19 setembro 2026

A REJEIÇÃO DOS JUDEUS E A SALVAÇÃO AOS GENTIOS


(Comentário do 3º tópico da Lição 12: O Evangelho chega ao coração do imperio)

Neste terceiro e último tópico, analisaremos a rejeição de parte dos judeus ao Evangelho e o consequente avanço da mensagem de salvação entre os gentios. Ao longo das Escrituras, encontramos advertências acerca da incredulidade e da obstinação espiritual do povo de Israel (Dt 29.4; Is 6.9,10; Jr 5.21; Ez 12.2). No entanto, a rejeição de muitos judeus ao Evangelho não ocorreu por falta de testemunho ou de evidências.

A incredulidade de muitos judeus, entretanto, não frustrou os propósitos de Deus. Pelo contrário, o avanço do Evangelho entre os gentios fazia parte do plano divino de levar a salvação a todas as nações. Por essa razão, Jesus ordenou aos seus discípulos que fossem por todo o mundo e pregassem o Evangelho a toda criatura (Mc 16.15), fazendo discípulos de todas as nações (Mt 28.19,20).

Ao concluir o Livro de Atos, Lucas apresenta Paulo em Roma, mesmo sob custódia, anunciando o Reino de Deus e ensinando acerca do Senhor Jesus Cristo com toda a liberdade e sem impedimento algum (At 28.30,31). Assim, Atos termina com a proclamação da Palavra de Deus avançando, mostrando que as circunstâncias humanas não podem impedir o cumprimento dos propósitos de Deus.

1. O endurecimento espiritual de Israel. O plano de Deus de proclamar a mensagem de salvação a todos os povos incluía a formação da nação de Israel, chamada para ser testemunha do Senhor entre as nações (Êx 19.5,6; Is 43.10,12). Por meio desse povo, Deus também cumpriu o propósito de trazer ao mundo o Salvador, Jesus Cristo, segundo a carne (Gn 12.3; Is 9.6; Rm 9.4,5). Contudo, Israel falhou em seu testemunho, pois, em diferentes períodos de sua história, afastou-se de Deus, envolveu-se com a idolatria e acabou desenvolvendo uma postura de exclusivismo que dificultava o cumprimento de sua missão entre as nações (Jz 2.11-13; 2 Rs 17.7-18; Jn 1.1-3).

Muitos israelitas não reconheceram Jesus como o Messias prometido. Entretanto, a incredulidade de parte de Israel não significou o fracasso do plano de Deus. A Igreja recebeu a missão de anunciar o Evangelho a todas as nações e proclamar as virtudes daquele que a chamou das trevas para a sua maravilhosa luz (Mt 28.19,20; At 1.8; 1 Pe 2.9). 

Isso, porém, não significa que Israel tenha sido definitivamente rejeitado por Deus. A chamada teologia da substituição, em suas formulações, sustenta que a Igreja teria tomado o lugar de Israel e que as promessas destinadas a Israel se cumpririam exclusivamente na Igreja. Essa interpretação não se harmoniza com o ensino de Paulo em Romanos 9–11, onde afirma que “Deus não rejeitou o seu povo” e que “os dons e a vocação de Deus são sem arrependimento” (Rm 11.1,2,29).

Israel e a Igreja possuem papéis distintos no plano redentor de Deus. As promessas feitas aos patriarcas não foram anuladas pela incredulidade de parte de Israel (Rm 9.6; 11.28,29). Segundo a perspectiva profética e escatológica adotada nesta lição, Deus ainda cumprirá suas promessas relacionadas a Israel, incluindo aquelas referentes à restauração nacional e ao Reino Messiânico (Ez 36.24-28; 37.21-28; Zc 12.10; 14.4-9; Ap 20.1-6). Assim, a incredulidade de muitos judeus não deve ser interpretada como o cancelamento das promessas divinas.

Paulo encerrou sua exposição aos judeus em Roma citando Isaías 6.9,10, mostrando que a rejeição ao Evangelho estava relacionada ao endurecimento espiritual daqueles que se recusavam a ouvir e compreender. A salvação, porém, não seria impedida por essa rejeição, pois Paulo declarou: “esta salvação de Deus é enviada aos gentios, e eles a ouvirão” (At 28.25-28). 

O próprio Senhor Jesus demonstrou, por meio das Escrituras, que Ele era o Messias prometido (Lc 24.25-27,44-47). Da mesma forma, Pedro, Estêvão e Paulo anunciaram Jesus como o Cristo com base nas Escrituras e no poder do Espírito Santo (At 2.22-24,36; 6.8-10; 13.16-41). Desse modo, a resistência de muitos judeus não impediu o avanço do Evangelho entre as nações.

2. A salvação estende-se aos gentios conforme o plano eterno de Deus. Ao contrário do que muitos judeus imaginavam, o plano de salvação sempre teve alcance universal. Desde o princípio, Deus havia prometido a Abraão que, por meio de sua descendência, seriam benditas todas as famílias da terra (Gn 12.3; 22.18). Essa promessa encontra seu cumprimento em Cristo, por meio de quem a salvação é oferecida tanto a judeus quanto a gentios (Rm 1.16; Gl 3.8,14).

Em toda a Bíblia, podemos perceber o amor e o propósito de Deus para com todas as nações. Desde o princípio, seus olhos estão voltados para todos os povos, e não apenas para Israel. Isso pode ser observado também nos livros proféticos, que anunciam um futuro glorioso no qual as nações estarão incluídas nas bênçãos do Reino de Deus (Is 2.2-4; 11.10; 49.6; 56.6-8; Zc 8.20-23).

No Novo Testamento, o dever de anunciar a mensagem da salvação também não se restringia ao território de Israel. Antes de ascender aos céus, o Senhor Jesus ordenou aos seus discípulos que fossem suas testemunhas “tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8). Da mesma forma, determinou que fizessem discípulos de todas as nações (Mt 28.19,20). Portanto, a missão da Igreja não deveria ser limitada por barreiras geográficas, étnicas ou culturais.

Nos primeiros capítulos de Atos, a proclamação do Evangelho concentrou-se inicialmente em Jerusalém e entre os judeus. Entretanto, o próprio Senhor conduziu a Igreja para além dessas fronteiras. Após o martírio de Estêvão, desencadeou-se uma grande perseguição contra os cristãos em Jerusalém, e os discípulos foram dispersos pelas regiões da Judeia e de Samaria (At 8.1,4). Por onde passavam, anunciavam a Palavra de Deus.

Nesse contexto, Filipe desceu à cidade de Samaria e anunciou Cristo aos samaritanos, e muitos creram no Evangelho (At 8.5-8,12). Posteriormente, sob a direção do Espírito Santo, também foi enviado ao encontro do eunuco etíope, a quem anunciou Jesus e que, depois de crer, foi batizado (At 8.26-39). Esses acontecimentos demonstravam que o propósito de Deus estava levando a mensagem do Evangelho para além dos limites do povo judeu.

Pedro, entretanto, ainda precisava compreender mais profundamente a dimensão universal da salvação. Por isso, Deus lhe concedeu uma visão para mostrar que Ele não faz acepção de pessoas (At 10.9-16,34,35). Em seguida, Pedro foi à casa de Cornélio, em Cesareia, onde anunciou o Evangelho a ele e aos que estavam reunidos (At 10.24,34-43). Enquanto Pedro ainda pregava, o Espírito Santo caiu sobre os gentios que ouviam a Palavra, e eles falaram em línguas e engrandeceram a Deus (At 10.44-46). Esse acontecimento confirmou diante dos cristãos judeus que Deus também havia concedido aos gentios o arrependimento para a vida (At 11.17,18).

A partir de Atos 11.19, Lucas relata que os cristãos dispersos pela perseguição chegaram à Fenícia, a Chipre e a Antioquia, anunciando inicialmente a Palavra aos judeus. Alguns deles, porém, começaram a anunciar o Evangelho também aos gregos em Antioquia, e grande número creu e se converteu ao Senhor (At 11.19-21). Foi nessa igreja que o Espírito Santo, em um contexto de oração e jejum, ordenou que Barnabé e Saulo fossem separados para a obra missionária (At 13.1-3).

A partir de então, a Igreja, sob a direção do Espírito Santo, passou a cumprir de maneira cada vez mais ampla a missão de levar o Evangelho aos gentios. É justamente essa expansão missionária, registrada principalmente em Atos 13–28, que estudamos ao longo deste trimestre. A salvação em Cristo alcança todas as nações, conforme o eterno propósito de Deus (Ef 3.4-6; Ap 7.9,10).

3. Atos termina proclamando um Reino que não pode ser detido. O Livro de Atos dos Apóstolos é o segundo volume de uma obra composta por dois livros escritos por Lucas, sendo a continuidade do Evangelho que leva o seu nome. Embora o livro não identifique explicitamente o seu autor, há fortes evidências internas que apontam para Lucas. O Evangelho segundo Lucas é dirigido a Teófilo (Lc 1.3,4), e, no início de Atos, o autor faz referência ao seu “primeiro tratado”, também dirigido a ele (At 1.1,2). Além disso, as chamadas “seções nós” de Atos, nas quais o autor passa a utilizar a primeira pessoa do plural (At 16.10-17; 20.5-15; 27.1–28.16), são tradicionalmente relacionadas à participação de Lucas em alguns momentos da missão de Paulo.

Embora o título tradicional seja Atos dos Apóstolos, alguns estudiosos e comentaristas destacam apropriadamente a centralidade da atuação do Espírito Santo no livro. Desde o início, Jesus prometeu aos discípulos que receberiam poder quando o Espírito Santo descesse sobre eles e que seriam suas testemunhas até aos confins da terra (At 1.8). Ao longo da narrativa, o Espírito Santo dirige a missão da Igreja, capacita os discípulos e confirma a proclamação do Evangelho por meio de sinais e maravilhas (At 4.31; 8.29; 13.2-4; 16.6,7). Assim, Atos apresenta uma Igreja que avança não pela força humana, mas sob a direção e o poder do Espírito Santo.

O livro apresenta os momentos finais do ministério terreno de Jesus, sua ascensão e as primeiras experiências da Igreja em Jerusalém (At 1.1-11). Em seguida, Lucas relata a expansão do Evangelho, partindo de Jerusalém e alcançando a Judeia, Samaria e importantes centros do mundo mediterrâneo, como Antioquia, Éfeso e Roma (At 1.8; 11.19-26; 19.1-10; 28.16-31). Nesse processo, o Evangelho ultrapassou fronteiras geográficas, culturais e étnicas, alcançando judeus e gentios.

O Livro de Atos não registra a morte de Paulo nem apresenta um encerramento formal da missão da Igreja. Ao contrário, Lucas encerra sua narrativa mostrando o apóstolo em Roma, sob custódia, recebendo pessoas e anunciando o Reino de Deus e ensinando acerca do Senhor Jesus Cristo “com toda a liberdade, sem impedimento algum” (At 28.30,31).

O final aberto de Atos aponta para a continuidade da missão confiada por Cristo à sua Igreja, no poder do Espírito Santo, até aos confins da terra (At 1.8). AAssim, o livro termina mostrando que, embora os mensageiros possam ser perseguidos e impedidos, a Palavra de Deus continua avançando e o Reino de Deus não pode ser detido.

Ev. WELIANO PIRES


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