quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Todos por uma e todos contra um

A ordem do PT agora é: às favas os escrúpulos!

Sem meias-palavras e nenhum prurido, o presidente Lula baixou ordem unida para que todo o seu ministério se engaje na campanha de Dilma Rousseff. Nada de disfarces ou medo da lei; cada subordinado deve fazer o possível para ajudar a companheira. Vale tudo: dados falsos, manipulações grosseiras e uma tremenda cara-de-pau. É o Estado usado sem pejo em favor de um partido político.

A quebra do sigilo bancário do vice-presidente do PSDB, Eduardo Jorge, em maio foi apenas o aperitivo. Refeições mais suculentas foram servidas nos últimos dias por ministros de Lula, a começar pelo da Fazenda, Guido Mantega.

Numa pouco usual entrevista coletiva, em horário de trabalho e dentro de um prédio público, ele se pôs a apresentar um extemporâneo "documento" com comparações fajutas entre Lula e Fernando Henrique.

Entre outras inverdades, o texto muda para pior a taxa de crescimento econômico na gestão tucana e distorce, a favor do governo, as taxas de superávit primário, como mostrou a Folha de S. Paulo. A falsificação foi tão grosseira que nem os gráficos do papelucho oficial correspondiam ao texto.

O tacão petista exige que crítica feita por José Serra não fique sem resposta. A contestá-lo, chovem notas oficiais divulgadas pelos ministérios. São textos capciosos, que não servem a coisa alguma senão fazer campanha política para a candidata do governo - tanto que, minutos depois, já estão a adornar os sites de propaganda de Dilma.

O mérito das críticas do tucano - todas com base na triste realidade - mantém-se sem respostas: as péssimas condições da maioria das estradas brasileiras, as centenas de milhares de pacientes que aguardam por cirurgias, a redução do apoio federal às Apae.

Por outro lado, caso Dilma fale alguma bobagem, a regra é fingir-se de morto. Quando a petista afirmou que o aumento real do salário mínimo foi de 74% na era Lula e o índice correto é 53,6%, o que o correu? Silêncio ensurdecedor, conforme mostrou O Estado de S. Paulo.

O governo que acabou com os mutirões de saúde implantados por Serra - que, entre outras coisas, salvou milhares de brasileiros da cegueira - agora instaura o mutirão ministério-eleitoral para tentar destruir o candidato.

"Imagine se FHC pusesse Pedro Malan, Pedro Parente e duas dezenas de ministros para fazer a campanha de Serra contra Lula em 2002? Seria um escândalo. É a ética da luta sindical: contra eles, não pode, é escândalo; contra os outros, sempre pode tudo", resumiu, com propriedade, Eliane Cantanhêde na edição da Folha de sexta-feira.

Não bastasse escalar todo o ministério para fazer campanha política, o governo petista acelera a farra da farta distribuição de bens públicos para beneficiários privados. É o que mostra hoje a Folha em sua manchete: a gestão Lula triplicou a concessão de rádios neste ano eleitoral. Foram 183 decretos em 2010, ante 68 no ano passado, a maior parte beneficiando políticos e igrejas.

Na estratégia de poder petista, tudo vai sendo transformado em moeda de troca: das bilionárias obras de energia tocadas com gordos incentivos fiscais ao balcão de benesses aberto pelo BNDES para os apaniguados do rei, passando pelo inchaço da máquina com a companheirada. Mostra O Globo hoje que, nos anos Lula, o total de servidores contratados sem concurso cresceu 40% e os gastos com os salários deles mais que dobrou, para R$ 1,3 bilhão.

Já houve no passado quem se saísse bem em eleições mostrando o rol de obras entregues, realizações, em alguns casos, envoltas em franca suspeição. O PT está inaugurando uma fase nova: apresenta ao distinto público apenas um monte de obras imaginárias, como o trem-bala e a lista de boas intenções do PAC. E tenta, a todo custo, impedir que aflorem fragilidades como o fracasso do Minha Casa Minha Vida junto a famílias com renda de até três salários mínimos, em que se concentra 90% déficit habitacional brasileiro.

Interessa ao debate político que tudo isso venha à tona e seja francamente discutido. Governo existe para governar; campanha quem faz é o candidato e seus militantes. E a decisão cabe ao eleitor, sem subterfúgios, sem que seja ludibriado. Qualquer coisa diferente disso rima com imposição e empulhação, e cheira a ditadura. A todos eles, com ou sem rima, a resposta é um rotundo não.

Fonte: Instituto Teotönio Vilela

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