(Comentário do 3⁰ tópico da Lição 5 Cristo entre os filósofos – O Deus desconhecido se revela).
No Areópago de Atenas, Paulo fez um discurso com sabedoria e ousadia, apresentando a verdade acerca do Deus Criador, do arrependimento e da ressurreição de Jesus Cristo (At 17.22-31; 1 Co 1.22-25).
Em Atenas, o apóstolo não apenas apresentou Cristo como Salvador, mas também refutou conceitos incompatíveis com a revelação divina, demonstrando que somente o Deus verdadeiro deve ser conhecido, adorado e obedecido (At 17.22-31; Cl 2.8).
Por fim, fez um chamado ao arrependimento, anunciando também que o Deus que ele anunciava ali, estabeleceu um dia em que julgará a humanidade, através de Jesus Cristo.
1. Observação cultural como ponto de contato com o Evangelho (At 17.22,23).
Antes de iniciar a evangelização dos atenienses, o apóstolo Paulo percorreu a cidade e observou atentamente a religiosidade dos seus habitantes e a grande quantidade de altares dedicados às mais diversas divindades (At 17.16,23). Essa observação cuidadosa tornou-se o ponto de partida para sua abordagem evangelística.
Os gregos eram politeístas e cultuavam inúmeros deuses, aos quais atribuíam diferentes áreas da vida, como amor, sabedoria, justiça, guerra, agricultura e beleza. Entre os diversos altares, Paulo encontrou um com a inscrição: "AO DEUS DESCONHECIDO" (At 17.23).
Com grande sabedoria, o apóstolo utilizou esse altar como introdução ao seu discurso no Areópago. Declarou que o Deus a quem eles adoravam sem conhecer era exatamente aquele que lhes anunciava (At 17.23-31). Paulo contextualizou sua mensagem, partindo de um elemento conhecido pelos atenienses, mas sem alterar o conteúdo do Evangelho. Ao contrário, conduziu seus ouvintes ao conhecimento do único Deus verdadeiro, Criador dos céus e da terra (At 17.24-25; Is 45.5,6).
Esse episódio ensina que a evangelização eficaz requer sensibilidade para compreender o contexto cultural, filosófico e religioso dos ouvintes. Entretanto, contextualizar não significa adaptar ou modificar a mensagem do Evangelho. A mensagem permanece imutável; o que pode variar é a forma de apresentá-la, para que seja compreendida por diferentes públicos (1Co 9.19-23; Rm 1.16).
2. O Deus Criador, Sustentador e Senhor da história (At 17.24-29).
Depois de observar os altares dos atenienses e utilizar, de forma estratégica, o altar ao "Deus desconhecido" como ponto de partida para sua mensagem, Paulo passou a apresentar quem é o verdadeiro Deus, destacando alguns de seus atributos. Diferentemente dos judeus, que possuíam as Escrituras, os gregos desconheciam a revelação do Deus de Israel. Embora o comentarista enfatize Deus como Criador, Sustentador e Senhor da História, o sermão paulino apresenta outros importantes atributos divinos.
O primeiro aspecto destacado por Paulo é que Deus é o Criador de todas as coisas e o Senhor soberano do universo: "O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, sendo Senhor do céu e da terra..." (At 17.24). Essa declaração confrontava tanto a religião politeísta predominante em Atenas quanto as principais correntes filosóficas da época. Os epicureus admitiam a existência dos deuses, mas acreditavam que eles viviam afastados do mundo e não interferiam na vida humana. Já os estóicos concebiam a divindade como um princípio impessoal presente na natureza, caracterizando uma visão panteísta. Paulo, porém, anunciou o Deus único, pessoal, Criador e Senhor de todas as coisas (Gn 1.1; Is 42.5; Cl 1.16,17).
Em seguida, o apóstolo destaca a transcendência e a autossuficiência de Deus: "Não habita em templos feitos por mãos de homens; nem tampouco é servido por mãos de homens, como que necessitando de alguma coisa..." (At 17.24,25). Deus está infinitamente acima da criação e não pode ser limitado por templos, imagens ou conceitos humanos. Ao mesmo tempo, Ele é plenamente suficiente em si mesmo, não dependendo de sua criação para existir ou agir (1 Rs 8.27; Sl 50.12; Is 66.1,2).
Paulo também ensina a unidade da raça humana ao afirmar que Deus "de um só fez toda a geração dos homens, para habitar sobre toda a face da terra" (At 17.26). Todos os povos têm uma mesma origem e compartilham a mesma dignidade diante do Criador. Essa verdade bíblica fundamenta o valor da vida humana e demonstra que Deus é Senhor de todas as nações (Gn 1.26,27; Ml 2.10). A doutrina bíblica da criação, apresentada em Gênesis 1 e 2, confirma que o ser humano foi criado diretamente por Deus, à sua imagem e semelhança (Gn 1.26,27; 2.7; Hb 11.3).
Na sequência, Paulo ressalta a soberania de Deus sobre a história e sua revelação aos homens: Deus estabeleceu "os tempos já dantes ordenados e os limites da sua habitação; para que buscassem ao Senhor..." (At 17.26,27). O Senhor governa a história, dirige o curso das nações e se revela de tal maneira que os homens possam conhecê-lo, revelação que alcança sua plenitude em Jesus Cristo (Dn 2.21; Rm 1.19,20; Hb 1.1,2).
Outro atributo destacado é a imanência de Deus: "Porque nele vivemos, e nos movemos, e existimos" (At 17.28). Embora seja transcendente, Deus também está presente em sua criação, sustentando continuamente a vida. Para reforçar essa verdade, Paulo cita poetas gregos conhecidos pelos seus ouvintes: "Porque dele também somos geração". Ao utilizar uma referência da própria cultura ateniense, o apóstolo estabelece uma ponte para anunciar o Evangelho, sem comprometer a verdade das Escrituras. Essa estratégia demonstra que o conhecimento da cultura pode ser um importante instrumento para comunicar a mensagem de Cristo (Cl 1.17; Hb 1.3).
Por fim, Paulo condena a idolatria, tão presente na cultura ateniense: "Não havemos de cuidar que a Divindade seja semelhante ao ouro, à prata ou à pedra esculpida por artifício e imaginação dos homens" (At 17.29). O Deus verdadeiro é infinitamente superior à criação e proibiu qualquer representação destinada à adoração (Êx 20.3-5; Is 40.18-20). Sendo Espírito, deve ser adorado "em espírito e em verdade" (Jo 4.24).
Após apresentar quem é o verdadeiro Deus, Paulo conclui seu sermão com um solene chamado ao arrependimento e com o anúncio do juízo vindouro, mostrando que o conhecimento de Deus exige uma resposta de fé e obediência (At 17.30,31). Discorreremos sobre este ponto no próximo subtópico.
3. O chamado ao arrependimento e o anúncio do Juízo (At 17.30,31).
Após apresentar quem é o verdadeiro Deus, Paulo concluiu seu sermão fazendo um chamado ao arrependimento: "Mas Deus, não tendo em conta os tempos da ignorância, anuncia agora a todos os homens, em todo lugar, que se arrependam" (At 17.30). O apóstolo deixou claro que o conhecimento de Deus exige uma resposta humana: abandonar os falsos caminhos e voltar-se para o Senhor.
O arrependimento é um elemento central da mensagem do Evangelho. João Batista iniciou seu ministério anunciando: "Arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus" (Mt 3.2). O próprio Senhor Jesus iniciou sua pregação com a mesma mensagem: "O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no evangelho" (Mc 1.15). Da mesma forma, os apóstolos convocaram seus ouvintes ao arrependimento e à fé em Cristo (At 2.38; 3.19; 20.21).
Em seguida, Paulo anunciou que Deus julgará o mundo com justiça por meio de Jesus Cristo, "do varão que destinou; e disso deu certeza a todos, ressuscitando-o dos mortos" (At 17.31). A ressurreição de Cristo é a confirmação pública de sua autoridade como Senhor e Juiz de toda a humanidade (Rm 14.9,10; 2 Co 5.10). Essa verdade faz parte essencial da mensagem cristã: o mesmo Cristo que oferece salvação aos pecadores também voltará para julgar com justiça (Jo 5.22-29; 2 Tm 4.1).
A doutrina do juízo divino é rejeitada por muitos porque confronta a ideia de autonomia humana e a tentativa de viver sem prestar contas a Deus. Entretanto, as Escrituras afirmam claramente que todos comparecerão diante do Senhor e que haverá uma separação definitiva entre os que rejeitam a graça divina e aqueles que creem em Cristo (Hb 9.27; Ap 20.11-15).
A mensagem de Paulo provocou diferentes reações entre os ouvintes. Alguns zombaram quando ouviram falar sobre a ressurreição dos mortos; outros demonstraram interesse e desejaram ouvir mais; e alguns creram e se uniram ao apóstolo, entre eles Dionísio, o areopagita, e uma mulher chamada Dâmaris (At 17.32-34). Essa diversidade de respostas nos ensina que a proclamação do Evangelho deve ser feita com fidelidade, pois o resultado pertence ao agir de Deus no coração dos ouvintes (1 Co 3.6,7).
Como servos de Cristo, não podemos abandonar a missão de anunciar o Evangelho por causa da rejeição. A mensagem da salvação continua sendo necessária em uma sociedade que frequentemente rejeita a autoridade de Deus. O nosso compromisso é proclamar a verdade com amor e fidelidade, sabendo que alguns crerão, enquanto outros rejeitarão a mensagem (2 Tm 4.2-5).
Ev. WELIANO PIRES
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