(Comentário do 3º tópico da Lição 10: Esperança inabalável diante dos poderosos)
No terceiro tópico, veremos a esperança inabalável do apóstolo Paulo, que superava toda a injustiça e a opressão decorrentes de sua prisão, fundamentada em falsas acusações.
O
governador Félix era casado com Drusila, uma judia. Certamente, já tinha algum
conhecimento a respeito do Caminho, como era conhecida a fé cristã naquela
época. Por isso, mandou chamar Paulo e o ouviu acerca da fé em Cristo (At
24.24).
Paulo
anunciou a Félix e a Drusila, sua esposa, a verdade do Evangelho e falou sobre
a justiça, o domínio próprio e o juízo vindouro. Essas palavras confrontaram
diretamente a vida daquele governante, conhecido por sua corrupção, crueldade e
libertinagem. Félix ficou atemorizado, mas, em vez de mudar de atitude, adiou
sua decisão a respeito de Paulo (At 24.25).
Paulo
não perdeu a fé nem a esperança, pois estava firmado em Deus e em suas
promessas. O apóstolo continuava preso fisicamente, mas permanecia
espiritualmente livre, confiante de que os propósitos de Deus seriam cumpridos
em sua vida.
1.
Félix adia, mas escuta a mensagem. Félix era
um governante parcial, cruel e corrupto. Julgava por conveniência e, conforme
Lucas registra, esperava receber algum dinheiro de Paulo (At 24.26). O renomado
historiador romano Tácito também descreve Félix como um governante marcado pela
crueldade e pela libertinagem.
Por
ser casado com uma judia e governar a província da Judeia, Félix certamente
tinha conhecimento acerca do “Caminho”, como era chamada a fé cristã naquele
tempo. Além disso, pelas informações recebidas de Cláudio Lísias e pela defesa
apresentada por Paulo, tinha elementos para reconhecer a fragilidade das
acusações contra o apóstolo (At 23.26-30; 24.10-21). Mesmo assim, adiou sua
decisão a respeito da soltura de Paulo.
Félix
não queria desagradar aos judeus ao libertar Paulo. Por outro lado, também não
dispunha de provas que justificassem sua condenação, especialmente por se
tratar de um cidadão romano. Assim, procurando conciliar interesses distintos,
manteve Paulo preso por dois anos, embora tenha ordenado que ele recebesse
certo grau de liberdade e que seus amigos pudessem visitá-lo (At 24.23,27).
Esse
episódio revela as limitações da justiça humana quando submetida a interesses
pessoais e políticos. A justiça que pune o inocente é tão perversa quanto
aquela que absolve o culpado. Para o cristão, porém, a injustiça dos homens não
anula a justiça de Deus, que permanece soberana e perfeita.
2.
A Palavra provoca temor nos ímpios. Depois que
Paulo apresentou sua defesa perante Félix, o governador não decidiu soltá-lo
nem o condenou. Antes, ordenou ao centurião que o mantivesse sob custódia, mas
que o tratasse com brandura e permitisse que seus amigos o visitassem e lhe
trouxessem o necessário (At 24.23).
Passados
alguns dias, Félix e sua mulher, Drusila, mandaram chamar Paulo para ouvi-lo a
respeito da fé em Cristo (At 24.24). Naquela ocasião, o apóstolo discorreu
sobre “a justiça, e a temperança, e o juízo vindouro” (At 24.25). A mensagem de
Paulo confrontou diretamente a vida do governador, levando-o a sentir grande
temor.
Embora
tenha ficado atemorizado, Félix não demonstrou verdadeiro arrependimento nem
mudança de vida. Pelo contrário, adiou a decisão, dizendo: “Por agora, vai-te,
e, em tendo oportunidade, te chamarei” (At 24.25). Esse episódio
demonstra que a Palavra de Deus, quando proclamada fielmente, confronta o
pecado e não se limita a oferecer conforto. Ela também corrige, repreende e
chama o ser humano ao arrependimento.
O
apóstolo Paulo escreveu a Timóteo que “toda a Escritura é divinamente inspirada
e proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em
justiça” (2 Tm 3.16). Por isso, a exposição fiel das Escrituras deve conduzir o
ouvinte a uma resposta diante de Deus.
Félix
ouviu a mensagem, sentiu temor e reconheceu, de alguma maneira, a seriedade do
que estava ouvindo. Todavia, não se submeteu à verdade. Seu exemplo nos ensina
que uma pessoa pode ouvir a Palavra de Deus, ser profundamente impactada por
uma pregação e até reconhecer que precisa mudar, mas ainda assim resistir ao
chamado divino e adiar o arrependimento (Hb 3.7,8,15).
Há
uma grande diferença entre ser emocionalmente tocado pela Palavra de Deus e
submeter-se verdadeiramente a ela. O impacto emocional, por si só, não
representa transformação espiritual. A Palavra de Deus precisa ser recebida com
fé e acompanhada de obediência. Tiago exorta: “E sede cumpridores da palavra e
não somente ouvintes, enganando-vos com falsos discursos” (Tg 1.22).
Portanto,
sentir temor, emoção ou forte impacto diante de uma pregação não é suficiente.
É necessário responder à Palavra de Deus com arrependimento e fé (Mc 1.15; At
2.38). O verdadeiro arrependimento envolve mudança de mente e de atitude diante
do pecado, produzindo frutos dignos dessa nova postura (Mt 3.8; At 26.20).
Félix
teve diante de si uma oportunidade de ouvir a verdade e responder ao Evangelho,
mas preferiu adiá-la. Seu temor não se transformou em arrependimento. Assim,
sua história constitui uma séria advertência: não basta ouvir a Palavra de Deus
ou ser emocionalmente impactado por ela; é necessário recebê-la com fé,
permitir que ela transforme a vida e obedecer à sua mensagem.
3.
A firmeza de Paulo na esperança em Cristo. Mesmo
tendo consciência da inocência de Paulo, Félix o manteve preso por dois anos,
esperando que o apóstolo lhe desse dinheiro para que pudesse soltá-lo. Ao ser
sucedido por Pórcio Festo, Félix deixou Paulo encarcerado (At 24.26,27). A
injustiça das autoridades, porém, não foi capaz de enfraquecer a fé do apóstolo
nem de fazê-lo abandonar sua esperança em Cristo.
Paulo
permanecia confiante na promessa que o Senhor lhe havia feito: “Paulo, tem bom
ânimo! Porque, como de mim testificaste em Jerusalém, assim importa que
testifiques também em Roma” (At 23.11). Mesmo em meio às limitações da prisão,
ele sabia que sua vida estava sob a direção de Deus e que o sofrimento não
impediria o cumprimento do propósito divino.
A
prisão não silenciou Paulo. Ao contrário, tornou-se uma oportunidade para
testemunhar de Cristo diante de autoridades, soldados, governadores e outras
pessoas. Seu sofrimento não anulou sua missão; Deus continuou usando o apóstolo
mesmo em circunstâncias adversas (Fp 1.12-14). Dessa maneira, Paulo nos ensina
que as limitações impostas pelas circunstâncias não podem impedir a ação de
Deus na vida daquele que permanece fiel.
Podemos
perceber um grande contraste entre Félix e Paulo. Félix possuía autoridade
política, recursos e liberdade exterior, mas estava dominado pela corrupção e
pelo interesse pessoal (At 24.26). Paulo, por outro lado, encontrava-se
fisicamente preso, mas permanecia livre em Cristo. A verdadeira liberdade não
depende das circunstâncias externas, mas de um relacionamento com Jesus Cristo.
O próprio Senhor declarou: “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente,
sereis livres” (Jo 8.36).
As
circunstâncias externas não determinavam a esperança de Paulo. Ele estava
preso, mas sua esperança não estava presa. Ele sofria, mas continuava confiando
no Senhor. Por isso, mesmo diante das adversidades, podia afirmar: “Porque
estou certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados,
nem as potestades, nem o presente, nem o porvir [...] poderá nos separar do
amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.38,39).
A
esperança cristã não está fundamentada naquilo que vemos ou nas circunstâncias
presentes, mas em Deus e em suas promessas. Por isso, podemos permanecer firmes
mesmo em meio às tribulações, sabendo que “a tribulação produz a paciência; e a
paciência, a experiência; e a experiência, a esperança” (Rm 5.3,4). Assim como
Paulo, somos chamados a permanecer firmes, confiando que nenhuma circunstância
será capaz de frustrar os propósitos de Deus para aqueles que nele esperam.
Ev. WELIANO PIRES
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