(Comentário do 1⁰ tópico da Lição 7: Uma prova de fé- a entrega de Isaque)
Neste tópico, veremos que Abraão teve a sua fé provada por Deus. Ao longo de sua caminhada, ele passou por diversas provas. Os rabinos judeus apontam pelo menos dez experiências que testaram a fé de Abraão, entre elas: a fome ao chegar a Canaã, o assédio de Faraó e Abimeleque contra Sara, a esterilidade de sua esposa e a despedida de Ismael.
Entretanto, sem dúvida, a maior prova da fé de Abraão foi a que estudaremos nesta lição, registrada em Gênesis 22.1-14. Isaque já era um jovem de aproximadamente vinte anos, enquanto Abraão era um homem idoso, com cerca de cento e vinte anos, quando Deus lhe ordenou que oferecesse seu filho em holocausto.
Abraão ouviu a voz de Deus, levantou-se de madrugada e obedeceu sem questionar. Demonstrou amor, submissão e confiança incondicional no Senhor, colocando a vontade divina acima do amor que tinha por seu filho. Ele conduziu o sacrifício até o momento final, mas não o consumou porque Deus o impediu.
Embora fosse um homem de fé, chamado pelo próprio Deus de “meu amigo” (Is 41.8) e reconhecido como o pai da fé, Abraão não era perfeito. Ele também teve falhas, assim como todos nós. Contudo, sua fé foi provada, amadurecida e aperfeiçoada.
1. Deus manda Abraão sacrificar Isaque. O comentarista afirma, no título deste tópico, que Abraão teve a sua fé provada. Entretanto, o texto bíblico declara que Deus tentou Abraão:
“E aconteceu, depois destas coisas, que tentou Deus a Abraão e disse-lhe: Abraão! E ele disse: Eis-me aqui.” (Gn 22.1 — ARC)
No Novo Testamento, ao tratar sobre a tentação, Tiago escreveu:
“Ninguém, sendo tentado, diga: De Deus sou tentado; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e a ninguém tenta.” (Tg 1.13 — ARC)
Lendo esses dois textos na versão Almeida Revista e Corrigida (ARC), percebe-se uma aparente contradição. Em Gênesis 22.1, o texto afirma que Deus tentou Abraão; já em Tiago 1.13, está escrito que Deus a ninguém tenta. Afinal, Deus tenta ou não?
A palavra hebraica traduzida na ARC por “tentou” é naçah, termo que pode significar testar, provar, examinar ou tentar. Trata-se de uma palavra polissêmica, isto é, possui diferentes significados, definidos de acordo com o contexto. Quando relacionada à ação divina, o sentido de naçah é o de provar ou testar com propósitos pedagógicos e espirituais. Deus jamais induz alguém ao pecado. Essa é a obra do inimigo.
Abraão e Sara viram a promessa divina cumprir-se no tempo determinado por Deus. Depois disso, acompanharam o crescimento de Isaque, que se tornou um jovem obediente ao Senhor e aos seus pais. Quando tudo parecia estar plenamente estabelecido, Deus chamou Abraão e ordenou que ele oferecesse o filho da promessa em holocausto.
Nesse tipo de sacrifício, o animal era morto, seu sangue era derramado e, posteriormente, o corpo era completamente queimado sobre o altar. Embora o sacrifício humano fosse praticado em algumas religiões pagãs da antiguidade, Deus sempre abominou tal prática. Mais tarde, na Lei mosaica, esse pecado seria severamente condenado.
Certamente, Deus não desejava que Abraão sacrificasse literalmente o seu filho. O propósito divino era provar até onde iria a obediência e a confiança do patriarca. Abraão precisava demonstrar que estava disposto a entregar ao Senhor aquilo que possuía de mais precioso, inclusive Isaque, o filho da promessa.
Essa experiência revela não apenas a profundidade da fé de Abraão, mas também aponta profeticamente para o sacrifício de Cristo. Assim como Isaque foi entregue por seu pai, Jesus Cristo, o Filho unigênito de Deus, foi entregue para a salvação da humanidade. Desse modo, o episódio do monte Moriá possui profundo significado espiritual e redentor.
2. Abraão obedece sem questionar. Deus falou com Abraão e lhe deu uma ordem extremamente difícil: oferecer Isaque em sacrifício. Ao receber a direção divina, Abraão obedeceu sem questionar. Levantou-se de madrugada, preparou a lenha, chamou dois de seus servos e Isaque, seu filho, selou o jumento para a viagem e percorreu cerca de setenta quilômetros até chegar à terra de Moriá.
Abraão não contou nem a Sara nem a Isaque acerca da ordem recebida do Senhor. Caso o fizesse, ambos poderiam opor-se ao propósito divino. A confiança de Abraão em Deus levou-o a guardar segredo sobre aquele plano, pois cria firmemente que o Senhor poderia livrar Isaque da morte ou até mesmo ressuscitá-lo. O escritor da Epístola aos Hebreus confirma esse entendimento ao declarar que Abraão considerou que Deus era poderoso para até dentre os mortos ressuscitar Isaque (Hb 11.17-19).
Após três dias de viagem, suportando profunda angústia no coração, Abraão aproximou-se do lugar do sacrifício. Ao avistar o local de longe, disse aos seus servos: “Eu e o moço iremos até ali; e, havendo adorado, tornaremos a vós” (Gn 22.5). Mais uma vez, Abraão demonstrou plena confiança em Deus, pois acreditava que Isaque retornaria com ele. Por isso afirmou: “tornaremos a vós”, e não “tornarei a vós”.
3. Abraão não era perfeito. Quando lemos as histórias dos heróis bíblicos, temos a tendência de imaginar que eram pessoas perfeitas e infalíveis. Entretanto, até mesmo os homens e mulheres mais piedosos tiveram falhas e vacilaram em determinados momentos, assim como nós, pois também eram seres humanos.
A Bíblia não é um livro de biografias humanas que esconde os erros de seus personagens e superestima suas qualidades. Pelo contrário, as Escrituras relatam com sinceridade as falhas de homens como Abraão, Isaque, Jacó, Moisés, Davi, Elias e Jonas. Abraão era, de fato, um homem de fé, mas também enfrentou momentos de fraqueza, medo e insegurança.
Em duas ocasiões, Abraão mentiu ao Faraó e a Abimeleque, afirmando que Sara era apenas sua irmã (Gn 12.10-20; 20.1-18). Com isso, expôs sua esposa ao risco de tornar-se concubina daqueles reis. Sara chegou a ser levada para os palácios, mas Deus, em sua misericórdia, a preservou e impediu que fosse tocada.
Ao longo de sua caminhada, Abraão também enfrentou dúvidas quanto ao cumprimento da promessa divina. Em determinado momento, cogitou que seu servo Eliézer seria o herdeiro prometido (Gn 15.2-6), apesar de Deus lhe ter assegurado que dele procederia uma grande descendência. Mais tarde, influenciado por Sara, tentou “ajudar” o cumprimento da promessa ao relacionar-se com Agar, serva de sua esposa (Gn 16.1-4).
Apesar de suas falhas, Abraão não permaneceu o mesmo homem. Deus trabalhou em seu caráter ao longo dos anos, moldando sua fé por meio das experiências, das renúncias e das provas. Aquele homem que em alguns momentos vacilou tornou-se exemplo de confiança e obediência ao Senhor.
Depois de uma longa jornada de amadurecimento espiritual, Deus submeteu Abraão à maior prova de sua vida: oferecer Isaque em sacrifício (Gn 22.1-18). Mesmo sem compreender plenamente os desígnios divinos, o patriarca obedeceu sem questionamentos e mostrou-se disposto a ir até as últimas consequências.
A verdadeira fé se manifesta por meio da obediência e da submissão à vontade de Deus. A vida de Abraão nos ensina que confiar no Senhor vai além das palavras; é permanecer fiel mesmo nos momentos mais difíceis. Deus permite provas em nossa caminhada não para nos destruir, mas para fortalecer a nossa fé e nos conduzir a um relacionamento mais profundo com Ele.
Deus não procura pessoas perfeitas, mas servos dispostos a confiar nEle acima das circunstâncias. Abraão teve falhas, dúvidas e limitações, porém decidiu perseverar na fé. Por isso, tornou-se conhecido como o pai da fé e exemplo para todos aqueles que desejam andar com Deus.
Ev. WELIANO PIRES
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