(Comentário do 2⁰ tópico da lição 6: A aliança e as bençãos da obediência)
No segundo tópico, veremos que o amor, a fidelidade e a obediência são aspectos fundamentais da aliança de Deus com Israel. Conforme estudamos no tópico anterior, a escolha desse povo não se fundamentou em seus méritos ou em sua grandeza, mas no amor e na soberania de Deus. Entretanto, a eleição também trazia responsabilidades, entre elas a fidelidade e a obediência ao Senhor.
Por ser absolutamente santo, Deus exige que o seu povo também viva em santidade: “Santos sereis, porque eu, o SENHOR, vosso Deus, sou santo” (Lv 19.2). Isso significa que Israel deveria viver separado para Deus, como sua propriedade peculiar, refletindo em sua conduta o caráter santo do Senhor.
A aliança se fundamentava no amor, na fidelidade e na justiça de Deus. O Senhor amou Israel e o escolheu antes mesmo de sua constituição como nação. Por sua fidelidade, Deus honra a sua aliança e cumpre as promessas que fez. Portanto, os israelitas também deveriam reconhecer esse amor e corresponder a ele com fidelidade e obediência.
No âmbito da aliança mosaica, Deus prometeu bênçãos ao povo caso este permanecesse fiel aos seus mandamentos. Essas bênçãos incluíam saúde, fecundidade, provisão e proteção contra os inimigos (Dt 7.12-15; 28.1-14).
1- O chamado à santidade do povo de Deus. Deus declarou Israel como um povo santo, separado, consagrado e de propriedade exclusiva do Senhor: “Povo santo és ao SENHOR, teu Deus…” (Dt 7.6, ARC). A palavra hebraica traduzida por “santo” nesse texto é qādôsh, que significa santo, consagrado ou separado. No Antigo Testamento, o conceito de santidade está relacionado à separação de alguém ou de algo do uso comum para ser dedicado ao serviço de Deus. Um exemplo disso encontra-se em 1 Samuel 7.1, quando Eleazar foi consagrado para guardar a arca do Senhor.
Tanto a eleição de Israel para cumprir propósitos específicos no plano divino quanto a eleição da Igreja em Cristo para a salvação têm sua origem na graça e no amor de Deus, e não nos méritos humanos. Entretanto, cada uma possui características e finalidades próprias no plano divino. Deus exigiu de Israel santidade e fidelidade à aliança e, da mesma forma, requer santidade de sua Igreja. Assim como Israel, a Igreja também é chamada de povo santo e propriedade exclusiva de Deus, zeloso de boas obras (1Pe 2.9; Tt 2.14).
Quando afirmamos que precisamos ser santos ou que somos santos, algumas pessoas podem interpretar isso como arrogância ou presunção. Essa compreensão equivocada decorre, muitas vezes, do desconhecimento do significado bíblico da santidade. No entendimento popular, ser santo significa não possuir pecado ou alcançar um estado de perfeição moral. Em algumas tradições religiosas, o termo também é associado à canonização de pessoas após a morte.
Entretanto, o conceito bíblico de santidade não se limita a essas ideias. Somos santos porque Deus nos separou e nos santificou para pertencermos exclusivamente a Ele. Isso não significa que já alcançamos a perfeição absoluta, mas que fomos chamados a viver em santidade, abandonando o pecado e buscando uma vida que agrade ao Senhor (1Co 1.2; 1Pe 1.15,16).
2- O Deus fiel e justo: base da aliança. Em Deuteronômio 7.9, Moisés declarou ao povo: “Saberás, pois, que o SENHOR, teu Deus, ele é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações aos que o amam e guardam os seus mandamentos”. O verbo hebraico traduzido por “saberás” é yadá, que significa “saber” ou “conhecer”. No contexto bíblico, esse conhecimento não se limita à informação intelectual ou ao conhecimento adquirido por ouvir falar, mas envolve também reconhecer, experimentar e relacionar-se com Deus.
Moisés, portanto, chama o povo a reconhecer quem Deus é e a confiar em sua fidelidade no cumprimento da aliança. A fidelidade divina é fundamento suficiente para que o seu povo confie plenamente nele, tendo a certeza de que o Senhor não falha nem muda em seu caráter (Nm 23.19; Ml 3.6). Seus propósitos não dependem das limitações humanas, pois Ele é soberano e tem o controle de todas as coisas. Por isso, Israel deveria permanecer fiel ao Senhor, confiando em suas promessas e obedecendo aos seus mandamentos.
Além de fiel, Deus é misericordioso. Quando declara que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações daqueles que o amam e guardam os seus mandamentos, o Senhor utiliza uma expressão que comunica a grandeza e a permanência de sua misericórdia. Não significa que ela terminará depois da milésima geração, mas que sua bondade se estende abundantemente ao longo das gerações. Essa verdade também é expressa pelo profeta Jeremias: “As misericórdias do SENHOR são a causa de não sermos consumidos; porque as suas misericórdias não têm fim” (Lm 3.22).
Por outro lado, o Senhor também é justo e retribuirá a cada um segundo as suas obras (Rm 2.6). A misericórdia de Deus não anula sua justiça, e Ele não tem o culpado por inocente. O profeta Naum declara: “O SENHOR é tardio em irar-se, mas grande em força e ao culpado não tem por inocente” (Na 1.3). Portanto, o Senhor é misericordioso para com aqueles que o amam e guardam seus mandamentos, mas também é justo ao julgar os que persistem na desobediência. Sua fidelidade e misericórdia não eliminam sua justiça; todos esses atributos fazem parte de seu caráter perfeito.
3- Obediência e confiança: o caminho da prosperidade em Deus. Em Deuteronômio 7.12-16, Moisés apresenta as promessas de Deus de prosperidade, fecundidade, saúde, provisão e proteção aos israelitas que obedecessem aos seus mandamentos. Esse tema será retomado no terceiro discurso de Moisés, especialmente no capítulo 28 de Deuteronômio, no qual ele apresenta uma relação de bênçãos decorrentes da obediência e de maldições como consequência da desobediência. Esse será o assunto da nossa próxima aula.
Desde o chamado de Moisés, quando Deus lhe revelou seu propósito de libertar Israel da escravidão no Egito, o Senhor prometeu conduzir o seu povo a uma terra que mana leite e mel (Êx 3.7,8). Ao longo da jornada pelo deserto, Deus também reafirmou suas promessas de proteção, provisão, saúde e fecundidade. O Senhor prometeu abençoar o povo e guardá-lo dos inimigos, desde que permanecesse fiel à aliança estabelecida com Ele (Êx 23.25,26; Dt 7.12-16).
Essas promessas, porém, estavam relacionadas à obediência de Israel aos termos da aliança. Um exemplo disso encontramos em Êxodo 15.26, quando Deus declarou: “Se ouvires atento a voz do SENHOR, teu Deus, e fizeres o que é reto diante de seus olhos, e inclinares os teus ouvidos aos seus mandamentos, e guardares todos os seus estatutos, nenhuma das enfermidades porei sobre ti, que pus sobre o Egito; porque eu sou o SENHOR, que te sara” (ARC). Portanto, a promessa de proteção contra determinadas enfermidades estava inserida no contexto específico da aliança de Deus com Israel.
É preciso ter cuidado, no entanto, para não aplicar essas promessas indiscriminadamente à Igreja, como fazem os adeptos da teologia da prosperidade, que utilizam textos de Deuteronômio e de outras partes do Antigo Testamento para sustentar o falso ensino de que o cristão fiel está livre de enfermidades, dificuldades financeiras e sofrimentos. O Novo Testamento não apresenta a prosperidade material nem a saúde perfeita como garantias para todos os cristãos nesta vida.
Essas promessas foram feitas a Israel no contexto da aliança mosaica e não podem ser simplesmente transferidas à Igreja. No Novo Testamento, Deus promete estar conosco, cuidar de nós e suprir nossas necessidades, mas não nos garante uma vida confortável, livre de aflições ou perseguições (Mt 28.20; Fp 4.19; Jo 16.33). Pelo contrário, Jesus advertiu seus discípulos de que enfrentariam oposição, seriam odiados por causa do seu nome e, em alguns casos, sofreriam até a morte por causa da fé (Mt 10.22; Jo 15.18-20). A esperança do cristão, portanto, não está na garantia de prosperidade material ou de uma vida sem sofrimentos, mas na fidelidade de Deus, na presença de Cristo e na promessa da vida eterna.
Ev. WELIANO PIRES

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