08 outubro 2026

A RECUSA DE ENTRAR NA TERRA PROMETIDA


(Comentário do 2⁰ tópico da lição 2: Recapitulando a jornada no deserto)

Neste segundo tópico, veremos a recusa da geração que saiu do Egito em entrar na Terra Prometida, após ouvir o relatório dos dez espias incrédulos. Embora eles tenham reconhecido que a terra era boa, foram dominados pelo medo e transmitiram ao povo uma mensagem de incredulidade, levando-o a duvidar da promessa de Deus (Nm 13.27-33; 14.1-4).

Moisés relembrou a jornada de Israel desde o Monte Horebe até Cades-Barneia, destacando o cuidado de Deus para com o povo e sua fidelidade à promessa de entregar-lhes a terra (Dt 1.6-8,19-21). Contudo, diante das dificuldades, os israelitas se deixaram dominar pelo medo e pela incredulidade.

A atitude dos espias e do povo resultou em rebelião, murmuração e desobediência ao Senhor, trazendo graves consequências para aquela geração (Dt 1.26-35). Esses acontecimentos nos ensinam que a incredulidade pode nos impedir de desfrutar aquilo que Deus prometeu.

1. Uma recordação resumida. Na lição passada, que apresentou uma introdução ao assunto do trimestre, abordamos alguns temas que serão retomados nesta e em outras lições. No tópico 2, apresentamos o contexto histórico do livro de Deuteronômio e, dentro dele, fizemos um panorama geográfico da jornada de Israel, destacando alguns dos principais lugares relacionados à sua peregrinação, desde a saída do Egito até as planícies de Moabe.

No primeiro capítulo de Deuteronômio, Moisés faz uma breve recapitulação da jornada de Israel desde o Monte Horebe, ou Sinai, até Cades-Barneia. A partir de Horebe, os israelitas prosseguiram pelo deserto, passando por diversos lugares até chegarem a Cades-Barneia, de onde foram enviados os espias para reconhecer a Terra Prometida (Nm 13.1-3).

O longo período de peregrinação não foi causado pela distância geográfica entre o Sinai e Cades-Barneia. Moisés declarou que esse percurso poderia ser feito em aproximadamente onze dias pelo caminho do monte Seir (Dt 1.2). Israel permaneceu cerca de onze meses no Sinai, conforme se depreende de Êxodo 19.1 e Números 10.11. Os anos restantes decorreram da sentença divina após a rebeldia em Cades-Barneia.

O relatório negativo da maioria dos espias provocou a incredulidade do povo, que chegou a desejar retornar ao Egito. Por causa dessa rebeldia, Deus determinou que aquela geração não entraria na Terra Prometida, com exceção de Josué e Calebe, que permaneceram fiéis ao Senhor (Nm 14.26-35; Dt 1.34-40). Assim, ao relembrar essa jornada, Moisés não pretendia apenas apresentar uma sequência de acontecimentos, mas levar a nova geração a aprender com os erros de seus antepassados e a não repetir a mesma incredulidade.

2. Fracassando pela linguagem da incredulidade. Em nossos dias, muitos pregadores adotam modismos e chavões em suas mensagens. Alguns, mesmo sem perceber, acabam reproduzindo conceitos relacionados à chamada “confissão positiva”, segundo os quais as palavras humanas teriam poder para determinar acontecimentos. Nessa perspectiva, se alguém declarar coisas positivas ou negativas, elas supostamente acontecerão. Há também quem ensine que uma pessoa pode abençoar ou amaldiçoar outra por meio de suas palavras, como se a bênção ou a maldição estivesse sob o controle humano.

Esse ensino não encontra fundamento nas Escrituras. As coisas não acontecem simplesmente em virtude daquilo que declaramos, pois o poder soberano pertence a Deus. Ninguém pode determinar, por suas palavras, aquilo que Deus não determinou. Como vemos no episódio de Balaque e Balaão, “contra Jacó não vale encantamento, nem adivinhação contra Israel” quando Deus decidiu abençoar o seu povo (Nm 23.23). Nossas palavras não possuem poder sobrenatural em si mesmas. Quem tem poder é Deus, e a sua Palavra é viva, eficaz e permanece para sempre (Hb 4.12; 1Pe 1.23-25).

Isso não significa, porém, que nossas palavras sejam irrelevantes. Embora não tenham poder sobrenatural para determinar acontecimentos, elas exercem influência sobre aqueles que as ouvem. Podem encorajar ou desencorajar, alegrar ou entristecer, consolar ou ferir, acalmar ou provocar ira e, inclusive, contribuir para gerar confiança ou alimentar o medo. Por isso, a Bíblia nos orienta a falar de maneira sábia e edificante (Pv 12.18; 15.1; Ef 4.29).

Em seu discurso, Moisés relembrou que o povo havia pedido o envio de espias para reconhecer a Terra Prometida e avaliar as condições para a conquista (Dt 1.22). Moisés concordou e enviou doze homens, um de cada tribo (Dt 1.23; Nm 13.1-3). Embora o pedido, em si, não tenha sido apresentado inicialmente como rebelião, ele revelou posteriormente uma dificuldade em confiar plenamente na promessa e no cuidado de Deus. O Senhor já havia prometido entregar aquela terra a Israel e demonstrado seu poder desde a saída do Egito. O problema não estava em conhecer a terra, mas em permitir que aquilo que os olhos viram fosse usado para alimentar a incredulidade.

Os espias reconheceram que a terra era boa e muito produtiva, trazendo inclusive um grande cacho de uvas, que precisou ser transportado por dois homens (Nm 13.23-27). Entretanto, dez deles deram um relatório negativo, destacando a força dos habitantes e os obstáculos à conquista. Suas palavras espalharam medo e desânimo entre o povo. Josué e Calebe, porém, confiaram na promessa de Deus e conclamaram Israel a avançar e tomar posse da terra (Nm 13.30; 14.6-9). A maioria prevaleceu, e o povo preferiu dar ouvidos à linguagem da incredulidade em vez de confiar na Palavra do Senhor.

Aprendemos com este episódio que a incredulidade pode transformar dificuldades reais em obstáculos intransponíveis, enquanto a fé nos leva a confiar no Deus que fez a promessa. O problema não estava apenas nas palavras dos dez espias, mas na incredulidade que elas revelaram e alimentaram no coração do povo. Em meio às dificuldades que enfrentamos na nossa jornada com Cristo, devemos crer na Palavra de Deus e dá ouvidos a pessoas que confiam em Deus, não a incrédulos, cujas palavras nos induzem ao desânimo. 

3. Pecados marcantes na vida de Israel. A falta de fé compromete o relacionamento com Deus. O escritor da Epístola aos Hebreus declarou: “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe, porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que é galardoador dos que o buscam” (Hb 11.6). Ter fé em Deus, portanto, não significa apenas acreditar em sua existência, mas confiar nele e em sua Palavra, demonstrando essa confiança por meio da obediência. Tiago reforça essa verdade ao afirmar: “Tu crês que há um só Deus? Fazes bem; também os demônios o creem e estremecem. Mas, ó homem vão, queres tu saber que a fé sem as obras é morta?” (Tg 2.19,20).

A incredulidade expressa no relatório dos dez espias desestimulou o povo e desencadeou uma sequência de pecados contra Deus, que culminou na sentença de que aquela geração não entraria na Terra Prometida. O primeiro deles foi a recusa em entrar na terra que Deus havia prometido e concedido a Israel. Desprezar aquilo que Deus oferece, por incredulidade ou falta de confiança em suas promessas, revela ingratidão e rebeldia. Esaú é um exemplo disso, pois desprezou sua primogenitura e a trocou por uma refeição (Gn 25.29-34; Hb 12.16). De maneira semelhante, muitas pessoas ainda desprezam a salvação oferecida por Deus, preferindo os prazeres e valores passageiros deste mundo.

Outro pecado foi a rebelião contra a ordem divina. Em vez de avançar para a Terra Prometida, o povo desejou retornar ao Egito, esquecendo-se de que ali havia sido escravo e de que Deus o havia libertado com mão poderosa e grandes sinais. A Escritura apresenta a rebelião contra Deus como algo extremamente grave: “porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria” (1Sm 15.23). A Bíblia registra diversos episódios de rebelião que tiveram consequências trágicas, como a rebelião de Corá, Datã e Abirão (Nm 16.1-35). Também encontramos a rebelião de Satanás, o querubim que se levantou contra Deus e foi expulso de sua posição, juntamente com os anjos que o seguiram (Is 14.12-15; Ez 28.12-17; Ap 12.7-9).

Como diz o salmista, “um abismo chama outro abismo” (Sl 42.7). O relatório dos espias incrédulos alimentou a incredulidade do povo e desencadeou uma sequência de atitudes pecaminosas: medo, rebelião, murmuração e desobediência. Na Bíblia, a murmuração não é apenas uma simples manifestação de descontentamento; quando dirigida contra Deus, revela insatisfação, ingratidão e falta de confiança em sua bondade e fidelidade (Êx 16.7,8; Nm 14.27). Por isso, esses pecados estavam profundamente relacionados à incredulidade.

A história de Israel nos ensina que a incredulidade não permanece isolada: ela pode produzir medo, murmuração, rebelião e desobediência. Por outro lado, a fé genuína leva o crente a confiar nas promessas de Deus e a obedecer à sua Palavra, mesmo diante das dificuldades. Como afirmou o apóstolo Paulo: “andamos por fé e não por vista” (2Co 5.7). A grande lição da jornada de Israel é que quem confia verdadeiramente em Deus não permite que as dificuldades sejam maiores do que a promessa e o poder daquele que prometeu.

Ev. WELIANO PIRES

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