(Comentário do 2 tópico da Lição 4: Lição 4: O chamado à obediência)
Neste segundo tópico, analisaremos os Dez Mandamentos como expressão da vontade de Deus. Moisés relembrou que o Senhor havia se revelado a Israel no monte Horebe, falando ao povo do meio do fogo. Na ocasião, os israelitas temeram diante daquela manifestação divina, enquanto Moisés se colocou como mediador entre Deus e o povo para transmitir-lhe a Palavra do Senhor (Dt 5.4-5,22-27). Em seguida, Moisés reiterou os Dez Mandamentos à nova geração (Dt 5.6-21).
O comentarista divide os Dez Mandamentos em dois grupos: os quatro primeiros dizem respeito ao relacionamento do ser humano com Deus, enquanto os seis seguintes tratam do relacionamento com o próximo. Essa divisão evidencia que a vontade divina abrange tanto o amor e a reverência ao Senhor quanto o respeito e a responsabilidade para com o próximo (Mt 22.37-40).
Por fim, a lição aborda a relevância da Lei para os cristãos na atualidade. A Lei não é um meio de salvação, pois somos salvos pela graça, mediante a fé (Ef 2.8-9). Entretanto, ela é santa, justa e boa (Rm 7.12) e nos permite compreender princípios morais que refletem a vontade de Deus. Sua aplicação deve considerar, porém, o cumprimento da Lei em Cristo e as diferenças entre a Antiga e a Nova Aliança, uma vez que determinadas prescrições pertenciam especificamente à aliança estabelecida com Israel (Hb 8.6-13).
1. Os quatro primeiros mandamentos: amor a Deus. Os quatro primeiros mandamentos do Decálogo, reiterados por Moisés em Deuteronômio 5.6-15, tratam do relacionamento entre Deus e seu povo. Eles ensinam que o Senhor deve ocupar o primeiro lugar na vida dos seus servos e ser amado, adorado e obedecido com exclusividade.
a) Não terás outros deuses diante de mim (Dt 5.6,7). Este mandamento estabelece a exclusividade do Senhor na adoração de seu povo. Deus é único, e Israel não deveria prestar culto a nenhuma outra divindade. O politeísmo, que consiste na crença em vários deuses; o panteísmo, que identifica Deus com o universo ou a natureza; e o henoteísmo, que reconhece uma divindade principal sem negar a existência de outras, são concepções incompatíveis com o monoteísmo bíblico. O povo de Deus deveria reconhecer e adorar somente o Senhor.
b) Não farás para ti imagem de escultura para adoração (Dt 5.8-10). Israel foi proibido de fabricar imagens de seres celestiais ou de qualquer criatura para prestar-lhes culto (Êx 20.4-6). A proibição não significava que toda representação artística de seres humanos ou animais fosse ilícita, mas que tais representações não deveriam ser usadas como objetos de adoração. Quanto à representação de Deus, Moisés advertiu o povo de que não havia visto nenhuma figura do Senhor em Horebe e, por isso, não deveria fabricar uma imagem para representá-lo: “Guardai, pois, com diligência as vossas almas, pois nenhuma figura vistes no dia em que o Senhor, em Horebe, falou convosco do meio do fogo; para que não vos corrompais, e vos façais alguma imagem esculpida na forma de qualquer figura, semelhança de homem ou mulher” (Dt 4.15,16, ARC). Deus não pode ser reduzido a uma representação material criada pelo ser humano.
c) Não tomarás o nome do Senhor em vão (Dt 5.11). Este mandamento não proíbe simplesmente pronunciar o nome de Deus, mas usá-lo de maneira leviana, falsa ou irreverente. Na Bíblia, o nome está relacionado à pessoa, ao seu caráter e à sua reputação. Portanto, tomar o nome do Senhor em vão inclui invocá-lo para sustentar uma mentira, fazer juramentos falsos ou tratar as coisas sagradas com desprezo. Devemos honrar o nome de Deus com nossas palavras, atitudes e conduta.
d) Lembra-te do sábado para o santificar (Dt 5.12). O quarto mandamento determinava que Israel santificasse o sétimo dia da semana, abstendo-se do trabalho habitual (Êx 20.8-11). Além do descanso semanal, a Lei estabelecia o ano sabático, a cada sete anos, quando a terra deveria descansar do cultivo (Lv 25.1-7). A guarda do sábado fazia parte da aliança de Deus com Israel e servia como sinal dessa aliança (Êx 31.16,17). Na Nova Aliança, o Novo Testamento não impõe aos cristãos a observância do sábado como obrigação legal (Cl 2.16,17; Rm 14.5,6). A Igreja Primitiva também passou a reunir-se no primeiro dia da semana, o domingo, dia em que Cristo ressuscitou (At 20.7; 1 Co 16.2). Essas reuniões, porém, não significam que o mandamento sabático tenha sido simplesmente transferido do sábado para o domingo.
Esses quatro mandamentos nos ensinam que amar a Deus envolve submeter a Ele nossa vontade, nossas decisões e nossos afetos (Mt 22.37). A idolatria também pode manifestar-se de formas contemporâneas, quando o poder, a riqueza, os prazeres ou qualquer outra coisa ocupa o lugar que pertence exclusivamente ao Senhor. Nosso amor a Deus deve ser demonstrado por uma vida de devoção, santidade, obediência e fidelidade à sua Palavra.
2. Os seis mandamentos: amor ao próximo.Os seis mandamentos restantes do Decálogo tratam do relacionamento com o próximo e estabelecem princípios fundamentais para a convivência em sociedade. Eles abrangem a honra aos pais, a preservação da vida, a fidelidade conjugal, o respeito à propriedade alheia, a proibição do falso testemunho e a rejeição da cobiça. Esses mandamentos demonstram que o amor ao próximo deve manifestar-se em atitudes concretas de respeito, justiça e honestidade.
a) Honra a teu pai e a tua mãe (Dt 5.16). Este mandamento, dirigido aos filhos, é acompanhado de uma promessa relacionada à obediência: “para que se prolonguem os teus dias e para que te vá bem na terra que te dá o Senhor, teu Deus” (Dt 5.16). O apóstolo Paulo retoma esse princípio ao ensinar que os filhos devem obedecer aos pais no Senhor, acrescentando que esse é o primeiro mandamento com promessa (Ef 6.1-3).
Honrar os pais é uma responsabilidade que deve ser observada em todas as fases da vida, inclusive na velhice, quando muitos precisam de cuidados especiais. Lamentavelmente, há filhos que desprezam os pais, sentem vergonha deles ou os abandonam quando mais necessitam de apoio. A Palavra de Deus, porém, nos ensina a tratar nossos pais com respeito, gratidão e dignidade, reconhecendo o valor dessa responsabilidade familiar.
b) Não matarás (Dt 5.17). Este mandamento proíbe o homicídio, isto é, a morte ilícita de uma pessoa. Deus é o doador da vida, que deve ser respeitada e preservada. À luz dos princípios bíblicos sobre a dignidade humana e a vida no ventre materno, defendemos a proteção da vida desde a concepção. A Bíblia declara que o ser humano foi criado à imagem de Deus e, por isso, a vida humana possui valor especial (Gn 1.26,27; Sl 139.13-16).
A seriedade desse mandamento também se evidencia na determinação divina de que o homicida fosse responsabilizado por seu ato: “Quem derramar o sangue do homem, pelo homem o seu sangue será derramado; porque Deus fez o homem conforme a sua imagem” (Gn 9.6; cf. Lv 24.17). Na legislação de Israel, entretanto, havia distinção entre o homicídio intencional e a morte acidental. Para os casos de morte não intencional, Deus estabeleceu cidades de refúgio, a fim de proteger o responsável contra a vingança antes do devido julgamento (Nm 35.9-15).
Portanto, o mandamento não deve ser interpretado como uma proibição indistinta de toda situação em que ocorre uma morte. A própria legislação mosaica tratava separadamente do homicídio, das mortes acidentais e de outras situações específicas. Isso, contudo, não diminui a gravidade de tirar injustamente a vida de alguém.
No Sermão do Monte, Jesus aprofundou a compreensão desse mandamento ao tratar da ira injusta, dos insultos e da hostilidade contra o próximo (Mt 5.21,22). Ele mostrou que a obediência a Deus não se limita a evitar o ato externo de matar, mas exige também que tratemos o próximo com amor, domínio próprio e disposição para a reconciliação.
c) Não adulterarás (Dt 5.18). Este mandamento trata da fidelidade conjugal. O padrão estabelecido por Deus na criação é a união entre um homem e uma mulher, formando uma só carne (Gn 2.24). O adultério viola esse compromisso, fere a confiança entre os cônjuges e ameaça a estabilidade da família. Por isso, a Lei de Deus condenava expressamente essa prática (Lv 20.10).
No Novo Testamento, Jesus aprofundou o sentido desse mandamento ao ensinar que o adultério não se restringe ao ato sexual consumado. O olhar deliberadamente cobiçoso também revela impureza no coração: “qualquer que atentar numa mulher para a cobiçar já em seu coração cometeu adultério com ela” (Mt 5.28). O Senhor também advertiu contra o divórcio e o novo casamento em circunstâncias que configuram adultério, conforme o contexto de Mateus 5.31,32.
O adultério afronta a vontade de Deus para o casamento e pode provocar profundas feridas emocionais, destruir a confiança e comprometer a harmonia familiar. Por isso, o Novo Testamento adverte severamente contra a imoralidade sexual e declara que os adúlteros não herdarão o Reino de Deus se permanecerem nessa prática sem arrependimento (1 Co 6.9,10; Gl 5.19-21). Hebreus 13.4 também exorta os cristãos a honrarem o casamento e preservarem a pureza conjugal.
d) Não furtarás (Dt 5.19). Este mandamento determina o respeito à propriedade alheia. O termo hebraico gānab, traduzido como “furtarás”, significa furtar ou roubar. Em seu contexto, o mandamento proíbe apropriar-se indevidamente daquilo que pertence ao próximo. Seu princípio, porém, também nos leva a rejeitar práticas desonestas que causam prejuízo a outras pessoas.
Assim, além do furto e do roubo, devemos evitar a fraude, a corrupção, a receptação, o plágio, a pirataria e outras formas de apropriação indevida ou desonestidade. Também precisamos rejeitar práticas de exploração econômica que violem a justiça e a honestidade. O fato de determinada conduta não ser tipificada como crime em uma legislação específica não significa, por si só, que ela seja moralmente correta diante de Deus. O cristão deve agir com integridade e respeitar aquilo que pertence ao próximo.
e) Não dirás falso testemunho contra o teu próximo (Dt 5.20). Este mandamento proíbe o falso testemunho, especialmente no contexto judicial, em que uma declaração mentirosa pode provocar graves injustiças. Seu princípio também nos ensina a rejeitar a mentira, a calúnia e a difamação em nossas relações cotidianas. Deus é verdadeiro e abomina a falsidade. Por isso, o cristão deve falar a verdade e agir com sinceridade, evitando o fingimento, a dissimulação, a hipocrisia e a desonestidade.
Na vida cristã, os fins não justificam os meios. Não podemos recorrer à mentira ou à desonestidade alegando boas intenções. A verdade deve orientar nossas palavras e atitudes, mesmo quando falar a verdade exige coragem ou traz algum prejuízo pessoal.
O falso testemunho pode destruir reputações, provocar conflitos e levar pessoas inocentes à condenação. Foi o que aconteceu com Nabote, vítima de falsas acusações articuladas contra ele (1 Rs 21.8-16), e com Estêvão, contra quem foram levantadas falsas testemunhas (At 6.11-14). No julgamento de Jesus, os líderes também procuraram testemunhos falsos contra Ele (Mt 26.59,60). Por isso, as Escrituras condenam severamente o falso testemunho e a semeadura de contendas (Pv 6.16-19).
f) Não cobiçarás (Dt 5.21). Este mandamento trata de uma disposição interior que pode levar à violação de outros mandamentos, especialmente os que proíbem o adultério e o furto. Diferentemente das proibições que se manifestam diretamente em atos exteriores, a cobiça começa no coração: é o desejo desordenado de possuir aquilo que pertence ao próximo. Ela revela insatisfação, inveja e falta de contentamento com aquilo que Deus nos concede.
A cobiça pode levar uma pessoa a desejar o cônjuge, os bens ou as conquistas de outra, abrindo caminho para o adultério, o roubo e outras práticas pecaminosas. Por isso, precisamos vigiar nossos desejos e cultivar a gratidão pela provisão divina. A Palavra de Deus nos exorta: “Sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes; porque ele disse: Não te deixarei, nem te desampararei” (Hb 13.5).
Esses seis mandamentos deixam claro que o amor bíblico não se limita a sentimentos ou palavras, mas se manifesta em atitudes concretas: “Meus filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas por obra e em verdade” (1 Jo 3.18). Nossa obediência a Deus deve refletir-se na maneira como tratamos a família, os irmãos na fé e todas as pessoas com quem convivemos. Não podemos afirmar que amamos a Deus enquanto desrespeitamos, enganamos ou prejudicamos o nosso próximo.
3. Qual a utilidade da Lei para os cristãos hoje? Há uma longa discussão, desde os primórdios da Igreja, sobre a relação dos discípulos de Jesus com a Lei Mosaica. Nesse assunto, o cristão deve evitar dois extremos: o legalismo e o antinomismo.
O legalismo procura estabelecer regras como meio de obter a aceitação de Deus, mediante o cumprimento de determinadas exigências. Nos primórdios da Igreja, alguns cristãos de origem judaica insistiam que os gentios deveriam observar os preceitos da Lei Mosaica, incluindo a circuncisão, para serem salvos (At 15.1,5). O grande problema desse ensino é que ele distorce a mensagem do Evangelho, segundo a qual somos justificados pela fé, e não pelas obras da Lei (Gl 2.16).
Por outro lado, o antinomismo sustenta que, por causa da obra de Cristo, o cristão estaria livre de toda obrigação moral, como se a graça autorizasse uma vida sem compromisso com a santidade. Essa concepção confunde a liberdade cristã com a libertinagem. Jesus declarou que não veio abolir a Lei e os Profetas, mas cumpri-los (Mt 5.17). Ele cumpriu as profecias messiânicas e levou a Lei ao seu pleno propósito. Embora os cristãos não estejam debaixo da Lei Mosaica como sistema de aliança, os princípios morais coerentes com a vontade de Deus permanecem válidos e são reafirmados no Novo Testamento.
A Lei é santa, justa e boa (Rm 7.12), mas não é um meio de conquistar a salvação. Ela revela o pecado e evidencia a necessidade de redenção (Rm 3.20), além de conter princípios que contribuem para a orientação moral da conduta humana (1Tm 1.8-11). Entretanto, a Lei não pode, por si mesma, libertar o pecador do domínio do pecado nem torná-lo justo diante de Deus.
Em Cristo, a obediência não é uma tentativa de merecer a salvação, mas uma resposta de gratidão pela graça recebida. É o Espírito Santo quem capacita o cristão a viver segundo a vontade de Deus, cumprindo-se em nós a justa exigência da Lei (Rm 8.4). Na Nova Aliança, Deus escreve suas leis no coração dos que lhe pertencem (Hb 10.16). Portanto, obedecemos ao Senhor não para conquistar a salvação, mas porque fomos alcançados por sua graça e desejamos agradá-lo.
Ev. WELIANO PIRES

Nenhum comentário:
Postar um comentário