(Comentário do 1⁰ tópico da lição 2: Recapitulando a jornada no deserto).
Neste primeiro tópico, abordaremos a importância da liderança compartilhada na obra de Deus. Moisés relembrou ao povo que, devido ao crescimento da nação e ao aumento das demandas, não poderia conduzir Israel sozinho.
A Bíblia deixa claro que Deus estabeleceu a necessidade de liderança entre o seu povo. Entretanto, a liderança não deve ser exercida de maneira centralizadora, como se uma única pessoa pudesse realizar sozinha todas as tarefas.
É preciso ter cuidado, no entanto, para não escolher precipitadamente pessoas inexperientes ou desqualificadas para exercer funções de liderança. O sogro de Moisés recomendou que fossem escolhidos homens capazes, tementes a Deus, dignos de confiança e que aborrecessem a avareza (Êx 18.21). Deuteronômio acrescenta ainda outros requisitos, como sabedoria, entendimento e boa reputação entre as tribos (Dt 1.13).
Os líderes escolhidos deveriam atuar em harmonia com a liderança estabelecida por Deus para Israel. O princípio da liderança compartilhada não elimina a autoridade; antes, promove uma administração mais equilibrada, responsável e eficiente.
1. A necessidade de liderança. Na atualidade, especialmente nas redes sociais, há bastante resistência à ideia de liderança entre o povo de Deus. Muitos interpretam equivocadamente alguns textos bíblicos que apresentam Jesus como o Bom Pastor ou o Único Pastor e, com isso, afirmam que Ele é o único líder da Igreja. De fato, Jesus Cristo é o Bom Pastor, o Senhor e o Cabeça da Igreja (Jo 10.11; Ef 1.22,23). Entretanto, Ele mesmo estabeleceu ministros para exercerem funções de liderança e cuidado espiritual no meio do seu povo (Jo 21.15-17; Ef 4.11,12). Portanto, reconhecer a liderança humana na Igreja não significa diminuir a autoridade de Cristo, mas reconhecer a maneira como Ele estabeleceu a administração de sua obra.
Desde o Antigo Testamento, encontramos o princípio da delegação de responsabilidades e do compartilhamento do trabalho. No Novo Testamento, esse princípio também é observado na distribuição de dons e ministérios para a edificação do Corpo de Cristo (Ef 4.11,12; 1Co 12.4-7). Deus estabelece líderes, mas também concede pessoas capacitadas para auxiliá-los na realização da sua obra.
Jetro, sogro de Moisés, visitou-o no deserto e observou que ele estava julgando o povo sozinho, desde a manhã até a tarde. Então, advertiu-o de que aquela tarefa era pesada demais para um único homem (Êx 18.17,18). Por isso, aconselhou Moisés a estabelecer homens capazes, tementes a Deus, dignos de confiança e inimigos da avareza, para auxiliá-lo na condução do povo e no julgamento das questões que surgissem entre os israelitas (Êx 18.19-23).
Moisés acatou o conselho de Jetro e escolheu homens capazes dentre todo o Israel, colocando-os como chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez. Assim, eles julgavam as questões menores, enquanto os casos mais difíceis eram levados a Moisés (Êx 18.24-26). Posteriormente, diante do peso causado pelas constantes murmurações do povo, Moisés recebeu de Deus a orientação para reunir setenta anciãos de Israel, que receberiam do mesmo Espírito que estava sobre ele para auxiliá-lo na condução do povo (Nm 11.14-17,24,25).
A liderança compartilhada é necessária porque ninguém consegue realizar sozinho uma grande obra. Além de sobrecarregar o líder, a centralização excessiva pode comprometer a continuidade do trabalho. Quando responsabilidades são compartilhadas, outras pessoas são preparadas e capacitadas para servir, e a liderança se torna mais saudável e eficiente. No Corpo de Cristo, cada membro possui uma função e deve cooperar para a edificação de todos (1Co 12.12-27).
Por isso, o líder deve cercar-se de pessoas maduras, responsáveis e comprometidas com Deus, e não de bajuladores. Conselhos sábios podem ajudá-lo a tomar decisões melhores e a corrigir possíveis equívocos (Pv 11.14; 15.22). Uma liderança saudável não teme compartilhar responsabilidades; pelo contrário, prepara pessoas, valoriza diferentes perspectivas e trabalha em equipe para cumprir melhor a missão que Deus confiou à sua Igreja.
2. Critérios espirituais para compartilhar a liderança. Se, por um lado, há necessidade de líderes entre o povo de Deus, conforme vimos acima, por outro, poucas pessoas estão dispostas a assumir essa responsabilidade, pois a liderança envolve desafios, renúncias e responsabilidades. Há ainda outro problema: pessoas que não reúnem as qualificações necessárias podem acabar assumindo funções de liderança, seja pela falta de obreiros preparados, seja por conveniência ou decisão equivocada de alguns líderes.
Do ponto de vista bíblico, porém, não deve ser assim. O próprio Senhor Jesus reconheceu a necessidade de trabalhadores para a sua obra ao declarar: “A seara é realmente grande, mas poucos são os ceifeiros” (Mt 9.37). Entretanto, Ele não orientou seus discípulos a escolherem qualquer pessoa para preencher essa lacuna. Ao contrário, ordenou: “Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande ceifeiros para a sua seara” (Mt 9.38). A obra pertence a Deus, e aqueles que a realizam devem ser chamados, preparados e aprovados segundo os critérios estabelecidos por Ele.
Sempre que encontramos a escolha ou o estabelecimento de líderes na Bíblia, observamos também a necessidade de requisitos compatíveis com a responsabilidade que receberão. No caso dos líderes de Israel, Moisés determinou que julgassem o povo com justiça, sem fazer acepção de pessoas e sem temer os homens, pois o juízo pertence a Deus (Dt 1.16,17). Esses líderes não exerciam apenas funções administrativas; também julgavam as questões do povo. Por isso, deveriam demonstrar justiça, imparcialidade, integridade e temor a Deus.
No Novo Testamento, encontramos igualmente critérios espirituais e morais para aqueles que exercem funções de liderança na Igreja. A escolha dos primeiros diáconos, por exemplo, deveria considerar homens de “boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria” (At 6.3). Nas orientações de Paulo a Timóteo e Tito, encontramos outras qualificações para os que desejam exercer o ministério, como ser irrepreensível, moderado, prudente, hospitaleiro, apto para ensinar, não violento, não avarento e não neófito, além de demonstrar bom governo do próprio lar (1Tm 3.1-13; Tt 1.5-9).
Esses critérios mostram que a liderança cristã não deve ser definida apenas por capacidade administrativa, influência, eloquência ou disponibilidade. A chamada é de Deus, mas a Igreja deve observar cuidadosamente o caráter, a maturidade espiritual, o testemunho e a capacidade daqueles que serão separados para o serviço. Portanto, diante da necessidade de obreiros, não devemos escolher qualquer pessoa apenas para preencher uma função; devemos buscar pessoas que apresentem as qualidades requeridas pela Palavra de Deus.
3. O exercício justo e subordinado da liderança. Além de submeter-se a Deus, o líder deve reconhecer a autoridade e a orientação de outros líderes legitimamente estabelecidos, preservando a unidade e a cooperação na obra. Na Igreja, não deve haver espaço para uma liderança independente, que não presta contas de seus atos nem aceita orientação. A ausência de prestação de contas pode abrir caminho para decisões equivocadas, abusos de autoridade e outros problemas. Por isso, a liderança cristã deve ser exercida com responsabilidade, transparência e disposição para ouvir conselhos.
Nenhum líder deve considerar-se autossuficiente. Embora existam situações em que decisões precisem ser tomadas pelo próprio líder, é sábio buscar conselhos e compartilhar responsabilidades. Além de ser uma carga pesada liderar sozinho, o isolamento aumenta o risco de erros. Por isso, o líder deve cercar-se de colaboradores fiéis e maduros, que possam auxiliá-lo, orar por ele e oferecer conselhos sábios (Êx 18.21-23; Pv 11.14; 15.22).
A verdadeira liderança cristã não se fundamenta no domínio sobre as pessoas, mas no serviço e na responsabilidade diante de Deus. O líder não é dono da obra nem das pessoas que lhe foram confiadas; é apenas um servo a quem o Senhor atribuiu uma responsabilidade. Por isso, deve liderar com justiça, humildade, temor de Deus e espírito de cooperação, lembrando-se de que, um dia, prestará contas ao Supremo Pastor (1Pe 5.4).
Ev. WELIANO PIRES

Nenhum comentário:
Postar um comentário