plenamente divino, Criador de todas as coisas e a fonte de vida e de luz para a humanidade.

Após afirmar a divindade do Verbo, João declara de modo igualmente enfático a sua plena humanidade. No encerramento do prólogo, ele escreve:

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14).

Nessa afirmação, o evangelista ensina que o Filho eterno de Deus assumiu a natureza humana real, passando a viver entre os homens. Trata-se da doutrina da Encarnação, na qual a natureza divina e a natureza humana unem-se na única Pessoa de Cristo, sem confusão, sem divisão e sem alteração — o que a teologia cristã denomina união hipostática.

O próprio apóstolo reafirma essa verdade em sua Primeira Epístola:

“O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram, da Palavra da vida” (1Jo 1.1).

Aqui, João enfatiza a experiência concreta e histórica com Cristo, destacando que Ele foi visto, ouvido e tocado.

A Encarnação do Filho de Deus constitui uma das doutrinas centrais do Cristianismo bíblico. Sobre esse ponto essencial, afirma a Declaração de Fé das Assembleias de Deus:

“Cremos na concepção e no nascimento virginal de nosso Senhor Jesus Cristo, conforme as Escrituras Sagradas e anunciado de antemão pelo profeta Isaías, e que Ele foi concebido pelo Espírito Santo no ventre da virgem Maria.”

Essa declaração reafirma que a humanidade de Cristo teve origem sobrenatural, sem, contudo, deixar de ser verdadeira e completa.

Nos primeiros séculos da história da Igreja, surgiram diversas heresias relacionadas à Pessoa e à natureza de Cristo. Os ebionitas e os arianistas negavam a sua divindade, reduzindo-o à condição de mero homem ou de ser criado.

Na direção oposta, surgiram os docetistas e alguns grupos gnósticos, que negavam a verdadeira humanidade de Cristo. O docetismo baseava-se na ideia gnóstica de um dualismo radical entre espírito e matéria, considerando o espírito como bom e a matéria como má.

Segundo essa concepção, se Jesus fosse realmente Deus, não poderia possuir um corpo físico verdadeiro, mas apenas uma aparência humana. Tal ensino, porém, contradiz frontalmente o testemunho das Escrituras.

A Bíblia afirma claramente que Jesus tornou-se verdadeiramente humano, com exceção do pecado. Os evangelistas Mateus, Marcos e Lucas registram detalhes significativos da humanidade de Cristo desde o seu nascimento. Estes relatos evidenciam, de maneira inequívoca, que Jesus possuía um corpo físico real. As testemunhas oculares, genealogias, familiares e circunstâncias históricas confirmam a realidade da sua encarnação.

Marcos, embora não trate do nascimento de Jesus, apresenta-o como um homem que viveu entre as multidões, sentiu cansaço, compaixão e participou ativamente da vida cotidiana, ao mesmo tempo em que realizava milagres.

O apóstolo João, diferentemente dos sinóticos, não descreve o nascimento nem a infância de Jesus, mas inicia o seu Evangelho apresentando-o como o Verbo eterno e divino. Ainda assim, ele afirma explicitamente que esse Verbo se fez carne.

Além de ensinar essa verdade, João foi testemunha ocular da humanidade de Cristo. Juntamente com Pedro e Tiago, integrou o círculo mais próximo dos discípulos. Em diversas ocasiões, eles tocaram em Jesus, viram-no dormir, comer, sentir cansaço e mantiveram contato direto com Ele, não restando qualquer dúvida quanto à realidade do seu corpo humano.

Os demais apóstolos também afirmaram a humanidade de Cristo em suas Epístolas. O apóstolo Paulo escreveu aos Romanos que Jesus “nasceu da descendência de Davi, segundo a carne” (Rm 1.3).

João, em suas Epístolas, foi igualmente enfático ao declarar que todo aquele que nega que Jesus Cristo veio em carne não procede de Deus, mas é movido pelo espírito do Anticristo (1Jo 4.2,3).

Negar a Encarnação de Cristo compromete todo o plano da redenção. Se Jesus não assumiu um corpo humano verdadeiro, então não poderia ter sido crucificado nem ressuscitado corporalmente. Nesse caso, conforme ensina o apóstolo Paulo, seria vã a nossa fé, e os que dormiram em Cristo estariam perdidos (1Co 15.1–3,17,18).

2. A plenitude da graça e da verdade. João, testemunha ocular da encarnação do Verbo, declara ser a “glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14b). A palavra “glória” (gr. dóxa) remete ao conceito da shekinah — a presença gloriosa de Deus entre o seu povo (Êx 40.34,35). Porém, enquanto a glória na Antiga Aliança se manifestava parcialmente, em Cristo ela se mostra plenamente (Jo 2.11; 17.1-5). A frase “cheio de graça e de verdade” revela o conteúdo dessa glória. Diferente da Lei dada por Moisés (Jo 1.17a), Cristo encarnou a própria graça salvadora e a verdade eterna. Ele não apenas ensina a verdade — Ele é a verdade (Jo 14.6). E não apenas oferece graça — Ele é a plenitude da graça de Deus, uma provisão contínua que se manifestou salvadora a todos os homens (Tt 2.11).

No prólogo do seu Evangelho, João afirma que ele e os demais discípulos contemplaram a glória de Cristo, “como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14). Essa declaração revela que a glória do Senhor foi perceptível àqueles que com Ele conviveram.

Na lição passada, destacamos que essa glória foi vista de modo especial na Transfiguração. Naquela ocasião, os discípulos tiveram uma revelação extraordinária da natureza divina de Jesus, ainda que de forma limitada.

O termo grego doxa, traduzido por “glória”, expressa ideias como esplendor, majestade, excelência e dignidade. Em relação a Cristo, essa glória está ligada à sua divindade, pois pertence exclusivamente a Deus, conforme o próprio Senhor declara: “A minha glória não darei a outrem” (Is 42.8).

No Antigo Testamento, a palavra hebraica kavod indica a presença manifesta de Deus em ação. No Novo Testamento, essa glória encontra sua revelação máxima em Jesus Cristo. Contudo, durante a sua encarnação, o Senhor não manifestou a plenitude da sua glória, pois o ser humano, em sua condição mortal, não poderia suportá-la.

O apóstolo Paulo explica que Cristo “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo” (Fp 2.7). Esse esvaziamento não significa que Ele deixou de ser Deus, mas que voluntariamente limitou a manifestação da sua glória para cumprir o plano da redenção.

João resume o conteúdo dessa glória revelada ao afirmar que Jesus é “cheio de graça e de verdade”. A graça refere-se ao favor imerecido de Deus, manifestado na oferta da salvação por meio do sacrifício vicário de Cristo (Tt 2.11). Jesus não recebeu graça; Ele é pleno de graça e é quem a concede.

Além disso, Jesus é a Verdade, pois é a revelação perfeita do Deus verdadeiro (Jo 1.18; Cl 1.15). Nas Escrituras, a verdade está associada às três Pessoas da Trindade: o Pai é o Deus da verdade (Sl 31.5), o Filho é a própria Verdade (Jo 14.6) e o Espírito Santo é o Espírito da verdade (Jo 14.17).

Assim, ao afirmar que Cristo é cheio de graça e de verdade, João ensina que, em Jesus, Deus se revela de forma perfeita, tanto na concessão graciosa da salvação quanto na plena revelação da verdade divina.

3. O revelador do Deus invisível. Ao concluir o prólogo do seu Evangelho, o apóstolo João demonstra de forma inequívoca que o Filho é o revelador do Deus invisível. Assim ele declara:

“Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, este o fez conhecer” (Jo 1.18).

Alguns que negam a divindade do Filho utilizam este texto como argumento para afirmar que Jesus não é Deus, alegando que, se Deus nunca foi visto por ninguém e Jesus foi visto, então Jesus não poderia ser Deus. Contudo, tal interpretação desconsidera o contexto e a distinção entre as Pessoas da Trindade.

No texto em questão, quando João afirma que “Deus nunca foi visto por alguém”, ele se refere à Pessoa do Pai, que, de fato, nunca foi visto por nenhum ser humano. A própria continuidade do versículo esclarece que o Filho veio para revelar o Pai. Essa verdade é confirmada pelo próprio Senhor Jesus quando disse a Filipe: “Quem vê a mim, vê o Pai” (Jo 14.9).

Deus, em sua essência, é invisível e inacessível ao ser humano. Somente Ele pode revelar a Si mesmo. Jesus Cristo, sendo plenamente Deus, revelou Deus à humanidade de maneira perfeita, porém acomodada à limitação humana. A revelação plena e definitiva ocorrerá somente após a glorificação do nosso corpo, quando o veremos como Ele é (cf. 1 Jo 3.2).

Outro ponto relevante em João 1.18 é a expressão “Filho unigênito”. No texto grego, essa expressão aparece em diferentes manuscritos. Alguns trazem a leitura monogenēs theos, que significa literalmente “Deus unigênito”, enquanto outros registram monogenēs huios, traduzido como “Filho unigênito”. A Nova Almeida Atualizada opta corretamente pela tradução “Deus unigênito”.

Ambas as leituras afirmam claramente a plena divindade de Cristo. Ser o “Filho unigênito” não indica criação ou inferioridade, mas aponta para a relação única e eterna do Filho com o Pai, compartilhando da mesma essência divina. Dessa forma, João reafirma que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e o único e perfeito revelador do Pai.  

Ev. WELIANO PIRES 

06 fevereiro 2026

O VERBO COMO CRIADOR

(Comentário do 2⁰ tópico da Lição 6: O Filho como o Verbo de Deus).

No segundo tópico, abordaremos o Verbo como Criador. Com base em João 1.3, demonstraremos que o Verbo é o agente da criação, o que comprova a sua divindade, uma vez que Gênesis 1 afirma que Deus é o Criador de todas as coisas.

Em seguida, à luz de João 1.4a, veremos que o Verbo é a fonte da vida, tanto física quanto espiritual e eterna. Essa verdade evidencia a sua autossuficiência, atributo que confirma a sua natureza divina.

Por fim, com base em João 1.4–5, veremos que o Verbo é a luz dos homens. Essa simbologia revela o seu caráter divino e afirma que as trevas não prevalecem contra Ele.

1. O agente da criação. Desde o relato da criação em Gênesis, as Escrituras revelam Deus como o Criador de todas as coisas. À luz do Novo Testamento, compreendemos que essa obra criadora foi realizada por meio do Filho, que atua como o Agente da criação. No primeiro capítulo de Gênesis, vemos que Deus criou todas as coisas: céu, terra, mares e tudo o que neles há. O Filho não está incluído entre as coisas criadas, pois Ele é Criador e não criatura.

O apóstolo João afirma claramente essa verdade ao declarar:

 “Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3).

Nessa mesma linha de pensamento, o apóstolo Paulo escreveu aos colossenses:

 “Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele” (Cl 1.16,17).

Essas declarações evidenciam que o Filho criou não apenas as coisas visíveis do universo, mas também as invisíveis, como os anjos. Essa verdade bíblica refuta diretamente o arianismo, doutrina surgida no século IV que ensinava que o Filho teria sido criado em algum momento da eternidade. 

À luz das Escrituras, fica claro que nunca houve um tempo em que o Verbo não existisse. Ele é Deus, eterno e jamais foi criado, pois é o Criador de todas as coisas. O próprio Jesus testemunhou essa verdade ao orar pelos seus discípulos, quando falou ao Pai acerca da glória que tinha com Ele antes que o mundo existisse (Jo 17.5).

2. A fonte da vida. Depois de afirmar que o Verbo criou todas as coisas, o evangelista João declara:

 “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1.4).

Essa declaração é de grande relevância teológica, pois evidencia que o Verbo é autoexistente, isto é, possui a vida em Si mesmo e é o doador da vida. Segundo o comentário da Bíblia de Estudo Pentecostal, “a ‘vida’ (gr. zōē) é um dos temas centrais do Evangelho de João, aparecendo 36 vezes. Jesus é descrito como o Pão da Vida (Jo 6.35,48) e a Água da Vida (Jo 4.10,11; 7.38). Suas palavras são palavras de vida eterna (Jo 6.68). Ele é quem dá a vida (Jo 6.33; 10.10), e essa vida é um dom de Cristo (Jo 10.28).”

O próprio Jesus confirmou essa verdade em diversos episódios registrados no Evangelho segundo João. Pouco antes de ressuscitar Lázaro, Jesus afirmou a Marta, sua irmã:“Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11.25).

No capítulo 14 desse mesmo Evangelho, Jesus reafirma aos seus discípulos que Ele é a vida (Jo 14.6). Ele não é apenas o doador da existência física, mas o concedente da vida eterna e plena em comunhão com Deus. Somente Deus pode fazer tal afirmação a respeito de Si mesmo, pois a vida e a morte estão sob o Seu domínio. É o Senhor quem dá a vida e quem a tira (1 Sm 2.6). Esta afirmação de que Jesus é a vida, confirma mais uma vez a sua divindade. 

Quando Jesus afirmou: "Eu Sou a vida”, não se referia apenas à vida física, mas à vida eterna concedida àqueles que nEle creem. Na Escritura, o conceito de vida vai muito além do intervalo entre a concepção e a morte física. Nem sempre o termo vida apresenta o mesmo significado. 

Conforme a Concordância Bíblica de Strong, o vocábulo grego zoe, traduzido por “vida” no Novo Testamento, refere-se à vida em seu sentido mais pleno, abrangendo tanto a dimensão física quanto a espiritual. Esse termo é frequentemente utilizado para descrever a vida eterna concedida por meio da fé em Jesus Cristo. Trata-se não apenas de uma existência sem fim, mas de uma vida abundante e plena, caracterizada por um relacionamento vivo e contínuo com Deus.

3. A luz dos homens. João menciona, já no prólogo do seu Evangelho, que “a vida era a luz dos homens” (Jo 1.4b). No Antigo Testamento, Deus é apresentado como “luz”: “O SENHOR é a minha luz e a minha salvação; a quem temerei?…” (Sl 27.1a).

Em outros textos, a Palavra de Deus também é descrita como “luz”: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e luz, para o meu caminho” (Sl 119.105).

O Novo Testamento reafirma essa verdade em relação a Deus: “E esta é a mensagem que dele ouvimos e vos anunciamos: que Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” (1 Jo 1.5).

O próprio Jesus afirmou ser a Luz: “Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8.12).

A metáfora da luz é recorrente no Evangelho segundo João. O Comentário da Bíblia o de Estudo Pentecostal (CPAD) enfatiza que “a ‘luz’ (gr. phōs) é mencionada 23 vezes no Evangelho de João, mais do que em qualquer outro livro do Novo Testamento. A vida de Jesus é a luz para todas as pessoas, o que significa que Ele revelou Deus e os Seus planos para a nossa existência, mostrando-nos o caminho de volta a Ele”.

Na Bíblia, a luz também expressa a ideia de perfeição moral absoluta. A afirmação do apóstolo João de que Deus é luz e não há nEle trevas nenhumas indica que Ele é absolutamente santo, isento de qualquer maldade, impureza ou falha em Seu caráter. O mesmo se aplica ao Filho, pois Ele é Deus e possui a mesma natureza do Pai.

Ev. WELIANO PIRES

05 fevereiro 2026

O VERBO COMO DEUS ETERNO

(Comentário do 1º tópico da Lição 6: O Filho como o Verbo de Deus)

No primeiro tópico, abordaremos o Verbo como Deus eterno. Inicialmente, trataremos da preexistência do Verbo, com base na expressão joanina: “No princípio, era o Verbo” (Jo 1.1a).

Em seguida, analisaremos a distinção entre o Verbo e o Pai, a partir da afirmação de João: “o Verbo estava com Deus” (Jo 1.1b), demonstrando que o Verbo não é o próprio Deus Pai, mas uma pessoa distinta.

Por fim, examinaremos a declaração final do versículo: “o Verbo era Deus” (Jo 1.1c), evidenciando que o Verbo possui a mesma essência divina do Pai.

1. O Verbo preexistente. Neste subtópico, o comentarista observa que o prólogo do Evangelho segundo João é frequentemente denominado “Hino ao Logos”. Tal designação decorre de uma discussão teológica relacionada à estrutura literária do texto, marcada pelo paralelismo semítico característico da literatura bíblica.

Alguns estudiosos defendem que essa perícope de João 1.1–18 consistia originalmente em um hino cristão primitivo, posteriormente incorporado por João ao seu Evangelho. Outros, porém, entendem que o próprio apóstolo João tenha composto esse hino como prólogo, a fim de introduzir e antecipar os principais temas do livro.

O prólogo de um livro é a parte introdutória que antecede o corpo principal da obra e tem por finalidade preparar o leitor para o seu conteúdo. No âmbito bíblico e teológico, o prólogo frequentemente assume a função de síntese teológica da obra. 

Nesse sentido, Luciane da Silva Neves Paes Leme afirma que “o prólogo é uma introdução ao evangelho de João, porém uma introdução que já aparece como síntese de tudo aquilo que será discutido durante todo o escrito joanino”.

O comentarista dedica-se, neste subtópico, à análise da primeira parte de João 1.1, que declara: “No princípio era o Verbo”. A expressão “no princípio”, utilizada por João, remete deliberadamente ao início do livro de Gênesis: “No princípio criou Deus os céus e a terra” (Gn 1.1).

Em Gênesis 1.1, a expressão hebraica bereshit refere-se ao início da criação, quando Deus trouxe à existência os céus e a terra. João, entretanto, ao empregar a expressão grega en archē, não se limita a um ponto inicial no tempo, mas aponta para a eternidade passada, indicando uma existência infinita, sem começo e sem fim.

De acordo com a Concordância de Strong, a preposição en pode significar “em”, “por” ou “com”. O substantivo archē, por sua vez, possui diversos significados, tais como: começo, origem; aquele que dá início a algo; a primeira pessoa ou coisa em uma série; líder; princípio governante; causa ativa; bem como principado, domínio ou autoridade.

Assim, quando João afirma: “No princípio era o Verbo”, ele não se refere a um evento localizado no tempo, mas apresenta o Filho de Deus como o Princípio de todas as coisas. Trata-se de uma afirmação cristológica que ressalta a eternidade do Logos, pois tudo tem nele a sua origem e existência.

2. O Verbo como pessoa distinta. Na segunda parte de João 1.1, lemos que “o Verbo estava com Deus”. Nesse texto, o termo “Deus” refere-se ao Pai, enquanto o Verbo é identificado como o Filho. João deixa claro que o Verbo estava em comunhão com o Pai, evidenciando uma distinção pessoal entre ambos. Assim, o evangelista afirma que o Verbo não é o próprio Pai, mas uma Pessoa distinta, embora da mesma essência divina, conforme veremos no próximo subtópico. 

A distinção pessoal dentro da unidade divina é amplamente confirmada por diversos acontecimentos e declarações ao longo do Novo Testamento, os quais demonstram que, embora sejam Pessoas distintas, não se trata de deuses diferentes. Um exemplo claro encontra-se na chamada Oração Sacerdotal de Jesus, registrada em João 17, na qual o Filho dirige-se ao Pai, confirmando a distinção entre ambos. Jesus declara: 

“Eu glorifiquei-te na terra, tendo consumado a obra que me deste a fazer. E agora glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que o mundo existisse” (Jo 17.4,5).

Nesse contexto, é evidente que Jesus não fala consigo mesmo, mas dirige-se ao Pai. Ele enfatiza que, antes da fundação do mundo, ambos já existiam em uma relação de comunhão, revelando simultaneamente unidade e distinção pessoal. 

Nos discursos de Jesus, especialmente na promessa do envio do Consolador, a distinção entre as três Pessoas da Trindade é novamente evidenciada. O Senhor afirma: 

“E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre” (Jo 14.16).

Nesse texto, Jesus distingue claramente a si mesmo como o Filho que roga ao Pai, ao mesmo tempo em que anuncia o envio do Espírito Santo. Tal declaração revela não apenas a distinção das Pessoas divinas, mas também o relacionamento harmonioso entre elas no plano da redenção.

Há ainda muitas outras passagens bíblicas que confirmam a distinção entre as Pessoas da Santíssima Trindade, como João 15.26, onde Jesus volta a mencionar o Espírito Santo, bem como diversas referências nas epístolas paulinas (cf. Ef 1.3–14; 2Co 1.21–22). Dessa forma, a doutrina de que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três Pessoas distintas, mas um só Deus, constitui um ensinamento central e claramente afirmado no Novo Testamento.

3. O Verbo é da mesma essência do Pai. O evangelista João conclui o primeiro versículo do seu Evangelho afirmando que “[…] o Verbo era Deus” (Jo 1.1c). Essa declaração revela uma verdade central da fé cristã: embora o Filho seja uma Pessoa distinta do Pai, Ele possui a mesma essência, natureza e glória divinas. Não se trata de semelhança moral ou funcional, mas de identidade de essência e natureza.

O Novo Testamento apresenta inúmeros textos que confirmam, de forma inequívoca, a divindade de Jesus Cristo. Um dos mais claros encontra-se em João 20.28. Após constatar pessoalmente a realidade da ressurreição, o apóstolo Tomé confessou: “Senhor meu, e Deus meu”. 

Essa declaração não foi corrigida nem rejeitada por Jesus. Caso fosse incorreta, o Senhor teria prontamente repreendido Tomé. Ao contrário, Ele recebeu essa confissão, confirmando sua legitimidade. Alguns que negam a divindade de Cristo argumentam que Tomé teria apenas expressado uma reação emocional de admiração, semelhante a expressões populares usadas hoje. No entanto, tal interpretação ignora o contexto histórico e religioso. 

Tomé era judeu, e, na tradição judaica, o nome de Deus não é usado de maneira leviana ou como mera exclamação. Ao chamar Jesus de “Senhor” (Kyrios) e “Deus” (Theós), Tomé empregou títulos reservados exclusivamente ao Deus verdadeiro, reconhecendo, assim, a plena divindade de Cristo.

Diante de textos como esse, torna-se evidente que as Escrituras afirmam claramente que Jesus é Deus. Negar essa verdade exige não apenas interpretações forçadas, mas também o enfraquecimento da autoridade bíblica. Ao longo da história, diferentes grupos tentaram reinterpretar ou modificar passagens bíblicas para adequá-las a sistemas doutrinários previamente estabelecidos.

Nesse contexto, destaca-se a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, produzida pela Sociedade Torre de Vigia. Nessa versão, algumas passagens bíblicas receberam traduções interpretativas que se afastam do texto original. Em João 1.1, por exemplo, onde o texto grego afirma claramente que “o Verbo era Deus”, foi introduzido um artigo indefinido inexistente no original, além do uso de inicial minúscula, com o objetivo de negar a plena divindade do Filho.

O mesmo ocorre em textos como Tito 2.13 (“o grande Deus e nosso Senhor Jesus Cristo”) e 2 Pedro 1.1 (“nosso Deus e Salvador Jesus Cristo”), nos quais a estrutura gramatical do grego aponta para uma única Pessoa, Jesus Cristo, identificado como Deus e Salvador. Alterações nessas passagens resultam em interpretações que não refletem com fidelidade o sentido original.

Em 1 João 5.20, lemos: “E sabemos que já o Filho de Deus é vindo, e nos deu entendimento para conhecermos o que é verdadeiro; e no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.”

Diante da clareza dessa afirmação do apóstolo João e, não havendo como negar que esse texto afirma, de maneira explícita, a divindade de Jesus, a Sociedade Torre de Vigia simplesmente o suprimiu da Tradução do Novo Mundo. Ora, a Bíblia, em harmonia do início ao fim, afirma que Jesus é o verdadeiro Deus. Essa verdade é fundamental para a fé cristã, pois somente sendo Deus o Filho poderia revelar plenamente o Pai, vencer o pecado e conceder vida eterna aos que nele creem.

Referência:

LEME, Luciane da Silva Neves Paes. A Doutrina do Logos e o Prólogo de João: uma perspectiva no método histórico-gramatical da exegese bíblica. Curitiba: Revista Teológica Pneuma, 2022, p. 127.

Ev. WELIANO PIRES 

03 fevereiro 2026

INTRODUÇÃO À LIÇÃO 6: O FILHO COMO O VERBO DE DEUS

 Data: 8 de fevereiro de 2026

TEXTO ÁUREO

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.” (Jo 1.14).

VERDADE PRÁTICA

Jesus Cristo, o Verbo eterno, é a revelação plena e visível de Deus ao mundo, manifestando graça, verdade e a glória do Pai.

LEITURA BÍBLICA EM CLASSE: João 1.1-5,14.

OBJETIVOS DA LIÇÃO:

I) Explicar a preexistência e a divindade do Verbo; 

II) Mostrar a atuação do Verbo na criação e como fonte de vida e luz; 

III) Ressaltar que o Verbo encarnado é a plena revelação do Pai.

INTRODUÇÃO

Nesta segunda lição sobre o Deus Filho, estudaremos Jesus Cristo como o Verbo eterno de Deus, que é plenamente Deus e se fez plenamente humano. Tomando como base o prólogo do Evangelho segundo João (João 1.1-18), que é dos mais profundos tratados sobre a Pessoa de Cristo das Escrituras. 

A abordagem de João é diferente dos Evangelhos Sinóticos, pois ele inicia o seu relato não com o nascimento histórico de Jesus, mas aborda a sua existência eterna e a sua relação com Deus Pai, antes da criação. João faz afirmações fundamentais sobre a Pessoa de Cristo neste trecho do Evangelho: Ele é eterno, distinto do Pai, divino, criador, revelador do Pai e encarnado, assumindo a humanidade sem deixar de ser Deus.

PALAVRA-CHAVE: VERBO

A palavra verbo deriva do latim verbum, que significa “palavra”, “termo” ou “expressão”. Inicialmente, o termo latino designava qualquer palavra, mas, posteriormente, passou a ser usado como classe gramatical que expressa ação, estado ou fenômeno. Na língua portuguesa, o verbo indica, portanto, ação, estado ou acontecimento, funcionando como o núcleo da oração.

No grego antigo, havia duas palavras traduzidas por “palavra” ou “verbo”: lógos e rhêma . O termo lógos possuía uma ampla variedade de significados para os gregos, muito além do sentido de “verbo” em português: podia indicar palavra, discurso, razão, argumento, sentido ou princípio racional. Já o termo rhêma significava aquilo que é dito, enunciado, fala em ato, ou, no contexto gramatical, verbo.

Nas Escrituras hebraicas, o termo dābār abrange os sentidos de palavra, fala, ação e evento. Na Septuaginta — versão grega do Antigo Testamento — dābār foi traduzido tanto por lógos quanto por rhêma, conforme o contexto. Para os judeus, dābār era o agente da criação, conforme explica o teólogo Matthew Henry, em seu comentário sobre o texto de João 1:

“Pela palavra [Dābār] do Senhor foram feitos os céus, e todo o exército deles pelo espírito da sua boca” (Sl 33.6). 

Além de ser agente criador, dābār também era a fonte da mensagem de Deus ao seu povo, transmitida por intermédio dos profetas, como em Oséias 1.2:

“O princípio da palavra do Senhor por Oséias…”.

No Salmo 119.105, dābār representa a lei de Deus, ou seja, sua norma de santidade:

“Lâmpada para os meus pés é tua palavra [Dābār] e luz para o meu caminho”.

No contexto desta lição, estudaremos o sentido do termo lógos, usado por João no capítulo 1 do Evangelho. Enquanto para os gregos o Logos era um princípio racional que ordenava o mundo, para os judeus o Dābār era o agente criador e a própria Palavra de Deus. Diferentemente do conceito grego e hebraico, João apresenta o Verbo como preexistente, pessoal, divino, distinto do Pai e encarnado.

Assim, ao empregar o termo lógos, João estabelece uma ponte entre o pensamento hebraico e o grego, mas ao mesmo tempo revela uma verdade teológica única: o Verbo não é impessoal nem abstrato. Para os judeus, seria impossível conceber que Jesus pudesse ser o Dābār, e, para os gregos, seria absurda a ideia de humanizar o Logos. João, entretanto, mostra que o Verbo eterno se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14), revelando a encarnação de Deus em Jesus Cristo.

TÓPICOS DA LIÇÃO 

I. O VERBO COMO DEUS ETERNO

No primeiro tópico, abordaremos o Verbo como Deus eterno. Inicialmente, trataremos da preexistência do Verbo, com base na expressão joanina: “No princípio, era o Verbo” (Jo 1.1a).

Em seguida, analisaremos a distinção entre o Verbo e o Pai, a partir da afirmação de João: “o Verbo estava com Deus” (Jo 1.1b), demonstrando que o Verbo não é o próprio Deus Pai, mas uma pessoa distinta.

Por fim, examinaremos a declaração final do versículo: “o Verbo era Deus” (Jo 1.1c), evidenciando que o Verbo possui a mesma essência divina do Pai.

II. O VERBO COMO CRIADOR

No segundo tópico, abordaremos o Verbo como Criador. Com base em João 1.3, demonstraremos que o Verbo é o agente da criação, o que comprova a sua divindade, uma vez que Gênesis 1 afirma que Deus é o Criador de todas as coisas.

Em seguida, à luz de João 1.4a, veremos que o Verbo é a fonte da vida, tanto física quanto espiritual e eterna. Essa verdade evidencia a sua autossuficiência, atributo que confirma a sua natureza divina.

Por fim, com base em João 1.4–5, veremos que o Verbo é a luz dos homens. Essa simbologia revela o seu caráter divino e afirma que as trevas não prevalecem contra Ele.

III. O VERBO COMO REVELAÇÃO DO PAI

No terceiro tópico, abordaremos o Verbo como a revelação do Pai. Inicialmente, trataremos da encarnação do Verbo, com base na afirmação de João: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória” (Jo 1.14a).

Em seguida, falaremos do Verbo como a plenitude da graça e da verdade, conforme a declaração: “Vimos a sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14b).

Por fim, apresentaremos o Verbo como o revelador do Deus invisível, com base em João 1.18, que afirma: “Deus nunca foi visto por alguém; o Filho unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou”.

Bons estudos!

Ev. WELIANO PIRES 

O FILHO COMO O VERBO DE DEUS

(Subsídio da Revista Ensinador Cristão /CPAD)

Esta lição tem como finalidade apresentar maiores detalhes da Pessoa de Jesus como o Verbo de Deus encarnado. Ele é a revelação plena e visível de Deus neste mundo. A introdução do Evangelho de João ratifica a coexistência de Jesus e Sua participação com o Pai na criação (Gn 1.1,26). Cristo não veio a existir, mas sempre existiu e estava com o Pai na criação de todas as coisas (Jo 1.2,3). 

Essa é uma das verdades basilares da fé cristã que os hereges tentam distorcer. Há grupos, inclusive, que interpretam equivocadamente o capítulo 1 do Evangelho de João e afirmam que o Verbo era “um” deus, classificando o Senhor Jesus como uma Pessoa menor em relação a Deus Pai. Contudo, reafirmamos de forma contundente que o Senhor Jesus exerce Seu papel de Filho Unigênito como Pessoa da Trindade possuindo a mesma essência do Pai e é Deus em Sua totalidade. 

A importância de crer nesse ensino é indispensável para vida cristã, tendo em vista que a fé em Jesus é o meio pelo qual somos transformados pelo poder do Espírito Santo e recebemos o poder de sermos filhos de Deus (Jo 1.12). A Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal, publicada pela CPAD, discorre: 

Em João 1.12, lemos: “Mas a todos quantos o receberam deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus: aos que creem no seu nome”. Em outras palavras, Jesus estava redefinindo toda a realidade de alguém tornar-se filho de Deus. Até aquele momento, a pessoa precisava nascer especificamente no povo de Israel, chamado segundo a aliança (ou pelo menos afiliar-se a ele), para ter aquela oportunidade.

João, porém, enfatiza que a mensagem espiritual — o Evangelho poderoso — chegara às pessoas, e que elas haviam recebido Jesus, o Logos. Recebê-lo importava em obter o direito ou autoridade de se tornar filho de Deus. Alguns dos que o receberam eram judeus, e outros eram gentios. Jesus derrubou o muro divisório e franqueou a salvação a todos os que desejassem chegar a Ele e recebê-lo pela fé (Jo 1.13) (2021, p. 309).

Este critério foi definido pelo próprio Deus em Sua Palavra e é uma verdade inegociável. Se queremos ter e manter nossa comunhão com o Pai, precisamos preservar a fé e a comunhão com Seu Filho Unigênito, bem como nutrir a intimidade com a Pessoa do Espírito Santo.

À medida que conhecemos e desenvolvemos nosso relacionamento com Jesus, prosseguimos em conhecer o próprio Pai (Jo 14.8–9). E, como testemunhas do Seu amor, compartilhamos essa verdade com o mundo, para que todos conheçam que só podem ter o Pai se receberem e crerem em Seu Filho Unigênito (1Jo 2.23).

O DEUS ESPÍRITO SANTO

SUBSÍDIOS DA REVISTA ENSINADOR CRISTÃO / CPAD Nesta oportunidade, estudaremos sobre a Pessoa do Espírito Santo, que, juntamente com o Pai e ...