18 setembro 2026

O EVANGELHO PREGADO AOS JUDEUS EM ROMA


(Comentário do 2º tópico da Lição 12: O Evangelho chega ao coração do império)

Neste segundo tópico, veremos que Paulo, ao chegar a Roma, pregou o Evangelho primeiramente aos judeus. Três dias depois de sua chegada, reuniu as principais lideranças judaicas para explicar as razões de sua prisão, afirmando que não havia cometido nenhuma ofensa contra o povo judeu nem contra os costumes de seus antepassados (At 28.17-20).

Os judeus informaram que não haviam recebido da Judeia nenhuma acusação formal contra Paulo. Entretanto, disseram que desejavam ouvir pessoalmente o que ele tinha a dizer a respeito do chamado “Caminho”, pois haviam ouvido falar que, por toda parte, se fazia oposição a esse movimento (At 28.21,22). Paulo, então, marcou um dia para recebê-los e, desde a manhã até a tarde, expôs-lhes o Reino de Deus e procurou persuadi-los acerca de Jesus, fundamentando sua argumentação na Lei de Moisés e nos Profetas (At 28.23; cf. Lc 24.27,44-47).

A pregação de Paulo era fundamentada nas Escrituras e centrada em Cristo. Ao mesmo tempo, revelava sua paciência, perseverança e amor para com o seu próprio povo (Rm 9.1-3; 10.1). A reação dos ouvintes, porém, foi dividida: alguns creram, enquanto outros não creram (At 28.24). Esse episódio nos ensina que ouvir a Palavra de Deus exige uma resposta. Não basta escutar a mensagem; é necessário recebê-la com fé, crendo em Jesus Cristo e reconhecendo-o como Senhor e Salvador (Rm 10.9,10; Jo 1.12).

1. Paulo convoca os líderes judeus para esclarecer sua situação (v.17)

Logo que chegou a Roma, foi permitido a Paulo permanecer em prisão domiciliar, conforme estudamos no tópico anterior. Passados três dias, o apóstolo convocou os principais líderes da comunidade judaica e se reuniu com eles. Nessa ocasião, fez questão de explicar que não havia cometido nenhuma ofensa contra o seu povo nem contra os costumes de seus pais (At 28.16,17).

É possível que Paulo tenha tomado essa iniciativa porque sua prisão estava relacionada às acusações feitas pelos judeus em Jerusalém. Além disso, o imperador Cláudio havia determinado a expulsão dos judeus de Roma em razão de conflitos ocorridos na cidade (At 18.2). Embora muitos tenham retornado posteriormente, a presença de um judeu preso, acusado de perturbar a ordem pública, poderia despertar novas suspeitas contra a comunidade judaica. Assim, Paulo procurou esclarecer sua situação e evitar que sua presença em Roma fosse interpretada de maneira equivocada.

Ao ouvirem a explicação de Paulo, os judeus responderam que não haviam recebido nenhuma carta da Judeia com acusações a seu respeito. Também afirmaram que nenhum dos irmãos que havia vindo de Jerusalém lhes trouxera notícias desfavoráveis sobre ele. Entretanto, demonstraram interesse em ouvir o que Paulo tinha a dizer sobre o chamado “Caminho”, movimento que identificavam como uma “seita”. Segundo eles, em toda parte se falava contra esse grupo (At 28.21,22).

A palavra “seita”, empregada em Atos 28.22, traduz o termo grego hairesis, que podia designar uma escolha, um partido ou uma corrente religiosa. O termo não possuía necessariamente o sentido negativo que posteriormente adquiriu em determinados contextos. Em Atos, é utilizado também para designar grupos religiosos judaicos, como os saduceus e os fariseus (At 5.17; 15.5). Portanto, os líderes judeus de Roma estavam identificando o cristianismo como um movimento religioso sobre o qual já haviam ouvido falar e que era alvo de oposição em diversos lugares, embora ainda desejassem conhecer pessoalmente a mensagem anunciada por Paulo.

Ao explicar aos judeus a respeito de sua fé, Paulo demonstrou amor pelo seu povo e compromisso com a verdade. Sua declaração de que estava preso “pela esperança de Israel” apontava para a esperança messiânica, cujo cumprimento se encontra em Jesus Cristo, bem como para a ressurreição dos mortos (At 28.20; cf. At 23.6; 26.6-8). Essa esperança estava fundamentada nas promessas feitas por Deus aos patriarcas e anunciadas pelos profetas (At 26.22,23; Rm 9.4,5).

A conversa de Paulo com os judeus de Roma nos ensina que, mesmo diante da oposição, devemos tratar as pessoas com respeito e aproveitar as oportunidades para apresentar-lhes a verdade do Evangelho. O apóstolo enfrentou perseguições e ameaças de morte por parte de alguns judeus em diversas cidades, inclusive em Jerusalém (At 21.27-31; 23.12-15). Contudo, não permitiu que essas experiências o impedissem de amar o seu povo e desejar a sua salvação (Rm 9.1-3; 10.1). Seu exemplo nos desafia a anunciar Cristo com fidelidade, mansidão e perseverança, mesmo quando somos rejeitados.

2. Paulo anuncia o Reino de Deus, mostrando Cristo nas Escrituras (vv.23,24)

Atos 28.23 informa que os judeus marcaram um dia para se encontrar com Paulo e que muitos foram à sua residência. Na ocasião, desde a manhã até a tarde, o apóstolo lhes fez uma exposição sobre o Reino de Deus e procurou persuadi-los a respeito de Jesus, fundamentando sua argumentação na Lei de Moisés e nos Profetas. Dessa maneira, Paulo apresentou Jesus como o Messias prometido, em quem se cumprem as promessas e as expectativas messiânicas presentes nas Escrituras do Antigo Testamento.

A pregação de Paulo era, portanto, fundamentada nas Escrituras e centrada em Cristo. Ele não apresentou uma mensagem construída sobre opiniões humanas, mas demonstrou, a partir da revelação dada por Deus a Israel, que Jesus é o Messias prometido. Esse procedimento está em harmonia com o próprio ensino de Jesus. Após a ressurreição, o Senhor explicou aos discípulos “o que dele se achava em todas as Escrituras”, começando por Moisés e passando por todos os Profetas (Lc 24.27). Mais adiante, afirmou que era necessário que se cumprisse tudo o que estava escrito a seu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos (Lc 24.44-47). Da mesma forma, o apóstolo Pedro, no dia de Pentecostes, anunciou Cristo a partir das Escrituras do Antigo Testamento (At 2.16-36).

Paulo também demonstrou paciência e perseverança na proclamação do Evangelho. Mesmo depois de enfrentar oposição e perseguições ao longo de seu ministério (At 9.23-25; 13.45-50; 14.19-22; 2Co 11.23-27), continuou anunciando a salvação em Cristo, inclusive aos seus compatriotas judeus. Seu compromisso com a evangelização de Israel pode ser percebido em sua declaração de que desejava a salvação de seus compatriotas segundo a carne (Rm 9.1-3) e em sua oração a Deus por Israel (Rm 10.1).

Aprendemos importantes lições com a exposição de Paulo. Em primeiro lugar, nossa pregação deve estar fundamentada nas Escrituras. A Bíblia é a Palavra de Deus e constitui a autoridade para a fé e a vida cristã (2Tm 3.15-17). Por isso, a exposição bíblica não deve utilizar as Escrituras apenas como apoio para ideias previamente formuladas. O texto bíblico deve ocupar o centro da mensagem, sendo corretamente interpretado e aplicado à vida dos ouvintes.

Paulo é um exemplo desse princípio. Ao falar do Reino de Deus e de Jesus, recorreu à Lei de Moisés e aos Profetas (At 28.23). Em outras ocasiões, também encontramos esse padrão em seu ministério. Em Tessalônica, por exemplo, ele “disputou com eles sobre as Escrituras” e demonstrou que era necessário que Cristo padecesse e ressuscitasse dentre os mortos (At 17.2,3). Em Corinto, Paulo testemunhou aos judeus que Jesus era o Cristo (At 18.5). E, em sua despedida aos presbíteros de Éfeso, afirmou que não deixou de anunciar “todo o conselho de Deus” (At 20.27).

Em segundo lugar, nossa mensagem deve ter Cristo como centro. As Escrituras apontam para a obra redentora de Deus, que encontra seu cumprimento em Jesus Cristo. O próprio Senhor ensinou que as Escrituras testificam a seu respeito (Jo 5.39) e, após a ressurreição, mostrou aos discípulos como Moisés, os Profetas e os Salmos apontavam para Ele (Lc 24.44-47). Portanto, a pregação cristã não pode perder de vista a pessoa e a obra de Jesus Cristo.

Isso não significa ignorar os diversos assuntos tratados pela Bíblia, mas ensiná-los à luz do propósito redentor das Escrituras. Paulo podia tratar de temas variados, como família, trabalho, ética, vida comunitária e relacionamento com a sociedade; contudo, Cristo permanecia no centro de sua mensagem. Aos coríntios, ele declarou: “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e este crucificado” (1Co 2.2).

Desse modo, a Igreja é chamada a proclamar uma mensagem bíblica, cristocêntrica e fiel ao Evangelho. Filosofias humanas, ideologias, promessas de prosperidade material ou métodos de desenvolvimento pessoal não podem substituir a mensagem da salvação em Cristo. Questões relacionadas à vida prática podem e devem ser abordadas à luz da Palavra de Deus, mas o centro da pregação cristã continua sendo Jesus Cristo, por meio de quem Deus oferece salvação a todos os que nele creem (At 4.12; cf. Jo 14.6; 1Tm 2.5).

3. A reação dividida revela que o coração é o campo da decisão

Paulo foi absolutamente fiel às Escrituras ao expor aos judeus as verdades acerca do Reino de Deus e de Jesus Cristo. A partir da Lei de Moisés e dos Profetas, demonstrou que Jesus era o Cristo prometido (At 28.23). Sua exposição estava fundamentada na Palavra de Deus e não dependia de artifícios humanos para sustentar a verdade que anunciava. Entretanto, as reações de seus ouvintes foram distintas: enquanto alguns creram, outros não creram. Atos 28.24 registra: “E alguns criam no que se dizia; mas outros não criam”.

Esse episódio demonstra que a mesma mensagem, quando fielmente anunciada, pode receber respostas diferentes entre os ouvintes. Todos escutaram a exposição de Paulo, mas nem todos responderam da mesma maneira. Essa realidade também aparece no ministério de Jesus, quando diferentes pessoas reagiam de formas distintas às suas palavras (Jo 6.60,66-69). A mensagem do Evangelho é a mesma, mas os ouvintes podem recebê-la de maneiras diferentes, conforme a disposição do coração diante da verdade anunciada (Mt 13.18-23).

A responsabilidade do pregador é anunciar fielmente a Palavra de Deus, sem acrescentar, retirar ou deturpar o conteúdo das Escrituras (Dt 4.2; Pv 30.5,6; 2Tm 4.2). Paulo cumpriu essa responsabilidade ao ensinar as Escrituras com clareza e persuasão (At 17.2-4). A resposta dos ouvintes, porém, não estava sob seu controle. Alguns receberam a mensagem com fé; outros a rejeitaram. Por isso, a rejeição de parte dos ouvintes não significa, necessariamente, fracasso na exposição da Palavra.

A Palavra de Deus requer uma resposta. Não basta apenas ouvir; é necessário acolher a verdade com fé e colocá-la em prática (Tg 1.22-25). O Evangelho chama o ser humano ao arrependimento e à fé em Jesus Cristo (Mc 1.15; At 20.21). Por essa razão, o coração é o campo da decisão, pois é nele que a pessoa acolhe ou rejeita a verdade anunciada (Rm 10.9,10).

A fidelidade do mensageiro não garante que todos aceitarão a mensagem, mas demonstra que ele cumpriu sua responsabilidade de anunciá-la corretamente. O apóstolo Paulo compreendia que os ministros são servos por meio dos quais Deus realiza sua obra e que o crescimento pertence ao Senhor (1Co 3.5-7). Assim, aquele que ministra a Palavra não deve alterar sua mensagem para obter maior aceitação, mas permanecer fiel às Escrituras, confiando no agir de Deus.

A rejeição de parte dos judeus, portanto, não interrompeu o plano de Deus. Ao contrário, no desenvolvimento da narrativa de Atos, a resistência de alguns não impediu que a mensagem alcançasse os gentios. Paulo declarou aos judeus de Roma: “Seja-vos, pois, notório que esta salvação de Deus é enviada aos gentios, e eles a ouvirão” (At 28.28). Esse fato está em harmonia com o propósito universal do Evangelho, anunciado por Jesus aos seus discípulos: fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.19,20; At 1.8).

Portanto, não devemos medir a fidelidade de um ministério apenas pela quantidade de resultados visíveis. O ministro da Palavra deve ser encontrado fiel àquilo que recebeu do Senhor (1Co 4.1,2), anunciando a verdade com integridade, amor e perseverança. Os resultados pertencem a Deus, mas a responsabilidade de pregar fielmente permanece conosco.

Ev. WELIANO PIRES

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