terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A resistência ao estudo teológico e a apologia à ignorância na Assembleia de Deus


Eu sou asembleiano desde a infância. Gosto muito da minha Igreja, até porque foi através dela que os meus pais e eu conhecemos a Cristo.
A Assembléia de Deus, maior denominação evangélica pentecostal do mundo, nasceu em Belém - PA, em 1911 após os missionários suecos, Daniel Berg e Gunnar Vingren, terem sido expulsos da Igreja Batista, por pregarem a doutrina pentecostal. Inicialmente, o seu nome era "Missão da Fé Apostólica". Somente em 1918, passou a chamar - se Assembleia de Deus.
As características iniciais desta Igreja sempre foram o ensino da Palavra de Deus e a manifestação dos Dons Espirituais. Porém, com a passagem da liderança dos missionários suecos, que eram profundos conhecedores da Palavra de Deus, para pastores brasileiros, a ênfase da denominação passou a ser voltada para usos e costumes e regras e proibições das mais absurdas. Durante muitos anos, os assembleianos foram proibidos de jogar futebol, ouvir rádio e ver televisão; os homens eram obrigados a usar chapéus, calça social e camisa manga longa com uma camiseta por baixo , independente do clima; as mulheres eram submetidas a regras muito rigorosas como: não se depilar, não usar maquiagem, não cortar o cabelo, usar saias longas e blusas de mangas compridas, não usar saltos, etc.
Uma coisa que sempre fez parte da cultura assembleiana foi a sua resistência aos seminários teológicos. Embora sempre tenha dado muita ênfase à Escola Dominical e às Escolas Bíblicas de Obreiros, muitos pastores assembleianos antigos não aceitavam o ensino sistemático de teologia. O Pr. Cícero Canuto de Lima, que foi Presidente do Ministério do Belém durante muitos anos, dizia que os seminários eram 'fábricas de pastores'. Outro argumento usado contra o ensino teológico é o de que ele 'esfria o crente', ou torna-o exaltado, arrogante e insubmisso.
Com a vinda de missionários como Bernard Johnson e Eurico Bergstén, que eram professores de teologia, isso foi mudando aos poucos. O primeiro, fundou a EETAD (Escola de Educação Telógica da Assembléia de Deus) em Campinas SP. O segundo escreveu vários livros sobre teologia sistemática e incentivava o ensino teológico nas Assembléias de Deus no Brasil. Pastores brasileiros como Antonio Gilberto e outros, estudaram teologia nos Estados Unidos e também se dedicaram muito à teologia assembleiana. O Pr João Kolenda fundou, em Pindamonhanga-SP, o IBAD (Instituto Bíblico das Assembléias de Deus), um seminário com formato de internato, que formou vários teólogos assembleianos, que hoje são escritores da CPAD. Entretanto, havia muita resistência, por parte de algumas lideranças nacionais da Igreja.
Nas décadas de 80 e 90 vários seminários foram criados e a Igreja foi percebendo a necessidade do ensino teológico, principalmente para os obreiros. Depois, a CGADB (Convenção Geral da Assembléias de Deus Brasil) decidiu que a formação teológica deveria ser obrigatória para os candidatos ao Ministério. Porém, mesmo assim, alguns pastores aceitavam que os candidatos que estivessem matriculados em um curso teológico já poderiam ser aprovados para o Ministério. Alguns obreiros, se matriculavam apenas para serem consagrados. Depois da consagração, abandonavam o curso.
Essa resistência histórica ao estudo teológico gerou alguns crentes que, por não entenderem nada de teologia, repetem os mesmos argumentos falaciosos de antigamente e fazem apologia à ignorância, como se esta fosse uma virtude.
É comum ouvirmos nos púlpitos assembleianos, pastores falarem que 'teologia não expulsa demônio', ou que 'não precisamos saber quantos parafusos haviam na Arca de Noé' e que 'para pregar basta falar que Jesus é bom'. Quanta ignorância! Quem disse que a teologia se propõe a fazer exorcismo ou a contar parafusos?
Ora, a teologia se propõe a estudar sistematicamente a Palavra de Deus, tendo como base principal aquilo que o próprio Deus nos revelou através das Escrituras Sagradas. A teologia bíblica não cria doutrinas. Ela apenas as cataloga e as põe em ordem, para uma melhor compreensão do conteúdo bíblico.
Considerando que a Bíblia foi escrita em lugares, cultura, época e idiomas muito diferentes daquilo que vivemos hoje, precisamos evidentemente, conhecer estas coisas, para entender a Bíblia. Aliás, se não fosse o estudo teológico, nem Bíblia em Português nós teríamos e certamente não seríamos evangélicos. Estaríamos, provavelmente, adorando imagens de escultura ou fazendo penitências para tentar ser salvo.
Quando estudamos os idiomas originais da Bíblia, o hebraico, o aramaico e o grego, não é para 'falar bonito' ou pregar em outros idiomas na Igreja. O estudo destes idiomas, mesmo que em parte, nos ajuda a compreender o real sentido dos textos bíblicos e evita interpretações equivocadas. Da mesma forma, quando estudamos a hermenêutica, ciência da interpretação de textos antigos, é para interpretar corretamente o texto bíblico e evitar a distorção. Outra matéria muito importante da teologia que é muito ridicularizada pelos apologistas da ignorância é a homiletica. Na opinião deles, estuda-se homiletica para 'falar difícil', usando expressões desconhecidas do público para demonstrar erudição. O que eles não sabem ou fingem não saber, é que a homiletica faz exatamente o contrário disso. O objetivo da homiletica é aperfeiçoar o discurso, para que este tenha conteúdo e seja compreendido pelos ouvintes. Na homiletica aprendemos a elaborar sermões com tema, introdução, argumentação e conclusão. Além disso, aprendemos a ter postura e linguagem que não atrapalhem a atenção dos ouvintes. Uma pregação assim, faz com que o pregador pregue a Palavra de Deus de forma eficiente, sendo compreendido e aproveitando melhor o tempo.
Não entendo porque pastores e pregadores assembleianos continuam contrapondo o estudo teológico com a humildade ou com a oração, como se fossem conceitos opostos. Ora, o fato de alguém ser teólogo não o torna, necessariamente soberbo, nem impede que ele tenha uma vida piedosa e de oração. O contrário também é verdadeiro. Não é porque alguém é um analfabeto teológico, que será obrigatoriamente, humilde ou uma pessoa piedosa. Uma coisa não exclui, nem substitui a outra.
Parece que dá audiência falar contra teologia e contra o conhecimento nos púlpitos assembleianos. Estas pessoas talvez não se dão conta, mas, com esta atitude estão desestimulando os obreiros mais novos de estudarem a Palavra de Deus. Isso trará grande prejuízo tanto para os futuros obreiros, quanto para a própria Igreja.
Que Deus lhes dê discernimento.

Pb. Weliano Pires.


Nenhum comentário:

Postar um comentário