(Comentário do 2⁰ tópico da Lição 10: a experiência transformadora de Jacó)
No segundo tópico, falaremos a respeito das descobertas de Jacó, ou seja, das conclusões a que ele chegou após despertar do sono. Veremos o que Jacó compreendeu ao acordar daquele sonho extraordinário. Todas essas descobertas apontavam profeticamente para Cristo.
A primeira conclusão a que Jacó chegou foi que Deus estava presente naquele lugar, conforme ele mesmo declarou: “Na verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia” (Gn 28.16).
A segunda conclusão de Jacó foi que aquele lugar era a Casa de Deus. Por isso, ele deu àquele lugar o nome de Betel, que significa “Casa de Deus”, e declarou: “Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a Casa de Deus...” (Gn 28.17).
Por último, Jacó concluiu que o topo daquela escada representava o acesso aos céus, pois afirmou: “...e esta é a porta dos céus” (Gn 28.17c).
1. Jacó descobriu a presença de Deus.
Conforme vimos no tópico anterior, Jacó deixou a casa de seus pais às pressas, temendo a ameaça de morte feita por seu irmão Esaú. Ele não levou bens consigo e partiu sozinho, provavelmente a pé, para uma terra distante e desconhecida.
Jacó ainda não possuía um conhecimento pessoal de Deus, nem mantinha com Ele um relacionamento semelhante ao de seu pai Isaque e de seu avô Abraão. Pelo contrário, sua história era marcada por enganos e atitudes reprováveis. Alguém poderia argumentar que ele enganou o irmão em obediência à sua mãe e que Esaú lhe vendeu voluntariamente o direito de primogenitura.
Isso é verdade. Contudo, Jacó também teve sua parcela de responsabilidade nesses acontecimentos. Primeiro, agiu de forma egoísta ao aproveitar-se da fome e da fragilidade de Esaú para obter vantagens pessoais. Segundo, mentiu ao seu pai, fazendo-se passar por seu irmão. Além disso, envolveu o nome de Deus em seu engano, afirmando que o Senhor havia providenciado rapidamente a caça que apresentava a Isaque.
Deus conhecia o caráter de Jacó e sabia de seu passado marcado por falhas e trapaças. Entretanto, foi ao seu encontro, manifestou-lhe a Sua graça e revelou-Se a ele. A partir daquela experiência, Jacó começou a conhecer a Deus de maneira pessoal. Assim como Jó, ele passou a ter uma experiência própria com o Senhor e não apenas um conhecimento baseado no testemunho de outras pessoas (Jó 42.5).
Nos momentos de aflição e desespero, Deus se faz presente para socorrer os seus servos. O nosso Deus não é o deus do deísmo, que teria criado o universo, estabelecido leis para o seu funcionamento e depois o abandonado à própria sorte. O Deus da Bíblia relaciona-se com o seu povo, acompanha a sua caminhada e intervém em seu favor. Seus olhos estão voltados para os que nele confiam, e Ele contempla as suas aflições. Por isso, o salmista declarou: “Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente na angústia” (Sl 46.1).
Muitos estudiosos entendem que essa manifestação divina possui um forte significado cristológico. Alguns chegam a considerá-la uma cristofania, isto é, uma manifestação de Cristo antes da Sua encarnação. Embora o texto não afirme que Jacó tenha contemplado diretamente o Filho de Deus, a experiência aponta para Cristo, que é a revelação perfeita e visível de Deus à humanidade. O próprio Senhor Jesus associou a visão de Jacó à Sua pessoa (Jo 1.51). Da mesma forma, o apóstolo Paulo escreveu acerca de Cristo: “Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9).
2. Jacó descobriu a Casa de Deus.
A segunda conclusão de Jacó foi que aquele lugar era a Casa de Deus, conforme ele mesmo exclamou: “Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a Casa de Deus” (Gn 28.17). Naturalmente, Deus não morava naquele lugar, assim como não mora em nenhum lugar desta terra. A Bíblia afirma que “Deus não habita em templos feitos por mãos de homens” (At 17.24). Na Nova Aliança, o templo de Deus é o nosso corpo (1 Co 6.19).
Jacó ainda não possuía essa compreensão. Após ter aquela visão extraordinária em Betel, ele concluiu que aquele lugar era a morada de Deus. Por isso, chamou-o de Betel, que significa “Casa de Deus”. De fato, a presença de Deus manifestou-se naquele lugar. Jacó pôde senti-la, ouvir a voz divina e reagir com profunda reverência.
As Escrituras revelam a imensidão e a onipresença de Deus. Nenhum lugar seria suficiente para contê-lo. O céu é apresentado como o lugar da sua habitação (2 Cr 6.21). Além disso, Deus ordenou a construção do Tabernáculo para habitar no meio do seu povo (Êx 25.8).
Posteriormente, o rei Salomão construiu um suntuoso templo, revestido de ouro, e, ao inaugurá-lo, reconheceu que nenhum lugar poderia conter a plenitude da presença divina: “Mas, de fato, habitaria Deus na terra? Eis que os céus e até o céu dos céus te não poderiam conter, quanto menos esta casa que eu tenho edificado” (1 Rs 8.27).
O Novo Testamento esclarece que o Tabernáculo apontava para uma realidade maior: a Igreja como habitação de Deus neste mundo. Paulo escreveu: “Porque vós sois o templo do Deus vivente, como Deus disse: Neles habitarei e entre eles andarei; e eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo” (2 Co 6.16).
Os templos que construímos são locais destinados ao culto e à oração (Mt 21.13). Por isso, devemos demonstrar reverência quando nos reunimos para adorar a Deus. O fato de o templo não ser a habitação literal de Deus não significa que qualquer atividade seja apropriada para esse ambiente. Trata-se de um lugar consagrado ao Senhor para o culto cristão.
Entretanto, a verdadeira habitação de Deus somos nós. Por essa razão, devemos conservar a pureza do nosso corpo e viver de modo santo diante do Senhor.
3. Jacó descobriu a porta dos céus.
A terceira descoberta de Jacó por meio daquela visão foi a Porta dos Céus, conforme declarou: “...e esta é a porta dos céus” (Gn 28.17). A escada vista por Jacó ligava a terra ao céu e, em seu topo, havia uma abertura de acesso à esfera celestial, por onde os anjos de Deus subiam e desciam.
O Senhor Jesus fez referência a essa visão ao aplicar a si mesmo a figura da escada contemplada por Jacó, indicando que ela apontava para a sua pessoa e obra: “Na verdade, na verdade vos digo que, daqui em diante, vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1.51).
A porta é o meio legítimo de acesso a um lugar fechado. Quem procura entrar por outro caminho é considerado intruso ou invasor (Jo 10.1). No Novo Testamento, Jesus apresenta-se como a Porta: “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á, e entrará, e sairá, e achará pastagens” (Jo 10.9).
Essa declaração revela que Cristo é o único meio pelo qual o ser humano pode ter acesso a Deus e à vida eterna. Outras passagens bíblicas confirmam essa verdade de forma inequívoca: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6); “E em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (At 4.12).
A Bíblia também apresenta Jesus como o único Mediador entre Deus e a humanidade: “Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem” (1 Tm 2.5). Portanto, não necessitamos da intercessão de anjos nem de pessoas que já morreram. O único que pode nos conduzir à presença de Deus é o próprio Filho de Deus, que se fez homem, morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação.
Assim, a visão de Jacó não apenas revelou uma realidade espiritual daquele momento, mas também apontou profeticamente para Cristo, o único caminho que liga a terra ao céu e reconcilia o homem com Deus.
Ev. WELIANO PIRES
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