Neste segundo tópico, trataremos da inveja dos vizinhos de Isaque na terra dos filisteus e de como o patriarca lidou com essa situação, evitando o confronto. Dominados pelo sentimento maligno da inveja, os filisteus praticaram atos de sabotagem contra Isaque, entulhando os poços que haviam sido cavados nos dias de Abraão, seu pai (Gn 26.15).
Entretanto, Isaque estava debaixo da proteção e da bênção de Deus. Apesar das dificuldades existentes naquela região, o Senhor prosperou grandemente o patriarca, e ele se tornou poderoso naquela terra (Gn 26.12-14). Ao reabrir os poços que os filisteus haviam entulhado após a morte de Abraão, Isaque deu-lhes os mesmos nomes anteriormente atribuídos por seu pai, preservando, assim, a memória patriarcal (Gn 26.18).
Todavia, os pastores de Gerar contenderam com os servos de Isaque, reivindicando para si a posse das fontes descobertas (Gn 26.19-21). Mesmo diante da oposição e das disputas, Isaque preferiu agir com prudência e evitar conflitos com os filisteus, afastando-se para cavar novos poços até encontrar um lugar onde pudesse habitar em paz (Gn 26.22).
1. A inveja dos filisteus. Isaque deixou temporariamente a terra prometida por causa da fome, conforme vimos no tópico anterior. Entretanto, obedecendo à ordem divina, não desceu ao Egito, dirigindo-se para a terra dos filisteus (Gn 26.1-6). Naquela região, Deus o prosperou grandemente, de modo que Isaque se tornou poderoso entre os habitantes da terra (Gn 26.12-14).
As principais atividades econômicas de Isaque eram a agricultura e a pecuária, ambas dependentes do abastecimento de água. Por essa razão, a abertura de poços era indispensável naquela região. Todavia, encontrar água naquele contexto não era uma tarefa simples, pois não havia os recursos tecnológicos existentes na atualidade. Além das dificuldades naturais, Isaque ainda precisou enfrentar a inveja dos filisteus, que entulharam os poços cavados pelos servos de Abraão e posteriormente reabertos por seus próprios servos (Gn 26.15,18).
A prosperidade espiritual e material pode despertar oposição e inveja entre as pessoas. Nem todos se alegram com as bênçãos concedidas por Deus aos seus servos. Por isso, o crente deve agir com prudência e sabedoria em relação à sua vida pessoal e às bênçãos recebidas do Senhor. Embora a inveja, por si só, não tenha poder para destruir aqueles que estão debaixo da proteção divina, as atitudes motivadas por esse sentimento podem causar prejuízos e conflitos.
As Escrituras apresentam diversos exemplos dos efeitos destrutivos da inveja. O pecado teve origem no coração do querubim ungido, que desejou ocupar o lugar de Deus e, por isso, foi expulso dos céus juntamente com os anjos que o seguiram em sua rebelião (Is 14.12-15; Ez 28.12-17; Ap 12.7-9). Da mesma forma, Caim, movido pela inveja, matou seu irmão Abel (Gn 4.1-8). Os irmãos de José, dominados pelo mesmo sentimento, venderam-no como escravo para se livrarem de sua presença (Gn 37.25-28). Também Saul, consumido pela inveja, perseguiu Davi e tentou matá-lo diversas vezes (1 Sm 18.6-11).
No Novo Testamento, o apóstolo Paulo classifica a inveja como uma das obras da carne e adverte que os que vivem na prática dessas obras não herdarão o Reino de Deus (Gl 5.19-21). Infelizmente, ainda hoje, muitos se deixam contaminar por esse sentimento pecaminoso e, movidos por rivalidade e ambição, perseguem, caluniam e tentam prejudicar até mesmo irmãos na fé. A postura bíblica, porém, deve ser de alegria e gratidão ao Senhor pelas bênçãos e dons concedidos aos outros membros do Corpo de Cristo (Rm 12.15; 1 Co 12.25,26).
2. Abençoado por Deus. O contexto de Gênesis 26 deixa claro que Isaque dominava a técnica de abrir poços, ainda que de maneira rudimentar, pois não havia, naquele tempo, os recursos tecnológicos existentes atualmente. Entretanto, o texto bíblico enfatiza que a prosperidade de Isaque não era resultado apenas de sua habilidade, mas principalmente da bênção de Deus sobre a sua vida: “E semeou Isaque naquela mesma terra, e colheu, naquele mesmo ano, cem medidas, porque o Senhor o abençoava” (Gn 26.12).
Isaque vivia debaixo da proteção e da provisão divina. Por isso, preferiu não contender com os filisteus pelos poços que havia aberto (Gn 26.20,21). Cada poço que se tornava alvo de disputa recebia um nome relacionado à circunstância enfrentada. O primeiro foi chamado Eseque, que significa “contenda”; o segundo, Sitna, que significa “inimizade” ou “acusação”; e o último, Reobote, que significa “lugares largos” ou “alargamento” (Gn 26.20-22).
Apesar das investidas dos inimigos, Isaque não revidou nem abandonou sua jornada. Pelo contrário, perseverou até encontrar um lugar onde pudesse habitar em paz. Sua atitude revela mansidão, sabedoria e confiança em Deus.
Cada um desses poços representa fases da caminhada de Isaque. Primeiro, ele enfrentou a contenda sem agir de maneira contenciosa. Depois, veio a tentativa de inimizade, mas ele prosseguiu sem alimentar conflitos. Finalmente, chegou a Reobote, o lugar de ampliação e descanso, onde cessaram as disputas.
Isaque nos ensina que aqueles que vivem debaixo da bênção do Senhor não precisam agir movidos pela vingança, pela disputa ou pelo espírito de competição, mas pela confiança na provisão e no cuidado divinos (Rm 12.18,19).
3. Isaque age com diplomacia. As atitudes mesquinhas e as constantes provocações dos filisteus deixam evidente que eles desejavam contender com Isaque. Entretanto, o patriarca agiu com sabedoria e diplomacia, evitando conflitos desnecessários. Ignorou as provocações, abriu mão de seus direitos em determinadas circunstâncias e preferiu a paz à guerra. A postura de Isaque ensina que nem toda batalha vale a pena e que o cristão deve buscar a paz sempre que possível (Rm 12.18; Hb 12.14).
Em muitas situações, é preferível abrir mão de uma discussão do que comprometer a paz da família, da igreja e da própria alma. A mansidão e o domínio próprio revelam maturidade espiritual e confiança em Deus (Pv 15.1; Mt 5.9).
Segundo o comentário da Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal sobre Gênesis 26, entulhar poços com terra e sujeira era considerado um ato de hostilidade grave, equivalente a uma declaração de guerra naquela cultura. Portanto, Isaque tinha motivos legítimos para revidar quando os filisteus arruinaram seus poços. Contudo, escolheu preservar a paz. Sua atitude paciente e equilibrada acabou despertando o respeito dos próprios adversários (Gn 26.26-29).
A atitude de Isaque revela a confiança de quem depende inteiramente da provisão divina. Em vez de alimentar contendas por interesses materiais, o patriarca preferiu preservar a paz, certo de que Deus continuaria suprindo todas as suas necessidades. A confiança no Senhor conduz à paz e à vitória (Is 26.3; Fp 4.19).
O exemplo de Isaque mostra que a verdadeira segurança do crente não está naquilo que possui, mas na fidelidade de Deus, que sustenta os seus servos em todas as circunstâncias (Sl 37.5; Lm 3.22,23). Quem confia na provisão do Senhor não vive dominado pela ansiedade de defender interesses pessoais a qualquer custo, pois sabe que Deus cuida daqueles que nele esperam.
Ev..WELIANO PIRES
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