(Comentário do 2º tópico da Lição 12: O Evangelho chega ao coração do império)
Neste segundo tópico, veremos que Paulo, ao chegar a Roma, pregou o Evangelho primeiramente aos judeus. Três dias depois de sua chegada, reuniu as principais lideranças judaicas para explicar as razões de sua prisão, afirmando que não havia cometido nenhuma ofensa contra o povo judeu nem contra os costumes de seus antepassados (At 28.17-20).
Os judeus
informaram que não haviam recebido da Judeia nenhuma acusação formal contra
Paulo. Entretanto, disseram que desejavam ouvir pessoalmente o que ele tinha a
dizer a respeito do chamado “Caminho”, pois haviam ouvido falar que, por toda
parte, se fazia oposição a esse movimento (At 28.21,22). Paulo, então, marcou
um dia para recebê-los e, desde a manhã até a tarde, expôs-lhes o Reino de Deus
e procurou persuadi-los acerca de Jesus, fundamentando sua argumentação na Lei
de Moisés e nos Profetas (At 28.23; cf. Lc 24.27,44-47).
A pregação de
Paulo era fundamentada nas Escrituras e centrada em Cristo. Ao mesmo tempo,
revelava sua paciência, perseverança e amor para com o seu próprio povo (Rm
9.1-3; 10.1). A reação dos ouvintes, porém, foi dividida: alguns creram,
enquanto outros não creram (At 28.24). Esse episódio nos ensina que ouvir a
Palavra de Deus exige uma resposta. Não basta escutar a mensagem; é necessário
recebê-la com fé, crendo em Jesus Cristo e reconhecendo-o como Senhor e
Salvador (Rm 10.9,10; Jo 1.12).
1. Paulo
convoca os líderes judeus para esclarecer sua situação (v.17)
Logo que chegou
a Roma, foi permitido a Paulo permanecer em prisão domiciliar, conforme
estudamos no tópico anterior. Passados três dias, o apóstolo convocou os
principais líderes da comunidade judaica e se reuniu com eles. Nessa ocasião,
fez questão de explicar que não havia cometido nenhuma ofensa contra o seu povo
nem contra os costumes de seus pais (At 28.16,17).
É possível que
Paulo tenha tomado essa iniciativa porque sua prisão estava relacionada às
acusações feitas pelos judeus em Jerusalém. Além disso, o imperador Cláudio
havia determinado a expulsão dos judeus de Roma em razão de conflitos ocorridos
na cidade (At 18.2). Embora muitos tenham retornado posteriormente, a presença
de um judeu preso, acusado de perturbar a ordem pública, poderia despertar
novas suspeitas contra a comunidade judaica. Assim, Paulo procurou esclarecer
sua situação e evitar que sua presença em Roma fosse interpretada de maneira
equivocada.
Ao ouvirem a
explicação de Paulo, os judeus responderam que não haviam recebido nenhuma
carta da Judeia com acusações a seu respeito. Também afirmaram que nenhum dos
irmãos que havia vindo de Jerusalém lhes trouxera notícias desfavoráveis sobre
ele. Entretanto, demonstraram interesse em ouvir o que Paulo tinha a dizer
sobre o chamado “Caminho”, movimento que identificavam como uma “seita”.
Segundo eles, em toda parte se falava contra esse grupo (At 28.21,22).
A palavra
“seita”, empregada em Atos 28.22, traduz o termo grego hairesis, que
podia designar uma escolha, um partido ou uma corrente religiosa. O termo não
possuía necessariamente o sentido negativo que posteriormente adquiriu em
determinados contextos. Em Atos, é utilizado também para designar grupos
religiosos judaicos, como os saduceus e os fariseus (At 5.17; 15.5). Portanto,
os líderes judeus de Roma estavam identificando o cristianismo como um
movimento religioso sobre o qual já haviam ouvido falar e que era alvo de
oposição em diversos lugares, embora ainda desejassem conhecer pessoalmente a
mensagem anunciada por Paulo.
Ao explicar aos
judeus a respeito de sua fé, Paulo demonstrou amor pelo seu povo e compromisso
com a verdade. Sua declaração de que estava preso “pela esperança de Israel”
apontava para a esperança messiânica, cujo cumprimento se encontra em Jesus
Cristo, bem como para a ressurreição dos mortos (At 28.20; cf. At 23.6;
26.6-8). Essa esperança estava fundamentada nas promessas feitas por Deus aos
patriarcas e anunciadas pelos profetas (At 26.22,23; Rm 9.4,5).
A conversa de
Paulo com os judeus de Roma nos ensina que, mesmo diante da oposição, devemos
tratar as pessoas com respeito e aproveitar as oportunidades para
apresentar-lhes a verdade do Evangelho. O apóstolo enfrentou perseguições e
ameaças de morte por parte de alguns judeus em diversas cidades, inclusive em
Jerusalém (At 21.27-31; 23.12-15). Contudo, não permitiu que essas experiências
o impedissem de amar o seu povo e desejar a sua salvação (Rm 9.1-3; 10.1). Seu
exemplo nos desafia a anunciar Cristo com fidelidade, mansidão e perseverança,
mesmo quando somos rejeitados.
2. Paulo
anuncia o Reino de Deus, mostrando Cristo nas Escrituras (vv.23,24)
Atos 28.23
informa que os judeus marcaram um dia para se encontrar com Paulo e que muitos
foram à sua residência. Na ocasião, desde a manhã até a tarde, o apóstolo lhes
fez uma exposição sobre o Reino de Deus e procurou persuadi-los a respeito de
Jesus, fundamentando sua argumentação na Lei de Moisés e nos Profetas. Dessa
maneira, Paulo apresentou Jesus como o Messias prometido, em quem se cumprem as
promessas e as expectativas messiânicas presentes nas Escrituras do Antigo
Testamento.
A pregação de
Paulo era, portanto, fundamentada nas Escrituras e centrada em Cristo. Ele não
apresentou uma mensagem construída sobre opiniões humanas, mas demonstrou, a
partir da revelação dada por Deus a Israel, que Jesus é o Messias prometido.
Esse procedimento está em harmonia com o próprio ensino de Jesus. Após a
ressurreição, o Senhor explicou aos discípulos “o que dele se achava em todas
as Escrituras”, começando por Moisés e passando por todos os Profetas (Lc
24.27). Mais adiante, afirmou que era necessário que se cumprisse tudo o que
estava escrito a seu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos (Lc
24.44-47). Da mesma forma, o apóstolo Pedro, no dia de Pentecostes, anunciou
Cristo a partir das Escrituras do Antigo Testamento (At 2.16-36).
Paulo também
demonstrou paciência e perseverança na proclamação do Evangelho. Mesmo depois
de enfrentar oposição e perseguições ao longo de seu ministério (At 9.23-25;
13.45-50; 14.19-22; 2Co 11.23-27), continuou anunciando a salvação em Cristo,
inclusive aos seus compatriotas judeus. Seu compromisso com a evangelização de
Israel pode ser percebido em sua declaração de que desejava a salvação de seus
compatriotas segundo a carne (Rm 9.1-3) e em sua oração a Deus por Israel (Rm
10.1).
Aprendemos
importantes lições com a exposição de Paulo. Em primeiro lugar, nossa pregação
deve estar fundamentada nas Escrituras. A Bíblia é a Palavra de Deus e
constitui a autoridade para a fé e a vida cristã (2Tm 3.15-17). Por isso, a
exposição bíblica não deve utilizar as Escrituras apenas como apoio para ideias
previamente formuladas. O texto bíblico deve ocupar o centro da mensagem, sendo
corretamente interpretado e aplicado à vida dos ouvintes.
Paulo é um
exemplo desse princípio. Ao falar do Reino de Deus e de Jesus, recorreu à Lei
de Moisés e aos Profetas (At 28.23). Em outras ocasiões, também encontramos
esse padrão em seu ministério. Em Tessalônica, por exemplo, ele “disputou com
eles sobre as Escrituras” e demonstrou que era necessário que Cristo padecesse
e ressuscitasse dentre os mortos (At 17.2,3). Em Corinto, Paulo testemunhou aos
judeus que Jesus era o Cristo (At 18.5). E, em sua despedida aos presbíteros de
Éfeso, afirmou que não deixou de anunciar “todo o conselho de Deus” (At 20.27).
Em segundo
lugar, nossa mensagem deve ter Cristo como centro. As Escrituras apontam para a
obra redentora de Deus, que encontra seu cumprimento em Jesus Cristo. O próprio
Senhor ensinou que as Escrituras testificam a seu respeito (Jo 5.39) e, após a
ressurreição, mostrou aos discípulos como Moisés, os Profetas e os Salmos
apontavam para Ele (Lc 24.44-47). Portanto, a pregação cristã não pode perder
de vista a pessoa e a obra de Jesus Cristo.
Isso não
significa ignorar os diversos assuntos tratados pela Bíblia, mas ensiná-los à
luz do propósito redentor das Escrituras. Paulo podia tratar de temas variados,
como família, trabalho, ética, vida comunitária e relacionamento com a
sociedade; contudo, Cristo permanecia no centro de sua mensagem. Aos coríntios,
ele declarou: “Porque nada me propus saber entre vós, senão a Jesus Cristo, e
este crucificado” (1Co 2.2).
Desse modo, a
Igreja é chamada a proclamar uma mensagem bíblica, cristocêntrica e fiel ao
Evangelho. Filosofias humanas, ideologias, promessas de prosperidade material
ou métodos de desenvolvimento pessoal não podem substituir a mensagem da
salvação em Cristo. Questões relacionadas à vida prática podem e devem ser
abordadas à luz da Palavra de Deus, mas o centro da pregação cristã continua
sendo Jesus Cristo, por meio de quem Deus oferece salvação a todos os que nele
creem (At 4.12; cf. Jo 14.6; 1Tm 2.5).
3. A reação
dividida revela que o coração é o campo da decisão
Paulo foi
absolutamente fiel às Escrituras ao expor aos judeus as verdades acerca do
Reino de Deus e de Jesus Cristo. A partir da Lei de Moisés e dos Profetas,
demonstrou que Jesus era o Cristo prometido (At 28.23). Sua exposição estava
fundamentada na Palavra de Deus e não dependia de artifícios humanos para
sustentar a verdade que anunciava. Entretanto, as reações de seus ouvintes
foram distintas: enquanto alguns creram, outros não creram. Atos 28.24
registra: “E alguns criam no que se dizia; mas outros não criam”.
Esse episódio
demonstra que a mesma mensagem, quando fielmente anunciada, pode receber
respostas diferentes entre os ouvintes. Todos escutaram a exposição de Paulo,
mas nem todos responderam da mesma maneira. Essa realidade também aparece no
ministério de Jesus, quando diferentes pessoas reagiam de formas distintas às
suas palavras (Jo 6.60,66-69). A mensagem do Evangelho é a mesma, mas os
ouvintes podem recebê-la de maneiras diferentes, conforme a disposição do
coração diante da verdade anunciada (Mt 13.18-23).
A
responsabilidade do pregador é anunciar fielmente a Palavra de Deus, sem
acrescentar, retirar ou deturpar o conteúdo das Escrituras (Dt 4.2; Pv 30.5,6;
2Tm 4.2). Paulo cumpriu essa responsabilidade ao ensinar as Escrituras com
clareza e persuasão (At 17.2-4). A resposta dos ouvintes, porém, não estava sob
seu controle. Alguns receberam a mensagem com fé; outros a rejeitaram. Por
isso, a rejeição de parte dos ouvintes não significa, necessariamente, fracasso
na exposição da Palavra.
A Palavra de
Deus requer uma resposta. Não basta apenas ouvir; é necessário acolher a
verdade com fé e colocá-la em prática (Tg 1.22-25). O Evangelho chama o ser
humano ao arrependimento e à fé em Jesus Cristo (Mc 1.15; At 20.21). Por essa
razão, o coração é o campo da decisão, pois é nele que a pessoa acolhe ou
rejeita a verdade anunciada (Rm 10.9,10).
A fidelidade do
mensageiro não garante que todos aceitarão a mensagem, mas demonstra que ele
cumpriu sua responsabilidade de anunciá-la corretamente. O apóstolo Paulo
compreendia que os ministros são servos por meio dos quais Deus realiza sua
obra e que o crescimento pertence ao Senhor (1Co 3.5-7). Assim, aquele que
ministra a Palavra não deve alterar sua mensagem para obter maior aceitação,
mas permanecer fiel às Escrituras, confiando no agir de Deus.
A rejeição de
parte dos judeus, portanto, não interrompeu o plano de Deus. Ao contrário, no
desenvolvimento da narrativa de Atos, a resistência de alguns não impediu que a
mensagem alcançasse os gentios. Paulo declarou aos judeus de Roma: “Seja-vos,
pois, notório que esta salvação de Deus é enviada aos gentios, e eles a
ouvirão” (At 28.28). Esse fato está em harmonia com o propósito universal do
Evangelho, anunciado por Jesus aos seus discípulos: fazer discípulos de todas
as nações (Mt 28.19,20; At 1.8).
Portanto, não
devemos medir a fidelidade de um ministério apenas pela quantidade de
resultados visíveis. O ministro da Palavra deve ser encontrado fiel àquilo que
recebeu do Senhor (1Co 4.1,2), anunciando a verdade com integridade, amor e
perseverança. Os resultados pertencem a Deus, mas a responsabilidade de pregar
fielmente permanece conosco.
Ev. WELIANO PIRES
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